Arquivo paraRegional da Terra

Ritual de Apresentação Bola de Meia, Jaqueline e Celo

“Quem me ensinou a

nadar foi os peixinhos

do mar…

foi foi foi marinheiro

foi os peixinhos do mar…”

Jaqueline Baumgratz e Celso Pan

Não perder a memória

não parecer prepotente porque é fruto de uma caminhada de 18 anos.

Os mestres já faziam essa atividade antes de uma ação governamental. E é com esses mestres que já faziam que a gente aprendeu a chegar na escola…

Tem um modelo legal, a Folia de Reis que é cantada no portão, e a dona da casa vem abrir a porta, então, tem música pra abrir a porta…. a dona que vem receber nossa bandeira, é a diretora da escola.

Olha a metáfora: se a diretora não recebe bem a bandeira o projeto não vai acontecer!

A criação da trilha do Mestre surgiu porque o mestre já vai a muitos anos para escola e, geralmente ele transita em várias escolas de bairros diferentes.

Estamos num momento em que o mestre solicita cada vez mais que a gente vá até ele. Por causa da idade, da energia, porque se sente mais a vontade no seu lugar, no seu habitat. Um exemplo é o mestre Zé Mira, que se sente muito melhor na sua rocinha.

E é muito interessante quando o professor sai da área urbana, rompe os limites da escola e entra na área rural, com o cheiro da terra, do café tropeiro…

É importante dizer que algumas descobertas sobre a própria ancestralidade nem sempre necessitam exteriorização, principalmente quanto a mudança de nome, ou um tipo mais audacioso de vestimenta, muitas dessas transformações ocorrem principalmente de forma subjetiva, emocional.

Porém como nós atuamos na área artística pouco acrescentamos nas vestimentas porque já existe toda uma preocupação estética e lúdica construída ao longo de uma trajetória do próprio Ponto de Cultura.

“…os mestres sem mestrados, aqueles das folias de reis, das congadas e moçambiques geralmente reconhecem que há sempre algo a conhecer.

Sabem muito bem qual é o verdadeiro sentido da educação, que passa pelo respeito ao tempo do outro, pela beleza de suas bandeiras, pela força de suas crenças e pela delicadeza de seus sentimentos…” Jacqueline Baumgratz

Alguns mestres tem o entendimento que “é o aprendiz que escolhe seu mestre e não o mestre que escolhe o seu aprendiz”

Alguns consideram extremamente prepotente bater na porta de alguém, ou da escola e dizer: olha… eu tenho uma coisa pra lhe ensinar que vai mudar sua vida… não é assim que funciona.

Ao contrário do que acontece quando a escola vai visitar o mestre … ele acolhe de braços abertos e oferece tudo o que ele tem de melhor: seu saber… e daí sim, se estabelece uma relação de confiança e amorosidade… quando o mestre é demandado de uma necessidade.

Mas com o griô aprendiz é diferente, ele sim tem a tarefa de transmissão na escola do que aprendeu com o mestre, porque ele já transita na escola, é um artista, a escola não sente que vem um intruso ensinar a escola, sente que vem um artista brincar, trocar, alegrar, celebrar naquele espaço e ali há uma troca poética de afetividade e ludicidade impressionante.

O griô aprendiz vem lembrar a escola que ela é feita de gente e não só de palavras e números…ele vem lembrar que cada um ali tem uma memória ancestral que o constitui como singular e sujeito para daí então estabelecer ou re-estabelecer rituais e cele brações naquele espaço de construção do saber.

O griô aprendiz geralmente passa por um processo de construção da sua imagem, nome…como fazem os artistas…e esse processo leva um tempo ou melhor…é contínuo

Alguns são artistas e portanto já passaram por isso, já tem um cuidado estético, lúdico, poético e então para esses poderá se dar transformações muito mais de ordem subjetiva, espiritual, emocional. Vem daí muitas vezes a necessidade de talvez um adereço, um instrumento …a mim me parece, que é a atuação desse griô aprendiz como um corpo estranho e poético que mudará tudo…ele não será igual mesmo que estiver de calça jeans e camiseta…mas não custa se enfeitar….! crianças gostam de boniteza como diz uma de minhas Mestras, a Fátima Freire.

É muito importante a chegada do griô aprendiz na escola, o jeito que ele chega já encantando…é uma surpresa, causa curiosidade por parte dos alunos e professores que se perguntam: quem é essa, quem é esse…que chega cantando, trocando, que rompe o silêncio ou o ruído do cotidiano escolar…se há uma aceitação da professora o griô entra, se ela está aplicando uma prova então o griô pode ir visitar outra sala e voltar depois…o importante é não causar a impressão de que o griô aprendiz está fazendo é mais importante do que o professor está fazendo para não criar confrontos que na verdade precisam se transformar em unidade! O professor tem que ver no griô aprendiz um companheiro … alguém que veio para somar, co-laborar, trabalhar juntos.

É importante esclarecer que o griô aprendiz não vem “ensinar” o professor a trabalhar…

Isso de maneira nenhuma!…e muito menos o mestre assume essa postura… esses griôs chegaram para compartilhar um jeito brasileiro de melhor Com-viver em comunidade! Comum unidade! Celso Pan

“Oh Senhora do Rosário

a sua casa cheira …cheira cravo, cheira rosa, cheira flor de laranjeira…!”

Era uma vez…os índios, donos da terra nomearam um Vale de “Para’iwa” (Paraíba) palavra de origem Tupi que significa rio de águas turvas (porque a terra é escura), de difícil navegação, mais muito fértil na pesca e na qualidade da água. Esse nome foi dado por causa de um rio considerado federal, tamanha é sua abrangência no fornecimento de água. Sua bacia hidrográfica abrange três estados: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

O Ponto de Cultura Bola de Meia foi fundado em 1989 na cidade de São José dos Campos, interior do estado de São Paulo no Vale do Paraíba Paulista. Este Vale está localizado entre as serras do mar e da mantiqueira e desde essa época tem por missão a pesquisa e transmissão da Cultura Popular e a tradição oral Brasileira.

O ponto conhece e reconhece a missão da Ação principalmente porque se afina com a missão do próprio Ponto de Cultura que atua na pesquisa e transmissão da tradição oral e da Cultura Popular brasileira, a valorização do lugar do mestre na transmissão dos saberes e o reconhecimento de suas ações no município e região e também dentro do espaço escolar.

Através de vivências, assembléias, relatos, conversas informais, formais e virtuais, posso dizer que todos do Ponto, inclusive as crianças e os jovens possuem compreenção das práticas da ação griô no município, região e estado (através do Fórum estadual dos Pontos de Cultura) todos por aqui são divulgadores e defensores da Ação.

É importante dizer que nesse Ponto já existia uma prática de mestres irem para escolas aqui na região é o caso da Dona Lili que faz isso desde muitos anos, o Mestre Paizinho que já tem um Projeto com mais de 30 escolas em Taubaté, o próprio mestre Zé Mira, que inclusive tem trabalhado bastante com formação de professores sobre a história do homem caipira e do tropeirismo no estado de São Paulo. Porém o que a Ação Griô contribui é mesmo para a resignificação da história de vida de cada um em particular, isso eu pude perceber que houve fortalecimento principalmente em cada professor e estudante envolvido.

O Ponto vem registrando em livros, publicações, teses, pesquisas desde 1990, tal o número de publicações já realizadas com diversos parceiros privados.

Sim, principalmente a Educação para as relações étnico raciais positivas e a diversidade religiosa brasileira

Sabemos da importância da emancipação, da busca pela autonomia e então o Ponto de Cultura vem buscando através de outros projetos mais específicos fontes de fortalecimento para projetos de Valorização e Preservação da Cultura Popular e tradição oral, como foi o caso do P.A.C. estadual (Programa de Ações Culturais) para a visitação de nossa Folia de Reis em dezembro de 2007 e janeiro de 2008 no valor de R$10.000,00 que com certeza fortaleceu e ampliou a Ação na região. Utilizamos esse recurso para custear despesas com transportes, manutenção ou troca de vestimenta, estandartes, bandeiras, lapinhas, adereços etc.

Com relação a potencializar a convivência étnico-cultural na comunidade, buscamos fomentar relações de consciência histórica para eliminação de possíveis preconceitos, buscamos promover relações harmoniosas, tolerantes e pacíficas através de sessões de cinema, em palestras, oficinas de formação de educadores, contações de história, música, poesia, em relatos, sempre que possível tenta ocupar brechas para esse assunto também, porém é importante ressaltar o lugar onde está situado o Vale do Paraíba a rota dos romeiros em direção a Basílica de Aparecida do Norte, é muito forte o catolicismo, porém devido ao forte apelo de imigrantes na região encontramos representações religiosas na Umbanda, no Budismo, no Judaísmo, no Taoísmo, nos templos evangélicos etc.

Temos muitas críticas construtivas ao edital como está disposto no momento. Alguns de nossos mestres não puderam ser contemplados devido ao limite de idade, exemplo mestres mais jovens, principalmente aqueles que herdam de geração a geração, os que se legitimam na ancestralidade histórica de pai para filho como é o caso do Mestre Paizinho, filho do Mestre Paizão que é de família de quilombos tem apenas 49 anos, mas a sua Companhia data de fundação em 1947. Outra questão é o número limitado de mestres e de griôs aprendizes, para essa região que é reduto de muitos mestres de tradição oral não somente em São José dos Campos mas principalmente em cidades como São Luiz do Paraitinga, Taubaté, Guaratinguetá, Pindamonhangaba, Jacareí etc

Ás vezes,temos a impressão que qualificaria muito se houvesse um griô aprendiz para cada mestre. Pois o aprofundamento seria muito maior, os registros, a atenção, o acompanhamento e o próprio vínculo do aprendiz com seu mestre.

Outra questão levantada pelos griôs aprendizes e até por alguns mestres no decorrer do processo é: porque os mestres precisam obrigatoriamente ter um compromisso com a escola? Porque precisam ir até lá? Não que eles não gostem ou não consideram importante, mas é porque para eles muitas vezes parece um pouco forçado já que estão acostumados com a espontaneidade dos acontecimentos, como acontece nas próprias celebrações espontâneas e comunitárias já conquistadas por eles. Muitas reflexões já surgiram em nosso Ponto de Cultura inclusive se os mestres deveriam mesmo tentar forçar um diálogo com quem muitas vezes não se mostra interessado, sentimos que chega a ser muito desgastante para o mestre com mais de 80 anos percorrer esse caminho em direção a transformação da própria estrutura escolar, que muitas vezes é rígida.

Muitos mestres em diversas conversas não consideram isso o foco mais importante, eles consideram muitas vezes o fazer na comunidade mais relevante do que “brincar de professor” para quem muitas vezes nem está interessado na brincadeira.

Não é o caso do Griô aprendiz, que tem esse compromisso da transmissão oral e do conhecimento que foi repassado pelo mestre, pelo seu perfil articulador e artístico que sabe muito bem fazer a ponte de diálogo entre a academia e a tradição oral.

Alguns mestres percebem que existem escolas que só os chamam em momentos de eventos e pronto, não estão interessados em aprofundamentos.

Talvez se o edital para os Pontos ou para outras associações ou grupos organizados, contemplassem as comunidades que se comprometem com um programa educativo e de caráter formativo na Ação Griô fosse mais interessante e abrangente, principalmente para as comunidades ribeirinhas, quilombolas, reservas indígenas, terreiros porque conversando com muitos educadores chegamos a conclusão que somente o projeto pedagógico não garante esse compromisso, historicamente dentro da educação, não garante.

Ainda com relação ao edital Ação Griô não percebemos ali a figura do griô aprendiz regional, parece que não tinha esse articulador tão importante para a Ação e consequentemente uma bolsa diferenciada para ele que irá assumir um compromisso com mais de um ponto em sua região.

Não parece que seja interessante acumular funções de griô do Ponto com o griô regional, existe aqui um entendimento que isso dificulta muito a efetivação e qualificação da Ação no próprio Ponto.

Outra idéia surgida aqui no Ponto e na escola, foi a de uma equipe de assessoras pedagógicas que circulassem pelos pontos da Ação nos diversos estados, com seus saberes específicos, para além das fronteiras regionais, isso ajudaria a fortalecer uma identidade forte, “a cara do Brasil”. Por exemplo: Em minha região não tenho muitas fontes sobre algumas religiões e gostaria de ter, um exemplo é o Candomblé numa visão educativa de uma escola realmente laica ou que contemple todas as tendências espirituais daquele espaço educativo…como se fosse um templo de ancestralidade, todas as crenças ali dispostas e respeitadas.

Uma idéia interessante foi fazer um encontro de aprimoramento da prática de griô aprendiz com alguns mestres e a condução e orientação do velho griô, para trocar práticas de atividades em roda, fortalecer os papéis e o lugar de encantamento desse griô aprendiz.

Ainda no edital chegamos a refletir com as pessoas do Ponto de Cultura que não deveria existir uma carga horária obrigatória para os mestres pois para alguns é muito puxada e para outros é insuficiente pois extrapolam em muito essa atuação. Quem sabe se fosse uma espécie de bolsa-prêmio que se apoiaria muito mais no compromisso, envolvimento e conquista da sua importante atuação comunitária.

“Eu sou congueiro pois eu gosto de dançar… a minha congada é boa desce o morro devagar…”

A escola vem a cada momento abrindo espaços em sua agenda e programas para a Ação Griô. Percebemos que devido ao empenho e envolvimento da orientadora pedagógica Rosângela Ribeiro, com o Ponto de Cultura e automaticamente com a proposta do Projeto Ação Griô é que muitas ações afirmativas foram aos poucos ocorrendo não somente para os educadores e estudantes do primeiro ciclo mas estendendo pra o segundo ciclo, para a comunidade através de suas reuniãos e inclusive para a rede municipal de ensino que conta com mais de 2000 professores.

A escola possui cerca de 1.250 alunos e cerca de 42 professores. A Ação Griô já atuou com todos eles através de vivências em reuniões de HTC (Hora de trabalho coletivo). Eles vão para a escola duas vezes por semana em período contrário de aula e trabalham coletivamente durante 2h30min em cada HTC e recebem por isso o que facilita muito a nossa atuação.

Os dois professores que tem a sua sala mais diretamente ligada ao projeto estão bem disponíveis para as atividades propostas. Foi conquistada uma abertura para isso.

A escola se preocupa com a questão da diferença e convivência religiosa. Cada professor trabalha o tema de forma muito criativa, a partir de cine vídeos e debates, na sala de leitura, com palestrantes, na apreciação de manifestações.

Existe nessa escola uma cultura religiosa predominantemente católica e essa conversa sobre introduzir outros ritos e celebrações vem sendo a passos lentos avançados. Os alunos oram o Pai Nosso todos os dias antes do início das atividades, num pátio aberto, já é cultural isso lá. Porém penso que para alguns estudantes essa prática não é nada mais que um costume, uma tradição escolar e por isso quase nunca é questionada, também não é obrigatória…mas é incrível a adesão, é quase 100%, tão forte é a religião católica nesse contexto escolar.

Os educadores de uma forma geral nessa rede municipal de ensino já possuem a prática da valorização dos mestres da tradição oral e da Cultura popular da região. Sinto que nessa escola não era diferente, porém os educadores de EMEF Sebastiana Cobra passaram a fazê-lo muito mais encantadoramente a partir do projeto “Encontro de Bandeiras” apresentado para o Programa Ação Griô.

Estamos num contínuo processo de conquista sobre a essa consciência. Da diversidade e do respeito às crenças no Brasil.

A escola já vinha de uma relação forte com as atividades junto ao Ponto de Cultura Bola de Meia, principalmente na formação de educadores através da Secretaria Municipal de Ensino. Essa relação com a maioria dos educadores já foi estabelecida em outros contextos e espaços… até mesmo através da mídia televisiva que sempre foi muito generosa com as atividades de preservação cultural realizadas pelo Ponto de Cultura.. então foi bem mais fácil para os griôs aprendizes do Ponto dar continuidade de forma mais efetiva e constante.

Os griôs são sempre muito valorizados e reconhecidos pela escola e pela comunidade. É o terceiro ano que a Folia de Reis de São José, realizado pelo Bola de Meia visita essa escola e é uma atividade muito significativa e uma relação de proximidade da comunidade com os mestres de tradição oral que é simplesmente emocionante e festiva. A Folia de Reis resolve a questão da diversidade religiosa em parte porque ela é uma celebração popular, profana, não reconhecida oficialmente pela igreja católica no Brasil.

Também o Ponto de Cultura atua nessa escola com espetáculos artísticos para as crianças sempre com temas relacionados a tradição comprovados em filme e fotos. No ano de 2006 apresentamos um musical chamado “Contadores de causos” e no ano de 2007 nos concentramos na Folia de Reis e na presença da Mestre Figureira Dona Lili com suas oficinas de figuras de barro, principalmente figuras de presépios.

A escola compreende o valor do projeto, ela percebe que o Projeto trará ainda mais avanços qualitativos para o processo de ensino-aprendizagem. Porém é uma escola muito grande e existem inúmeros outros problemas e demandas administrativas, relacionais e burocráticas. Casos de violência infantil e de desestruturações familiares que interferem diretamente no cotidiano da escola.

Os mestres são muito respeitados pelos professores e pelos pais que reconhecem seu lugar. Porém não é possível dizer que isso também se dá com a maioria dos alunos, parece que tem uma faixa etária mais aberta e encantada com a figura do mestre e os jovens já demonstram mais intolerância na transferência desses saberes.

Na comunidade e no Ponto de Cultura onde o mestre e os griôs aprendizes estão inseridos suas atuações são contínuas, reconhecidas e valorizadas.

Essa escola parceira e a comunidade escolar é ainda difícil identificar grandes transformações, elas parecem se dar de forma mais sutil em cada indivíduo. Mas há relatos da equipe de direção da escola que inclusive, coincidência ou não, muitos problemas relacionais existentes anteriormente já foram superados, existe uma convivência mais afetiva e participativa no ambiente escolar.

Também é possível verificar transformações através da produção artística de crianças e educadores que foram ensinados pelo mestre e pelo griô aprendiz como brinquedos, bonecos, fantoches, jogos, cantigas e histórias de tradição oral de diversos países.

“Nas ondas do mar eu vejo um laço de fita branca…não é fita não é nada é a maré que se levanta…”

Diríamos que os griôs e mestres vêm preservando sua história e talvez até recriando novos projetos para suas vidas a partir da afirmação de sua ancestralidade e identidade cultural.

Diríamos que alguns educadores vêm redescobrindo e outros descobrindo sua história e estabelecendo novos projetos para suas vidas a partir de uma maturidade e reconhecimento de sua ancestralidade e identidade cultural.

Posso dizer que os griôs aprendizes nesse Projeto “Encontro de Bandeiras” vem preservando suas histórias de vida, buscando cada vez mais a postura de sujeito e não de objeto de sua história que vai sendo tecida juntamente com o descobrimento de sua força ancestral e a possibilidade de transformações em direção a uma identidade honesta, que faça sentido e promova de fato o empoderamento de sua atuação artística, humanística, libertária e sócio-cultural.

Acreditamos que nesse ano de realização, todos os envolvidos na Ação Griô vêem em parte preservando o que considera importante preservar e recriando o que considera importante recriar a fim de avançar na construção de sua própria história e escolhendo novos projetos para sua vida com base na consciência de sua ancestralidade.

Os estudantes vêm criando sua história e vem vivendo a vida, tecendo-a com maior consciência de sua ancestralidade e importância do desenvolvimento de uma identidade própria.

CEACA – através de Mestre Alcides e Rodrigo Pança

CEACA – Mestre Alcides e Rodrigo Pança

Queremos provocar um diálogo entre cultua popular (informal) e cultura formal, isso usando como fio condutor a Capoeira, Maculelê, Samba de Roda, Samba Duro e o Coco, e com grande reforço na Oralidade que entendemos ser o princípio do verdadeiro Griô (Diêli em Bambara).

Eu vou fazer uma homenagem,

Do fundo do coração,

Não quero que batem palmas,

Quero que prestem atenção

Pros meninos do Ação Griô,

Isto serve muito bem,

Eles cantam, jogam e dançam,

Eles sempre me querer bem,

Quem falar mal dos meninos,

Não gosta de mais ninguém,

Ê, ê, ê, ê, diLelê

Ê, ê dilelê camará…

Alcides de Lima, Mestre de Tradição Oral

Todo projeto pedagógico do CEAC, Centro de Estudos e Aplicação da Capoeira, é fruto de longa caminhada que remete ao final dos anos sessenta (1969), quando Mestre Alcides na USP iniciou com Mestre Eli Pimenta sua volta ao mundo na capoeira, dedicando ao caminho da arte procurou sempre buscar a histórica e a cultura contida no universo da capoeiragem. Em 1988 fundou o C.E.A.CA (Centro de Estudos e Aplicação da Capoeira), tendo como objetivo principal a formação de um grupo de pesquisa Cultura e Educação usando a capoeira como “método de ensino e aprendizagem”, tendo como resultado materiais didáticos pedagógicos, apostila, registros, CD`s e DVD´s, dos quais fazem parte do acervo do CEACA que são usados na elaboração de trabalhos destinados aos alunos.

A partir de 1990, esta idéia se materializou com projetos de cultura popular brasileira em escolas de ensino fundamental localizada em São Paulo, e na Universidade de São Paulo com o “Projeto Minha História” em parceria com o Departamento de História da USP destinado a crianças carentes das comunidades do entorno à Universidade. Por esse desenvolvido teve participações no Laboratório de Estudo da Criança (LACRI), no Simpósio Nacional coordenado pelo Instituto de Psicologia da USP nos anos de 1995 a 1999, neste mesmo período Mestre Alcides recebeu o convite dos Departamentos de Antropologia, Dança e Música da Universidade Estadual do Colorado, Co, na cidade de Fort Collins-USA, para atender crianças com a faixa etária de 6 a 10 anos.

Em abril de 2000 através do “Projeto Crer Pra Ver”, com uma equipe de agentes multiplicadores já capacitados iniciou um projeto de cultura popular brasileira na EMEF Des. Amorim Lima, que atendia toda comunidade escolar e comunidade do entorno. Em 2004 o projeto passou a integrar o projeto pedagógico da escola, e em 2005 fomos selecionados pelo edital Ponto de Cultura tornando se o “Ponto de Cultura Amorim Rima”. Sendo Ponto de Cultura pretendíamos ampliar nossas ações com o Projeto Ação Griô que com isso valorizando e reconhecendo os donos dos saberes populares que são nossos acervos vivos.

História de vida de Mestre Durval

Infância

Durval António da Silva, nascido no estado de Pernambuco, na Cidade Garanhuns, senhor de 71 anos de idade sendo que destes 50 são de dedicação ao coco.

Aos 7 anos de idade, morou em Caetés, na época era um humilde bairro, hoje uma cidade do estado de Pernambuco. Residiu no Sítio “Pedra Grande”, que pertencia ao tio, irmão de sua mãe, também morava seu avô que devido sua deficiência visual seguido de sua idade tinha dificuldades de se locomover sem ajuda de alguém, “Seu Durval” por ter poucas obrigações e ser menino era o principal ajudante do avô.

Como era um lugar onde existiam muitas fazendas, os fazendeiros da região costumavam realizar, nas noites de lua cheia, para relaxar e esquecer o dia árduo de trabalho, uma festa, onde todos das fazendas vizinhas eram convidados.

Nessas festas, era comum ouvir homens e mulheres cantarem, somente ao som das palmas, suas entoadas, suas cantigas, suas músicas, que geralmente ludibriavam um dia de trabalho, o plantio, a colheita, reverenciavam algum antepassado ou ancestral, ou até mesmo num tom de brincadeira desafiavam uns aos outros. E foi em meio desses festejos nas fazendas que “Seu Durval” ainda garoto presenciou e se encantou pela Cultura Popular.

Na sua juventude, saindo do Sítio de seu tio, indo para a Olinda mais precisamente no bairro Sapucaia, foi morar na Vacaria do Tenente “Tóta,” que oferecia-lhe moradia, roupa e comida em troca de serviços como: cuidar das vacas e realizar os mandados de seu patrão. Nos dias que não tinha trabalho gostava muito de ir passear pelo famoso Mercado de São José e pelo Cais de Santa Rita. Num belo dia ensolarado e quente, daqueles que só o nordeste brasileiro tem, lá estava o jovem Durval passeando pelo movimentado Mercado de São José, de repente ele se depara com uma multidão parada, plantada, bem no meio do parque do mercado, ele muito curioso, foi se aproximando para ver o que acontecia e para saber por que aquelas pessoas estavam ali, a cada instante que se aproximava da multidão podia perceber que ao centro havia duas pessoas, um diante do outro, tocando pandeiro e cantando versos em trova, que ora eram dirigidos tanto de um para o outro, em outras vezes a alguém que estava ali em volta observando o duelo de trovadores, logo que chegou bem pertinho pode apreciar o que acontecia no centro, avistou uma coisa que mais chamou sua atenção, a música que os dois coquistas cantavam. Participando das festas de Coco na cidade de Recife aprendeu o instrumento que mais lhe agradava na orquestra de coco, o ganzá que utilizou para acompanhar os versos que começava a fazer, no entanto, Mestre Durval não queria fazer igual queria fazer melhor que os outros coquistas, porque os versos entoados eram frases feitas para serem decorados, dessa forma, decidiu fazer, algo que pudesse ser livre na forma de cantar, algo que fosse improvisado ali, no ato, que ao mesmo tempo contasse uma história do passado ou um fato do presente que invariavelmente fosse tratado um tema recorrente, de aviso, uma sabedoria popular ou como expressão de sentimentos enviesada pelo coro que realiza a chamada para o próximo verso. Assim sendo, começou a cantar o “Coco de Improviso”, essa variação requer do coquista uma alta capacidade de improvisação, seus versos são rimados e bastante eufóricos.

Maturidade

Aos 28 anos, em Olinda, “Seu Durval” de passagem por Recife, é convidado por um amigo para ir a uma festa, em um Clube de Dominó. Chegando ao lugar, já era tarde e o festejo estava terminando, uma pessoa que o conhecia e sabia da sua habilidade de cantar, chamou-o e pediu que cantasse algum coco e completou “aonde tu chega é zum-zum-zum”, o Mestre, no instante que ouviu aquilo rapidamente brotou em sua mente um verso, subiu no palco e pediu que as pessoas cantassem em coro:

“O Durval Velho aonde tu

Chega é zum-zum-zum”

Essa foi à primeira vez que ele se apresentou diante de tanta gente.

Em Olinda, no bairro de Peixinho, “Seu Durval passa ser integrante do Clube de Dominó de sua comunidade, foi nomeado Orador oficial, realizou muitos campeonatos de dominó e em inúmeras vezes recebeu convites para cantar nas festas, bailes caipiras e batucadas do lugar.Em uma de suas apresentações na Sede do Clube, utilizando-se do refrão de uma música cantada pelo coquista Luis França (mais conhecido como: Luiz Boquinha) famoso no nordeste brasileiro por cantar nas rádios: Tamandaré, radio Clube do Pernambuco e a radio Jornal.

Mestre Durval deixa seu recado para o presidente:

Ele seguiu com os versos:

“É quinze, quatorze, treze

Doze, onze, dez e nove

Só faz lama quando chove

Nas terras de Garanhuns

Passaro preto é o Anum

Que tem um vinco no bico

Oito, sete, seis, cinco

Quatro, três, dois e um”.

(coro) Senhor presidente

Tenha de nós compaixão

Se não congelar os preços

Dinheiro não resolve não

(Improviso)

Veja que a nossa nação

Tem muitos passando fome

Nós precisamos de um homem

Pra governar o povão

Falta arroz, falta farinha

Alguns que criam galinha

Que façam a composição

(Coro)Senhor presidente

Tenha de nós compaixão

Se não congelar os preços

Dinheiro não resolve não

Com 39 anos de idade, ele e sua família foram para São Paulo, à procura de novas oportunidades de trabalho, chegando à capital paulistana conseguiu emprego na Usina Israelense Colombina onde permaneceu cerca de 6 anos, depois, desempregado novamente, saiu em busca de um novo trabalho, chegou a fazer algumas entrevistas em algumas fábricas da cidade, porém sem sucesso de admissão. Por um longo período sofreu alguns momentos de depressão, até ficar afastado por tempo indeterminado de qualquer vinculo empregatício.

Morador da comunidade do Jaguaré conheceu Valter (o Valtão) que, por sua vez, conhecia o trabalho do CEACA com a cultura popular e apresentou “Seu Durval” ao grupo. Nos anos 2005 e 2006 apresentou com sua família a dança do coco de improviso nas festas do CEACA e desenvolveu oficinas de coco para os alunos do grupo.

No final de 2006 é convidado para participar do Projeto Ação Griô Nacional para ser o Mestre Griô da Tradição Oral no Ponto de Cultura Amorim Rima e realizar um trabalho com a Cultura Popular voltado para o currículo escolar e a comunidade em torno. Considera o coco raiz que faz como uma forma de comunicação, de expressão e de transmissão de conhecimentos através da musicalidade, da expressão verbal e corporal.

A musicalidade se desenvolve nos instrumentos com o ritmo do coco, numa linha melódica representativa de um lamento, uma louvação, uma saudação, ou de qualquer outro elemento cotidiano.

A dança característica do coco é em roda com um par ao centro, tem o passo ritmado pelo batuque do atabaque, do ganzá e o pandeiro, os dançarinos representam corporalmente a expressão da manifestação através da espontaneidade da brincadeira com os seus corpos.

Mestre Alcides

Nosso desafio aqui é fazer com que a escrita dialogue com o mundo da oralidade, ande com ela, as crianças e adolescentes possam ler emoções nos semblantes dos seus pares, possa observar as estrelas, o sol no horário de saída para a escola, observando se necessário levar agasalho, quando manusear um instrumento, explorar quais notas musicais possam tirar, essa leitura ágrafa lhes dará condições riquíssimas no seu desenvolvimento cognitivo, fazer uma leitura minuciosa em uma obra de arte, etc.

A tradição oral tem como característica fundamental a incansável repetição fidedigna do discurso do fato narrado, isso para que haja uma reprodução da narrativa daquilo que deve ser repassado das antigas gerações para as novas, se faz necessário uma linguagem simples e associada a dinâmica do dia-a-dia do indivíduo (pode ser também um conto ou um mito ligado “a ancestralidade daquele grupo) e/ou de sua comunidade.

A hierarquia e o reconhecimento da sabedoria dos mais velhos é um dos pontos fundamentais, é o ápice do fundamento na manutenção das tradições da oralidade, isso se reconhece e se expressa nas manifestações dessa comunidade tais como: festas religiosas, casamentos, rezas e rituais de passagem.

Vou analisar fatos ocorridos nas minhas dinâmicas de oficinas e conversas com crianças, adolescentes e adultos da escola e da comunidade onde atuo, vamos usar essa prática para contextualizar a fala das pessoas e para que elas possam passar de objeto para sujeito de suas ações, sempre enviarei na medida do possível, fotos ou trabalhos escritos ou comentários que ouço por alguém sobre o trabalho ou sobre cada tema. Os nomes dos atores poderão se fictício, quando for comprometer negativamente o autor, quando for uma letra de música, se não for de domínio público citarei o autor.

No primeiro caso analisarei a letra de uma música cantada por Clementina de Jesus,

Xique xique Macambira,

filho de preto d’angola,

inda bem não sabe lê

já que cê mestre de escola

Nessa quadra podemos observar a fala, ou o recado de alguém que conhece os fundamentos da tradição oral, ele está criticando um mais jovem que acha que está acima dos mais velhos, é como o ditado, “quer ensinar Pai nosso ao Vigário”, isso geralmente é cantado quando se quer mandar um recado a alguém, e ele deve enterder a mensagem, mas muitos não entendem, quando vejo nos olhos atentos muita ansiedade querendo aprender tudo em muito pouco tempo como na Internet, eu digo “oxotokanxoxo”, paciência, paciência e muita paciência, é a mitologia do arqueiro de uma flecha só, Reide Oyó (Oxóssi).

Trabalhamos com um público de crianças, adolescentes e adultos, somados serão mais de 500 (quando digo, ná, é porque nós trabalhamos em equipe e todos com exceção do Mestre Durval, trabalhamos com as mesma modalidades, só que com grupos diferentes).

As oficinas são de:

Capoeira, Samba de roda, Samba duro, Maculelê, Puxada de rede e Coco, todas elas terão parte histórica e prática.

Na parte histórica, contamos sua origem e onde é praticada, qual o objetivo e a época do ano que acontece, temos as indumentária para cada uma delas, as crianças aprendem as letras das músicas e as coreografias de todas as danças, isso feito são apresentados em ocasiões festivas da escola e apresentações fora da escola, ou seja para comunidade , todas as crianças aprendem os instrumentos, fazemos poderei citar algumas.

Nossas atividades fazem parte da dinâmica pedagógica da Escola Des. Amorim Lima, as oficinas fazem parte da grade escolar da 1ª a 5ª séries de 2ª a 6ª feiras da seguinte forma: 2ª e 6ª das 07:00 às 12:00hs, 3ª,4ª e 5ª feiras, das 13:00 às 18:00hs, e para a comunidade escolar: 3ª e 5ª das 18:00 às 19:00hs e aos sábados das 09:00 as 12:00hs para a comunidade Geral.

Materiais Didáticos

CEACA – Centro de Estudos e Aplicação da Capoeira

“Expresse-se com consciência faça capoeira”

EMEF Dês. Amorim Lima – Material de apoio didático

Justificativa

Preocupados com a qualidade do ensino da capoeira na escola EMEF Dês. Amorim Lima e o seu alinhamento com o projeto pedagógico da escola de ensino de qualidade e valorização da cultura oral, o CEACA volta os seus esforços para a construção de um material de apoio didático para as aulas de capoeira ministradas no currículo escolar.

Objetivos

Este material tem como objetivo dar apoio às aulas práticas já ministradas sobre os conhecimentos da capoeira e do coco, e os elementos que as constituem, ajudando as crianças na construção das relações com elementos escolares e da sua vida cotidiana, além de fazer parte do processo avaliativo e comparativo do desenvolvimento da criança quanto à capoeira.

Método

Escolha de temas relacionados com a capoeira (capoeira, ritmo, samba de roda/duro, maculelê, Zumbi dos Palmares e Puxada de Rede).

Desenvolvimento de material de apoio sobre os temas com a preocupação de não fugir daquilo que foi proposto nas aulas práticas e do cotidiano escolar e familiar da criança para que não ocorra uma descontextualização do material teórico oferecido.

As aulas práticas seguirão normalmente com a escolha do tema e o seu desenvolvimento já trabalhado normalmente pelo CEACA, apresentação do tema, atividades lúdicas contextualizadas, contextualização histórica e prática, curiosidades, valorização cultural, vivência e roda de conversa. O material de apoio seria apresentado no final da aula, com um debate geral sobre o tema e explanação sobre o material de apoio e aquilo que ele propõe com leitura conjunta professores e crianças. O material é recolhido pelos professores e analisado na semana seguinte.

CEACA – Centro de Estudos e Aplicação da Capoeira

“Expresse-se com consciência faça capoeira”

NOME: SÉRIE: DATA:

BRASIL E ÁFRICA

Em 1700, em uma tribo africana vivia uma criança chamada abámodá que significa “o que você deseja você faz”. Ele foi separado de sua tribo e veio em um navio negreiro para o brasil. Foi vendido para um senhor de engenho e teve o seu nome trocado por joão.

O pequeno sentia muitas saudades da áfrica e dos seus animais de estimação, por isso ficou amigo de um macaquinho que vivia próximo da fazenda deu comida e um nome uhuru que significa liberdade, juntos brincavam na mata próxima da fazenda.

Quando tinha roda de capoeira na senzala o pequeno joão ficava com vontade de jogar, mas os adultos não o deixavam com medo dele se machucar.

Então olhando o seu amigo uhuru pular de costas e cair em pé, pensou: se eu fizer isso vou poder entrar na roda de capoeira.

Na roda de capoeira quando o pequeno joão entrou pulando como o macaquinho, todos gostaram pedindo para ele ensinar e o chamaram novamente na roda de capoeira de abámodá.

QUESTÕES: peça ajuda aos amigos, pais ou professores.

1- como voce se sentiria no lugar de ábamodá se fosse separado de sua familia e de seus amigos.

2- recorte e cole no verso da folha figuras que lembrem a cultura africana e a brasileira.

Atividades do maculelê: peça ajuda aos pais, amigos e professores

1 – copie a música de maculelê

Boa noite pra quem é de boa noite

Bom dia pra quem é de bom dia.

A benção meu papai a benção.

Maculelê é o rei da valentia.

2 -Leia a música que conta a história do menino maculelê.

Maculelê

Certo dia na cabana um guerreiro

Foi atacado por uma tribo pra valer

Saiu de salto mortal e gritou

Pula menino que eu sou maculelê

Cuma é meu nome?

É maculelê

De onde eu venho?

É maculelê

Venho de santa barbara

É maculelê

Toco atabaque

É maculelê

3- desenhe como você acha que aconteceu a história do maculelê.

Nome: turma

Peça ajuda aos seus pais, amigos e professores nas atividades:

Canção da partida

Dorival caymmi

Minha jangada vai sair pro mar

Vou trabalhar meu bem querer

Se deus quiser quando eu voltar do mar

Um peixe bom eu vou trazer

Meus companheiros também vão voltar

E a deus do céu vamos agradecer

1- Saiba um pouco mais sobre a puxada de rede.

A pesca do xaréu é um momento de trabalho, de canseiras, mas também de beleza, de poesia, de música e de cantos. De outubro a abril, os xaréus (peixe) vão para o norte em grandes cardumes para a desova, procurando climas mais quentes. Os pescadores das praias de salvador lançam-se à sua tarefa cumprindo os mesmos trabalhos dos seus antepassados, trabalhos que vêm dos tempos da colônia, do império, da república até os dias atuais. E esta tradição não morre, mesmo porque dela depende a alimentação de centenas de famílias, que todos os anos se repete no mesmo ritual dos tempos passados.

2- Recorte e cole neste espaço 5 (cinco) imagens de revistas, jornais relacionadas com o mar e escreva o nome da imagem, como no exemplo:

Ondas (desenho)

3- Monte frases com as palavras que você recolheu das revistas:

4- Caso você morasse na praia o que você faria para viver? Responda escrevendo ou desenhando.

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“CEACA – Significa – Centro de Estudos e Aplicação da Capoeira, para você ser um bom capoeirista, tem que se esforçar, tem que ter respeito com os professores, colegas, pais, etc… Para saber fazer golpes, precisa treinar muito e ter disciplina pra você ser um ótimo capoeirista, precisa treinar muito, ter respeito com os professores e colegas, esforçar-se e ter disciplina, Eu não sei se eu faço tudo isso mas eu me esforço” – Juliana Petreli – 10 anos 4º Série

“Um dia eu queria um esporte só para mim, que tivesse a minha raça, com o Brasil dentro de mim. Ele se chama Capoeira como o Brasil sempre quis, uma cultura como esta todos querem ter”Stephane dos Santos Moreira (Link) 12 anos 6º Série

“Conte conosco, capoeira da gosto vai e vem capoeira faz bem, capoeira nunca vai acabar porque novas crianças entrará, capoeira nasceu e sempre pertenceu…?”Diogo de Souza Cardoso – 14 anos 7º Série C

“Um capoeirista joga sempre com o coração, capoeira é pra homem, menino e mulher, só não joga quem não quer Capoeira é brasileira, quem criou é de angola, depois de muita luta veio parar na escola” – Diego de Souza Cardoso – 14 anos 6º Série A

“ A capoeira faz uma homenagem a uma mata chamada capoeira”

Ana Carolina da S. Oliveira – 08 anos –2º Série A

“A capoeira é muito legal é importante, tudo é importante na capoeira, na capoeira não tem violência, a capoeira é tão legal que eu acho que todo mundo quer fazer ”– Ana Carla – 08 anos 2º Série B

“Eu quero ser um profissional de capoeira, espero que a capoeira cresça mais e mais, minha família gosta muito do que eu faço capoeira”– Kauã Paulo de Oliveira – 08 anos

“Meu nome é Raissa, eu jogo Capoeira Bem ”
Raissa B. Acissis – 08 anos – 2º série

“A capoeira é importante para mim porque acho ela muito interessante”Lissandro – 11 anos 3º Série C

“Na capoeira não adianta só ganhar o cordão, também tem que ter paixão”– Camila Franco Martins – 12 anos – 6ºA.

“Capoeira é legal, na capoeira eu fiz muitos amigos, praticando a capoeira eu faço muitos exercícios ”– Phillip Vieira Gonçalves – 07 anos

“A capoeira fortalece nossos músculos, nossa ginga tem que ser com o joelho dobrado *(flexionado), nós ficamos bem disciplinados, eu adoro a capoeira e estou no cordão verde, o cordão é a coisa mais importante do meu grupo, IÊ, quer dizer *silêncio, nós tivemos votação para o representante”– Ynaê de Oliveira Bomfim – 08 anos 2º Série C *Grifo: Nosso

Como nos escritos das crianças, não poderíamos deixar de tornar pública as opiniões, anseios e esperança dos pais, são eles quem participam, incentivam, cobram e criticam, e são eles a referência de sabedoria e excelência para seus filhos. Nesse painel vocês irão conhecerem a opinião sincera de alguns deles, foi por mim (Mestre Alcides), lida com carinho todas as mensagens (+ ou – 150), e como não teria a necessidade expor todas, escolhi essas, deixando claro que as outras que não foram ao painel contém os mesmos conteúdos e a mesma importância, esse número foi pensado para não tornar muito cansativo a leitura dos painéis.

Mestre Alcides

O que os pais desejam e esperam das oficinas de capoeira para seus filhos…

“Conhecimento e possibilidades do uso do corpo, do espaço e controle de emoções explosivas”– Mãe: Fátima D’auria

“Obediência, Atenção, Educação, Melhoramento `Físico e Mental”
Pai: Renato Fusco

“Que ele possa um dia ser um professor para ensinar tudo que aprendeu”– Mãe: Janete Medeiro de Souza

“Conhecimento das nossas tradições culturais Afro Brasileiros e Disciplina, respeito por todos os idosos e novos professores e alunos”– Pai: Julio Cesar de Campos

“Desenvolvimento físico e social, a capoeira desenvolve a criança em todas as situações”– Pai: Wagner Eduardo Ogata

“Espero que a capoeira possa ajudar meu filho a se desenvolver” OBS: Os pais que não se identificaram –
Nome do filho: Marcos Paulo Fortes 07anos

“Pode ajudar no seu crescimento, e também nos estudos podendo ele conhecer bem melhor a capoeira, não como uma luta, mas sim como uma dança folclórica ”– Pai: José Gideoni Santos

“Sobre a proposta da escola”

Pelo fato de ser um trabalho em grupo, ele vai aprender a ter responsabilidade e respeito com próximo”– Mãe: Ana Lúcia Vasco de Souza

”Eu espero que a capoeira ajuda a meu filho ao modo de agir, e ajudar ao seu próximo”– Mãe: Domênica Campos Teixeira

Espero que possa influir no seu desenvolvimento físico e no equilibrio emocional” “Sempre é bom descobrir que tem alguma possibilidade e aprender novas coisas, adquirir novos conhecimentos”– Pai: Bento Bueno

Gosto da Oficina de Capoeira, porque as crianças venham a gostar do esporte, a proposta dessas oficinas é bom. Tomara que todas as escolas tomem essa iniciativa parabéns pelo projeto ”– Pai: Emerson Santos de Souza

É uma dança ou esporte que ajuda a movimentar seu corpo, ajudando a manter um bom equilibrio, onde também ela aprende a se defender, e ter respeito pelo próximo”– Mãe: Neide Vieira Ferreira

1º Lugar acabar com a timidez e chegar até mesmo ser um professor”

Pai: Antonio Souza Silva

Eu espero que ele seja um bom capoeirista”

Mãe: Valdete Pereira Ribeiro

Espero que ajude na disciplina pessoal dele e que ele possa conhecer as raízes da cultura de onde começou esse jogo-dança, e também quem sabe conhecer até outros paises”– Mãe: Maria das Graças da Silva

Disciplina, capacidade física, organização e muito mais”

Mãe: Florinda Nogueira Kato

“Eu acredito que a capoeira estimula a disciplina e o respeito entre as pessoas”– Mãe: Márcia Peres Pereira “Eu gosto muito, pois faz com que a criança seja mais participativa, comprometida e e principalmente feliz” – Pai: Márcio P Pereira

Que possa aprender muitas coisas legais, e que no futuro ele possa passar para outras crianças o que ele aprendeu”– “É uma forma deles verem o mundo com outros olhos” Mãe: Rosilane Silva

Espero que ela continue sempre dando valor pela capoeira, e no professor que é uma pessoa muito dedicada e atencioso com os alunos, e que mais tarde ele também possa passar tudo isso de bom que ela aprendeu para essa na geração que vem vindo, e gosto da proposta porque ele faça com que a criança se interesse mais pela escola, e não ir a escola só para ler e escrever ” Mãe: Hortência Ferreira de Mattos

Mais tranquilidade, respeito pelos colegas, mesmo que seja um jogo através de luta não existe agressão física” Mãe: Renata Campos da Silva

Desenvolve o corpo e mente, pratique esporte, pois é muito importante para o cognitivo e ajuda a criança na aprendizagem escolar” Mãe: da Aluna Nathalia Silva de Menezes – 08 anos – 2ºB

Melhorar os reflexos, o equilibrio, a coordenação motora, estender que é um exercício físico e não um jogo bruto e violento” “Gosto porque as crianças tem oportunidade de conhecer novas culturas, praticar exercícios, desenvolver a auto-estima, melhorar a coordenação motora fina e grossa e aprender rítimos musicais Mãe: Angela Gravino

Maior autonomia física e psica, maior segurança e conhecimento próprio corpo, maior controle emocional” “Amo de paixão, pois percebe a criança como um universo de possibilidades e da oportunidades para que elas possam perceber suas múltiplas habilidades Mãe: Mércia Consolação Silva

VI – BATIZADO CEACA EMEF DES. AMORIM LIMA 2006

ROTEIRO DA PEÇA: MALTAS DE ONTEM E HOJE

Tema: Ação política das duas principais maltas (guaiamuns e nagôs) de capoeira do rio de janeiro da segunda metade do séc. Xix (1850-1940)

Personagens:

Policiais a paisana- Policiais da cavalaria- Nagôs- Guaiamuns- Catingueles amorim lima- Narradora – natália

Ato 1 – CENA 1 – Apresentação das maltas.

Ação:Apresentação das características de cada malta.

Narradora

- O que vamos apresentar neste batizado é a importância e a participação das maltas de capoeira na cidade do Rio de Janeiro e na política do país de 1850, até nossos dias.

– O seu desaparecimento exato não podemos precisar, mas sabemos com a proclamação da republica em 1889 a capoeira e as maltas foram proibidas por lei.

- Falaremos de duas maltas:

- Os Guaiamuns (entra um Guaiamum (assoviando), chamando os outros e formando a roda sentada) que usavam lenço vermelho e participavam dos movimentos políticos em prol da republica.

- Os Nagôs (entra um Nagô (assoviando), chamando os outros e formando a roda sentada) que usavam lenço branco e participavam dos movimentos políticos em prol da monarquia.

CENA 2 – Confronto com os policiais.

Ação: Os policiais tentam adivinhar quem é capoeira para prender e apanham.

Jogo de capoeira com as crianças jogando, entra os policiais a paisana perto da roda, conversam entre si e saem. (toque da cavalaria)

Todos(toque da cavalaria) – todos disfarçam. No centro ficam as crianças que vão atuar com os policiais

Todos (fim do toque de cavalaria) – policiais da cavalaria entram atiçando os capoeiras estes se esquivam e saem gritando (corre é a polícia!!!!).

Todos – fuga dos capoeiristas, todos saem de cena correndo em direções diversas.

CENA 3 – Confronto das maltas.

Ação: Formação de dois cordões de capoeiras e luta, as maltas atiçam umas as outras.

Narradora

A rivalidade não ocorria somente com a policia.

Entre as maltas haviam disputas por questões políticas e para ocuparem os melhores espaços nas ruas da cidade.

Erick - entra cantando e tocando a musica de confronto para os Guaimuns. A malta entra atrás, (assovio) formando um cordão.

………….._ entra cantando e tocando a musica de resposta. A malta entra atrás, (assovio) formando um cordão.

As duas maltas uma de frente da outra atiçando: (viva a republica!!!, viva os Guaiamuns!!!) (viva a monarquia!!!, viva os Nagôs!!!), revezamento entre as duplas para o confronto.

Narradora (em alto tom)-

- É PROCLAMADA A REPÚBLICA!!!!

As maltas atiçam mais (viva a republica!!!!)

Narradora (em tom de autoridade)-

Com a republica a capoeira foi proibida

- O código penal Brasileiro, decreto numero 487, de 11 de outubro de 1890, estabelece:

a pena de prisão celular de dois a seis meses para aqueles que fizerem nas ruas e praças publicas exercícios de agilidade e destreza corporal, conhecidos pela denominação de capoeiragem.

APITO- entra a policia e prende todos. (quadra vazia)

ATO 2

CENA 4 – séc XXI – Capoeira na escola Amorim Lima.

Ação: representação da capoeira no espaço da escola Amorim Lima, as crianças pequenas fazem a roda e as que encenaram cantam e tocam para elas.

Narradora:

- Hoje com muita resistência à capoeira foi conquistando seu espaço na sociedade.

Agora temos a liberdade de praticar a capoeira em: academias, centros culturais, universidades, praças e escolas.

Crianças entram com mochila nas costas assoviando chamando para jogar capoeira na escola.

Forma a roda e todos jogam. Com a música:

No Brasil tem uma luta…

Ritual de Apresentação, Grillo Seco

Mestres da Oralidade Serrana, Sábios Semeadores de Sonhos

 

Minha mãe se chamava Maria

Meu pai se chama Miguelão

Eu me chamo Grillo Seco

Contador de Causo seu irmão

 

            Versando esta quadrinha fui puxando pela memória, e num solavanco me lembrei como fui chegar aqui.

 

            O mais inusitado foi varar a encruzilhada e perceber que o distante estava próximo, e o próximo estava querendo se mostrar, me recordo que iniciamos utilizando os sábios da vida como inspiração. Seguimos num intento que se mostrou como missão: semear sonhos e revelar facetas da ancestralidade do povo serrano. Hoje em nosso trecho ainda estamos em construção.

 

            O pouco que se fez serviu-nos de lição… Gostaria de relatar e causiar, o que meus olhos viram e o coração sentiu… No caminho do aprendizado não posso esquecer aquele que está do meu lado nesta missão, o assistente geral Testa de Lampião, que serve de comparsa na construção dessa Ação.

 

            Junto aprendemos referenciar a Sábia Mandraqueira Maria Inês, que nos ensinou que o segredo da vida está em viver e nunca deixar-se esmorecer. Mas foi a Dulce Véia que nos ensinou esta lição: o oral também é escrito, e que o sonho versado fica bonito! Das tristezas das alegrias e dos acontecimentos Dulce Véia faz versos e poesia em formas décimas. (são versos tipo cordel).

 

            Tio Miga, não precisa nem falar… Ele é meu pai e na vida me ensinou a lutar e a mim e o Testa muitos causos a contar.

 

            Com o seu Zélio, aprendemos a amar a tradição de laçar, e de um bom carreteiro apreciar, mas foi com a Dona Gorete que aprendemos a dançar, xote e vanerão.

 

            Na escola Visconde de Cairu que juntos em cortejo chegamos, as portas estavam abertas, os corações desconfiados, a solução foi recorrer ao Grão de Luz e Griô, que nos inspirou a resignificar a pedagogia Griô, em pedagogia da cooperação e do amor.

 

            Foi num encontro da terra que reafirmamos os nossos compromissos, de aprendiz, de mestre, de griô no qual é preciso encantar para os sonhos aflorar.

 

            Vivendo o sonho com os alunos, professores e comunidade, pretendemos dialogar, pensando em oferecer antes de receber, conceituamos a nossa ação em: Falar, Fazer e Viver, onde cada idade é atendida conforme solicitação, nada é deixada de lado, assim juntamos o nosso grão ao grão de Lençóis na intenção de afirmar uma rede de transmissão da cultura popular.

 

            Com benção de São João Maria, nosso andante milagreiro, quero agora encerrar, tenho muito a fazer e mais nada a falar.

 

 

Carta Carlos Kaingáng

Quando falo em público ou para os não índios, não começo falando em dificuldades. Só falo de esperança de uma vida melhor pra o meu povo. Pois as dificuldades, o meu povo vive há 508 anos. Isso aconteceu com a chegada do primeiro navio.

Ao falar do meu povo, lembro que somos diferentes na nossa cultura, nas tradições na crença e costumes sem esquecer que somos seres humanos que tem sentimentos e um coração pulsando.

Para nós, não existe mitos e lendas, tudo é verdade, nossos rituais são sagrados, nossa comida é sagrada, nossos rios, nossas matas, tudo para nós é sagrado, pois tudo isso nos foi dado pelo grande pai, o nosso Tope. Por isso que nós Kaingáng só tiramos da natureza somente o que precisamos.

Em se falar em Ação Griô que denominamos em Kanhágang Kanhró que dizer índios sábios ou sabedoria Kaingáng, isso só veio nos beneficiar e nos propiciar um grande avanço em nossos sonhos. O objetivo da Ação era trabalhar nas escolas da nossa aldeia e gravar um CD com músicas cantadas por nossos mestres do conhecimento Kaingáng para que pudéssemos resgatar, digo valorizar nossos costumes, tradições e crenças através de palestras e da gravação deste CD. Mas jamais pensamos que isso iria tão longe e tão valorizado pelo nosso povo e por outros povos também, pois no Brasil, contamos hoje com 230 povos falando 180 línguas diferentes.

Ao completar 1 ano de existência, já podemos dizer que conhecemos um pouco do Brasil por estarmos sendo chamados a falar sobre os nossos conhecimentos sobre a biodiversidade e como convivemos harmoniosamente com a nossa fauna e flora.

 

A gravação do nosso CD foi um sucesso pois seu lançamento foi feito no Memorial do Índio em Brasília DF, com a presença de várias autoridades e parentes indígenas do Brasil. Mesmo sem a capa do CD estar pronta, foi feito seu lançamento, pois temos pressa em divulgar o nosso trabalho pois já perdemos muito tempo.

Os componentes desta Ação já não são mais jovens. O mais novo está com 84 anos e o mais velho com 92 anos. Eu como griô aprendiz não sei onde tudo isso vai parar, só sei dizer que estamos sendo ouvidos pelos não Índios por nós sermos os detentores do nosso conhecimento e estarmos fazendo sucesso!

 

História do meu Mestre: Kujã Jorge Garcia

Vivo me perguntando se lhe chamo de mestre ou de pai

Por ser uma pessoa pura de alma e coração

Por ser uma pessoa sábia

Por ter conhecimentos imagináveis

Conhecimento de seu povo

Conhecimento da mata, dos rios, dos pássaros

Meu mestre é uma pessoa simples

A partir do dia em que eu o conheci minha vida começou a mudar. Mudar no sentido de ser mais humano, olhar as coisas de outra maneira com um olhar mais aguçado.

A idade do meu mestre não lhe impede de trabalhar, de viajar, de dançar. Ele já me ensinou várias coisas, coisas estas que são palavras de respeito, de dignidade e sabedoria. Onde várias vezes me agarrei em seus conhecimentos para ter um suporte em minhas caminhadas.

Disse- me ele, certo dia;  o que mais me importa hoje com essa minha idade é a minha saúde, pois agora é que comecei a viver e tenho muito trabalho a fazer depois desta ação griô, pois hoje me chamam para ensinar, para falar. Hoje me sinto gente e estou vivo ainda.

 

 

 

 

 

 

 

Hino da nossa Caminhada, Regional da Terra

Resultado da Caminhada da Colheita da Regional da Terra

 

Carta a todas as Regionais da Ação Griô Nacional

 

CAMINHADA DA COLHEITA DA REGIONAL DA TERRA.

 

Hîg mã nó ati cha empã ta kotinkâ

 

Uma das primeiras coisas que gostaríamos de socializar com todas as regionais é a construção coletiva do hino da nossa caminhada:

 

Eu caminhei no caminho da colheita (bis) REFRÃO

 

É o Caiçaras no caminho da colheita (bis)

REFRÃO

 

Tem Chibarro no caminho da colheita(bis)

REFRÃO

 

Maria Mulher no caminho da colheita(bis)

REFRÃO

 

Tô De Olho na Cultura brasileira(bis)

REFRÃO

 

Anima Bonecos teatrando na colheita (bis)

REFRÃO

 

Bola de Meia vem brincando na colheita (bis)

REFRÃO

 

Amorim Rima vem jogando capoeira (bis)

REFRÃO

 

Kanhgág Jãre no caminho da colheita (bis)

REFRÃO

 

Caminho das Tropas vem trilhando a colheita (bis)

REFRÃO

 

Tem a Téia registrando a colheita (bis)

REFRÃO

 

E tem a Fátima amadrinhando a colheita (bis)

REFRÃO

 

E a mistura da cultura se estreita

Colhendo enfim os frutos da colheita (bis)

REFRÃO

 

O que é que a colheita tem?

O que é que a colheita tem?

Tem som de viola, tem

Tem história como ninguém

Tem suor, tem trabalho, tem

Tem gente escrevendo, tem

Tem boneco animado, tem

Tomando chimarrão também

E até índio xokleng tem

Tem gente que fala, tem

Tem gente que escuta, tem

As dúvidas que a gente tem

A gente aprende também

Tem muito saber e não-saber também

O hotel intolerância tem

Tem gente que não dança bem

Uma roda que vai e vem

Tem muitos resultados, tem

E tem trocas também

Tem erva medicinal também

E som de maracá, tem

Tem barreira na escola, tem

Resistência também vem

Sofrimento, às vezes, tem

E dor nas costas também

E idéias como ninguém

E vontade de acertar também

Tem computador que não funciona bem

E internet que nunca vem

Tem monges no caminho, tem

E mestres também tem

Aprendizes como ninguém

Tem rabeca que fala também

E gente que não bate bem

Boneco flautista tem

Tem loucura como ninguém

Força de equipe também

E samba também tem

Na grande esperança que nos vem

E nós levamos esse trem.

 

Ponto de Cultura Maria Mulher, através de Nice.

 É estranho me ver numa outra terra mas ao mesmo tempo, em meu país , ver, ouvir, contar histórias de uma cultura  que parece única mas que é permeada de diferenças, tão sutis que quase nos levam  a uma outra dimensão.

É a mesma terra que nos aproxima com verdades e realidades tão diferentes onde nossas  histórias se entrelaçam e se confundem na construção deste pais continental. Saber que o contador de causos de Lajes pode ser o mesmo personagem que eu encontro lá na avenida Tronco como Mãe Maria que em sua  doçura fala dos tempos da escravidão e também fala de esperança e fé que movimentou cada uma de nós, mulheres negras, sábias, amigas, mães, vó, filhas num tear de papéis não escolhidos mas necessários a nossa sobrevivência.

Fé no homem que busca na natureza das ervas medicinais, o mesmo chá que irá minorar as dores de quem está  em Ronda Alta ou na periferia de Alvorada ou em Cananéia .

 

Que magia é esta que nos faz retroceder no tempo e buscar junto aos nossos ancestrais saberes e conhecimentos  que a modernidade nos fez esquecer? Bendito Griô, que chega como um novo arauto, anunciando e contando a nossa história de geração a geração, nos propondo uma integração do ontem e do hoje, o reconhecimento de nossos mestres que tão generosamente compartilham seus saberes.

Bendita ação griô que me permite esta viajem ao passado onde minhas raízes mais primitivas me trazem a memória as práticas do benzimento, da cantiga que acalanta, do reconhecer a tormenta no céu e faz pedir a Santa Bárbara que abrande estes ventos.

Estar aqui trocando, produzindo, conversando e vivendo me faz desabrochar  o que de mais caro existe em mim, o amor ao próximo e a ternura pela vida abençoada que me é oportunizada.

 

O Ponto…

 

O Ponto está localizado na região Cruzeiro, em Porto Alegre. Esta região conta com uma grande população de afro-descendentes. Maria Mulher desenvolve suas atividades há mais de dez anos neste local. E sua missão é trabalhar junto a mulheres negras, vítimas de violência, discriminação e exclusão social.

 

A ação griô vem somar nesta missão ao resgatar a nossa historia da oralidade através da implantação da ação griô, no ano de 2007.

Como não poderia deixar de ser, foi buscar os mestres, griôs e aprendiz de griô neste universo feminino onde as questões de gênero, etnia e inclusão são ícones de luta.

 

Estamos satisfeitos com a grio aprendiz que assume o papel de agente mediador entre mestres, griôs, escolas e educadores, educandos, e comunidade.

 

Este papel assumido vem resgatar os saberes históricos locais da comunidade negra e também da transformação ocorrida através dos tempos.

 

Dialogar com os diferentes saberes é também uma forma de inclusão, promover a integração do passado e do presente, do jovens e da criança, do adulto e do idoso, realizando ponte com a escola que tem no ensino formal os princípios educacionais faz com que os desafios sejam maiores. Sabemos que podemos ampliar nossa caminhada, também sabemos que nossa griô aprendiz precisará constantemente da presença de todos que se engajaram nesta ação.

A transformação se percebe quando visitamos as escolas parceiras e através de seus diretores e professores percebemos o encantamento e a magia que a pedagogia griô vem acrescentar aos saberes.

Esta aproximação também oportuniza o estreitamento das relações entre a escola, comunidade e instituições. A caminhada acontece através do diálogo permanente entre os atores envolvidos e cada ação é pensada e planejada com a presença do representante da escola que auxília com ponderações que irão tornar mais efetiva a ação do grio aprendiz, do mestre e também o educador da sala de aula que aponte a sua vivência e história de vida com esses alunos.

Há avanços, ás vezes resistências que vão sendo mediadas e trabalhadas durante o processo desenvolvido.

As reflexões advindas destes encontros promovem o fortalecimento das ações e consequentemente os avanços necessários.

Nossa equipe através de uma proposta coerente com cada escola parceira, propõe a ruptura com os saberes convencionais que não sustentam os desafios propostos. Aproximar os saberes, esta é a intencionalidade que acompanha a cada dia nossa ação grio.

Nossas mestras griôs, griô aprendiz, educadores e educandos vêm mostrar a todos a importância desta proximidade.

 

Nos fortalecemos a cada dia que passa e sentimos necessidade de continuar nossa ação griô e paralelamente ser agente impulsionador na promoção da sustentabilidade do ponto de cultura.

 

Estamos registrando nosso encontro graficamente e com fotos que ao serem revisitadas nos mostram o quanto é importante manter a memória de nossa gente, sejam eles todos griôs e que Deus continue nos inspirando nesse saber que vem valorizar outra forma de contar e preservar a nossa historia.

 

A motivação é continua, pois ela se alimenta das novas ações executadas e aquelas que irão transformar o nosso futuro.

A nossa construção com a comunidade escolar é um investimento prazeiroso, cujos frutos passam agora a esperar a colheita promissora.

 

Vamos consolidando nossas ações, sem perder de vista as peculiaridades de cada um dos envolvidos. Esta disposição das equipes diretivas das escolas parceiras nos motiva enquanto Ponto de Cultura Maria Mulher e Ação Griô e todos os seus componentes.

 

O desenvolvimento de nossa prática pedagógica onde a oralidade é nosso principal instrumento, nos permite dar um novo colorido a saberes já visitados, que se revestem de magia e encantamento através do som.

 

A valorização nesta descoberta dos saberes tão melancolicamente abandonados na memória, adquire um novo encantamento e seus autores (nossos mestres) descobrem um novo empoderamento onde a magia do ser é mostrado em toda a sua punjança.

E nossas mestras tornam-se protagonistas das histórias e também de suas cidadanias.

Esta visita ao passado com o compromisso de uma troca entre os saberes formais e não formais, resultando assim numa nova prática educativa com outros significados que até então passavam desapercebidos em nosso cotidiano.

 

É lançado um novo olhar para dentro de si e a reavaliação é inevitável, permitindo vir a tona o que cada um tem de melhor e conseguiu reencontrar nessa caminhada.

 

Na caminhada griô é inevitável a transformação de cada indivíduo, sendo tocado e envolvido pelo reencontro com suas origens que possam por ventura se encontrarem adormecidas.

A sabedoria de nossas ancestrais conjugadas com novos jeitos de contar histórias e estórias resgata o prazer de ser ator e autor de nossa própria história

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De Olho na Cultura, através do Vander

Vander, De Olho na Cultura, Alvorada

 

Ação Griô ajuda assumir meu direito de ser homem e não deixar de ser sensível….

 

O Mestre Griô é a raiz… Eu sou o PONTO…De Encontros…

 

Meu chapéu veio da América Central, é uma palha feita por mãos mágicas de mulheres de um país chamado Panamá, meus sapatos ganhei de um palhacinho (Marcucos) que fazia muitas pessoas rirem para elas nunca ficarem tristes. Minha calça eu ganhei de uma mulher que andou viajando muito pelo mundo e tem um olhar mágico sobre as coisas. (Márcia de Paula)

 

Quando desci, na parada quarenta e oito de minha cidade um músico me deu um Pandeiro e carrego comigo até hoje

 

Tenho maracás que os índios Xokleins de Santa Catarina fizeram… e embelezam as mãos das pessoas que tocam nelas… por isso, também estão comigo…

 

Minhas cantorias aprendo com vários Mestres e Griôs… o principal deles é o Velho Grio Márcio Caires lá de longe na Bahia… cidadezinha chamada Lençóis. Minhas palavras aprendo a torná-las mágicas e lindas com Meu Mestre Tio Neno, que me acompanha e me dá a força da minha rima e de minhas brincadeiras…Minha alegria vem de meu Pai…

 

Através do vínculo forte que se perpetúa com o tempo de vivência, principalmente entre o Griô Aprendiz e o Mestre Tio Neno, surgiu a essência que mudou o ar da nossa caminhada. Então, a chegada do Griô Aprendiz nas escolas surgiu junto às turmas de alunos e professores.

 

Ver, cantar, ouvir, sonhar

 

Matraca-samba pra argentinos-biju – pode ter sido o meu primeiro ouvido musical…

 

Acontece ao reencontrar as árvores, as plantas, “re semear”

a semente nas vivências com o mundo das escolas de minha caminhada. Minha imagem renasce quando, enfrentamos a construção, na gente, como Griô Aprendiz, uma figura mais mitológica de educador.

 

Assim é instigante para a gente quando encontramos nossas roupas, nos preocupamos com a construção desse encontro e reencontro com os estudantes e professores das escolas.

 

As vestimentas, os símbolos desabrocham:

Eles já estavam presentes em minha vida…Como presentes que já havia ganhado. É como me rebusco de uma caminhada que só a Pedagogia Griô nos faz ver e rever como vem acontecendo… Esses símbolos vêm dali, de dentro de minha casa, dos meus amigos, dos meus mestres e vão tomando o lugar onde me organizo, já dentro de minha casa, por já estarem, essas marcas, dentro de meu ser. Minha mala, meus sapatos, camisas, colares, enfeites, brinquedos e todo um Universo de pertences que falam em meu corpo, engrandecem e embelezam minha presença diante dos ambientes escolares que atuo. As crianças e jovens ao tocá-los se comunicam comigo e o diálogo plural de nossos encontros se manifesta em beleza singela e poesia pura… Meus Mestre Tio Neno é uma âncora, que sustenta o que sou, nesses momentos.

 

Quando levei minha nova maneira de entrar na escola tive minhas inseguranças. quando eu usei essas roupas, levei todos os escudos comigo, para minha caminhada da escola:  minha família, meu mestre….o meu momento de insegurança vivido com meus alunos e com aqueles que já não estranham quando me emociono diante do fazer poético da ação no contato com as crianças.

 

Esses elementos, partes de nosso ser, são nossos “Pés no Chão”. Os Mestres, as Escolas, professores e alunos são os pomares, plantações…Como reclamar das árovores?

 

 As escolas nos falam pouco de assunção, de sensibilidade, emoção, abstração, divagação, declaração de amor. Nós avançamos em direção a esses prédios com nossa bagagem carregada exatamente dessas coisas que não estão no diálogo das escolas.

Nossa maneira de se relacionar, seja com professores, ou com alunos foi ficando assim:

 

Sempre o Griô Aprendiz envolve e distensiona os nossos recepcionados. Ele cria um ambiente, uma atmosfera lúdica e atraente. Depois o Mestre Tio Neno toma conta da sustentação desse ambiente, mediado por seu Aprendiz.

Encontramos a Rudeza diariamente em nossa caminhada. Em Alvorada e na região em que trabalhamos a Ação Griô, nas situações que se apresentam a nossa frente, é como uma batalha de David contra Golias. O lugar quer dizer que não se permite a gentileza, singeleza e outras maneiras de manifestar nossa sensibilidade, mas nós, antes de tudo gente humana, nos comunicamos e nos tornamos mais plenos e intensos quando assumimos esses elementos em nossa convivência na relação com as crianças.

 

PROSPERAMOS

 

No contato direto com as crianças nos renovamos… Quando cada uma das vozinhas que nos reconhecem chamam nosso nome e envolvem-se com a gente percebemos nosso ser receber mais um tijolinho que reforça nossa construção. As crianças cantam tanto e com tanta vida que em meio ao trabalho nos arrepiamos com um arrepio que chega a arder na pele, de tanto prazer de viver aqueles momentos tão marcantes e ao mesmo tempo tão efêmeros. Nesses instantes os sentimentos nos afirmam que jamais esqueceremos e as crianças também, de nossos encontros…

 

É onde reside a continuidade da Ação Pedagógica Griô, para além das instituições financiadoras… Está na atitude, no desejo que temos de ali estar e mostrar com nosso corpo antigas maneiras de aprender e vivenciar nossa brasilidade.

 

É fantástico quando entramos pela primeira vez em uma turma, principalmente de oitavas séries, ou ensino médio. Os jovens nos vêem como loucos que acabarão fazendo o mesmo marasmo monológico de que já estão enjoados. Vamos produzindo ludicidade e eles vão se envolvendo. Vêm com toda a força sua participação. O Griô Aprendiz, nesse meio trabalha orquestrando aquela euforia que os jovens manifestam de estarem felizes e intensos na troca… Uma espécie de maestria que se fortifica com a resposta dos estudantes às propostas e vivências que criamos juntos. Quando os jovens percebem, já os surpreendemos e eles já estão querendo saber quando voltaremos. Esse é o melhor termômetro. Da força dos jovens emana nossa continuidade e o ECO de nossa ancestralidade nos conduz, para além da RUDEZA dos lugares onde atuamos. Esse lugares são lindos porque tem gente lá

 

GENTE É PRA BRILHAR…

NÃO PRA MORRER DE FOME.

 

“Me digas com quem tu andas,que te direi quem és”

(ditado popular)

Em casa ouço as histórias de minha mãe, as músicas que meus amigos da Ação Griô e outros Griôs do meu mundo me dão para que eu possa aprender a gostar delas, aprender com elas e levá-las dos anonimatos de onde as encontrei até os mundos da escola. Toda minha educação de agora em diante é medida muito mais pelo OUVIR…Desse ouvir meus Mestres Griôs renovo minha sensibilidade…

 

Em São Leopoldo na Escola Olimpio Viana Albrecht… vivemos um momento no qual, percebi que estou em um crescendo de amor:

 

Propusemos apresentação de nossa dinâmica de trabalho aos meus colegas professores, exatamente em um dia em que foram discutidos temas polêmicos para os encaminhamentos da eleição da Escola… a proposta foi do Griô Aprendiz, eu não podia adiar… Quando chegamos no refeitório já senti na pele um ambiente hostil, uma atmosfera de decisões e encaminhamentos muito objetivos. Então pedi para que pudéssemos fazer nosso trabalho na sala de vídeo… Pedimos meia hora. Fui lá, preparei a sala para termos todos os mais de sessenta professores sentados de bem com o ambiente que proporíamos… Na maneira como os colegas entraram percebi que estavam muito cansados e saturados das discussões da reuniões. Prontos para não agüentarem física e emocionalmente nenhuma atividade racional e objetiva… Entretanto, percebi que o grupo de educadores não se abria ao que conversávamos sobre a Pedagogia Griô. Resolvi cantar com meus colegas e não foi uma tarefa muito fácil… Em determinado momento se desligaram do passado recente e sintonizaram-se com o passado mais ancestral que todos temos, através da cantoria de Senhor, Senhor! Terno de Reis recolhido dos mestres pelo Ponto de Cultura Bola de Meia de São Paulo. Logo após, liberei meu espaço para o Mestre Tio Neno…Todos os colegas não conseguiam ir embora mesmo quando acabou o horário da reunião de tanto envolvimento que criamos com eles, nessa conversa com o Mestre. Tio Neno vendeu mais de quinze de seus livros e ficou encomendado mais cinco….

 

Quando eu ando dentro das escolas tenho o princípio de meu Mestre Tio Neno. Não trabalho nunca com a brutalidade nas conversas que estabeleço com os colegas professores. Toda minha demanda é muito nova para aquele ambiente,  então me coloco nele através de minha alegria, gentileza e paciência… Assim conquisto meu espaço… ganho respeito primeiro, respeitando…

 

“A Ação Griô vai tomando conta de mim”

Griô Aprendiz Vander

Alvorada/RS

 

Todos temos um passado que se manifesta em nosso ser. A Ação Griô provoca nossa exposição como realmente somos. Na minha manifestação revejo a alegria de todos os peões de obra e de camperiada de minha família. A alegria que convivi nos ambientes masculinos em que meu pai me levava quando íamos na casa de meus avós, vem à tona quando sou lúdico… isso me lança para meus alunos, meus amigos, meus parentes, meus mestres… E no ambiente escolar, faz um bom tempo que isso não ocorre como algo que também deva ser respeitado e valorizado como uma maneira cultural de ser dos povos… Me permito a errar e acertar junto com meus alunos, nas brincadeiras com as crianças da Ação Griô e até nas dinâmicas com meus colegas professores…

 

Irrita a maneira como se impõe a obrigatoriedade de apenas acertarmos dentro da escola… “Errar é humano” é uma expressão de fracasso e incompetência no meio escolar, entretanto, é através da vivência da experiência com os erros que avançamos… Assim os “quebra-cabeças” e versos quebrados cumprem uma função de produzir ambientes de descontração e relaxamento dentro da sala de aula…

 

História de vida do Tio Neno

 

Nascido em Gravataí, meu Mestre Tio Neno, tem nome de Bernardino Fialho… de uma leva de quinze irmãos,Tio Neno viveu seu mundo de infância na lida dos campos de sua cidade natal… Perto das árvores, criação de animais, lavoura. Desse universo de vida o legado que resiste é a subserviência e a humildade… Suas palavras e seu olhar são um manto de gentileza simplicidade e alegria, que se traduz em dividir seu amor pela vida e tudo o mais que puder, com as pessoas…Ele é um nome respeitado na historia dos andantes da poesia popular, seja ela tradicionalista ou não, em Porto Alegre.

 

A Ação Griô levou esse mestre a conhecer os mais profundos rincoes de periferia de Alvorada. Gerou um envolvimento do Mestre Tio Neno com crianças muito carentes. Junto dessas crianças e jovens, o Mestre descobre todo um tipo de respeito afetivo e jovial que a sua personalidade distribui ao ambiente escolar. Os jovens adoram suas poesias. Decoram poesias, esperam ansiosos seus Acrósticos e vibram com as homenagens que Mestre Tio Neno presta a cada um dos meninos e meninas que abrem seus problemas familiares e de escola para ele…Sua chegada na escola junto de seu Griô Aprendiz é fascinante e ao mesmo tempo intrigante…Apenas o tempo vai dizer qual o tipo de respeito que vai se originar dos encontros dos Griôs com as três escolas onde atuamos…

 

E impactante a energia que se impõe no ambiente da roda quando o Griô Aprendiz abre o espaçoo e o disponibiliza para o trabalho do Mestre junto as crianças e adolescentes. O Mestre Tio Neno, além de instigar os jovens a se relacionar com a poesia e a contação de histórias os instruí à postura de respeito que eles tem que aprender a ter com os autores das poesias… Ele sabe muitas histórias das pessoas que escreveram as poesias que recita, quando não são as suas…

 

A rima pausada e paxolenta da alma gaúcha que emana do mestre faz com que os jovens, primeiramente se atenham a essa dicotomia: como se um Centro de Tradições Gauchescas (CTG) surgisse a frente deles. Ao final, quando entendem o que a poesia diz aplaudem muito, então o Mestre explica alguns significados de palavras e de seu tempo, para melhor ilustrar a historia que a poesia conta… Mas logo após já se lança a recitar poesias gauchescas humorísticas, nesse momento ganha mesmo a juventude ou as crianças e se consolida como um vovozão que todos querem ter.

 

Velhos Amigos

 

Eu tenho quase certeza

Que a melhor coisa que existe

Quando se chega à velhice

É ter família e um lar

Ver cada filho criado

Cumprindo o dever sagrado

De sempre nos aparar.

 

Na velhice a gente chega

A seguinte conclusão

Se vivermos em união

Vamos ter quem nos conforte

Alguém que nos estenda a mão

Deus pai, o grande patrão

Será o nosso suporte.

 

Mas o melhor dessa vida

Digo com sinceridade

São aquelas amizades

Que dia a dia se conquista

É tão gostoso ver alguém

Sorrindo e fazendo o bem

Este é o meu ponto de vista

 

Os amigos verdadeiros

Nunca no deixam sozinhos

Vão emparelhando os caminhos

Na hora da precisão

Nos sentimos amparados

Quando estão ao nosso lado

Dando apoio e proteção.

 

Todo o dia encontramos

Na lona estrada da vida

Buracos, lombas e descidas

Vivemos num perde e ganha

Jesus morreu na cruz

É Ele quem nos conduz

Na cidade ou na campanha.

 

Se você pretende entrar

No alto reino da glória

Ponha isto na memória

Que foi Cristo quem falou

Quem vive na minha amizade

Ganhará na eternidade

As bênçãos de quem me enviou.

 

Pensem nisto meus amigos

E sorriam todos os dias

O sorriso contagia

Nos conforta e nos acalma

E pense sinceramente:

Sorrir faz bem para a mente,

Pro coração e pra alma

 

Bernardino Fialho (Mestre Tio Neno)

 

Tio neno tem um olhar clínico – quando a gente chegou, a roda tava meio travada…Tio Neno disse assim: vou dizer  uma poesia de amor:

(Quem disse que é impossível ter amor na escola tava mentindo….)

 

Aliança de papel  [silêncio total]

(essa poesia é de Milton Souza recitada pelo Mestre Tio Neno numa manhã fria para alunos da turma 801, CAIC Mario Quintana.)

 

Foi só de brinquedo que eu disse que amava

Brincando disseste: te amo também

A gente brincava e jamais esperava,

Que os anjos ouvindo dissessem amém.

 

Em um gesto infantil e sem desconfiança

Tu confeccionaste, de simples papel

Para os nossos dedos, duas alianças

E em tom de brinquedo jurei ser fiel.

 

Os dias se passaram e na realidade

O que eu sinto agora é um terrível medo.

Medo de estar te amando de verdade

E sendo amado apenas de brinquedo.

 

Qdo acabou a poesia a sala era outro lugar, eram outros jovens… não estavam tristes, depois dessa poeta os caminhos se abriram.

 

Essa poesia me fez descobrir q também gosto de poesia rimada…..

Agora tô decorando uma poesia para o dia dos pais…Missão de Pai (Milton souza)

 

Estou atuando hoje numa escola, num lugar onde participei da organização da ocupação dos prédios…..

“Ocupações que ajudei a fazer acontecer me tornaram forte pra acreditar que Deus nos dá força pra mudar o mundo pra melhor… Hoje os lugares são bairros e onde não tinha pessoas morando temos milhares de pessoas vivendo felizes e escolas, professores e casas de comércio, praças e tudo o mais…”

 

 

Tubi Tupy

Lenine

Composição: Lenine e Carlos Rennó

 

Eu sou feito de restos de estrelas
Como o corvo, o carvalho e o carvão
As sementes nasceram das cinzas
De uma delas depois da explosão
Sou o índio da estrela veloz e brilhante
O que é forte como o jabuti
O de antes de agora
em diante
E o distante galáxias daqui

Canibal tropical, qual o pau
Que dá nome à nação, renasci
Natural, analógico e digital
Libertado astronauta tupi
Eu sou feito do resto de estrelas
Daquelas primeiras, depois da explosão,
Sou semente nascendo das cinzas
Sou o corvo, o carvalho, o carvão

O meu nome é Tupy
Gaykuru
Meu nome é Peri
De Ceci
Eu sou neto de Caramuru
Sou Galdino, Juruna e Raoni

E no Cosmos de onde eu vim
Com a imagem do caos
Me projeto futuro sem fim
Pelo espaço num tour sideral
Minhas roupas estampam em cores
A beleza do caos atual
As misérias e mil esplendores
Do planeta de Neanderthal


 

Ponto de Cultura Anima Bonecos, através de Paulo Nazareno

Como coordenador do projeto Anima Xokleng acredito  que o griô aprendiz assume o seu lugar por ser do mesmo povo e saber dos interesses incomuns, além de ser educadores mestre na língua materna.

 

A sua relação com os griôs e mestres é muito boa, porém com a escola ainda se tem tido algumas dificuldades.

 

O griô aprendiz é uma referência para o povo Xokleng e a maioria dos educadores da escola reconhecem o seu valor e dedicação, pois  a maioria  dos professores sendo  indígenas , percebem todo seu esforço  em conquistar sua formação acadêmica e seu  importante papel na preservação da sua língua  materna e os costumes de seu povo…

Os conhecimentos tradicionais do povo indígena já faziam parte da grade curricular da escola, isto é, já vinham trabalhando nesta linha de atividade e o trabalho dos griôs veio para complementar, aliás, para reforçar o que já vínhamos fazendo.

 

Neste caso, o griô aprendiz tem grande importância na defesa social-política-pedagógica de sua cultura, sua língua materna, sua ancestralidade. Sinto que falta ainda do griô aprendiz reconstruir os rituais, o encanto, as vestes.

 

Em relação a isto, do ponto de vista de fora, acredito que ainda falta a sacralização dos conhecimentos orais propostos devido a vários fatores como: interferência religiosa, ritos esquecidos ou deixados de lado…

 

Acredito que o griô aprendiz sabe da importância de incorporar a missão desta ação na escola parceira porque ele é o principal elo de ligação entre as partes envolvidas neste processo: mestres anciãos, a escola-ponto e sua comunidade.

 

Posso dizer que vejo coerência no projeto apresentado para o edital e com a prática na escola e na comunidade, porém sempre teremos novos desafios a serem superados.

 

O projeto está sendo desenvolvido dentro da escola ,com alunos do ensino Básico, temos  encontrado na prática algumas dificuldades com relação a interação da cultura tradicional com o sistema formal de ensino, bem como na operacionalização  interna e externa da escola  por isso  se  sente a necessidade de  fortalecer a ação também com a comunidade.

 

A equipe da ação griô vem sistematizando através de  avaliação conjunta com Griôs ,escola, lideranças e o Ponto para descobrir outras novas  formas  de aplicá-la, ultrapassando assim os muros da escola, porque entendemos que a aprendizagem acontece em todos os lugares .

Como coordenador do projeto ,tenho socializado o maior numero de informações possíveis com as demais pessoas do ponto, para garantir um melhor desenvolvimento,apoio e esclarecimentos da Ação.

 

Creio que estamos todos aprendendo juntos durante este processo de auto-conhecimentos, tivemos e vamos ter muitas conquistas valorosas e inesperadas. Porém não podemos negar que no caminho foram surgindo dúvidas  e dificuldades,com relação a aplicação da pedagogia, os deveres e o lugar de cada um na ação. Como exemplo em alguns momentos o próprio coordenador do projeto viu a necessidade de também assumir uma postura de griô aprendiz, com atividades dentro da escola  principalmente e na relação com os mestres ,griôs,lideranças e comunidade. O importante é estarmos abertos as críticas construtivas e dispostos a aprendermos e qualificando ainda mais, juntos a pedagogia ideal p/ cada realidade.

O ponto reconhece a missão  da ação, pois crê ser de grande importância e valor étnico-sócio-político-cultural, para que não se percam as conexões com as origens ancestrais em todos os aspectos de nossas vidas.

 

O Ponto de Cultura dispõe de uma boa infra-estrutura para as inúmeras atividades que realiza no Ponto. mas a pesar disto consideramos insuficiente  os nossos equipamentos para atender com mais qualificação as ações na Terra indígena ,devido a distância e principalmente as dificuldades de comunicação(Não tem internet, apenas um telefone celular c/ a Direção de escola).

 

O projeto Anima Xokleng da Ação Griô potencializa a relação religiosa e étnico-cultural  no Ponto através da troca de experiências  que  os espetáculos de Teatro de  bonecos e em encontros de intercâmbios ,porém não da maneira como o ponto gostaria , pois temos grande dificuldades  devido a não previsão orçamentária da ação griô para com os Pontos .Principalmente para as ações em reservas e comunidades indígenas distantes.

 

A escola tem grande potencial para ampliar ainda mais a disponibilidade de tempo e comprometimento com as atividades do projeto da Ação griô, os educadores passaram a potencializar  a convivência religiosa e étnico cultural junto dos alunos, através das palestras ministradas pelos mestres e griôs.

 

Existe um respeito e um diálogo entre a escola e,educadores e  griôs , porém tem potencial para melhorarmos ainda mais estas relações afetivamente..

A escola reconhece  a missão da Ação pois os conhecimentos tradicionais ,língua e arte indígena já fazem parte do projeto pedagógico da escola, tendo consciência da importância e da valorização da memória do povo Laklanò, mas é importante contagiarmos também a comunidade como um todo.

 

A ação griô reconhece e valoriza todos os professores da escola,mas como já foi questionado pela escola a Ação não prevê nem um tipo de reconhecimento ou valorização financeira para a escola e seus educadores por que entende que eles já recebem como professores e a ação deve ser vista como um suporte e apoio para qualificação do ensino público indígena.

Os Griôs e mestres tem sentido a necessidade de aos poucos ampliarem suas ações no sentido de se emanciparem , e ter um maior empoderamento de seus anseios , para isto estão se organizando em uma  associação, para poderem realizar outros projetos de sua própria autorias junto ao povo Laklano.

 

Posso dizer que a comunidade indígena passou a produzir e a valorizar ainda mais a sua cultura, sentido até a necessidade de construir um espaço (Oca) para produzir , expor e vender seu artesanato para visitantes da aldeia. Aumentando assim renda familiar ,sem ter que sair  a perambular pelas cidades vizinhas, esmolando a sua  valoroza arte.

 

A ação griô trouxe o reconhecimento dos mestres anciãos  fazendo-os perceber a grande importância dos seus conhecimentos  e a vontade  de compartilhá-los  com os mais  jovens e a sua comunidade em geral, para assim garantir um futuro e uma qualidade de vida melhor dentro da Terra Indígena.

Um projeto como este só vem a qualificar a formação dos educadores ,fortalecendo seus vínculos e afetividades com seus alunos e a comunidade. Como a Ação Griô é recente e inovadora ainda não podemos mensurar  nível de auto reconhecimentos possíveis de se conquistar.

 

Os estudantes tem aprendido  muito, principalmente a reconhecer e valorizar sua cultura ,seu o lugar e o respeito aos mestres anciãos. O griô aprendiz acredita que em todos os sentidos a recuperação dos  costumes tradicionais é relevante para fortalecimento da identidade como Povo indígena .

 Trabalhar com a ação Griô,como represente do Ponto e coordenador da ação na Terra indígena  me encantou, trazendo-me  o reconhecemos de minhas próprias raízes étnica culturais, indígena-negra-européia,esta mistura que nos faz sentir Brasileiro e  sua grande importância para fortalecimento e desenvolvimento da autoconsciência humana.

 

“É possível que em conjunto com os griôs e Mestres Anciãos nos transmitirmos os conhecimentos tradicionais para os jovens e a comunidade desta Terra Indígena .Porque acredito que em todos os sentidos a recuperação dos nossos costumes é relevante para o fortalecimento de nossa identidade como povo. Porque ao longo da história de contato com a sociedade não índia, foram deixados os costumes tradicionais de lado e o povo está consciente para recuperar” . Nanblá Grakam – Griô Aprendiz

“Vei-tcha Uvanheccu Teie- 73 anos é mais conhecido na comunidade indígena como Veitcha – mestre da tradição oral – ele me contou que na época do dilúvio tinha um esperitista (xamã) que conversava com o espírito da palmeira, aí quando as águas começaram a subir ele pediu para  o espírito da palmeira abaixasse, então ele subui com seus parentes na copa da palmeira e ela foi levantando na medida que as águas foram subindo, e eles ficaram lá em cima esperando as águas abaixarem – pra eles saberem quando podia descer, eles jogavam o coco lá de cima, esperando ouvir o barulho… glub, glub, as águas não tinha baixado,  “ploc” barulho que caiu no chão, quando as águas baixaram, o espiritista disse a palmeira para novamente descer. Aí como eles eram todos parentes, pintou símbolos nos rostos de seus parentes que os diferenciavam e através deles poderiam ou não se casarem.

 

Histórico do Ponto

 

Eu vim do Rio Grande do Sul para Santa Catarina em 2005 aceitando a proposta do meu amigo Willian para criamos o Centro de Pesquisa e de Produção de Teatro de Animação – CPTA.

 

O ponto de cultura surgiu através da união de 2 cias de Teatro de Bonecos a Nazareno Bonecos e Cia dos Bonecos, hoje chamada Trip Teatro de Animação, com um primeiro objetivo de juntarmos as nossas forças para podermos ter um teatro próprio com ateliê , biblioteca pra podermos pesquisar, produzir e apresentar os nossos espetáculos.

 

História de Vida do Mestre do Nazareno

 

Vivência relatada pelo Griô Antônio Cuzung Copacan nas primeiras palestras com jovens da escola indígena, ressaltando a importância da preservação da cultura de seu povo e como foi o seu despertar para o reconhecimento de sua ancestralidade.

Copacan, 68 anos de vida, conhecido em seu meio pelo nome “Ka”, sendo grande conhecedor das histórias de seu povo. Ele com sua família já moram  na cidade ,mas voltaram por que queriam criar seus filhos ao modo da cultura indígena.

 

Despertar

 

Nesta ocasião ele estava morando e trabalhando na reserva indígena Laklanõ tirando madeira do mato para alguma empresa. Sua esposa frequentemente lhe pedia para ele trazer madeira para fazer arco e flecha.

Ele  meio contra vontade ia trazendo. Dona Ioco  de vez em quando lhe mostrava a produção e pedia sua opinião se estava bonito e tal. Seu Copacan  falava que sim que estava bonito …mas em seu íntimo não dava  muita importância e valor aquele trabalho artesanal.

Certo dia Dona Iocô já tinha  feito  bastante  flechas  , quando começou a passar alguns ônibus escolares na frente de sua casa indo em direção a outra Aldeia da reserva.

Então ela chamou Copacan para ir com ela  vender os artesanatos. Então Copacan  desconversou , dizendo que não estava bem ,que estava indisposto, aproveitando que já estava deitado em sua cama.

Dona Iocô então chamou as crianças pegou seu precioso artesanato e foi para a estrada ..o ônibus parou e eles foram para o local da visita. Enquanto isso seu Copacan ficou em casa pensando ….”quando ela chegar vai brigar comigo”.No fim da tarde os ônibus começaram a retornar ,quando um deles parou e desceu Dona Iocô e as Crianças todos carregados com sacolas de alimentos nas duas mãos ..foram entrando em casa  contentes  e chamando por Copacan para ver tudo o que haviam ganhado.

Seu Copacan saiu do quarto um pouco disfarçado, meio sem jeito, olhando todas as sacolas de alimentos e logo percebeu que não havia mais nenhum fardo de flechas ….mas não quis perguntar nada de vergonha e medo de levar um chingão da esposa .

Logo em seguida Dona Iocô meteu as mãos no bolso e retirou um monte de dinheiro ,resultado da venda dos arcos e flechas….dinheiro superior a mais de três meses de seu trabalho no mato e sem fazer força bruta. A partir deste dia ele em seu íntimo prometeu nunca mais desvalorizar a sua cultura  e passou a ajudar sua esposa por entender a riqueza que eles tem em suas mãos.