Outros registros
Durante este ano como griô aprendiz me dediquei também a estudar educadores com a proposta vivencial no ensino formal, como por exemplo o grande mestre Paulo Freire. A baixo registro um texto sobre a Pedagogia do Oprimido que só foi construído e entendido por causa da vivência obtida com a Pedagogia Griô.
Um pouco sobre Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire, 1968
Fabíola Resende
¨Gosto de discutir sobre isto porque vivo assim. Enquanto vivo, porém, não vejo. Agora sim, observo como vivo.¨
(do livro, depoimento de um operário em aula)
¨Pedagogia – paideia: do latim que significa ao mesmo tempo educar e civilizar¨. Ora, ¨Pedagogia do Oprimido¨, educação e civilização do oprimido. Mais que isso Paulo Freire, vem dialogar com seus leitores sobre a educação e a civilização humana, porque mais que educadores e/ou educandos somos humanos. E como humanos somos, somos transformados e transformadores durante toda a nossa existência terrestre. A escola, é, ou deveria ser, um dos veículos incentivadores da transformação consciente e necessária em nossas vidas. Seria por meio dela somado a nossas histórias de vida que nós fortaleceríamos a nossa distinção animal, por sermos seres pensantes e históricos.
A relação oprimido e opressor, bem explícita e desenhada durante toda a leitura nos faz refletir sobre até que ponto temos consciência do tamanho inconsciente dos nossos desejos de nos tornarmos opressores ou dominadores de situações. Ou, como sabemos se a situação de oprimido não é um cômodo ideal e/ou inconsciente? Como podemos nos perceber, nos conscientizar se somos opressores e/ou oprimidos? E até que ponto estes estados nos deixam confortáveis? A educação, ao levar em conta situações históricas do indivíduo poderá ajudar nestas descobertas, a partir do momento em que pudermos também nos desvincularmos, o mínimo possível, da era capitalista devastadora e compulsiva que se faz presente no nosso dia-a-dia . Transformando valores e tradições, tentando, mas não conseguindo, acredito, nos desvincular de nossas raízes e ancestralidades que nos faz seres repletos de sentimentos e puramente humanos. A busca junto a pedagogia do Oprimido é de um equilíbrio, basicamente, onde possamos ser mais do que ter, possamos ser seres desejantes, feitores de nossas próprias histórias e caminhos. É a negação da entrada em um ciclo, onde me torno opressor e faço oprimidos, oprimidos desejantes de se tornarem opressores… A busca inquieta por status que leva ao consumo do ter para ser, ter uma chefia, ter um carro (ou muitos), ter uma casa, ter uma família, ter… Enfim termos o encobrimento ingênuo e inconsciente de que somos aquilo que somos ou desejamos ser. Freire, deixa claro na págian 118; ¨a inserção é um estado maior que a emersão e resulta da concientização da situação. É a própria consciência histórica.¨ Em muitos momentos de nossas vidas nos tornamos seres emersos, a deriva do mundo em que estamos inseridos, parecemos alheios a ele, esquecendo de nossos sentimentos de pertencimento ao nosso mundo, a nossa própria natureza humana. Assim Paulo Freire nos propõe a nossa inserção como um estado maior, como um estado desalienante e ao mesmo tempo desvelador, em que podemos aprender ao aprendermos sobre nós mesmos.