Arquivo paraRegional Nascente das Veredas

Outros registros – Inveção Brasileira

Outros registros

Durante este ano como griô aprendiz me dediquei também a estudar educadores com a proposta vivencial no ensino formal, como por exemplo o grande mestre Paulo Freire. A baixo registro um texto sobre a Pedagogia do Oprimido que só foi construído e entendido por causa da vivência obtida com a Pedagogia Griô.

Um pouco sobre Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire, 1968

Fabíola Resende

¨Gosto de discutir sobre isto porque vivo assim. Enquanto vivo, porém, não vejo. Agora sim, observo como vivo.¨

(do livro, depoimento de um operário em aula)

¨Pedagogia – paideia: do latim que significa ao mesmo tempo educar e civilizar¨. Ora, ¨Pedagogia do Oprimido¨, educação e civilização do oprimido. Mais que isso Paulo Freire, vem dialogar com seus leitores sobre a educação e a civilização humana, porque mais que educadores e/ou educandos somos humanos. E como humanos somos, somos transformados e transformadores durante toda a nossa existência terrestre. A escola, é, ou deveria ser, um dos veículos incentivadores da transformação consciente e necessária em nossas vidas. Seria por meio dela somado a nossas histórias de vida que nós fortaleceríamos a nossa distinção animal, por sermos seres pensantes e históricos.

A relação oprimido e opressor, bem explícita e desenhada durante toda a leitura nos faz refletir sobre até que ponto temos consciência do tamanho inconsciente dos nossos desejos de nos tornarmos opressores ou dominadores de situações. Ou, como sabemos se a situação de oprimido não é um cômodo ideal e/ou inconsciente? Como podemos nos perceber, nos conscientizar se somos opressores e/ou oprimidos? E até que ponto estes estados nos deixam confortáveis? A educação, ao levar em conta situações históricas do indivíduo poderá ajudar nestas descobertas, a partir do momento em que pudermos também nos desvincularmos, o mínimo possível, da era capitalista devastadora e compulsiva que se faz presente no nosso dia-a-dia . Transformando valores e tradições, tentando, mas não conseguindo, acredito, nos desvincular de nossas raízes e ancestralidades que nos faz seres repletos de sentimentos e puramente humanos. A busca junto a pedagogia do Oprimido é de um equilíbrio, basicamente, onde possamos ser mais do que ter, possamos ser seres desejantes, feitores de nossas próprias histórias e caminhos. É a negação da entrada em um ciclo, onde me torno opressor e faço oprimidos, oprimidos desejantes de se tornarem opressores… A busca inquieta por status que leva ao consumo do ter para ser, ter uma chefia, ter um carro (ou muitos), ter uma casa, ter uma família, ter… Enfim termos o encobrimento ingênuo e inconsciente de que somos aquilo que somos ou desejamos ser. Freire, deixa claro na págian 118; ¨a inserção é um estado maior que a emersão e resulta da concientização da situação. É a própria consciência histórica.¨ Em muitos momentos de nossas vidas nos tornamos seres emersos, a deriva do mundo em que estamos inseridos, parecemos alheios a ele, esquecendo de nossos sentimentos de pertencimento ao nosso mundo, a nossa própria natureza humana. Assim Paulo Freire nos propõe a nossa inserção como um estado maior, como um estado desalienante e ao mesmo tempo desvelador, em que podemos aprender ao aprendermos sobre nós mesmos.

Trilha – Ponto de Cultura Popular e Folclore de Viçosa – Humanizarte

Ponto de Cultura Popular e Folclore de Viçosa – Humanizarte

Ação Griô Nacional

A cada ponto um Ponto

Para podermos falar sobre a ação do Ponto de Cultura Popular e Folclore de Viçosa primeiramente devemos fazer um breve relato do Centro Experimental de Artes da Prefeitura de Viçosa e da Humanizarte ONG.

No tempo em que foi Secretário Municipal de Cultura de Viçosa, o professor, diretor de teatro e produtor cultural, Marcelo Andrade, plantou a semente que germinaria o Ponto de Cultura Popular e Folclore de Viçosa. Isso foi quando ele criou o Centro Experimental de Artes da Prefeitura de Viçosa, no ano de 1993, para integrar, através da cultura, as crianças de escolas públicas e assim resgatar a cultura da cidade através de oficinas de teatro, artes plásticas, música, dança, capoeira, contação de estória, desenho artístico, banda de música e viola.

O modelo pioneiro e de sucesso da iniciativa ocasionou no ano de 2001 o acolhimento do Centro Experimental de Artes pela empresa de telefonia móvel TIM Maxitel. Essa parceria possibilitou a replicabilidade da ação para mais de 11 municípios do estado de Minas Gerais( Araxá, Barbacena,Divinópolis,Lavras, Montes Claros, Ponte Nova, Poços de Caldas, Uberlândia, Uberaba, Ubá e Varginha). Criada em 2002, a Humanizarte ONG atua de forma relevante nos meios acadêmico, artístico e cultural não só na cidade de Viçosa, mas também no estado de Minas Gerais e em outros estados do país.

Atualmente a ONG coordena os Programas TIM ArtEducAção e TIM Estado de Minas Grandes Escritores e o Projeto Reciclarte. O ArtEducAção atende cerca de 10.000 crianças e adolescentes de escolas públicas, em 12 cidades do interior de MG (Araxá, Barbacena, Divinópolis, Lavras, Montes Claros, Poços de Caldas, Ponte Nova, Ubá, Uberaba, Uberlândia, Varginha e Viçosa), 12 cidades da Bahia e 02 de Sergipe, promovendo a inclusão sócio-cultural através de oficinas de arte e causando impacto nas políticas públicas municipais e estaduais. A caravana literária do Grandes Escritores estimula o amor pela leitura e o conhecimento da vida e da obra de grandes nomes da literatura brasileira promovendo um bate-papo descontraído e informal entre o escritor e seu leitor. Além de promover a doação de livros de literatura para rede de bibliotecas públicas e estaduais das cidades que fazem parte do programa. No âmbito da consciência ambiental a ONG coordena o Reciclarte, que leva treinamento a comunidades de baixa renda, e produz objetos e produtos de material reciclado (papel e garrafas pet).

Revolução educacional

No que diz respeito ao Ponto de Cultura Popular de Viçosa, as atividades são embasadas no resgate das tradições culturais e folclóricas de Viçosa. A ação ocorre através de pesquisas registradas em vídeo e áudio para serem veiculadas na Internet por softwares livres e também nas escolas e praças públicas.

Um ponto positivo para o desenvolvimento da iniciativa em Viçosa está na atual administração municipal. O prefeito Raimundo Nonato da “Violeira” é um profundo incentivador da causa, apresentando o encantamento de contador de causos e de andarilho, ações essas que se encaixam perfeitamente nas de um Mestre Griô. Foi ele quem pediu pessoalmente a Marcelo Andrade que investisse todo seu empenho para que a cidade resgatasse a sua cultura. Foi nesse cenário que Marcelo se esforçou e conquistou o Ponto de Cultura Popular e Folclore de Viçosa. Essa aquisição foi ao mesmo tempo uma vitória para a memória da cultura local, como um êxito brilhante da administração do prefeito Raimundo da “Violeira” no campo da cultura e educação. O Ponto de Viçosa apresenta como gestora a Secretária de Cultura, Esporte, Lazer e Patrimônio de Viçosa e coordenadora executiva do Programa TIM ArtEducAção nos 12 municípios de Minas Gerais, Virgínia Lúcia Bittencourt Moura.

“O projeto da Ação Griô em nossa escola é importante porque me faz sentir que quando crescer posso ser melhor por ter observado as visitas deles aqui na escola. Aprendo muito sobre histórias, canções, e como usar o instrumento, principalmente a viola. Essas visitas poderiam acontecer mais vezes porque incentiva o aluno a vir na escola”.

Cleisson Júnior Donato Santos – 4ª série – 9 anos

Os convênios com a Prefeitura de Viçosa – especialmente com a Secretaria de Cultura – e com a Humanizarte ONG, agregam ao Ponto de Cultura de Viçosa uma experiência de mais de quinze anos na administração e execução de ações junto às escolas referentes ao regaste e vivência da cultura popular. Expande as atividades do Centro Experimental de Artes em parceria com o TIM ArtEducAção que nos seus 15 anos atende a mais de 800 alunos das Escolas Municipais nas suas 44 turmas espalhadas em 16 bairros do municipio.

Atualmente como ponto alto das atividades das oficinas é realizado, uma grande mostra artística em plena praça pública para uma platéia de mais de 3000 pessoas. Em 2007 o tema foi “Mudança de Hábitos”. A escolha do tema se deu devido ao grande envolvimento das crianças na busca do resgate das suas raízes contribuindo pela qualidade de vida no planeta.

Inserido nesse ambiente, o Ponto de Cultura Popular e Folclore de Viçosa decidiu modificar a sua proposta inicial de implantação, e assim expandir a Ação Griô para 22 escolas municipais viçosense, atendendo assim cerca de 7000 alunos da rede pública de ensino. Neste momento foi realizada uma sólida parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Viçosa, que apoiando e acreditando na iniciativa, através de seu Secretário Antônio Carlos Miranda, disponibilizou a supervisora escolar Elenice Lopes Pereira, em tempo integral, para ser coordenadora pedagógica da Ação Griô. O Ponto de Cultura de Viçosa, devido a esses laços criados com a Prefeitura Municipal, além de ter o subsídio do fomento do Minc, começou a receber apoio das Secretarias da Prefeitura por meio de transporte, material para auxílio em pesquisas e outros como papel e lápis utilizados nas visitas.

Nas escolas de Viçosa ocorre um fenômeno de sinergia entre a Ação e a direção das escolas participantes, devido ao desenvolvimento de uma metodologia pedagógica que não existia anteriormente. Outro fator que contribui para o desenvolvimento desse grande projeto nas escolas é a identificação e o convite de novos mestres nas comunidades onde a Ação está inserida (já foram identificados o Sr. Salvador Pena; o prefeito da cidade, Raimundo Nonato da “Violeira”; e Dona Chiquinha, com sua contação de estória e o Teatro do Oprimido) além dos dois mestres bolsistas financiados pelo Minc. O resgate de princípios e valores que regem a vida humana tem sido o sustentáculo do planejamento das atividades a serem desenvolvidas em Viçosa. A constante e continua busca da identidade dos alunos através do estudo de sua ancestralidade, da sua integração com a natureza, e do reconhecimento dos Mestres da tradição oral são os fatores que norteiam os passos da sistematização da Pedagogia Griô no município.

Neste primeiro ano, dois eventos foram determinantes para o desenvolvimento e reconhecimento da identidade do Ponto de Viçosa: o Encontro Regional e o Teia. Ambos ajudaram a despertar a sensibilidade nos Griôs Aprendizes que, além de tudo, tem de repassar a serenidade para ouvir e principalmente serem ouvidos, fator esse que é uma das bases da pedagogia. Outro aprendizado foi a prática do caminhar pelas escolas sem muitas formalidades, considerando que cada visita serve para a formação da identidade do personagem do Griô Aprendiz.

Mestres Encantadores

Descendente de escravos alforriados, o Mestre Griô Geraldo Félix, nascido em Peçonhas, Minas Gerais, era o caçula dos homens de uma família de 12 filhos. Crescido e educado numa roça no interior do Rio de Janeiro aprendeu a tocar viola com 10 anos de idade, inspirado por José Dias Nunes e pelos criadores e reis do pagode, Tião Carreiro e Pardinho.

Em 1970 mudou para Viçosa e recebeu o convite para cantar e fazer um programa sertanejo na rádio local Montanhesa. Participou de vários festivais na cidade e na região. “Guardo como relíquias mais de 70 troféus conquistados em festivais”, exalta o mestre olhando para suas conquistas, com um olhar de criança.

No começo da década de 80, Geraldo mudou para São Paulo em busca de maior conhecimento musical estudando música na teoria e na prática. Foi neste momento que ele observou que o seu conhecimento era bastante para o desempenho de uma atividade que servisse de resgate da cultura brasileira do mundo caipira.

No objetivo de repassar esta cultura, o prefeito Raimundo da “Violeira” criou a oficina de Viola no Centro Experimental de Artes e do Programa TIM ArtEducAção convidou Geraldo Carreiro para ser o professor. Hoje a iniciativa conta com aproximadamente 120 crianças e com o apoio do Programa TIM ArtEducAção, da Prefeitura Municipal de Viçosa e da Ação Griô Nacional. Com o sucesso da oficina o, Mestre Geraldo Carreiro incentivado pela Prefeitura Municipal de Viçosa criou o Clube Raízes da Viola entidade considerada de utilidade pública municipal e subvencionado pelo município. O mestre procura conciliar o desdobramento da sua ação entre a propagação do seu conhecimento e a agenda de apresentações que realiza em conjunto com os meninos da viola de Viçosa.

“Todo e qualquer resgate cultural é muito importante de ser trabalhado nas escolas. O Projeto Griô, veio resgatar a cultura dos pais, avós e até mesmo bisavós dos alunos, mostrando como era sua cultura em vários aspectos. Os causos contados despertam o interesse nas crianças, através do seu conteúdo e da maneira que eles são contados. Na maioria das vezes, bons projetos chegam, mas não tem continuidade. Espero que este Projeto Griô esteja sempre presente nas escolas como fator de fundamental importância para alunos, professores e toda comunidade escolar.”

Maria de Lourdes Silva Rodrigues Ventura

Profª. 5º ano da Escola Municipal Dr. José Teotônio Pacheco – Posses – Zona Rural

Para Dona Chiquinha, tudo teve início em 1993. Com a poupança confiscada e tendo que fechar o seu salão de estética, Chiquinha foi convidada pelo Secretário de Cultura de Viçosa, então Marcelo Andrade, para participar da oficina de Contadores de Histórias da Biblioteca do Rio de Janeiro, que estava sendo realizada na Universidade Federal de Viçosa.

A partir daquele momento houve uma revolução na sua vida. Inicialmente ela começou o ofício de contadora no Lar dos Velhinhos, em praças, na universidade e na rádio e TV locais. Depois de vários anos de contação, foi convidada para ministrar oficinas a crianças de todas as escolas públicas de Viçosa através do Centro Experimental de Artes, com apoio da Prefeitura Municipal de Viçosa e da Ação Griô Nacional. O resultado dessa ação pode ser vista no aumento de concentração dos alunos nas aulas e na propagação da oralidade como forma de saber. Decorrente do seu êxito na contação de história, a nossa Dona Chiquinha foi capacitada para ser multiplicadora do Teatro do Oprimido. Em Viçosa o trabalho foi iniciado na Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC). Essa foi a primeira vez no estado que a iniciativa trabalhou com presos. E para surpresa de muito, com sucesso.

Atualmente Dona Chiquinha divide seu tempo entre, segundo ela mesma, “os seus dois passatempos favoritos”.

Eu acho importante para a gente saber com era a vida das pessoas no passado como era a história que eles ouviam como eram os seus costumes. As histórias que eles contam são histórias verdadeiras e que em muitas dessas, eles foram personagens principais. Tem histórias que são muito engraçadas, também revivem lendas interessantes e mostram o seus costumes. Essas histórias fazem nós alunos ficarmos interessados em aprender mais com eles e também despertar vontade de ler, tocar violão e contar causos.

Renato da Silva Bento 5º ano

Trilha – Manguerê

AÇÃO GRIÔ NACIONAL

TRILHA PARA SISTEMATIZAÇÃO

Primeiro Ano – 2007/2008

2. A criação do lugar do ponto na ação e sua ação político-pedagógica relacionada à tradição oral.

O Ponto de Cultura Manguerê/ES é produto do Centro Cultural Caieras, uma OSCIP que atua em um bairro de periferia da cidade de Vitória, tendo com missão oferecer alternativas às situações de risco que envolvem os jovens desta comunidade. Para tanto, promove o incremento e difusão da cultura local, com trabalho de sensibilização às artes e formação técnica através dos núcleos de: percussão –com ritmos regionais brasileiros e instrumentos alternativos; núcleo de artes cênicas – teatro e montagem de espetáculos e o núcleo de memória audiovisual , com oficinas de produção de texto, fotografia e vídeo.

O Ponto de Cultura Manguerê, embora esteja numa cidade vizinha (Vitória) foi a porta de entrada para a institucionalização da Ação Griô na Escola Serrana no município da Serra. Sua relação com os mestres é de enraizamento, uma vez que um dos coordenadores e idealizadores do ponto, o Sr Fábio Carvalho , buscou sua inspiração na convivência e conversas com mestres do congo serrano, em especial, o Mestre Antonio Rosa que sempre salientava “os velhos estão morrendo e nos novos não querem participar da brincadeira” dizia o mestre. Assim foi estabelecida uma ponte entre a Ação Griô, Manguerê e a Associação de Bandas de Congo da Serra, presidida por Terezinha Pimentel, filha e herdeira cultural do mestre Antonio Rosa. A ABC/Serra já mantinha um vínculo com a escola com o projeto de bandas mirins em escolas, assim, a Ação Griô expandiu este vínculo possibilitando a inserção de contos populares, música e outras manifestações na vida escolar de alunos das séries iniciais.

A ABC/Serra é uma instituição forte e presente no cenário cultural capixaba e serrano. Bem estruturada, desempenha um importante papel de revitalização das bandas, proporcionando , autonomia e força como entidade representativa e congregando em irmandades as bandas de congo que hoje tem reconhecimento e respeito em nível nacional. Este fato culminou em mudanças dos papéis estabelecidos junto a Ação Griô, uma vez que a ABC/Serra foi absorvendo o papel do ponto de cultura e tomando para si o papel de coordenadora da ação, na pessoa de Terezinha que, para atender a demanda da ação incluiu como griô aprendiz Suziê, que assumiu junto aos mestres as funções antes executadas por Terezinha. Estas novas costuras são inerentes a todo processo em construção e vem sendo realizadas de forma muito espontânea.

A relação entre a ABC/Serra, escola, grio aprendiz e mestre é de total harmonia e integração, uma vez que suas relações datam de outros tempos e outras atividades são realizadas em parceria. Sua identificação com a proposta da ação é como uma simbiose. Está nas entranhas da entidade o encantamento pela cultura popular, ela é a razão de ser de sua existência. Sua constituição se deu exatamente para não deixar morre a tradição oral. Todas as ações, parcerias e realizações convergem para valorizar a produção popular e os mestres portadores desta produção e vem de encontro ao pensamento instituído de que é necessário buscar meios de levar este conhecimento a instituição escola, para que a cultura consiga institucionalizar seu espaço com laços fortes e significtivos.

1.. A criação do ser do lugar do griô aprendiz e de sua ação político-pedagógico relacionado à tradição oral

Inicianos nossas atividades com a griô aprendiz Terezinha, filha de mestres, cresceu sob o berço da cultura popular, entre os sons de tambores e o repicar das casacas. De dançarina de banda de congo, caminhou até assumir a presidência da ABC/Serra, instituição fundada pelo velho mestre Antonio Rosa no intuito de congregar todas as bandas de congo do município, fortalecendo-as. Terezinha foi eleita por unanimidade pelos mestres congueiros para dirigir a associação, o que vem fazendo a ….anos com muito louvor. Foi aluna da Escola Serrana, sendo integrante da 1ª tentativa de levar o congo para dentro da escola em 1980. Esta primeira tentativa durou pouco e, hoje, da convivência na comunidade com professores e alunos da escola nova aproximação foi feita entre o congo e a escola. Cientes da necessidade do resgate da ancestralidade, identidade e od orgulho de ser portador de um conhecimento tão precioso e, atrelado a necessidade de não deixar a cultura popular ser sufocada e perder-se no tempo, em 1994 foi retomado o projeto e instituída a Banda de Congo Mirim, que tinha como mestre o Sr José Carlos Miranda. A proposta da ação griô veio ao encontro da caminhada que fazíamos, e, com a parceria ampliamos a atuação do congo mirim com a participação do mestre Sezóstenes e começamos a desenvolver com turmas de 1ª a 5ª séries oficinas de cantos & contos, onde o mestre Theodorico encanta os alunos com seus causos contados e cantados. Com as atividades na escola, muitos filhos e netos de mestres redescobriram o valor de sua arte no espaço escolar, passando eles mesmos a se valorizarem mais, bem como à sua família.

Na continuidade da caminhada, para superação dos contratempos , tivemos que buscar mais um colaborador para a ação. Assim, a griô aprendiz Suziê passou a compor o grupo, o que veio agregar grande valor a ação, uma vez que sua intermediação junto as atividades desenvolvidas pelo mestre Theodorico potencializou o diálogo junto ao currículo escolar e deu novo gás aos professores e ao próprio mestre.

As atividades estão inseridas no cotidiano escolar e como estudar a história local, as histórias de vida da comunidade e toda sua cultura já era um elemento constitutivo do currículo escolar, fazer isso através de instrumentos vivos , portadores da cultura deu mais vida e significado ao cotidiano das aulas. Ganhou a escola, em sua dinâmica de trabalho, ganharam os alunos na vivências experimentadas e ganharam os mestres e griôs que redescobriram seu valor na comunidade, sendo resgatado para alguns um espaço que já não existia mais e com isso o respeito por si e por seu conhecimento.

As atividades desenvolvidas culminaram em ações de grande valor, como as apresentações feitas pelas crianças por todo o município, levando o nome do congo e da escola, também destacamos a participação do grupo no Encontro de Bandas de Congo da cidade, um cortejo que desfilou pelas ruas seguido de uma multidão. Eles também participaram da gravação de uma faixa no CD mirim Canto da Alma Vol II, com as demais bandas mirins do município. No encerramento do ano letivo foi realizado um teatro sobre as histórias ouvidas e cantadas que contou com a participação de toda comunidade escolar. Estas ações marcaram a história de vida dessas crianças, que hoje, com certeza reservam um espaço em cada coraçãozinho para a cultura popular.

2. O sentimento de um dever cumprido e de realização se exala no ar, dada a simbiose existente entre os envolvidos no processo e a cultura popular, percebemos que ela se apresenta como uma forma de humanização das pessoas nesse mundo apressado e individualista onde nós coexistimos.

3. A criação da rede de transmissão oral na política de educação e da cultura local, regional e nacional

A escola pública hoje tem problemas em relação a ela mesma e sua razão de ser. Assim, as dificuldades vivenciadas não dizem respeito a ação si, pois qualquer que fosse a proposta a ser desenvolvida na escola esbarraria nas dificuldades intra-escola que já existem.

A ação na escola teve início com as atividades da banda de Congo Mirim, os alunos participavam de oficinas ouvindo histórias sobre a fundação da cidade, a vida dos escravos e os costumes e hábitos dessa gente. Paralelamente aprenderam sobre os instrumentos, sua história, confecção e sonoridade aprendendo a tocá-los. Mais tarde foi inserida junto às aula as atividades de cantorias e contação de histórias. No início a inserção de um elemento novo foi um pouco difícil, tendo em vista que nossa escola era muito grande e com muitos professores – com diferentes pensamentos e interesses. Com o desenrolar da ação, a identificação das crianças foi visível, elas esperavam ansiosamente as visitas recebidas. A partir daí os professores foram sendo conquistados aos poucos, aqueles que ainda resistiam – os mais difíceis foram os professores que queriam usar este momento para ‘descansar’ de seus alunos, ausentando-se da sala de aula. Outra situação vivenciada foi em relação à diversidade religiosa que compõem a escola. Acreditamos ter havido muitos conflitos nas famílias em relação a este aspecto, pois temos crianças de dissidências religiosas muito fechadas, mas as crianças resistiram a todos apelos nas famílias e continuam as atividades no congo, os próprios pais acompanham os filhos nas apresentações. Nas atividades de contação de histórias, alguns pais questionaram sobre as histórias de assombração e outras, mas nestes casos trabalhamos com eles a fantasia e a mitologia, após muitas conversas… mais conversas, finalmente chegamos a um consenso. Todas essas situações foram superadas.

4. O encantamento da identidade, ancestralidade e alteridade dos estudantes e de todos os participantes da Ação

História de vida do mestre

Theodorico Boa Mort, Poeta

Nascido no município de Aracruz

em 28/06/1950 …

Sangue de índio

Filho de pais operários,

Que plantavam a terra, e

Tiravam dela o alimento…

Adquiriu do pai todo amor

Vivência de luz

De amor e inteligência que com a

Energia da natureza tinha a

Sabedoria de criar e encantar com seus aprendizados!

No sangue do poeta

corre a alma do guardião da cultura

História de vida de estudante

Jéssica é uma aluna negra, de lindo olhos negros e atentos e muito alta para sua idade. Ela é neta de congueiros e tem verdadeira paixão pelo congo. Passou a fazer parte do congo mirim logo que este iniciou na escola, em 2004, na época Jéssica tinha 9 anos e estava na 4ª série, caminhando para reprovação. Sempre foi visita constante na coordenação de turno por questões disciplinares, vez ou outra agredia colegas verbalmente e fisicamente ou afrontava os professores com palavras ásperas e malcriadas. Quando estava com a pedagoga ou uma das coordenadoras, se percebia nela uma doçura latente que ela tentava arduamente esconder. Quando começávamos os ensaios do congo ela ficava de longe olhando e balançando as perninhas, sempre era convidada a entrar na roda, mas resistia. As meninas que já estavam dançando eram bem menores que ela e foi usando este artifício que a pedagoga e o mestre a convenceram a participar, foi confeccionado um lindo estandarte e dito a ela que era preciso uma moça esperta e alta para conseguir segurar e manejar o estandarte. Este foi a primeira de muitas apresentações. Ao iniciar as danças no congo, muitos meninos ainda implicavam com ela,pois sabiam seus pontos fracos. Ela tinha vergonha de ser negra, alta demais para sua idade, e ser dançarina, embora adorasse a idéia e se ressentia por gostar do congo. Nas aulas teóricas dadas pelo mestre, descobriu a importância das rainhas, princesas e porta-estandarte do congo, redescobrindo suas funções e se redescobrindo no uso das vestimentas para as apresentações , a linda menina que era. A participação em diversas apresentações do congo mirim onde os alunos eram aplaudidos de pé e sempre olhados com admiração e elogiados pessoalmente pelas pessoas, Jéssica foi gradativamente descobrindo seu valor, se olhando , se gostando… Começou até a ‘tirar onda’ na escola com as demais crianças. Em seu primeiro ano no congo, ainda ficou reprovada, porém nos anos seguintes, suas visitas à coordenação praticamente não existem mais, embora não leve desaforo para casa, não é mais aquela menina agressiva que todos evitavam, está bem sociável e principalmente encantada consigo mesma e orgulhosa de ser congueira.

Ação Griô, quando a arte canta e encanta

Quando a arte canta a história vão buscando as novidades

Quando através de um tema,

De um canto, de um poema,

A arte interpreta a vida,

Em uma sociedade.

É quando retrata os momentos,

Buscando a educação,

Não se resumindo em fatos.

Trazendo conhecimento,

Diversificando fontes

De um teor acumulado

No meio das gerações.

Ação griô um alerta

Da cultura popular,

Troca de conhecimento,

Veio para transformar…

As ações e gestos humanos

De um sonho que vive.

Tenta colocar em prática,

Um princípio acumulado

Que ainda não morreu.

Germina cultura viva,

Ascendendo este país.

Mostrando que mantém vivo

Aquilo que foi raiz.

Theodorico

A todos mandaram avisar que

a aÇão iria começar

ÃH!!! Quanta expectativa!

Os alunos se puseram a esperar.

Guardiãe da cultura

entRe nós começaram a circular

seu valIoso conhecimento

conOsco, se colocaram a partilhar.

No repique das casacas e tambores

nA estórias cantadas de coração,

Estavam presentes histórias de vida

Singelas, de toda uma geração.

a marCa de cada vivência

ficou nO coração,

ação griô na escoLa,

nossAs raízes vividas com emoção!

Thilha – Congonhas- Casa da Juventude

AÇÃO GRIÔ NACIONAL

TRILHA PARA SISTEMATIZAÇÃO

Primeiro Ano – 2007/2008

1. A criação do ser e do lugar do griô aprendiz e de sua ação político-pedagógica relacionada à tradição oral

-O Griô aprendiz possui todas as características de um mestre e sua relação com os Griôs é excelente. Ele possui um forte vínculo com a sua ancestralidade e expressa muito bem através de sua participação nas atividades da cultura do congado participando ativamente de uma grupo como congadeiro, realizando oficinas de tambores e contribuindo com a realização de festival de Congado e Folia.

2. A criação do lugar do ponto na ação e sua ação políticopedagógica relacionada à tradição oral

Do alto da ladeira, dentro do grande monumento cultural Romaria localiza a sede de nosso Ponto de Cultura Casa da Juventude. Lugar que em todo momento vivência cultura nos: Festival de Cultura, Festival da Quitanda, Festival do Congado, … Tudo, tudo conspirou para que o ponto obtivesse mais um grande projeto que foi o Ação Griô.

3. A criação da rede de transmissão oral na política de educação e da cultura local, regional e nacional

Ei, lá vai dona Fiinha, contadora de prosa e versos, faceira e leve com sua roupagem de moiça meio que desconfiada e arteira vestida de branco chega às crianças com jeitinho manso e atrevido dizendo “que oseis não pode fazer coisa errada, tem que obedecer sua professora e não pode de maneira nenhuma falar nome feio¨. A meninada acha tudo muito engraçado e fica todo mundo calado. Então dona Fiinha começa a contar como era a vida naquela comunidade e como ela mesma viveu sua vida de criança e diz ¨nossas brincadeiras erma muito inocentes, brincávamos de pique, de boneca de milho, brincávamos em roda e ai cantávamos e dançávamos, batendo o pé na poeira e fazendo rodopio com o corpo moleque mas dono de uma infância sofrida pois não tinha quase nada mas tinha a alegria dos mais velhos que contavam histórias de assombração e de nossos guerreiros negros¨… e assim dona Fiinha viaja nos olhinhos das crianças criando um mundo de figuras e canções e a criançada sorrir imaginando que em sua própria comunidade tem alegria, tem festa, tem raiz e tem gente boa, gente nossa, gente que gosta de nós… A professora brinca ¨dona finnha, como foi seu casamento ? como foi o namoro e a escola?” Dona Fiinnha retruca ¨ih nem te conto a gente não tinha escola, aprendia em casa com as histórias de nossos antepassados, num sabíamos ler nem escrever mas aprendíamos a contar casos como ninguém… Dona Fiinha lembra sua avó e para… convida a todos para rezar, começa rezando uma ave maria dai a pouco vem a cantoria triste que dá dó mas ela bate palma e dai mais um pouco, dá um pulinho e passa para outra musica e ai é uma alegria só, pois neste instante começa a contar como foi que aconteceu seu casamento a criançada da risadas .. e assim dona Fiinha consegue encantar toda a meninada que silencia para lhe escutar ao mesmo tempo saltam risinhos de devaneios deixando bem firme que aquele saber pertence a ela e a comunidade e os educadores tem a nítida certeza de que muita história ainda vai rolar e que dona Fiinha tem cadeira cativa no seio da escola… Dona fininha pede pra sentar a professora se dirige a ela e pergunta se ela deseja voltar a escola para contar mais caso. Ela responde rápido “claro quando oseis quiserem. Esses meninos são meus netinhos e precisam saber como era esse povo todo daqui e as histórias que eles contavam. A seguir dona fininha pede para ir embora e sai cantando e dizendo em bom tom “meninos não façam bagunça…”

Eu já vou imbora, já vou sim

Levo no coração

O sorriso de oseis

E o carinho da escola

Volto qualdo quiser

Pois quero contar

Minha história e

A história de vocês…

Batendo palmas a porta se fecha

4. O encantamento da identidade, ancestralidade e alteridade dos estudantes e de todos os participantes da Ação

Os professores contam alegres e entusiasmados com os olhinhos encantados:

Ô meu pai, meu pai, QUE COISA, HIII PARECE QUE TÔ VIVENDO DE NOVO. Já vivi isto e já vi isto na minha rua e na minha casa. Meus avos sentados em bancos com uma chapa de brasa no meio do chão e só contavam histórias de assombração, dava arrepios mas a gente não arredava o pé. A cantoria, o chiado da boca. A virada do corpo e o clamor da alegria que soltava do corpo e do coração. E não são diferentes dos alunos que de boquiaberta encantam com as histórias e pedem mais e mais. Fazem perguntas e sugerem outras histórias quando lembram nomes de avós, vizinhos…

Dona Fininha, negra, miudinha, mas forte e fortalecida em seus 83 anos, vive em Congonhas com suas 8 filhas e filhos, 25 netos e 14 bisnetos. Sempre foi uma cozinheira de mão cheia, que adora brincar com as panelas, conversando e contando causos dos mais variados, fazendo toda a cozinha tremer de tanto rir. Sempre viveu na comunidade do Campinho, um bairro com descendentes afros carregados de uma cultura de santos, orações, rezas no terreiro, danças em grande festas no caminho de chão batido, que levantava poeira ao som dos tambores e Dona Fiinha não se cansa de falar, “ gosto daqui, sou muito feliz aqui , toda minha alegria e tristeza passei aqui e aqui, quero morrer.”…

5. Outros registros

Turma da EJA, Centro Psiquiátrico, o encantamento de Dona Fininha e Senhor Sebastião que no barulho das palmas, nas flores dos arranjos campestres, no café com broa, despertam o lugar para uma alegria firme e diferente. São os mestre que chegam fazendo festas, lançando no ambiente uma emoção que leva todos os alunos presentes a fazer uma volta no passado e reviver emoções do tempo de crianças, do tempo dos avós. O tambor toca, dona Fiinha puxa uma música e todos cantam e dançam. Assim que terminam pede outra e a seguir sugerem um caso e mais outro e mais outro… assim roda se anima, o tempo passa e o momento torne-se ímpar para todos. É só olhar e vê todos os olhinhos cheios de brilho de uma gota que teima em cair de emoção.

Sonhei que estava acordado! – Projeto Presente

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Sonhei que estava acordado!

Eu tive um sonho: certo dia, eu estava em um programa discutindo educaçâo para o futuro do Brasil e o meu personagem, naquele momento, chamava-se “Zéfidelisperericopererecamichiricadaroseirapontequarabeiraalta”.
O “Zé” chegava com seu palitó de terno bem passado e limpo, e seu traje era muito colorido e divertido. Quando ele adrentava nas escolas para promover sua educaçâo, não havia um olhinho de criança que nâo se encantava com o “Zé”; e ele, com o seu vozeirão estupendo, cantarolava canções para admirar todos.
Os meninos, por sua vez, queriam conferir se o “Zé” era gente ou brinquedo de levar para casa e perguntavam para ele: – Qual o seu nome, você é gente?
E o Zé bem humorado dizia: - Fiquem caladinhos que vou falar o meu nome para todos guardarem, vou dizer bem devagarzinho…
E o personagem, naquele momento, disparava sua metralhadora de letras dizendo seu nome muito rápido, e não tinha uma criança que não sorria, tentando repetir sem entender a palavra, que era o nome do
“Zé fidelisperericopererecamichiricadaroseiraponteguarabeiraalta”.
Zé fidelis, no entanto, prosseguia repetindo e sorrindo o seu nome…
e, em um instante, o nosso Zé disse aos meninos: – Agora vou falar meu nome bem rápido para todos guardarem…
O Zé dizia lentamente seu nome (tudo era explicadinho tim, tim, por tim, tim). Sempre após a abertura do programa, todos os meninos encontrava-se querendo abraçar o Zé, e a conquista de alunos e professores era geral, tudo tornava-se muito fácil de se conduzir…Zé levava os alunos para o pátio da escola e perguntava para os meninos se eles escutavam história de seus pais ou avós… e, sempre, principalmente as meninas, contavam fatos belos de seus antepassados e o Zé teria que manter firme com o personagem - era muita emoção ver aquelas figurinhas animadinhas estudando com atenção o que ele falava, e quando alguma criança perguntava algo para o Zé e o menino dizia seu nome por completo, era hilário. Lembro-me hoje acordado, as cantigas que troquei com os meninos – eram músicas do nosso Mestre Juquinha aqui da Serra do Cipó; as canções todos decoravam em um instante…
Lembro ainda que várias vezes o Zéfidelis, encantou as crianças dançando e cantando o “Batuque” do seu Juquinha, as professoras todas dançavam também;
a roda do batuque estava ficando enorme… e os meninos pediam para o “Zéfidelis” cantar a música do
peixinho que subia a cachueira, que é assim “hó”!

“Lambari tá pelejando prasubir na cachueira
pra subir na cachueira
Eu também tô pelejando pra rumá moça solteira
prarumá moça solteira…”

E o Zéfideliz, após horas de encantamento, dançando batuque com as crianças já conquistadas por ele, convidava todos para uma nova roda do saber. E, no momento da despedida, como é de costume em nossa região, todos meditavam, de mãos dadas, agradecendo a Deus por mais um encontro bom, repleto de entendimento para com o próximo…
Sempre encerrava-se com muita emoção, e abraços apertados era comum de se ver em nossa roda.
Zé abraçava um por um e ía desfazendo-se, devagarzinho, de seu traje de Griô Aprendiz. Ali mesmo, em frente às crianças, ele entrava em sua nave de ilusão, sonhando com um Brasil mais digno, sem corrupção e repleto de O.N.G´s e projetos sociais -  um Brasil que, agora, implementa a Ação Griô, que é para o Zé, o futuro da educação em nossa nação!
Um vento soprara neste instante a cortina do quarto… ouvi ainda um Bem – te -vi cantando e anunciando que o novo dia começara - era o começo da primavera!
Fui até o computador responder os questionários propostos por Lilíam e Márcio, dois amigos super, super!

Uma ação, ao pé do fogão – Projeto Presente

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Casa de Dona Piedade- 08/08/007.

Uma ação, ao pé do fogão.

O aprendizado começou à afunilar, D. Piedade, orientou-me, numa conversa ao pé do fogão, sobre seus aprendizados, com as ervas medicinais, disse-me, acreditar que tudo que aprendeu sobre “ervas”, veio de sua tia, uma senhora vidente que lhe pediu em primeiro lugar, que (nunca) deixasse de conversar com as plantas, só assim elas (as ervas) dariam o favor da cura ao próximo.

Disse- me também naquela tarde, que não gostava dos Anús Preto que sobrevoavam sua casa, afirmando-me, que quando Anu-Preto sobrevoa seu terreiro, era sinal de notícia ruim, e na mesma tarde por menos de duas horas passadas, sua filha, a “Ana Paula”, dentrou-se em sua cozinha dizendo que o vizinho, uma criança de 10 aninhos teria caído da carroça do cavalo, e teria quebrado a cabeça na parte frontal. Curar câncer com argila, afirma D. Piedade, que é só se entender com o barro, e se possível, o barro que vem do fundo da terra trazido pelas formigas. – Neste mesmo dia pedi a ela com devoção , que preparasse um chá que devorasse minha bronquite. E dona Pi, com muita piedade de mim, disse para eu ter calma, que em setembro o Cipó de São João florescera novamente, e me trará a cura.

Feira da palavra – Projeto Presente

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Feira da Palavra

Pra´quem sabe ler um pingo é letra,

25/08/07. Casa do SR. Juquinha, Lapinha da Serra, Serra do Cipó M/G.

Estávamos em bar tomando um suco de frutas, preparando para seguir viagem quando seu Juquinha, nos disse que gostaria que houvesse um encontro em sua casa similar ao que aconteceu na residência de Dona Piedade, no primeiro semestre, em meios de muitas brincadeiras disse a ele que não faria nem um encontro em seu terreiro, Juquinha por sua vez, fechou a cara para mim e o Vinicius, logicamente meio sem graça e ao mesmo tempo feliz… Abracei o Sr. Juquinha, pedi desculpas pela brincadeira que (jamais pensei em ser de mal gosto) e depois com muitas risadas, combinamos a data da Feira da Palavra , lembro-me bem naquele fim de tarde inicio de noite de um domingo de junho, seu Juquinha emocionado gritou de longe:- “hô Fernando, vê se o ce marca a data da Fêra da Palavra lá pru fim de Julho!”, com o carro saindo, respondi a ele:-Poço marcar para o dia vinte e cinco?-Pode é um ótimo dia, falou o seu Juquinha com um belo sorriso escancarado de norte a sul, felicíssimo e sentindo muito forte a presença de Deus naquele momento e ainda sentindo muito de perto o que era a verdadeira Luz divina do Mestre e do Griô para o Griô Aprendiz que sou eu este Fernando que lhes escreve e que gritou despedindo (agora de vez) do seu Juquinha, -será no dia vinte e cinco de Julho, o dia do meu aniversário! –Serio, se eu escrever aqui que vi luzes, irão todos os leitores achar que fiquei louco, mas afirmo: vi sim luzes, alias belas luzes

DIA 25 DE JULHO, ( o dia fora do tempo ).

A viagem foi maior que o tempo, o mês passou e lá estava eu novamente na Casa de seu Juquinha, não conseguimos montar de vez a Feira da Palavra, mas a festa foi ótima, estava com a Pollianna, minha parceira de todas as horas, encontramos vários amigos e fizemos um feriado com muitas miraçôes, marcamos para o fim de agosto, agora com melhor entendimento para todos, Pollianna, D. Lina, esposa do Sr. Juquinha, e eu, anotamos em um papel, o nome de todas as arvores e plantas que havia em seu quintal, anotamos também, outros nomes de objetos que habitava aquele terreiro, passado alguns dias,( e já encontrava-mos em agosto ante véspera de nossa festa/ação) voltamos a Lapinha da Serra, com a programação pronta, em papel, logicamente introduzo o leitor a um passeio por estes últimos dias, e já adianto – tivemos problemas sérios nas últimas semanas na “lapinha da Serra”, ( é uma peninha ter que citar estes fatos lamentáveis em um livro didático) um estúpido indivíduo tentou assassinar o outro , pronto, fim, falamos. A comunicação com o seu Juquinha para a organização do encontro foi via fone comunitário, e a comunidade da Lapinha encontrava-se a pavorosa devido o fato citado, nisto desmarcamos o evento duas vezes, e acertamos para vinte e cinco de agosto, confirmamos a ida de D. Mercês nossa outra Mestre querida para comparecer na nossa Ação Griô, com muita alegria ela levantou a mão para o Céu pediu graças a Nossa Senhora do Rusario, e confirmou a sua presença, D.Piedade, nossa outra Mestres que nos orienta sobre ervas medicinais, quase explodiu de alegria quando eu e Vinicius confirmamos a data, “já tô lá!” disse ela a nós.D. Divina (que o nome já diz tudo) não pôde comparecer, dizendo que seu machucadinho nos pés ainda não havia melhorado.

-Convidei Daniel Porto, um grande amigo e profissional na área de Vídeo para nos ajudar na organização e filmagens, tudo muito acertado com a O.N.G. Rede Catitu, que é parceira do Projeto Presente, a O.N.G. proponente da Ação Griô, seguimos de Belo Horizonte para a Serra do Cipó (M/G.) no dia 23 de agosto as 07:00 hs. De uma manhã ensolarada, em companhia do Vinicíus que é um moço sério, Presidente do Projeto Presente, seu carro Toyota, Daniel Porto com sua Câmara de Vídeo e eu com a minha cabeça em cima do pescoço, seguimos primeiro para o Município de Jaboticatubas M.G. onde encontramos a nossa querida agente cultural, Paula Oliveira que nos brindou na escola Municipal Cândida de Lima na mesma cidade de Jaboticatubas M/G , juntamente estava dona Divina que ali estava para uma palestra de nossa programação de calendário da nossa Pedagogia Griô que foi batizada de Amamentação, a qual simbolizava o “ encantar com suas Histórias de vida”encantado os alunos coordenados pela a Professora ,D. … da 4º série do ensino fundamental. Eu como entre mediador, soprava aos alunos de D. …, um pouco da sapiência de Dona Divina, uma lembrança boa e especial que guardo deste encontro, foi um hino que recebi dos Céus, e o título que escolhi, foi:- O Divino e a Fé, vejam!

O Divino e a Fé.

A dona Divina,

Ela é Divina

*Majestosa, sapiente,

Reza a oração, faz a comunhão,

*Em seu terreiro Matição

Todo São João, ergue o Bastão,

*Tem fogueira no Matição

Atravessar aquela brasa,

*Tem que Mirar, pedir Perdão.

Faz o festejo da consagração

(Convidamos a cantar duas vezes onde tiver este símbolo, (*) na frente da canção).

Bem, voltando ao encontro com dona Divina na escola, digo a todos (as) foi um encanto!

As crianças estavam comportadíssimas, pareciam que todos nos estávamos flutuando naquela sala de aula, as perguntas das crianças foram ótimas, desde; – o que é sapé, até como era cidade nos bons tempos de infância de dona Divina, perguntaram também se ela ia a escola descalço, e a rizaiada foi geral, e o restante da História vocês vão ver no Vídeo que o Daniel Porto produziu junto com a Rede Catitu Cultural.

Dia 23 de agosto

Depois de ter passado na casa de dona Mercês e ganhado um abraço daqueles apertado d´ela pedi ao Vinícius que rumasse para o distrito de Cardeal Mota, via a estrada velha para que nós apanhássemos limões, para nossa limonada no dia seguinte, e ao bater palmas na primeira moradia que arregalava nossos olhos envolvidos de tantos frutos de nosso interesse, veio outra surpresa boa, o proprietário da fazenda era, e é mais um Mestre de nossa Cultura popular brasileira o Sr. Jó, que nos presenteou com os limões, e afirmando que também iria nos dar a graça de comparecer em nossa Feira da Palavra, como foi e tocou belas musicas. Depois da boa conversa ali como senhor Jô, continuamos nossa jornada, estrada a fora, e dez minutinhos já estávamos tomando um café mineiro, coado com amor pelo marido “Zezé” de dona Piedade, conversa vai, conversa vem, combinamos tudo tim-tim por tim-tim sobre nossa “Feira” com dona Piedade e seguimos para a casa do Vinicius em busca de um jantar e pensamento, ligado na Feira da Palavra, que estava por pouco para dar certo. Vinícius ficou a favor de levar de carro no outro dia os nossos Mestres, eu e Daniel Porto, seguiríamos no raiar do sol para a Lapinha da Serra, e estávamos a 45 km. De distancia da casa de seu Juquinha. Então após aquele jantar, o qual eu preparei, miramos em umas orações de agradecimentos e firmamento para o outro dia , começamos ali a confeccionar as palavras pré anotadas pela a Pollianna, e ditadas pela dona Lina , ainda naquela noite pós o jantar, escolhi o slogam, que foi proposto por nosso Daniel , que ficou, até então:- Feira da Palavra, Encontro do saber, pra´dar e vender”. Vinícius o craque multimídia de nossa História , pôs-se a confeccionar em suas cartolinas letras maravilhosas, bem no estilo Hai tech, Daniel o do porto, mas que vive nas montanhas porque tem as manhas, confeccionou belas palavras coloridas e abusadas, algumas com desenhos, outras com letras conjugadas, e assim com os meus poemas , colorindo aquela noite e as cartolinas azuis, passamos a mais bela noite literária de nossas vidas.- Para deixar o leitor curioso retratarei um dos poemas que recebi naquela noite, véspera da nossa Feira. Na cartolina desenhei, samambaias e escrevi obviamente a palavra Samambaia, e atrás do cartão, veio este Poema:- “Sou eu que enfeito sua varanda, e recebo teus amigos”, num é legal?- As demais frases vocês verão em nosso vídeo.

Dia 24 de agosto

Agora é relaxar e aproveitar

De coração a sabedoria.

Eu vim aqui me apresentar

Me reconhecer neste lugar

Simples pessoas, ricas sabedorias

De encantamento, infinito saber.

Com esta cantiga descíamos e subíamos montanhas, eu, Daniel e a “Kombi, de codinome:- Marileide pé na roça” do Projeto Presente que delicadamente apelidamos de (roceira, pois ela só gostava de rodar na estrada de terra) e fomos cantarolando em busca de entender o que seria nossa Feira da Palavra. –Alegrissimos, chegamos cedo na casa do Mestre Juquinha, sua família encontrava-se preocupada com nossa Feira que estava por poucas horas à começar. Depois de um bom papo, pedimos licença aos donos da casa e começamos a varredura no terreiro de seu Juquinha, e o movimento foi geral as crianças ficaram, na incumbência de convidar outras crianças para participarem da festa, embora o nosso agente jovem o “Wilmar” já havia convidado os moradores local, depois da limpeza do terreiro, escrevemos a lista de mantimentos proposta por dona Lina, e fomos até a uma mercearia situada na Lapinha e fizemos as compras de alimentos que serviríamos no dia seguinte na festa da Feira da Palavra, tudo muito organizado, aplicamos $153,00 (Cento e cinqüenta e três reais) em mantimentos que serviram o nosso cardápio, caldo de feijão com carne cosida, caldo de mandioca com lingüiça, pipocas, frutas e doces da roça também abrilhantaram nossa festança. Logo que dona Lina começou a preparar a comilança, partiu eu e Daniel, em busca de convidar outras pessoas que considerávamos importante comparecer em nossa festa, tudo solucionado, fomos dormir e sonhar com o encantamento que estava por vir no outro dia…

Dia 25 de Agosto:

-Ainda não era sete da manhã quando Rafael e Gilmara (netos de seu Juquinha e de dona Lina) havia nos acordado para tomar café e começar a arrumação do terreiro, meio sonolento e feliz, acorda eu e Daniel amassados da dormida na barraca, e partimos para a organização final antes da festa. Decidimos que a frase “ Feira da Palavra” ficaria afixada na cerca de arame farpado na entrada do terreiro onde seria o encontro festivo, os transeuntes perguntavam a todo momento o significado daquela peleja, e as respostas pedimos as crianças que respondiam por todos, dona Lina pediu que comprássemos mais balões para enfeitar o varal de secar roupas, as mais de dez crianças que já se encontrava por ali, colocamos a disposição dezenas de lápis de cera para que todas pudessem desenhar, e escrever frases de boas práticas para colorir ainda mais aquele terreiro. Wilmar, o agente Cultural que atua na comunidade da Lapinha da Serra, trouxe e afixou com um barbante todo trabalho pré confeccionado pelos alunos que participam de nossa Pedagogia Griô, as redações que foram casos extraídos anteriormente com a passagem do Mestre Juquinha na escola deu um brilhantismo grande em nossa Feira, e assim fomos pregando as frases e palavras pré confeccionadas em seus devidos lugares, onde tinha uma bananeira afixávamos a palavra bananeira, e assim sucessivamente colamos todas as frases em seus devidos lugares, só uma exceção, na arvore do café, colocamos (propositalmente) a palavra “Dama da noite”para brincar na ora da Feira, com o propósito de fazer valer à adivinhação, que foi um sucesso e corre-corre, o homem que adivinhasse a troca proposital, ganharia um abraço apertado de dona Lina, e se fosse uma mulher que acertasse o combinado ganharia um abraço do Sr. Juquinha, com muitos sorrisos, chegamos as 13:00hs, e os convidados já se estavam chegando para a Festa. Foi muito forte ver os convidados chegarem, parecia que toda a comunidade iria participar da nossa Ação, ver aquelas vovós e vovôs descendo a rua de seu Juquinha e adentrando em seu terreiro foi surpreendente, afinal a Lapinha havia passado por uma grande decepção social, e logo-logo chegou o Vinícius com os nossos Mestres e convidados e o terreiro ficou ainda mais lindo e colorido. O almoço foi servido e eu que estava preparado para dar inicio as atividades, fiquei a ver navios, pois dona Mercês e os demais Mestres começaram com uma oração linda abençoando a casa de seu Juquinha e a nossa festa, um chororó de emoção tomou conta de todos, e logo após fiz meu palavreado de agradecimento a Deus e convidei a todos para participarem da brincadeira de adivinhar qual arvore foi trocada de nome, e pra´variar as crianças espertas da Lapinha não demoraram mais que um minuto e adivinharam a brincadeira que foi ótima e marcante para todos. Como interlocutor da farra convidei seu Juquinha para contar uma História e ele na mesma ora levantou-se da cadeira e nos contou a mais bela História que havia escutado em um terreiro, foi de uma emoção encantadora, não sabia se prestava á atenção em seus gestos ou no rosto daquelas pessoas simples e bonitas que estavam em nosso redor. Assim que terminou a fala do nosso Juquinha, dona Mercês abriu seu vozeirão com as mais belas cantigas que já havia escutado e como era normal a festa foi chegando gente bonita de todos os lados e a música de dona Mercês tomou conta daquele terreiro, seu Jô nosso mestre tocava viola, eu na percussão juntamente com o Wilmar e o Vinícius no pandeiro, e vários números de dança nos envolveu naquela tarde, recortado, umbigada, e batuque não faltou, tivemos até um batuque especial com as crianças dançando e cantando e mais chororó nos rostos de todos, rolou….

-Acreditamos depois de ter visto estas cenas, que jamais o batuque nestas montanhas acabará, que lindo foi!- D. Mercês já tinha combinado conosco que retornaria as 18h00minhs, e provavelmente nesta passagem que estamos descrevendo deveria ser 17h59minhs, mas quem disse a ela que conseguiria voltar no horário combinado, eram beijos e abraços por todos os lados, dona Piedade emocinadissíma abraçava todos, una grande emoção veio à tona, quando sugeri que saiscímos da casa de seu Juquinha cantarolando, “ta caindo fulô”, Música que eu imaginava ser a mais bela para o momento, como foi.

Dona Geralda, filha do Mestre Mundinho não desgrudava de dona Mercês, pedindo a ela que rezasse um terço em sua residência, atravessamos o pequeno povoado da Lapinha ainda pesadíssimos de tanta emoção, e chegamos até a casa de dona Geralda e de seu marido Belizário para rezarmos o terço, que por sua vez, foi o mais belo até então.

Dona Mercês além de puxar as orações convidava a todos para abraçar a” Nossa Senhora da Aparecida” que esta resguardando o lar da cumá (comadre) Geralda, mais um chororó tomou conta novamente de todos nós, neste momento sublime de saída da casa, dona Piedade pesadíssima elevou suas mãos aos Céus e agradeceu por estar ali conosco, dizendo que a poucos meses teria feito uma operação de risco.-Nisto, Vinícius já havia ligado seu carro, o último corre-corre do dia estava por acabar, as luzes dos postes já estavam todas acesas, dona Mercês da janela do carro gritou pra´mim, “hô Fernando cê gostou da festa, foi do jeito que você queria?” –Eu então respondi:- Adorei, tudo que sonhei em ver, era os nossos Mestres juntos aqui na Lapinha!- Um vento soprou a poeira que nos envolvia, e descemos a ladeira em direção a casa da casa do nosso Mestre Juquinha cantarolando as mais belas cantigas de improviso “ viva a Feira da Palavra

Viva a Feira da Palavra

Quem vai querer,

Quem vai levar.

Quem vai querer,

Quem vai chegar.

Palavras descritas, pelo Griô Aprendiz, Fernando Fabrini.

Trilha – COEPI

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AÇÃO GRIÔ – PIRENÓPOLIS- COEPI

Na primeira vez em que vim a Pirenópolis , já fazem alguns bons verões perguntei a uma senhora se ela sabia de um lugar tranqüilo com comida caseira. Ela que puxava um carrinho cheio de biscoitos, me disse: Eu levo vocês lá, me deixem entrar! Depois de algumas curvas e subidas chegamos ao destino. Podem  descer, disse Dona Benta, bem-vindos à minha casa, vou fazer um franguinho delicioso. Nesse dia cantamos, ela contou histórias e eu, tão encantada nunca mais me separei- “Benta que Benta é frade.”

O Lugar da griô aprendiz Cristina começou  a se desenhar quando ainda bem pequena, no exercício cotidiano vivenciado em familia, de respeito veneração e escuta dos griôs que circulavam em casa. Daí veio a paixão pela histórias, e a oralidade.Em 2000 participou da pesquisa “ Contos do Arco da Veia” (UFG) sob a coordenação da professora Angela Barcelos, revitalizando contadores de histórias e seus causos. O encantamento com os mestres levou-a ao teatro com Marieta, poetiza, Dona Benta (in memória), fazedora de biscoitos  e Seu Ico, sineiro da Igreja da Matriz (in memória) coordenado  pela diretora de teatro Julia Pascali. O grupo encontrou-se, brincou e apresentou-se inúmeras vezes para diferentes platéias com o espetáculo “ As Empregadas”, e tudo surpreendia sempre: eram momentos permeados pelo inusutado, um exercício profundo de situar-se no mundo com coragem e dignidade, sem medo de ser feliz. Em 2003 coordenou a pesquisa da Época do Natal na escola Waldorf Pirilampo com as griôs Laurita e Narcisa, tendo como resultado um singelo cd gravado com as Mestras de Canções de Presépio, pais e crianças. Todos se envolveram e emocionaram profundamente. Em 2005 Participou do projeto de reorientação curricular no estado de Goiás representando os historiadores de Pirenópolis e defendendo a necessidade de valorização da tradição oral e ancestralidade dentro da escola. Desde então vem realizando um trabalho de reconhecimento da história local e mapeamento de griôs da comunidade, com o envolvimento de alunos dos Ensinos Fundamental, Médio e Educação de Jovens e Adultos-EJA Dentro deste trabalho diversas ações vem sendo promovidas, como: sessões de contadores de história, pesquisa sobre a história do bairro, vivências com cantigas de presépio, brincadeiras, catira e outras tradições locais, propiciando, por meio destas atividades, a interação entre a comunidade e o ensino formal, fortalecendo a identidade cultural do bairro e da cidade como um todo.   Em 2006 desenvolveu uma ação com contadores de história  no Colégio Estadual Senhor do Bomfim. E atualmente está trabalhando em um espetáculo de teatro e música com dois griôs.

Sinto-me privilegiada por trilhar a jornada da Ação Griô 2007 com tão honrados mestres do maior ofício- o da vida. Do poder da fé e veneração às modas de viola, do profundo respeito às ervas do cerrado à alegria de se pular catira e bater palmas com o eco da terra tremulando o coração!

Grão a grão venho descobrindo possibilidades cada vez maiores de luz no caminho da ancestralidade, reveladores da minha própria identidade, que se fortalece e recria com símbolos desses velhos amigos tão mestres.A Ação Griô oportunizou  aos saberes locais a possibilidade  de cruzar caminhos em todo o Brasil, fortalecendo a rede de tradição oral, que por se consolidar  de dentro pra fora nas comunidades e indivíduos é capaz de transformações na estrutura do ser e da sociedade. Considero importante ampliarmos encontros e trocas “tali-quali” se faz na tradição oral: com mais rodas de conversa e escuta- “assim um ajuda o outro”. (Dona Benta)”

O Ponto

A Comunidade Educacional de Pirenópolis – COEPI – tem como missão promover a felicidade e o desenvolvimento humano através da Arte, Educação e Meio Ambiente. Fundada em 1996, a COEPI firmou-se na cidade como um centro complementar ao ensino formal. Em 1999 teve inicio a construção de sua sede com o apoio de associados e do comercio local, espaço que conta hoje com 4 módulos circulares de aula integrados por amplo jardim demonstrativo de praticas agroecologicas. Pouco a pouco o trabalho foi ganhando força da comunidade e a instituição ampliando suas atividades artísticas, lúdicas e ambientais através de oficinas, vivencias, treinamentos, festas e eventos culturais, buscando sempre o desenvolvimento integral  do ser humano.

A COEPI teve a grata satisfação de conviver com dois importantes ícones da tradição oral em Pirenópolis, que foram Dona Benta e Seu Ico. Ambos atuaram em diversos encontros e oficinas em nossa anual Feira do livro, em sessões de contadores de história nas escolas públicas, em peças de teatro com o grupo “Coisas Nossas” e no projeto “Conhecer para Preservar” na qualidade de patrimônio imaterial, realizado pelo IPHAN em parceria com a COEPI. A saudosa perda, por falecimento, de tais depositários do saber popular, respectivamente em novembro de 2005 e janeiro de 2006, nos levou a reforçar a importância de divulgação e registro da sabedoria destes e de outros mestres pirenopolinos.

No ano de 2000 a professora Ângela Barcellos Café, deu início a pesquisa: “Contos do Arco da Véia: registro e valorização da cultura oral pirenopolina”, em Pirenópolis, identificando e registrando contos e narrativas de alguns Contadores de Histórias de raiz. Formou-se então, um grupo de contadores de histórias por meio de oficinas teórico-práticas ministradas pela professora Ângela, composto por professores da rede pública e moradores de bairros diversos de Pirenópolis. Com o principal objetivo de valorizar a cultura oral, todos os registros das histórias, foram recolhidos em sessões públicas e gratuitas de Contação de Histórias, procurando atingir vários espaços, com públicos diferentes, como: escolas, pousadas e hotéis, centros comunitários e outros… Em 2007, o grupo de pesquisa da UFG iniciou o registro dessas histórias para publicação de um livro e CD, ainda em andamento.

Como parceira na Ação Griô, a professora Ângela montou junto ao Conselho Estadual de Educação um curso de formação continuada para os professores da rede pública, com 120 horas de duração iniciado em 2008, dando subsídios para que estes possam desdobrar ações e formalizar um currículo contemplando os saberes da tradição oral como conteúdo dentro e fora da sala de aula.

Em 2006, a COEPI realizou o projeto Modinhas de Goiás – registro em imagem e som, que identificou e registrou várias fontes guardiãs de memória da prática desse gênero musical nas cidades de Pirenópolis, Cidade de Goiás, Goiânia e arredores. Coordenado pelo músico e pesquisador Roberto Corrêa, o projeto teve a participação de vários griôs e culminou com a publicação de um vídeo musical de 30 minutos, distribuído para Pontos de Cultura, bibliotecas e escolas.

Preocupada com a falta de apoio aos grupos tradicionais de catira em Pirenópolis, a COEPI vem trabalhando há 4 anos no fortalecimento do grupo Raiz de Pirenópolis, através de oficinas em nossa sede e em escolas da cidade e da promoção de apresentações públicas. Comandado pelos griôs Mário e Duti, esse trabalho se desdobrou em 2007 no grupo ProFusão Rítmica, que integra os grupos de Catira, Dança de rua, Teatro Infantil e Fruto Maduro da COEPI reunindo diferentes gerações no resgate e fusão de linguagens tradicionais e contemporâneas. Experimentando e fundindo ritmos, o grupo vem dando uma nova roupagem às brincadeiras e danças populares do interior de Goiás.

A Ação Griô trouxe para a Coepi neste ano de trabalho numa escola, com quinze griôs e oitocentas crianças, a certeza de que numa comunidade, tendo os pontos de cultura como parte dela, se há veneração, respeito e escuta de seus avós e mestres, fica muito mais verdadeiramente possível a busca de soluções para as questões fundamentais da vida, (e para as questões simples e delicadas também) que sejam transformadoras e norteadoras de valores e novos paradigmas. No convívio entre gerações todos crescem, de forma orgânica – sementes, frutos e flores. Mas… há muito que fazer, o caminho está só começando!!!

Aos Mestres

Enquanto Marieta poetiza o caminho,

Mário e Dedé ensinam aos meninos a postura reta de vida na catira,

Seu Duti com dignidade e mão certeira no pandeiro…dá o toque e elegância de quem viajou sem sair muito daqui,

A força que vem da alma e da voz do Armando e do Luís, causam estrondo às montanhas e aos vales da cidade,

O toque das sanfonas do Lourenço e do Nô alegram o coração de qualquer um, dão vontade de dançar!

Seu Nego Aires é exemplo de determinação no cavaquinho e postura de vida!

Miuza uma força tão delicada e absolutamente intensa como das ervas do cerrado

Tânia arauto da alegria, trazedora do sorriso que cura e que alivia

Dona Helena sempre acolhedora e terna, com causos tão engraçados…

Dona Laurita com fé intensa, capaz de mudar o mundo, declarada nas canções de presépio

Dona Narcisa tão forte e generosa que transparece no olhar, nas brincadeiras recordadas

Mestre Bastião, alegria de criança diante do poder renovar-se a cada momento, em si e nos amigos que fez

Peço a bênção a vocês, avós e avôs, pessoas de grande coração e coragem: de revelar-se e compartilhar-se! Deus os guarde e proteja!

Cristina campos

Rap das Guerreiras – Guaimbê

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NA TRILHA DAS GUERREIRAS

Nas trilhas das guerreiras,

Imaginando o antigamente e vendo as belezas,

Nos caminhos dos tropeiros,

Não tinha maldade e muito menos desespero,

Água em abundancia,

Os lindos campos do cerrado aumentavam a esperança,

De um povo humilde que não tinha arrogância,

Muito menos pensava em vingança,

Dona Helena, Laurita, Tânia, Miusa e dona Narcisa,

Já caminhavam por estas, quando o Bonfim nascia,

Pequi, mangaba, baru, caju do mato,

Ipê, quaresmeira, sabugueiro, delicias e belezas do cerrado.

Crianças dessas terras que deram origem às Guerreiras do Bonfim,

Passando seus conhecimentos pras crianças e também pra mim,

Recuperando o respeito ente as gerações,

Ganhando lugar em nossos corações,

Cantando, dançando,brincando e relembrando os tempos de criança,

Relembrando os lindos tempos de infância,

Brincavam na água que desaguavam nas pedreiras,

De longe ouviam o murmurar das cachoeiras,

Cantavam com os passarinhos que voltavam aos seus ninhos,

Junto com a natureza cantavam os mais belos hinos.

Fichas Griôs – Guaimbê

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Armando Machado

Endereço: Chácara José Leite, Pirenópolis GO

Telefone: 3331 15 13

Idade: 53 anos

Data de nascimento: 16 /09/1954

Filhos, netos e bisnetos: ­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­3 filhos e 5 netos

Local onde nasceu: Chácara José Leite

Local onde foi criado /onde passou a infância: Na chácara.

Com quem foi criado?

4 avós que vieram de Minas, tio Nô, pais e 6 irmãos.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? De 1995 a 2005

O pai: José Machado Neto, nascido em Itaguara, MG. Veio para Pirenópolis em 1944, filho de Geraldo Machado Neto e de Geralda José da Silva. Comprou a chácara com os pais pra fazer roça. O irmão, Nô, chegou com 2 anos. Sempre trabalhou em serviços de fazenda, principalmente como leiteiro. Toca um pouco de violão. Na época em que vieram, muita gente de Minas mudou para a zona rural de Pirenópolis. Em Minas a terra era boa, mas dava muita maleita. Aqui a terra é mais empedrada mas a água é limpa e boa pra gado.

A mãe: Helena Marques Machado, nascida em Itaguara, MG. Dona de casa e serviços de fazenda. Tecedeira. Não compravam roupa em casa. Veio com os pais morar na Serra do Misael e conheceu o marido na região.

Histórias:

Ia com os pais montado na cabeça do arreio do cavalo até a Serra do Misael, visitar os avós maternos. Os paternos moravam perto de casa, do outro lado do rio. Em época de muita chuva e de trocar ou colher roça, faziam mutirão. O pai não gostava muito porque achava o serviço mal feito; gostavam mesmo era por causa dos forrós de noite inteira. Ajudou em muitos mutirões da região, que era conhecida como Carçada e Mata Buraco. A região tinha muitos moradores, hoje ficaram os filhos e algumas terras viraram pousadas.

A chácara já teve muita produção. Hoje o adubo custa muito caro, os filhos não ajudam mais e o preço do trator pra roçar a terra não compensa. O pai agora trabalha mais com leite.

Quando era novo gostava muito de namorar – hoje diz que não arranja mais namoro. Casou algumas vezes e voltou a morar com os pais. Ainda plantam mandioca, na época de ralar os irmãos vão ajudar.

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: Filha no Col. Sr. do Bonfim e o neto estuda em Anápolis.

Como aprendeu a ler e escrever? Em 1970 tirou Ginásio na escola do lado da Igreja no Bonfim, morando na roça.

No que trabalha ou trabalhou? Serviços de fazenda – Derrubar mato com foice e machado, queimar, encoivarar (cortar os galhos e amoitar pra queimar de novo), plantar arroz, milho e feijão pra vender, socar arroz e café, engenho de cana, fabricar farinha – até vir morar na cidade; motorista de caminhão por 13 anos fazendo frete de pedras pela região (Anápolis, Brasília, Goiânia). Ajudava muito nos mutirões da região. Hoje trabalha novamente com o pai prestando serviço de roçar pasto.

Quais são os seus saberes e fazeres? Cantador, repentista e instrumentista – cavaquinho e violão – violeiro dos Cavaleiros das Cavalhadas, e dos forrós da roça e festas de aniversário.

Com quem aprendeu? Observando e acompanhando o tio Nô. Aprendeu de dom. Desde os 10 anos foi estimulado a acompanhar o tio nos forrós da região da chácara. Há 20 anos toca com Luís Cantor. É considerado o melhor repentista de Pirenópolis. O Divino Espírito Santo que põe o verso na língua, é só olhar pra uma pessoa que vem.

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações?

Valorizar a vida em família. Estudar, porque não estudou e o emprego de roça cansa muito. Manter as tradições e o dom. Seu dom de tocar e cantar ele não larga nunca. A criança que tem o dom pra música precisa ser estimulada, mas acha que a criança precisa aprender olhando os mais velhos tocando, que foi como ele aprendeu desde os 10 anos. Não se considera bom para ensinar música, pois acha que conhece só acordes mais comuns e porque aprendeu fazendo.

O cabo da enxada me faz correr

o cabo da foice me faz tremer

Arroz com feijão eu mato no prato

roça se eu plantar vai morrer no mato

Telefone é preto e não é café

Eu sou bom no taco e melhor no pé

Eu sou bom na bola e não sou Pelé

Eu sou ruim pros homem e bom pras mulher”

Jacó e Jacozinho

Sebastião Profeta do Amaral

Endereço: r. Sete de Setembro, nº. – Alto do Bonfim /Pirenópolis GO

Telefone: 3331 2436

Idade: 92 anos

Data de nascimento: 10/04/1916

Filhos, netos e bisnetos: eram 10 (dez) filhos, agora são 8 (oito). Tem mais de 40 (quarenta) netos, mais de 40 (quarenta) bisnetos e 1 (um) tataraneto.

Local onde nasceu: na rua dos Pireneus, ao norte da cidade de Pirenópolis.

Local onde foi criada /onde passou a infância: dentro de Pirenópolis mesmo.

Com quem foi criado? Com a mãe e um padrasto.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde que nasceu.

O pai se chamava Benedito Alves de Amorim e nasceu em Pirenópolis e morreu em Goiás Velho. Ele era Cabo da Polícia. Morreu quando ele tinha 5 (cinco) anos. Joaquim Augusto Pereira da Veiga, o padrasto, também era nascido em Pirenópolis e era fiandeiro, artesão de utensílios para a casa (candeeiro, lamparina …).

A mãe: Francisca Garcia do Amaral nasceu em Pirenópolis, mas o pai e a família eram de Pilar de Goiás. Era doméstica. Gostava muito de uma pinguinha e cigarro. Morreu com 79 anos em 1974, de desastre: quebrou a bacia. Pisou numa bacia e caiu, foi morrendo aos poucos.

Histórias:

Quando mudei praqui (bairro do Bonfim), era tudo mato. Fiz só uma cozinha. O tio da Laurita tinha água em casa e eu não. Eu ia lá na Passagem Funda pegar a água de beber, porque eu não gosto de pedir nada pra ninguém.

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: Tem filho, tem neto, é muita gente.

Como aprendeu a ler e escrever? Na escola eu não aprendi nada, saí no ABC. Aprendi algum coisa depois de homem. A precisão faz o sapo pular, né?

No que trabalha ou trabalhou? Trabalhou 44 anos no Garimpo. Vinte e tantos anos como fiscal arrecadador da Pedreira, pela Prefeitura (de 1974 a 2002).

Quais são os seus saberes e fazeres? Já fiz muito remédio, porque o garimpeiro sabe fazer de casca de pau. Benzo cobreiro, sopro no olho… coisa que a gente aprende na beira do rio, nem sei como. De matar bicho e pescar é comigo mesmo, comer então… se precisar fazer uma cova no meio do mato, eu faço, mas terra de cemitério não tenho coragem.

Com quem aprendeu? Na comvivência com os mais antigos. A gente ficava observando, mas nem todo mundo aprende. A precisão faz aprender também.

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? A amizade, lealdade, perseverança. A amizade não tem quantidade; a pessoa que tem lealdade, tem tudo; porque a pessoa não tem ambição, vive a sua vida sem botar olho gordo na do outro.

D. Helena Maria de Oliveira

Endereço: Travessa Santa Bárbara, nº 1 – Alto do Bonfim / Pirenópolis GO

Telefone: 3331 2480

Idade: 64 anos

Data de nascimento: 03/05/1943

Filhos, netos e bisnetos: Tem 3 filhos, 8 netos e 2 bisnetos.

Local onde nasceu: Fazenda Brejo Alegre /município de Monte Carmelo MG – nasceu de 8 meses. Seu parto foi feito em casa, pelo pai. Ele cortou o cordão como canivete de cortar fumo.

Local onde foi criada /onde passou a infância: morou na Fazenda Brejo Alegre até os 3 anos de idade quando então se mudou pra Fazenda Ferragem e por lá morou até os 7 anos, indo depois pra Goiânia de trem de ferro. Se lembra até hoje! Foi bom demais! O trem era tocado a lenha e voava faísca pra todo lado e parava em todas as estações. Levaram 2 (dois) cachorros: o Guarani e o Japão

Com quem foi criado? Morou com os pais até se casar. Sua infância foi trabalhar na roça. Brincava de cozinhadinho e boneca de pano. O pai não deixava dançar, é por isso que não sabe dançar. Sua infância não foi boa, é agora que está aproveitando a vida. O primeiro namoro foi no eito (faixa de plantação) de café. À noite reuniam-se para brincar de roda. Uma das brincadeiras que mais gostava era vilão e sombra crioula. Os pais sempre trabalharam com café. Ele tirava o da despesa, o outro levava de carro de boi pra cidade e vendia tudo. Ela e os irmãos catavam a sobra que ficava em baixo do pé de café, para vender e comprar panos para fazer vestido.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde 1968, há 40 anos. Mudou-se pra Pirenópolis em 1966, mas não parou na cidade. Tinha uma casa mas viajava demais e foi morar nas fazendas ao redor da cidade, me Mato Grosso do Norte…

O pai: João Francisco de Almeida, nascido na Fazenda Penedo, município de Monte Carmelo MG. O pai era lavrador mas mexia muito com boiada. Puxava muito gado pra Uberlândia no lombo dos burros. Ele garimpava muito diamante também, no Garimpo da Vaca Brava. Foi muitas vezes no garimpo com ele. Uma vez, uma catre (pedaço de terra que se solta do barranco, desbarranca) caiu em cima dele e ele ficou um ano sem andar, só em cima de uma cama. A mãe dela ficou sozinha trabalhando na roça pra tratar dela e dos irmãos, que eram três.

A mãe: Joana Maria de Jesus, nascida na Fazenda Areado, município de Monte Carmelo MG. O nome era porque o rio tinha muita praia de areia, ela trabalhava na roça, mexia muito com algodão, tear, essas coisas. Eles só vestiam roupa de algodão que ela fazia. Desde os 6 ajudava a mãe a descaroçar e cardar o algodão … de tudo um pouquinho. Ajudava a plantar e capinar.

Histórias:

Quando casei eu fui morar com meu marido nas Araras, aquele lugar longe, ruim de tudo. Minha mãe foi embora pra Mato Grosso, eu chorava, mas tinha que ficar. Aí um tempo depois meu sogro, minha sogra e minha cunhada vieram morar comigo. Era uma casinha de um cômodo só. Logo a gente foi amassar barro pra fazer adobe. Aí eu já fiquei mais feliz, tinha companhia.

Engravidei logo, nossa filha nasceu com 10 meses de casados. Pois um dia eu desci no rio e to vendo aquele cará (tipo de peixe) enorme embaixo d’água. Me deu aquela vontade de comer o peixe e não tinha nada pra pescar. Pensei assim: não é possível que eu não consiga pegar esse peixe… Voltei em casa e a primeira coisa que eu vi foi uma tábua. Peguei aquela tábua, voltei pro rio e esperei o peixe aparecer e quando ele apareceu dei nele com a tábua e ele morreu. Quando o povo chegou em casa tava aquele peixe frito gostoso. Meu sogro disse que já tinha ouvido falar do pegar peixe de muito jeito, mas de tábua ainda não!

Ajudei Tânia a fugir, chorando de mentira pros pais dela. Depois chorei de verdade, de arrependimento.

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: os netos estudam nas escolas municipais Geraldo de Morais, Luciano Peixoto e na estadual Com. Christóvam de Oliveira.

Como aprendeu a ler e escrever? Em casa, nunca foi à escola. Aprendeu um pouquinho com um, com o outro, com o irmão um pouquinho. A maior parte foi sozinha, nas casacas das árvores, folha da bananeira, o lápis era o espinho de laranja nos brotinhos das folhas de bananeira…

No que trabalha ou trabalhou? Trabalhou com lavradora, fiou muito algodão, lavou muita roupa pras pensões de Pirenópolis. Lavava, passava… passava com ferro de brasa. Lavou roupa durante 12 anos! Perto da Babilônia colheu muitas sacas de café, ralava a mandioca e fazia polvilho e farinha…. gosta muito, muito, muito de criança, de verde e de lua cheia! Agora é educadora no Quintal da Aldeia.

Quais são os seus saberes e fazeres? Contar histórias, piadas, cantar, dançar e viajar. Fazer doce ela também gosta. Gosta muito de rezar! Cantar também, mesmo sem saber!

Com quem aprendeu? Com pais e avós. Com a mãe aprendeu muito, trabalhando na casa dos outros também.

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? Em primeiro lugar a educação, o respeito aos mais velhos e a ser trabalhador. É importante ensinar as pessoas a trabalhar desde pequenos. As rezas e orações também não podem acabar.

D. Laurita Vitoriano da Veiga

Endereço: Travessa Santa Bárbara, nº 2 – Alto do Bonfim / Pirenópolis GO

Telefone: 3331 1681

Idade: 68 anos

Data de nascimento: 19/07/1939 no registro / data real: 19/06/1939

Filhos, netos e bisnetos: Teve 8 filhos, criou 7 e agora tem 6 e 16 netos (12 homens e 4 mulheres).

Local onde nasceu: Campos Belos (no registro Niquelândia)

Local onde foi criada /onde passou a infância: veio para Pirenópolis com 1 (um) ano de idade e mora aqui até hoje.

Com quem foi criado? Com a mãe e o padrasto.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde 1940.

O pai: Sebastião Profeta do Amaral (Bastião de Chica), seu padrasto, garimpeiro nascido e criado em Pirenópolis, atualmente com 92 anos. Não conheceu o pai biológico que chamava-se Austeclínio Vitoriano, tropeiro e lavrador nascido no norte de Goiás. Já é falecido.

A mãe: Idalina da Veiga, nascida e criada em Pirenópolis, costurava e bordava para fora, além de cuidar da casa, falecida.

Histórias: A lembrança mais antiga que tem é de quando morava com seu avô Joaquim (esposo da mãe de S. Bastião, que antes foi casado com a avó de sua mãe), na rua do Bonfim. Era muito apegada a ele e adorava ver seu avô trabalhar fazendo esculateira (vasilha de coar café) e candeeiro de folha de “frande” (flandres). Na casa tinham dois quartos, o dos avós dormirem e o que ela dormia. Embaixo tinha uma varanda enorme que era a cozinha. Ele (avô) trabalhava num salão enorme. E “batia com um martelinho a folha de frande, dobrava as beiradinhas, rebatia tudinho pra não machucar. Ele mesmo fazia o rebite, pois não tinha esses que se compra pronto. Tudo era de cobre ou da própria folha”. O dia em que o avô dela morreu, ela lhe pediu a benção e ele não deu (já estava morto), daí ela ficou muitos dias enfezada e só conseguiram levá-la de volta na hora do enterro. Ela é apaixonada na reza de Nossa Senhora da Conceição por causa do avô. Nisso tudo, ela tinha mais ou menos 3 anos.

Depois disso, eles se mudaram prum barraquinho na rua Santa Bárbara, já no bairro do Bonfim. Tinham poucas casas por aqui. Ela e sua mãe iam até a Passagem Funda pegar lenha e lavar roupa (antes a mãe lavava na ponte) e uma época teve que buscar água pra todos os usos da casa também.

Bastião conseguiu comprar o terreno onde é a casa dele hoje, mas só tinha um cômodo fechado, o resto tudo era pau-a-pique, não tinha porta, não tinha nada. Um dia, quando S. Bastião estava trabalhando fora, a mãe dela, grávida, resolveu mudar para a casa nova. Mas estava uma sujeira, cheio de unha-de-gato e elas duas arrumaram tudo e fizeram a mudança. Quando S. Bastião chegou na casa antiga procurando por elas, tinha ficado só o feijão pra ele levar.

De outra vez, o S. Bastião começou a furar uma cisterna pra não precisarem mais buscar água no rio. Um dia ele teve que sair e quando voltou D. Laurita já estava cavando a cisterna pra acabar mais rápido.

Ela fazia de tudo: ajudava a matar porco; fazia farinha na mão, ralando a mandioca; socava arroz no pilão pra mãe fazer perém (?); ia pro garimpo; lavava roupa pra fora; vendia legumes dos vizinhos; buscava lenha pra mãe; fazia comida; fazia tijolo de adobe… Até bordado! E com muito esmero!

S. Bastião era perfeccionista e não admitia uma bolotinha de terra no tijolo. Sua mãe também, era muito dura.

Mesmo trabalhando muito desde pequena, isso nunca atrapalhou suas brincadeiras. Brincou e cantou muito na sua infância. Brincou muito no mato, no meio do cipó. Via os tatus cavando: a mãe fuçando a terra e os tatuzinhos atrás, catando os cupins. Catava gravatá, bacupari, graviola, aticum, caju… até lobeira já comeu: “É uma delícia, mas se comer demais repuna, pois é muito doce”.

Adorava fazer caju azedo com arroz: cozinhava na panela de ferro e ficava roxinho… Com caju doce também dá pra comer, mas com azedo é mais gostoso!

A gente comia muita fruta do mato, acho que por isso tínhamos mais saúde”.

Hoje as crianças não têm mais essa liberdade… Sente muito que seus filhos e netos não puderam ter uma infância tão livre.

Na época em que a gente lavava roupa no rio, a água era tão clarinha que dava pra ver o fundo. Até se caísse uma agulha lá dentro, dava pra ver. A gente passava o dia inteiro lavando. Passava o sabão, botava na pedra pra quarar, batia, passava água, quarava de novo, até a roupa ficar cheirosa de sabão. Ficava aquela roupa macia, limpinha, ninguém pensava nessa época em amaciante.

O rio não era como hoje. A água era tão clara que até se caísse uma agulha no fundo, dava pra achar. Eu ficava vigiando a roupa quarando, jogava água pra ela não queimar. Um dia eu tava sentada em cima da pedra e vi aquelas duas traironas, elas gostam de andar de duas e ficar embaixo de pedra. Via aqueles (?) que é um cascudo grande, via cardume de lambari.

Minha mãe gostava de lavar roupa na ponte. Cada dia era em um lugar. Tinha o lugar do banho das mulheres. Tinha a pedra também do apanhador d’água.

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: as cinco filhas são professoras de escolas públicas, sendo três delas do Colégio Estadual Senhor do Bonfim e a mais velha diretora do Colégio Estadual Santo Agostinho. Todos os netos estudam (Colégios Estaduais Joaquim Alves e Senhor do Bonfim), com exceção de um que já se formou. Três netos cursam faculdade.

Como aprendeu a ler e escrever? As primeiras letras foram em casa, pois antigamente ia-se para a escola depois de conhecido o alfabeto. Estudou apenas no primeiro ano no Colégio Joaquim Alves (hoje casa de Zé de Pina).

No que trabalha ou trabalhou? Fez de tudo um pouco, mas “estudou” os filhos com dinheiro de bordado. Fez adobe, foi garimpeira, vendeu verduras e lavou roupa para os outros.

Quais são os seus saberes e fazeres? “Não sei fazer nada, mas faço de tudo”. Canta, faz quitanda, é rezadeira, doceira, costureira e bordadeira.

Com quem aprendeu? Tudo que sabe aprendeu com a mãe. O que não aprendeu com ela, aprendeu sozinha, pois sempre foi curiosa demais.

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? Acho que tudo que sei é importante. Foi importante pra mim, deve ser pros outros, só não o estudo, pois foi pouco. A serena, a reza, o bordado, cozinhar. A coisa mais importante que ensinei pro meus filhos foi a responsabilidade. Até hoje eles me agradecem e acho que todos deviam aprender a responsabilidade, honestidade e respeito ao próximo, pois são o melhor bem que a pessoa pode ter.

Geraldo Vicente dos Santos (Dedé)

Endereço: r. Joaquim Augusto Curado,Qd 4, lote 15 – Alto do Bonfim /Pirenópolis GO

Telefone: 3331 2351

Idade: 46 anos

Data de nascimento: 04/07/1964

Filhos, netos e bisnetos: tem um casal de filhos e uma neta.

Local onde nasceu: na Fazenda Matutina /Pirenópolis.

Local onde foi criada /onde passou a infância: na Fazenda Catingueiro. Quando os pais vieram rpa cidade, quis ficar na roça, aos 5 (cinco) anos de idade. Passou a fazer de tudo: capinar, roçar, tratar de porcos, tirar leite, moer cana, ralar mandioca. À noite todas as crianças podiam ir às festas. Girou (participou) da Folia do Divino (da roça) durante 16 (dezesseis) anos, desde os 8 anos de idade. Hoje em dia é folião da Folia do Divino da zona urbana (folia da rua) e se tornou regente.

Com quem foi criado? Com o irmão mais velho, Jair Vicente dos Santos e a esposa.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Veio pra cidade com 20 (vinte) anos de idade. Na cidade veio pra trabalhar na pedreira, morando com os pais. Cansou de trabalhar pro outros na roça. Essa era a opção possível na época… Achou bom o trabalho, é como um garimpo. Ganhava por metro tirado, como empregado do dono da pia, o finado João Figueiredo. Ganhava muito bem e era suficiente pra sustentar a família. Hoje em dia é mais difícil, por causa da exigência dos materiais de segurança e INSS, mas trabalha arrendando um pedaço de pia e pagando ao proprietário uma porcentagem do que ganha.

O pai: Juscelino Vicente dos Santos, nascido na zona rural de Patos de Minas. Era vaqueiro, lavrador, folião (em Minas e na Fazenda Matutina). Veio para a Fazenda Matutina com a esposa e uma filha mais velha, há cerca de 25 anos. Passou alguns anos na Fazenda onde tiveram os filhos e depois mudou-se pra rua do Frota onde se tornou jardineiro e capinador de rua. Também conhecia os ofícios do dia-a-dia, como fazer balaios, pás e peneiras.

A mãe: Dousila Luiza da Conceição, nascida na zona rural de Patos de Minas era lavradora, dona de casa, tecelã, costureira e artesã de cestaria. Acompanhava o marido nos Pousos de Folia. Vieram pra cidade a convite de seu irmão que lhes contou que em Pirenópolis ganhava-se em um mês o que em Patos se ganhava em um ano. Ele diz que era o boato que se contava pra incentivar outros moradores a virem pra Pirenópolis, dizendo que aqui se vivia na fartura, mas ele diz que era mentira, mas que eles acreditavam e depois da terra, não tinha como voltar pra roça. É irmã de d. Onídia, mãe da d. Lu do Carmo. Na cidade foi lavadeira e dona de casa. Era benzedeira e conhecedora dos remédios do mato.

Histórias:

Como regente da Folia, Dedé tem responsabilidade de fazer: alvorada às 4 horas da manhã; dar assistência e disciplina aos foliões; chamar para a reza da manhã; agradecer a mesa. É regente desde que veio pra cidade. Foi convidado pelo alferes da Folia pra tirar esmola, depois tornou-se alferes pela experiência.

Tem vontade de transmitir às crianças como é o catira, o sistema da Folia, como a bebida na Folia tem que ser comedida. Ajudou a organizar a Folia de Reis da cidade, pagando ao Zé Inácio muito dinheiro pra ele desenhar a bandeira dos Três Reis Santos. Isso já faz 20 (vinte) anos e é a mesma bandeira que é usada até hoje.

Na roça tudo era muito custoso e o irmão pra agradá-lo (ele era uma criança quando os pais vieram pra cidade) comprou pra ele na cidade 2 (dois) chicletes de uma vez. Ele então, pra fazer o presente durar o mês inteiro, lavava o chiclete quando ele endurecia e colocava mais açúcar… quando chegava a noite ele grudava no lado da cama e no outro dia lavava novamente e colocava açúcar de novo! E assim até acabar o mês, pra economizar!

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: sua companheira é diretora do Colégio Estadual Senhor do Bonfim.

Como aprendeu a ler e escrever? Na escola da zona rural, precisava andar uma légua pra chegar. Freqüentou até o 2º ano.

No que trabalha ou trabalhou? Foi lavrador e ajudante de veterinário.

Quais são os seus saberes e fazeres? Sabe lidar com os animais: é vaqueiro, moxador e aplica vacina em gado. fez cursos veterinários de inseminação. É regente de Folia, catireiro e cantor.

Com quem aprendeu? Curso de veterinário: Prefeitura; roça, pedreira e regente: na prática.

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? Pular catira, dançar o chá e a experiência de vida aprendida com os mais velhos.

Verduti José da Costa

Endereço: R. Santa Rita, qd. 3, lote 32 – Alto do Bonfim /Pirenópolis GO

Telefone: -

Idade: 64 anos

Data de nascimento: 05 /11/1943

Filhos, netos e bisnetos: ­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­6 filhos e 10 netos

Local onde nasceu: Formosa DF

Local onde foi criado /onde passou a infância: saiu de Formosa aos três meses de idade para Pirenópolis, com o pai, a mãe, dois irmãos (já falecidos) e uma irmã. O pai não gostou e foi embora. A mãe casou de novo e teve mais um filho. Morou primeiro em uma propriedade no bairro da Lapa (zona urbana), que na época era um cerradão, a cidade ficava só no miolo em volta da Igreja Matriz. De lá foram para a região do Mato Escuro trabalhar em fazenda. Começou carregando água na cabaça e aprendendo os serviços da roça. Passaram para o outro lado do rio Tapiocanga, para trabalhar na propriedade de Totó Lobo. Subiram para o Engenho, na fazenda de João Gomes. Era molecote. A família ainda trabalhou para Eusébio Geriza, no São João. Compraram duas casas na cidade, uma no Alto do Bonfim e outra na Rua do Sapo. A mãe veio com porcos e novilha, mas na rua não podia criar; vendeu e comprou um bom terreno na região de Cocalzinho. Lá ficaram por 18 anos. Ele ficou lá 10 anos e voltou a trabalhar em outras fazendas.

Com quem foi criado? Com Deus, a mãe, o padrasto, três irmãos e uma irmã, além dos muitos agregados das fazendas.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde 1976.

O pai: Domingos da Costa, lavrador, com origem na Bahia. Gostava muito de Duti, exigiu que ele fosse registrado com o seu sobrenome.

A mãe: Francisca Cardoso dos Santos, original de Formosa. Era dona de casa e cuidava de roça também. Gostava de dar pousos de folia. Tinha voto de reza para São João, todo ano, de 23 a 24 de junho. Era festa por uma semana na casa, fazendo doces. Primeiro ela dava aquela jantona para as crianças, depois vinha a janta dos adultos e o forró.

Histórias: Detrás da Igrejinha em frente ao Posto Xepa, onde moraram logo que chegaram, tem uns pés de manga que a mãe dele plantou. Se tivesse ficado lá as terras seriam da família.

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: Uma neta na Escola Municipal Geraldo de Morais e outra na Escola Municipal Tia Olívia.

Como aprendeu a ler e escrever? Estudou primeiro em uma casona amarela (atual Museu dos Pina), na rua Santa Cruz. A escola passou para onde hoje é uma padaria, na mesma rua. De lá foi para o Colégio, em frente à Igreja do Carmo. Estudou pouco, morando na roça. De volta à cidade, estudou no Colégio Luciano Peixoto por apenas três meses, logo se ocupou novamente de roça. Não aprendeu a ler e escrever.

No que trabalha ou trabalhou? Serviços de roça.

Quais são os seus saberes e fazeres? Folião, oferta pouso de folia, sanfoneiro e pandeirista.

Com quem aprendeu? Com a mãe aprendeu a gostar de dar pouso de folia. Toda vida foi folião. De pequeno, na chácara de Totó Lobo, não tirava a vista do trio Pedro de Nego (sanfoneiro), tio do Matias (pandeirista), e do Lu (cavaquinho), músicos da roça. Pedia ao tio para tocar o pandeiro, ele deixava. Depois que veio para a cidade, que tinha mais festa, foi só aprimorando o pandeiro. Sanfona gostava muito de tocar a pé de bode, até ter um pequeno problema com o dedo da mão. Acompanhava o cunhado, Caetano, e era considerado bom tocador como o Mangabinha.

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? “As coisas que eu gosto – bater pandeiro, por exemplo, pelejei para passar para meu filho. Se a criança tem interesse, ela tem que ser incentivada. Porque com um músico, um sanfoneiro, um pandeirista, a festa está feita. A Folia – o folião tem que saber pular catira e cantar, senão não é folião. Eu toda vida mantive meu repertório. Não sei dançar catira como muitos dançam por aí, mas sempre pulei pra dentro, pra ir aprendendo, pra salvar o bolo. Sanfona eu tive duas, ainda tenho sonho de ter de novo. E o pouso de Folia – só de ver a bandeira chegar quando se dá um pouso, aquele povão, a bandeira no altar da sua sala – é uma satisfação.”

D. Narcisa Pereira da Cunha

Endereço: R. José da Veiga, Qd.1, Lote 7 – Vila Mutirão – Alto do Bonfim /Pirenópolis GO

Telefone: 3331 2805

Idade: 65 anos

Data de nascimento: 07/08/1942

Filhos, netos e bisnetos: Teve 7 filhos (6 vivos) e 13 netos.

Local onde nasceu: Nasceu na Fazenda Quilombo, município de Corumbá de Goiás

Local onde foi criada /onde passou a infância: Fazenda Forquilha /Corumbá GO.

Com quem foi criado? Com os pais e 3 irmãos. Convivia com três famílias vizinhas, mas cada uma tocava sua própria roça. Eu brincava muito com Terezinha, que depois se tornou minha concunhada. Era um pouquinho mais velha do que ela e até vestíamos igual, mesma combinação. Com 10 anos saíamos pra apanhar caju a uma distância como daqui até o Morro do Frota, sem medo de nada. Passávamos o dia no mato, chupando caju ou tirando catulé. Papai e o povo de casa adorava quando chegávamos carregadas de caju. No meio dos trilheiros, poucas vezes encontrávamos com um senhor vizinho. Ele ralhava de brincadeira dizendo que ia descer a correia na gente; saíamos rindo. Em casa apanhávamos café, papai tinha fábrica de farinha. Eu ralava a mandioca no ralo. Depois tivemos uma rodilha, tocada a dois. Por fim era uma roda de água. As pessoas da cidade vinham comprar farinha em casa. Pegavam a estrada do Bonsucesso, passavam pela Vargem Grande, morro do Tombador, cabeceira do Quebrado, mata da cabeceira do rio Corumbá, chegavam na cabeceira da Encruzilhada e avistavam o Cercado. O pai de seu Nego Aires, por exemplo, voltava com dois cargueiros cheios, cada um com mais de 100 kg de farinha. A gente também, quando queria vir pra cidade, saía de madrugada e chegava de tarde em casa. Meus pais não nos batiam, só no repreender eram respeitados. Lembro de quando mamãe me deu uma correada, uma vez só. Nós obedecíamos de natureza, com os exemplos. Éramos criados num limite só. Mamãe contava muitas histórias de pavor e assombração que davam medo quando éramos pequenos. Depois entendíamos que eram apenas histórias. Ficavam os exemplos, a experiência de vida. As mães conversavam entre si: você planta um pé de abóbora e vira ele pra onde quer que ele dê frutos. “Se deixar alastrar e madurar na hora de virar, ele quebra. Tem que educar antes de amadurecer, enquanto o cipó está molinho.” Elas trocavam referências sobre a educação dos filhos. Eu também aprendia com meus irmãos mais velhos. Nós quatro sempre mantivemos o respeito. Já tive a oportunidade de ajudar minha irmã mais velha em uma situação com o filho dela. Ela não aceitava a companheira dele e a neta e eu a lembrei da importância de manter o apoio familiar principalmente nesses novos tempos. Quando casei foi por amor. Meus pais me preveniram sobre meu marido, que apesar de criado no mesmo costume, já não era peça muito boa. Mas eu agüentei as dificuldades até quando decidi não continuar mais. Hoje aprendi a conversar de novo com ele. Pois antes nosso dia-a-dia era muito bom. Tinha felicidade. Mamãe morreu 25 anos depois do meu pai, e nunca vi os dois brigarem. Quando papai morreu, mamãe ficou apaixonada e passou a beber; mas deu a volta por cima e largou muito antes de seu falecimento.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde 1972 /73.

O pai: Francisco Pereira Cirino, lavrador, artesão de balaios e tapitis. Papai de tudo sabia um pouco. Conhecia tudo de roça. Tinha uma rancharia, que era onde o povo costumava ficar acampado pra fazer a roça, uma semana, como um mutirão pra queimar a roça antiga, descoivarar e plantar de novo. De noite era o forró. Ele também era carpinteiro, pedreiro. Nascido em Planaltina, mudou com a família para a Fazenda Capão Comprido. Fabricava balaio, bruaca, cangalha, jacá de taquara, tapiti, peneira, bateia de tamboril. Também garimpava nas horas vagas, eu o acompanhava. Também acompanhava muito meu tio Joaquim Pinto em suas andanças pelos matos. Ele era raizeiro, benzedor, uma espécie de vidente, tinha visão espiritual. Com ele aprendi a conhecer as plantas do mato. Outro tio, Benedito Turino, participou da revolução e talvez até do exército de Santa Dica.

A mãe: Benedita Gomes Cirino, nascida na Fazenda Pedra Infincada e criada na Fazenda Forquilha, lavradora, tecelã, dona de casa. Minha mãe tecia no tear, era tecedeira de trabalho. Tecia coberta, baixeiro, pano. Tingia os panos com as plantas do mato. Pro azul ela usava anil; o ramo do quaresmeiro dava amarelo; a árvore conhecida como cabelo de negro dá o marrom. Esse cabelo de negro fixa sozinho, é como uma nódoa. Já as outras cores se usava o sal para fixar. Papai não nos deixou aprender a tecer, dizia que fazia mal pro útero. Costume dele, porque mamãe tecia toda vida e nunca teve nada. Tínhamos os suprimentos da lavoura e mamãe tecia para os gastos, com o dinheiro do tecido ela pagava a costureira. Nós costumávamos fiar; eu fiava no arco, que é usado antes de cardar. Uma irmã fiava no fuso e a outra na roda. Desde pequena acompanhei minha mãe. Eu era a caçula. Íamos aos parentes e vizinhos e ouvíamos suas histórias. Lembro de um dia, quando andava na frente de mamãe, e vimos um tiú (teiú). Era outubro e minha mãe falou pra tomar cuidado, que nessa época o tiú fica bravo. Ela jogou uma pedra pra afugentá-lo e eu, de assustada, dei uma carreira pra um lado e ele pro outro! Minha mãe caiu sentada de tanta risada e nunca mais esqueceu de contar essa história por onde ia. Guardei todas as experiências que vivi com minha mãe e hoje entendo que isso é sabedoria. Sempre a respeitei; hoje vemos os jovens repreendendo a sabedoria dos antigos, dizendo que é superstição. Até pouco tempo, eu não tinha coragem de contar o que aprendi com ela. Era uma sabedoria completa, para a vida.

Histórias:

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: Uma neta de 22 anos (Ariadna) é professora no Colégio Estadual Santo Agostinho. Tem netos que moram em Chapadão do Céu e Anápolis e freqüentam escolas públicas. Em Pirenópolis os netos estudam na Escola Municipal Dom Emanuel e no Colégio Estadual Senhor do Bonfim.

Como aprendeu a ler e escrever? Em casa, com os dois irmãos mais velhos que foram ensinados pelo pai. Quando não tinha caderno treinava na casca da gueroba. Nunca estudou em escola.

No que trabalha ou trabalhou? Na lavoura (café, mamona, mandioca) e também como lavadeira e passadeira.

Quais são os seus saberes e fazeres? Conhece profundamente as plantas do cerrado e seu uso medicinal e na culinária; conhece brincadeiras de roda, cantigas de trabalho, brincadeiras de traição e mutirão, é rezadeira de terço e do presépio.

Com quem aprendeu? Plantas: com o tio raizeiro (Joaquim Pinto de Aquino); rezas e brincadeiras: com a mãe e vizinhas mais velhas; cantos de presépio: com d. Laurita. E a lavoura?

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? O aprendizado estudando a natureza, observando as estações, os animais, a harmonia com os ciclos naturais (sabiá, cupins, sapo engenheiro, cachoeira, etc); o poder das orações para a cura de problemas familiares; e a educação pelo exemplo de vida dos familiares (“pé de abóbora”).

Lembrar mais com ela de:

Sabedoria dos ciclos da natureza – quando os bichos, as plantas e as águas falam das estações – que ela comentou quando preenchemos a ficha da Ação Griô.

Emilio Aires da Silva (Nego Aires)

Endereço: r. Luiz Gonzaga Jayme, nº. 62 – Alto do Bonfim / Pirenópolis GO

Telefone: 3331 1254

Idade: 75 anos

Data de nascimento: 04/02/1933

Filhos, netos e bisnetos: Tem 3 filhas e 4 netos.

Local onde nasceu: em Pirenópolis, no bairro do Bonfim.

Local onde foi criada /onde passou a infância: foi criado no bairro do Bonfim. Conheceu a mãe de s. Bastião. Trabalhou na pedreira desde os 10 anos de idade; a brincadeira era muito pouca pois naquele tempo a obediência aos pais vinha na frente de tudo. Gostava de brincar de pudi (esconde-esconde /pique) na porta de casa à noite. Trabalhou como guieiro de carro de boi e dirigia os bois gritando por seus nomes, pois cada boi tinha um nome. Nos carros de boi carregava madeira pra construção e também para lenha; trazia pedra da pedreira pra cidade – arrancava, cortava e vendia a pedra para calçamento; buscava farinha na fazenda onde morava d. Narcisa montado a cavalo. Quando era menino só haviam cinco ou seis casas no Bonfim e ainda não havia o campo de avião (campo de aviação que mais tarde tornou-se área invadida para construção de casas populares). Ele morava na rua Santa Bárbara.

Com quem foi criada? Com os pais e irmãos (11).

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Sempre morou em Pirenópolis.

O pai: José Aires da Silva, nascido em Porto Nacional, era Cabo policial antes de vir para Pirenópolis. passou por várias cidades e em 1927 veio definitivamente para cá e se casou. Casou-se com 43 anos. O pai era muito sério e respeitado, não era de muita brincadeira.Deu baixa na polícia e passou a ser cargueiro e construtor de casas. Nessa época era muito comum criar gado na cidade, até que um prefeito passou a não aceitar esta prática e mandou cercar toda a cidade. Muita gente como eles, teve que se mudar pra zona rural pra garantir o sustento da família. Moraram mais ou menos cinco anos pra uma chácara na beira do rio das Almas, criando gado e tocando uma rocinha. Depois que mudou a Prefeitura, voltaram pra cidade. Faleceu aos 87 anos de idade.

A mãe: Maria de Fonte Silva nasceu em Pirenópolis e foi criada na cidade. Ela costurava e depois que se casou trabalhou como doméstica. Cardava, fiava e tecia. Gostava de cantar trabalhando, era uma mulher muito alegre e gostava muito de ajudar. A mãe tinha 19 anos quando se casou. Também faleceu aos 87 anos. Era uma mãe muito zelosa, sempre fazia merendas de arroz doce, canjica, tudo no fogão caipira e servia cada um. Até hoje a esposa de s. Nego mantém esse costume.

Histórias:

Considera-se muito respeitador. Sempre praticou muitos esportes; jogou futebol desde os 16 anos. Tinha prazer em fazer educação física. Nunca brigou em campo ou em alguma competição.

Tinha 20 anos quando começou a trabalhar como motorista na Prefeitura. Logo conseguiu reunir dinheiro com o irmão e compraram o primeiro caminhão para transportar pedras pra Uberlândia (durante 2 anos) e depois pra São Paulo, durante 11 anos. Ele e o irmaão compraram 4 (quatro) caminhões, um a cada ano. Viu muita coisa boa e muita coisa ruim nas estradas: quando tinha 46 anos, sofreu um acidente muito grave com o irmão dirigindo, batendo de frente em outro caminhão. O irmão. Que tinha 48 anos, faleceu e Deus poupou sua vida. Ficou 9 dias na UTI. Durante um ano não esteve presente nesse mundo – nem viu passar, não tem recordação, ficou fora do ar – e quase sofreu uma cirurgia na cabeça. Machucou seriamente as pernas. Não precisou passar nenhum medo pro cérebro voltar a funcionar. Do nada, fez um barulho na cabeça dele e a mente voltou. Não tinha medo de nada naquela época. Ficou bom, curou, ia ficar na cadeira de rodas e não precisou. Tá firme hoje em dia, forte, saudável e muito jovem!

Uma vez numa festa, tinham dois tocadores, ele e outro. Nessa época ele era dançador. Como erma apenas eles dois, passaram a noite toda tocando sem poder dançar. Nesse dia ele fez uma moda de viola pra contar esta história (Pingo d’água).

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: A neta estuda na Escola Municipal Dom Bosco

Como aprendeu a ler e escrever? Estudou à noite já rapaz, mas apenas até o 2º ano. O resto que abe o mundo que ensinou, aprendeu na prática.

No que trabalha ou trabalhou? Foi guieiro de carro de boi e caminhoneiro, hoje em dia é aposentado, mas faz alguma viagem pra perto. Seu caminhão chama-se “Estimação”. Sabe trabalhar com machado, foice, enxada, marreta. É músico, toca cavaquinho, sanfona pé de bode, violão, viola e canta.

Quais são os seus saberes e fazeres? Música: além de tocar e cantar, compõe algumas modas.

Com quem aprendeu? Aprendeu a tocar pro conta própria, um dom que Deus lhe deu. O trabalho foi com o pai, que o levava pro serviço e explicava como era o trabalho e com os irmãos.

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações?

Pras pessoas da família, netos e filhos, ensinou a ter educação e a não ter vícios. Observa que os jovens precisam aprender a trabalhar; tem que estudar, mas estudar demais pode atrapalhar a fazer outras coisas importantes. “Aprender não ocupa lugar, quanto mais sabe, melhor fica”.

Miuza Correa de Sousa

Endereço: r. Jacy da Luz, Qd 3, lote 6 – Alto do Bonfim / Pirenópolis GO

Telefone: 3331

Idade: 55 anos

Data de nascimento: 13/03/1953

Filhos, netos e bisnetos: Tem 2 filhas e 4 netos.

Local onde nasceu: Nasceu na Fazenda Baixão no Povoado de 2 irmãos /Pirenópolis GO. Situa-se perto de Niquelândia, próximo ao Povoado de Quebra-linha. Dois irmãos era uma “currutela”, um “patrimoniozin” de Pirenópolis. É a filha mais nova de quatro irmãos.

Local onde foi criada /onde passou a infância: passou toda a sua infância na Fazenda Baixão, no Povoado de Dois Irmãos. Seu pai “tocava” a roça do dono da fazenda. Ela e os irmãos trabalhavam na roça com o pai e a mãe morava na casinha de adobe no “patrimônio” onde trabalhava. Na roça a casa era um ranchinho de pau a pique. Durante o dia ajudava na lida da roça – plantar, limpar a roça e vigiar pra que os passarinhos não comessem a plantação – a criançada se divertia espantando os passarinhos.

Com quem foi criada? Com os pais e irmãos.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Há 29 anos, desde 1979.

O pai: José Cândido da Silva, nascido em Goiabeira MG. A família do pai é totalmente desconhecida dela, parece que tava todo mundo “desgarrado”. Não conheceu avós nem tios paternos. Seu pai foi criado por uma madrasta que distribuiu os irmãos por diversos locais diferentes (“deu pros outros”). Seu pai era lavrador, benzedor e raizeiro. Fazia garrafada pra vender pros outros. A casa estava sempre cheia de pessoas que vinham se benzer com ele. Ela e os irmãos não podiam perguntar nada pra ele, por isso ela não aprendeu esse ofício com ele. Ela tinha 15 anos quando o pai morreu. Com a morte do pai, a mãe e os irmãos se uniram pra colher o “plantado” do ano, entregaram a parte do dono da fazenda e foram morar com a mãe no “patrimônio” (Povoado de 2 Irmãos) e trabalhar em casa de família: arrumando, lavando, passando, cuidando dos meninos. Não ganhavam nada, pois a patroa dizia que eles estavam “aprendendo”. A irmã mais velha foi pra Goiânia trabalhar e ajudou muito a família.

A mãe: Joana Correia de Sousa, nascida em Anicuns GO, perto de Minas. Seu avô materno era casado com uma índia. Quando ela era pequena (Miuza) o povo a tratava por “tapuia”, pois ela parece índia. Ela não se importava, pois nem imaginava como eram os índios. Um dia um circo passou pelo povoado e o dono do circo falou pra sua mãe tomar cuidado com ela porque se os índios passassem por ali, levariam ela, que era “purinha” índia. Dos irmãos só ela se parecia com a avó índia. A mãe então proibiu-a de sair de casa à noite. Miuza não conheceu a avó, pois a mãe dizia que ela tinha morrido. Ela não sabe se é verdade, pois parece que a mãe e o pai saíram da terra natal deles fugidos em conseqüência de alguma confusão que o pai teria arranjado por lá. A mãe contou que a avó se escondia no mato durante o resguardo quando chegava visita em casa. Miuza quer perguntar à mãe sobre a avó índia. Seu avô paterno era negro, o que explica o fato de uma de suas filhas ser bem morena. A mãe ainda é viva e sofre com alguns problemas de saúde naturais aos seus 92 anos de idade.

Histórias:

Na fazenda onde morava passava um rio, no fundo da casa onde moravam. Todos os dias ela e os irmãos se banhavam no rio no final da tarde e ficavam lá até o anoitecer. Ela adora nadar, nada melhor que um peixe. Ela pulava de cima de um barranco e nadava por debaixo da água até chegar à outra margem. Em época de chuva eles não iam ao rio pois era muito perigoso e sempre tinha tromba d’água. Uma vez, durante a época das águas foram escondidas pro rio, ela , a irmã e uma amiga. Nessa parte que elas nadavam tinha um coqueiro no meio do rio, elas então pulavam e se agarravam na folha do coqueiro pra não descer rio abaixo, só que dessa vez ela não conseguiu se agarrar. Vieram muitos troncos de jatobá, os troncos passavam por cima dela e ela mergulhava até que conseguiu se agarrar num cipó. As meninas correram a avisar sua mãe que logo chegou e a resgatou com um pedaço de pau. Foi só o prazo de sair do barranco pra levar uma surra de vara de malva nas costas e pernas. Nunca mais ela se meteu em rio brabo.

De sábado pra domingo elas faziam o “cozinhadinho”. Foi nessa brincadeira que ela aprendeu a cozinhar. O pai matava passarinho com bodoque e pedrinha de estrada. Não errava um. Trazia os passarinhos e entregava pra elas que depenavam, sapecavam, temperavam e fritavam na trempinha debaixo da latadona de cipó, perto do rio, como se fosse uma caverna. Era uma casa perfeitinha, mobiliada e tudo. Na época da chuva era perigoso cobra.

Na época da chuva a brincadeira era dentro de casa, de esconder, de cabra cega. Uma vez o pai fez uma brincadeira horrível com ela, achando que ela tava enganando e enxergando por debaixo da venda e deu um tição de fogo que ele pegou na fornalha pra ela segurar. Ela tinha uns 12 anos. Ela ficou muito temo sem falar com o pai por causa disso.

Logo que se mudou para o povoado conheceu o Zezão, seu marido até hoje, que tinha e mudado pra Dois Irmãos com toda a família (pais e irmãos). Logo passaram a namorar e se casaram. Ela tinha 15 anos e ele 27. Sua primeira filha ainda nasceu em Dois irmãos.

Mocinha de hoje em dia

Só fala em casar

Põe a panela no fogo

Mamãe vem temperar”

Quando Maria, a filha mais velha tinha apenas 1 (um) ano, mudaram-se, junto com toda a família de Zezão, pais e irmãos solteiros, para Minaçu, primeiro pra trabalhar na roça e depois para garimpar no Córrego do Macaco e no Garimpo da Serra Grande, garimpo de castelita. Era um garimpo fácil, muito valorizado; tinha ouro também. Morou nessa região durante mais ou menos sete anos, primeiro numa região de roça pra lá de Goianéisa, depois em Minaçu, numa fazenda depois em outra na beira do Rio S. Felix. Nessa última fazenda o sogro só foi acompanhando a mudança. Nesse lugar eles tiveram muito prejuízo, pois a roça era constantemente invadida por capivaras, passarinhos, formigas queimadeiras e as enchentes eram freqüentes. Mesmo assim ficaram ali durante 4 anos… Um belo dia Zezão resolveu sair pra procurar outro trabalho porque não tava dando certo aquela roça. Miuza ficou sozinha com as filhas. A casa que moravam era apenas um ranchinho coberto de palha, sem paredes. Durante a noite uma onça rondava a taperinha e ela não podia dormir com medo que a onça atacasse suas filhas na calada da noite. Isso durou aproximadamente quatro meses. Um dia ela arriou o cavalo, colocou as meninas em cima (cavalo Canário) e foi pro Garimpo do Macaco, onde o Zezão estava, morando com o irmãos, mas logo depois cansou daquela vida e largou o Zezão, vindo se encontrar com a mãe que já morava em Pirenópolis. Ficaram morando com ela, todas as quatro dormindo juntas em uma cama de solteira. Passados dois anos seu sogro trouxe o Zezão adoentado para ela cuidar. Ela rejeitou o “presente”, mas a mãe assumiu a responsabilidade de cuidar dele e desde esse tempo voltaram a viver juntos.

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: cada neto estuda em uma escola diferente: Geraldo de Morais, Luciano Peixoto, Joaquim Alves e Com. Christóvam de Oliveira.

Como aprendeu a ler e escrever? Não freqüentou a escola porque precisava ajudar o pai na lida da roça. Aprendeu a ler . Seu caderno era a casca da gueroba, a areia da praia e as pedras que escrevia com carvão. Quando eles se mudaram pro povoado, depois que o pai morreu, começou a freqüentar a escola, mas logo a professora veio embora pra Pirenópolis e eles ficaram sem escola mais uma vez. Mais recentemente cursou o EJA, já em Pirenópolis.

No que trabalha ou trabalhou? Quando criança ajudava seu pai na roça; quando jovem e no início da fase adulta, trabalhou no garimpo. Atualmente trabalha como doméstica (serviços gerais) e como educadora griô no Quintal da Aldeia /Guaimbê.

Quais são os seus saberes e fazeres? Faz farinha de mandioca, sabe cozinhar muito bem; fia no fuso e na roda; bate com arco e carda o algodão, sabe fazer o arco de bater; sabe construir trempe pra cozinhar no mato; sabe fazer fornalha (fogão caipira); adobe e fumo de rolo.

Com quem aprendeu? Com os pais

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações?

Plantar, é o que considera mais importante, saber limpar o arroz, o feijão e o milho pra planta crescer. Se não souber tirar o arroz, perde tudo. Tudo tem sua época certa de plantar e de colher, a lua certa. Porque sem alimento ninguém sobrevive e hoje em dia nenhuma criança sabe de onde vem o alimento. Aprender a cozinhar também é muito importante. Muitas coisas eu aprendi sozinha ou trabalhando na casa dos outros. Quando eu era criança só bebia remédio do mato, só conheci remédio de farmácia quando vim morar na cidade. Lombrigueiro pé mastruz, meu pai curava a gente. Observando meu pai apanhar as plantas, fui aprendendo a conhecer os remédios do mato. Não aprendi a benzer, mas estou esperando minha mãe melhorar pra ela me ensinar alguns benzimentos.

Ana da Conceição Oliveira (Taninha)

Endereço: r. Sete de Setembro, nº.48 – Alto do Bonfim / Pirenópolis GO

Telefone: 3331 2062

Idade: 62 anos

Data de nascimento: 18/09/1945 no registro – de fato: 20/05/1948

Filhos, netos e bisnetos: Tem 6 filhas e 16 netos.

Local onde nasceu: nasceu em casa em Pirenópolis GO

Local onde foi criada /onde passou a infância: na roça, no Povoado São João e depois mudou-se pra Campo Limpo.

Com quem foi criado? Com o pai, pois os pais se separaram quando ela tinha 9 anos e ela acompanhou o pai que mudou-se pra Águas Limpas, na casa da tia Celina (pros lados da Fazenda Babilônia). Ficava com a mãe durante uma semana ou duas, pois brigavam muito (a mãe a proibia de fazer as coisas que gostava). Deixou o pai nas Águas Limpas e mudou-se pra casa da cunhada Helena (e do irmão) nas Araras. Lá arranjou um namorado pra fazer birra pra mãe e menos de um mês depois fugiu com ele, a cavalo, pra se casar. As fechaduras das portas da casa rangiam alto, então ela e a cunhada lubrificou todas elas pro irmão não ouvir. O avô foi atrás com a polícia, mas não conseguiu encontrá-la. Teve três filhos com ele, mesmo sem amor. Nessa época ela foi morar na Fazenda Pedra Preta, em Artulândia (entre Jaraguá e Goianésia). Trabalhava na roça com plantação de fumo e fiava fumo também. Era divertido porque ficava no meio dos outros. Ela ia com aquele tamanha de pança (grávida) levar merenda pros homens na roça… Desde pequena adora festar. Quando era dia de baile, ela engomava com polvilho as saias rodadas e ia pras festas , flap, flap, com a saia fazendo um movimento bonito.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde os 25 anos de idade.

O pai: Luiz Basílio de Oliveira, nascido em Pirenópolis na Fazenda Raizama, lavrador. Já falecido.

A mãe: Joventina Batista de Oliveira, dona de casa. Ela acha que a mãe nasceu em Pirenópolis, pois os avós sempre moraram na cidade. Ela cozinhava, lavava roupa pros outros e fazia empadão pra vender. Já falecida.

Histórias:

Quando eu fui criada no São João, a gente gostava muito de ir pro rio, fazer barquinho nas toras de bananeira, pescar… lá tinha festa de mutirão, meu pai fazia muita comida pra tratar dos outros. Eu puxava o cavalo pra moer cana. As vacas do meu pai não tavam de bezerrinho novo e a gente ia nos vizinhos buscar leite. Meu pai falava que a gente não podia fazer bagunça porque o Pai do Mato pegava a gente, a gente não acreditou e um dia ele apareceu pra gente e todo mundo se machucou porque na fuga passamos por baixo de um rame. A nossa sorte é que o Pai do Mato não agacha, daí ele bateu no arame e não nos alcançou. Tenho a cicratriz até hoje!

Casar em fogueira de São João (Quadrilha) quase demais…. adoro essa festa!!!

Nós morava perto do rio de São João, a casa nossa era pertinho do rio. Quando eu era novinha, a gente fujia da minha mãe todo dia pra ir pro rio, ia a turma pequena pra ir pro rio, era pertinho. Um belo dia um irmão meu que não ficava muito com nóis disse: – “Pera aí, que eu vou arrumar um barco pra carregar vocês”, e nóis ia na onda dele, aí ele fazia aquele tanto de toro de bananeira, e furava ele assim e punha a gente em cima e diz que ia remando, né, e punha nóis sentado em redor dele. Daí quando ia chegando no lugar mais fundo ele ia e jogava nóis tudo lá dentro. Depois ele acodia. Ele nunca ficou junto com nóis. Toda a vida ele foi custoso, e não morava com a minha mãe não, mas quando ele ia, era só pra aprontar com nóis.Tinha uma pau lá que lá em cima, assim, ele entortava, daí ele subia nesse pau e pulava lá de cima e fingia que ele morreu lá dentro dágua, ai, daí nóis gritava, de medo dele ter morrido e a gente não dar conta de acudir ele. E nóis gritava, e pelejava pra acudir ele. Aí nóis escutou os outros falando que não queria chover e ele falou assim: -“olha, se pegar um santo, São Sebastião, e lavar ele”- nóis ficou de olho, escutando- “e molhar ele, chove, se lavar o pé dele”. Nóis juntou os meninos, fuxicou um pro outro e panhou o santo da minha mãe e nóis foi pro rio. Mais nóis pelou o santo da minha mãe tudo! Nóis rapou a tinta do santo da minha mãe, escondeu ele dela e ela, pra achar esse santo, deu o que fazer… Mas deu uma chuva!! Ih, matou peixe que chegou a feder na beirada do rio…!

Eu morava com Helena, nas Araras. Arranjava os namorados e minha mãe não gostava, corria com tudo. Pois eu arrumei um, com poucos meses resolvi fugir com ele. Não gostava dele, fugi de pirraça com minha mãe. Helena me ajudou a fugir. Sentei na garupa do cavalo e fomos parar em Jaraguá.

Lá quando ele brigava comigo, eu fazia pirraça e fugia pro campo. Tinha um tio dele que imitava a jaó pra me chamar. Eu ia. Quando ele já tava desconfiando do assovio da jaó, eu fugi com o tio dele pra cidade. Ele foi atrás e me viu beijando na boca do tio dele até. Sacou do revólver, mas eu tinha tirado as balas do revólver dele e jogado no rio. O outro foi mais rápido e sacou do revólver primeiro. Ele não veio mais pra cima. Já tinha três filhos com ele. Não gostava dele, mas a gente ia fazendo filho. Pois larguei dois com ele e levei um comigo. Minha mãe não deixou criar esses dois. Hoje tão casados lá em Jaraguá.

Fui viúva de três maridos, sou quase viúva do quarto e continuo solteira. Meu pai me registrou pra casar, quando eu tinha 15 anos. Depois descobri que eu sou touro virgem. Nasci em maio e meu pai me registrou em setembro.

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: O neto estuda na Escola Municipal Luciano Peixoto

Como aprendeu a ler e escrever? Ela morava na zona rural, em Campo Limpo, então veio pra cidade morara na casa da avó. Estudou perto da Igreja Matriz, numa escolinha paroquial, quando tinha mais ou menos 10 (dez) anos, depois foi pro Grupão Amarelo (Colégio Estadual Joaquim Alves de Oliveira).

No que trabalha ou trabalhou? Trabalhou como lavradora e atualmente trabalha como educadora griô no Quintal da Aldeia /Guaimbê. Ela trabalha agora como educadora, mas já trabalhou até de doméstica. Trabalhou na roça e depois que teve quatro filhos, arranjou outro marido e mudou pra Fazenda Barreiro, perto de Alexânia. Lá ela cozinhava pros peões da roça, engordava e matava porco, buscava gado no pasto montada a cavalo. O arroz que comiam nessa época era socado no monjolo.

Quais são os seus saberes e fazeres? Talentos para a dança (“eu danço forró pra valer!”), culinária (“gosto de fazer comida”), tecelagem e para ser mãe. Sabe costurar tapete de retalho: “a gente corta os pedaços e costura fazendo biquinho”.

Com quem aprendeu? Com os pais. O tapete ela aprendeu sozinha, cozinhar também. A mãe cozinhava mas não gostava que as crianças ficassem perto. Ela não tinha paciência pra ensinar. O pai contava muitas histórias pra ela e para os irmãos, mas ela não lembra mais…

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? Honestidade, trabalho, educação e alegria.

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