AÇÃO GRIÔ NACIONAL
TRILHA PARA SISTEMATIZAÇÃO
Primeiro Ano – 2007/2008
2. A criação do lugar do ponto na ação e sua ação político-pedagógica relacionada à tradição oral.
O Ponto de Cultura Manguerê/ES é produto do Centro Cultural Caieras, uma OSCIP que atua em um bairro de periferia da cidade de Vitória, tendo com missão oferecer alternativas às situações de risco que envolvem os jovens desta comunidade. Para tanto, promove o incremento e difusão da cultura local, com trabalho de sensibilização às artes e formação técnica através dos núcleos de: percussão –com ritmos regionais brasileiros e instrumentos alternativos; núcleo de artes cênicas – teatro e montagem de espetáculos e o núcleo de memória audiovisual , com oficinas de produção de texto, fotografia e vídeo.
O Ponto de Cultura Manguerê, embora esteja numa cidade vizinha (Vitória) foi a porta de entrada para a institucionalização da Ação Griô na Escola Serrana no município da Serra. Sua relação com os mestres é de enraizamento, uma vez que um dos coordenadores e idealizadores do ponto, o Sr Fábio Carvalho , buscou sua inspiração na convivência e conversas com mestres do congo serrano, em especial, o Mestre Antonio Rosa que sempre salientava “os velhos estão morrendo e nos novos não querem participar da brincadeira” dizia o mestre. Assim foi estabelecida uma ponte entre a Ação Griô, Manguerê e a Associação de Bandas de Congo da Serra, presidida por Terezinha Pimentel, filha e herdeira cultural do mestre Antonio Rosa. A ABC/Serra já mantinha um vínculo com a escola com o projeto de bandas mirins em escolas, assim, a Ação Griô expandiu este vínculo possibilitando a inserção de contos populares, música e outras manifestações na vida escolar de alunos das séries iniciais.
A ABC/Serra é uma instituição forte e presente no cenário cultural capixaba e serrano. Bem estruturada, desempenha um importante papel de revitalização das bandas, proporcionando , autonomia e força como entidade representativa e congregando em irmandades as bandas de congo que hoje tem reconhecimento e respeito em nível nacional. Este fato culminou em mudanças dos papéis estabelecidos junto a Ação Griô, uma vez que a ABC/Serra foi absorvendo o papel do ponto de cultura e tomando para si o papel de coordenadora da ação, na pessoa de Terezinha que, para atender a demanda da ação incluiu como griô aprendiz Suziê, que assumiu junto aos mestres as funções antes executadas por Terezinha. Estas novas costuras são inerentes a todo processo em construção e vem sendo realizadas de forma muito espontânea.
A relação entre a ABC/Serra, escola, grio aprendiz e mestre é de total harmonia e integração, uma vez que suas relações datam de outros tempos e outras atividades são realizadas em parceria. Sua identificação com a proposta da ação é como uma simbiose. Está nas entranhas da entidade o encantamento pela cultura popular, ela é a razão de ser de sua existência. Sua constituição se deu exatamente para não deixar morre a tradição oral. Todas as ações, parcerias e realizações convergem para valorizar a produção popular e os mestres portadores desta produção e vem de encontro ao pensamento instituído de que é necessário buscar meios de levar este conhecimento a instituição escola, para que a cultura consiga institucionalizar seu espaço com laços fortes e significtivos.
1.. A criação do ser do lugar do griô aprendiz e de sua ação político-pedagógico relacionado à tradição oral
Inicianos nossas atividades com a griô aprendiz Terezinha, filha de mestres, cresceu sob o berço da cultura popular, entre os sons de tambores e o repicar das casacas. De dançarina de banda de congo, caminhou até assumir a presidência da ABC/Serra, instituição fundada pelo velho mestre Antonio Rosa no intuito de congregar todas as bandas de congo do município, fortalecendo-as. Terezinha foi eleita por unanimidade pelos mestres congueiros para dirigir a associação, o que vem fazendo a ….anos com muito louvor. Foi aluna da Escola Serrana, sendo integrante da 1ª tentativa de levar o congo para dentro da escola em 1980. Esta primeira tentativa durou pouco e, hoje, da convivência na comunidade com professores e alunos da escola nova aproximação foi feita entre o congo e a escola. Cientes da necessidade do resgate da ancestralidade, identidade e od orgulho de ser portador de um conhecimento tão precioso e, atrelado a necessidade de não deixar a cultura popular ser sufocada e perder-se no tempo, em 1994 foi retomado o projeto e instituída a Banda de Congo Mirim, que tinha como mestre o Sr José Carlos Miranda. A proposta da ação griô veio ao encontro da caminhada que fazíamos, e, com a parceria ampliamos a atuação do congo mirim com a participação do mestre Sezóstenes e começamos a desenvolver com turmas de 1ª a 5ª séries oficinas de cantos & contos, onde o mestre Theodorico encanta os alunos com seus causos contados e cantados. Com as atividades na escola, muitos filhos e netos de mestres redescobriram o valor de sua arte no espaço escolar, passando eles mesmos a se valorizarem mais, bem como à sua família.
Na continuidade da caminhada, para superação dos contratempos , tivemos que buscar mais um colaborador para a ação. Assim, a griô aprendiz Suziê passou a compor o grupo, o que veio agregar grande valor a ação, uma vez que sua intermediação junto as atividades desenvolvidas pelo mestre Theodorico potencializou o diálogo junto ao currículo escolar e deu novo gás aos professores e ao próprio mestre.
As atividades estão inseridas no cotidiano escolar e como estudar a história local, as histórias de vida da comunidade e toda sua cultura já era um elemento constitutivo do currículo escolar, fazer isso através de instrumentos vivos , portadores da cultura deu mais vida e significado ao cotidiano das aulas. Ganhou a escola, em sua dinâmica de trabalho, ganharam os alunos na vivências experimentadas e ganharam os mestres e griôs que redescobriram seu valor na comunidade, sendo resgatado para alguns um espaço que já não existia mais e com isso o respeito por si e por seu conhecimento.
As atividades desenvolvidas culminaram em ações de grande valor, como as apresentações feitas pelas crianças por todo o município, levando o nome do congo e da escola, também destacamos a participação do grupo no Encontro de Bandas de Congo da cidade, um cortejo que desfilou pelas ruas seguido de uma multidão. Eles também participaram da gravação de uma faixa no CD mirim Canto da Alma Vol II, com as demais bandas mirins do município. No encerramento do ano letivo foi realizado um teatro sobre as histórias ouvidas e cantadas que contou com a participação de toda comunidade escolar. Estas ações marcaram a história de vida dessas crianças, que hoje, com certeza reservam um espaço em cada coraçãozinho para a cultura popular.
2. O sentimento de um dever cumprido e de realização se exala no ar, dada a simbiose existente entre os envolvidos no processo e a cultura popular, percebemos que ela se apresenta como uma forma de humanização das pessoas nesse mundo apressado e individualista onde nós coexistimos.
3. A criação da rede de transmissão oral na política de educação e da cultura local, regional e nacional
A escola pública hoje tem problemas em relação a ela mesma e sua razão de ser. Assim, as dificuldades vivenciadas não dizem respeito a ação si, pois qualquer que fosse a proposta a ser desenvolvida na escola esbarraria nas dificuldades intra-escola que já existem.
A ação na escola teve início com as atividades da banda de Congo Mirim, os alunos participavam de oficinas ouvindo histórias sobre a fundação da cidade, a vida dos escravos e os costumes e hábitos dessa gente. Paralelamente aprenderam sobre os instrumentos, sua história, confecção e sonoridade aprendendo a tocá-los. Mais tarde foi inserida junto às aula as atividades de cantorias e contação de histórias. No início a inserção de um elemento novo foi um pouco difícil, tendo em vista que nossa escola era muito grande e com muitos professores – com diferentes pensamentos e interesses. Com o desenrolar da ação, a identificação das crianças foi visível, elas esperavam ansiosamente as visitas recebidas. A partir daí os professores foram sendo conquistados aos poucos, aqueles que ainda resistiam – os mais difíceis foram os professores que queriam usar este momento para ‘descansar’ de seus alunos, ausentando-se da sala de aula. Outra situação vivenciada foi em relação à diversidade religiosa que compõem a escola. Acreditamos ter havido muitos conflitos nas famílias em relação a este aspecto, pois temos crianças de dissidências religiosas muito fechadas, mas as crianças resistiram a todos apelos nas famílias e continuam as atividades no congo, os próprios pais acompanham os filhos nas apresentações. Nas atividades de contação de histórias, alguns pais questionaram sobre as histórias de assombração e outras, mas nestes casos trabalhamos com eles a fantasia e a mitologia, após muitas conversas… mais conversas, finalmente chegamos a um consenso. Todas essas situações foram superadas.
4. O encantamento da identidade, ancestralidade e alteridade dos estudantes e de todos os participantes da Ação
História de vida do mestre
Theodorico Boa Mort, Poeta
Nascido no município de Aracruz
em 28/06/1950 …
Sangue de índio
Filho de pais operários,
Que plantavam a terra, e
Tiravam dela o alimento…
Adquiriu do pai todo amor
Vivência de luz
De amor e inteligência que com a
Energia da natureza tinha a
Sabedoria de criar e encantar com seus aprendizados!
No sangue do poeta
corre a alma do guardião da cultura
História de vida de estudante
Jéssica é uma aluna negra, de lindo olhos negros e atentos e muito alta para sua idade. Ela é neta de congueiros e tem verdadeira paixão pelo congo. Passou a fazer parte do congo mirim logo que este iniciou na escola, em 2004, na época Jéssica tinha 9 anos e estava na 4ª série, caminhando para reprovação. Sempre foi visita constante na coordenação de turno por questões disciplinares, vez ou outra agredia colegas verbalmente e fisicamente ou afrontava os professores com palavras ásperas e malcriadas. Quando estava com a pedagoga ou uma das coordenadoras, se percebia nela uma doçura latente que ela tentava arduamente esconder. Quando começávamos os ensaios do congo ela ficava de longe olhando e balançando as perninhas, sempre era convidada a entrar na roda, mas resistia. As meninas que já estavam dançando eram bem menores que ela e foi usando este artifício que a pedagoga e o mestre a convenceram a participar, foi confeccionado um lindo estandarte e dito a ela que era preciso uma moça esperta e alta para conseguir segurar e manejar o estandarte. Este foi a primeira de muitas apresentações. Ao iniciar as danças no congo, muitos meninos ainda implicavam com ela,pois sabiam seus pontos fracos. Ela tinha vergonha de ser negra, alta demais para sua idade, e ser dançarina, embora adorasse a idéia e se ressentia por gostar do congo. Nas aulas teóricas dadas pelo mestre, descobriu a importância das rainhas, princesas e porta-estandarte do congo, redescobrindo suas funções e se redescobrindo no uso das vestimentas para as apresentações , a linda menina que era. A participação em diversas apresentações do congo mirim onde os alunos eram aplaudidos de pé e sempre olhados com admiração e elogiados pessoalmente pelas pessoas, Jéssica foi gradativamente descobrindo seu valor, se olhando , se gostando… Começou até a ‘tirar onda’ na escola com as demais crianças. Em seu primeiro ano no congo, ainda ficou reprovada, porém nos anos seguintes, suas visitas à coordenação praticamente não existem mais, embora não leve desaforo para casa, não é mais aquela menina agressiva que todos evitavam, está bem sociável e principalmente encantada consigo mesma e orgulhosa de ser congueira.
Ação Griô, quando a arte canta e encanta
Quando a arte canta a história vão buscando as novidades
Quando através de um tema,
De um canto, de um poema,
A arte interpreta a vida,
Em uma sociedade.
É quando retrata os momentos,
Buscando a educação,
Não se resumindo em fatos.
Trazendo conhecimento,
Diversificando fontes
De um teor acumulado
No meio das gerações.
Ação griô um alerta
Da cultura popular,
Troca de conhecimento,
Veio para transformar…
As ações e gestos humanos
De um sonho que vive.
Tenta colocar em prática,
Um princípio acumulado
Que ainda não morreu.
Germina cultura viva,
Ascendendo este país.
Mostrando que mantém vivo
Aquilo que foi raiz.
Theodorico
A todos mandaram avisar que
a aÇão iria começar
ÃH!!! Quanta expectativa!
Os alunos se puseram a esperar.
Guardiãe da cultura
entRe nós começaram a circular
seu valIoso conhecimento
conOsco, se colocaram a partilhar.
No repique das casacas e tambores
nA estórias cantadas de coração,
Estavam presentes histórias de vida
Singelas, de toda uma geração.
a marCa de cada vivência
ficou nO coração,
ação griô na escoLa,
nossAs raízes vividas com emoção!