Arquivo paraMaio 13, 2008

Outros registros – Inveção Brasileira

Outros registros

Durante este ano como griô aprendiz me dediquei também a estudar educadores com a proposta vivencial no ensino formal, como por exemplo o grande mestre Paulo Freire. A baixo registro um texto sobre a Pedagogia do Oprimido que só foi construído e entendido por causa da vivência obtida com a Pedagogia Griô.

Um pouco sobre Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire, 1968

Fabíola Resende

¨Gosto de discutir sobre isto porque vivo assim. Enquanto vivo, porém, não vejo. Agora sim, observo como vivo.¨

(do livro, depoimento de um operário em aula)

¨Pedagogia – paideia: do latim que significa ao mesmo tempo educar e civilizar¨. Ora, ¨Pedagogia do Oprimido¨, educação e civilização do oprimido. Mais que isso Paulo Freire, vem dialogar com seus leitores sobre a educação e a civilização humana, porque mais que educadores e/ou educandos somos humanos. E como humanos somos, somos transformados e transformadores durante toda a nossa existência terrestre. A escola, é, ou deveria ser, um dos veículos incentivadores da transformação consciente e necessária em nossas vidas. Seria por meio dela somado a nossas histórias de vida que nós fortaleceríamos a nossa distinção animal, por sermos seres pensantes e históricos.

A relação oprimido e opressor, bem explícita e desenhada durante toda a leitura nos faz refletir sobre até que ponto temos consciência do tamanho inconsciente dos nossos desejos de nos tornarmos opressores ou dominadores de situações. Ou, como sabemos se a situação de oprimido não é um cômodo ideal e/ou inconsciente? Como podemos nos perceber, nos conscientizar se somos opressores e/ou oprimidos? E até que ponto estes estados nos deixam confortáveis? A educação, ao levar em conta situações históricas do indivíduo poderá ajudar nestas descobertas, a partir do momento em que pudermos também nos desvincularmos, o mínimo possível, da era capitalista devastadora e compulsiva que se faz presente no nosso dia-a-dia . Transformando valores e tradições, tentando, mas não conseguindo, acredito, nos desvincular de nossas raízes e ancestralidades que nos faz seres repletos de sentimentos e puramente humanos. A busca junto a pedagogia do Oprimido é de um equilíbrio, basicamente, onde possamos ser mais do que ter, possamos ser seres desejantes, feitores de nossas próprias histórias e caminhos. É a negação da entrada em um ciclo, onde me torno opressor e faço oprimidos, oprimidos desejantes de se tornarem opressores… A busca inquieta por status que leva ao consumo do ter para ser, ter uma chefia, ter um carro (ou muitos), ter uma casa, ter uma família, ter… Enfim termos o encobrimento ingênuo e inconsciente de que somos aquilo que somos ou desejamos ser. Freire, deixa claro na págian 118; ¨a inserção é um estado maior que a emersão e resulta da concientização da situação. É a própria consciência histórica.¨ Em muitos momentos de nossas vidas nos tornamos seres emersos, a deriva do mundo em que estamos inseridos, parecemos alheios a ele, esquecendo de nossos sentimentos de pertencimento ao nosso mundo, a nossa própria natureza humana. Assim Paulo Freire nos propõe a nossa inserção como um estado maior, como um estado desalienante e ao mesmo tempo desvelador, em que podemos aprender ao aprendermos sobre nós mesmos.

Trilha – Ponto de Cultura Popular e Folclore de Viçosa – Humanizarte

Ponto de Cultura Popular e Folclore de Viçosa – Humanizarte

Ação Griô Nacional

A cada ponto um Ponto

Para podermos falar sobre a ação do Ponto de Cultura Popular e Folclore de Viçosa primeiramente devemos fazer um breve relato do Centro Experimental de Artes da Prefeitura de Viçosa e da Humanizarte ONG.

No tempo em que foi Secretário Municipal de Cultura de Viçosa, o professor, diretor de teatro e produtor cultural, Marcelo Andrade, plantou a semente que germinaria o Ponto de Cultura Popular e Folclore de Viçosa. Isso foi quando ele criou o Centro Experimental de Artes da Prefeitura de Viçosa, no ano de 1993, para integrar, através da cultura, as crianças de escolas públicas e assim resgatar a cultura da cidade através de oficinas de teatro, artes plásticas, música, dança, capoeira, contação de estória, desenho artístico, banda de música e viola.

O modelo pioneiro e de sucesso da iniciativa ocasionou no ano de 2001 o acolhimento do Centro Experimental de Artes pela empresa de telefonia móvel TIM Maxitel. Essa parceria possibilitou a replicabilidade da ação para mais de 11 municípios do estado de Minas Gerais( Araxá, Barbacena,Divinópolis,Lavras, Montes Claros, Ponte Nova, Poços de Caldas, Uberlândia, Uberaba, Ubá e Varginha). Criada em 2002, a Humanizarte ONG atua de forma relevante nos meios acadêmico, artístico e cultural não só na cidade de Viçosa, mas também no estado de Minas Gerais e em outros estados do país.

Atualmente a ONG coordena os Programas TIM ArtEducAção e TIM Estado de Minas Grandes Escritores e o Projeto Reciclarte. O ArtEducAção atende cerca de 10.000 crianças e adolescentes de escolas públicas, em 12 cidades do interior de MG (Araxá, Barbacena, Divinópolis, Lavras, Montes Claros, Poços de Caldas, Ponte Nova, Ubá, Uberaba, Uberlândia, Varginha e Viçosa), 12 cidades da Bahia e 02 de Sergipe, promovendo a inclusão sócio-cultural através de oficinas de arte e causando impacto nas políticas públicas municipais e estaduais. A caravana literária do Grandes Escritores estimula o amor pela leitura e o conhecimento da vida e da obra de grandes nomes da literatura brasileira promovendo um bate-papo descontraído e informal entre o escritor e seu leitor. Além de promover a doação de livros de literatura para rede de bibliotecas públicas e estaduais das cidades que fazem parte do programa. No âmbito da consciência ambiental a ONG coordena o Reciclarte, que leva treinamento a comunidades de baixa renda, e produz objetos e produtos de material reciclado (papel e garrafas pet).

Revolução educacional

No que diz respeito ao Ponto de Cultura Popular de Viçosa, as atividades são embasadas no resgate das tradições culturais e folclóricas de Viçosa. A ação ocorre através de pesquisas registradas em vídeo e áudio para serem veiculadas na Internet por softwares livres e também nas escolas e praças públicas.

Um ponto positivo para o desenvolvimento da iniciativa em Viçosa está na atual administração municipal. O prefeito Raimundo Nonato da “Violeira” é um profundo incentivador da causa, apresentando o encantamento de contador de causos e de andarilho, ações essas que se encaixam perfeitamente nas de um Mestre Griô. Foi ele quem pediu pessoalmente a Marcelo Andrade que investisse todo seu empenho para que a cidade resgatasse a sua cultura. Foi nesse cenário que Marcelo se esforçou e conquistou o Ponto de Cultura Popular e Folclore de Viçosa. Essa aquisição foi ao mesmo tempo uma vitória para a memória da cultura local, como um êxito brilhante da administração do prefeito Raimundo da “Violeira” no campo da cultura e educação. O Ponto de Viçosa apresenta como gestora a Secretária de Cultura, Esporte, Lazer e Patrimônio de Viçosa e coordenadora executiva do Programa TIM ArtEducAção nos 12 municípios de Minas Gerais, Virgínia Lúcia Bittencourt Moura.

“O projeto da Ação Griô em nossa escola é importante porque me faz sentir que quando crescer posso ser melhor por ter observado as visitas deles aqui na escola. Aprendo muito sobre histórias, canções, e como usar o instrumento, principalmente a viola. Essas visitas poderiam acontecer mais vezes porque incentiva o aluno a vir na escola”.

Cleisson Júnior Donato Santos – 4ª série – 9 anos

Os convênios com a Prefeitura de Viçosa – especialmente com a Secretaria de Cultura – e com a Humanizarte ONG, agregam ao Ponto de Cultura de Viçosa uma experiência de mais de quinze anos na administração e execução de ações junto às escolas referentes ao regaste e vivência da cultura popular. Expande as atividades do Centro Experimental de Artes em parceria com o TIM ArtEducAção que nos seus 15 anos atende a mais de 800 alunos das Escolas Municipais nas suas 44 turmas espalhadas em 16 bairros do municipio.

Atualmente como ponto alto das atividades das oficinas é realizado, uma grande mostra artística em plena praça pública para uma platéia de mais de 3000 pessoas. Em 2007 o tema foi “Mudança de Hábitos”. A escolha do tema se deu devido ao grande envolvimento das crianças na busca do resgate das suas raízes contribuindo pela qualidade de vida no planeta.

Inserido nesse ambiente, o Ponto de Cultura Popular e Folclore de Viçosa decidiu modificar a sua proposta inicial de implantação, e assim expandir a Ação Griô para 22 escolas municipais viçosense, atendendo assim cerca de 7000 alunos da rede pública de ensino. Neste momento foi realizada uma sólida parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Viçosa, que apoiando e acreditando na iniciativa, através de seu Secretário Antônio Carlos Miranda, disponibilizou a supervisora escolar Elenice Lopes Pereira, em tempo integral, para ser coordenadora pedagógica da Ação Griô. O Ponto de Cultura de Viçosa, devido a esses laços criados com a Prefeitura Municipal, além de ter o subsídio do fomento do Minc, começou a receber apoio das Secretarias da Prefeitura por meio de transporte, material para auxílio em pesquisas e outros como papel e lápis utilizados nas visitas.

Nas escolas de Viçosa ocorre um fenômeno de sinergia entre a Ação e a direção das escolas participantes, devido ao desenvolvimento de uma metodologia pedagógica que não existia anteriormente. Outro fator que contribui para o desenvolvimento desse grande projeto nas escolas é a identificação e o convite de novos mestres nas comunidades onde a Ação está inserida (já foram identificados o Sr. Salvador Pena; o prefeito da cidade, Raimundo Nonato da “Violeira”; e Dona Chiquinha, com sua contação de estória e o Teatro do Oprimido) além dos dois mestres bolsistas financiados pelo Minc. O resgate de princípios e valores que regem a vida humana tem sido o sustentáculo do planejamento das atividades a serem desenvolvidas em Viçosa. A constante e continua busca da identidade dos alunos através do estudo de sua ancestralidade, da sua integração com a natureza, e do reconhecimento dos Mestres da tradição oral são os fatores que norteiam os passos da sistematização da Pedagogia Griô no município.

Neste primeiro ano, dois eventos foram determinantes para o desenvolvimento e reconhecimento da identidade do Ponto de Viçosa: o Encontro Regional e o Teia. Ambos ajudaram a despertar a sensibilidade nos Griôs Aprendizes que, além de tudo, tem de repassar a serenidade para ouvir e principalmente serem ouvidos, fator esse que é uma das bases da pedagogia. Outro aprendizado foi a prática do caminhar pelas escolas sem muitas formalidades, considerando que cada visita serve para a formação da identidade do personagem do Griô Aprendiz.

Mestres Encantadores

Descendente de escravos alforriados, o Mestre Griô Geraldo Félix, nascido em Peçonhas, Minas Gerais, era o caçula dos homens de uma família de 12 filhos. Crescido e educado numa roça no interior do Rio de Janeiro aprendeu a tocar viola com 10 anos de idade, inspirado por José Dias Nunes e pelos criadores e reis do pagode, Tião Carreiro e Pardinho.

Em 1970 mudou para Viçosa e recebeu o convite para cantar e fazer um programa sertanejo na rádio local Montanhesa. Participou de vários festivais na cidade e na região. “Guardo como relíquias mais de 70 troféus conquistados em festivais”, exalta o mestre olhando para suas conquistas, com um olhar de criança.

No começo da década de 80, Geraldo mudou para São Paulo em busca de maior conhecimento musical estudando música na teoria e na prática. Foi neste momento que ele observou que o seu conhecimento era bastante para o desempenho de uma atividade que servisse de resgate da cultura brasileira do mundo caipira.

No objetivo de repassar esta cultura, o prefeito Raimundo da “Violeira” criou a oficina de Viola no Centro Experimental de Artes e do Programa TIM ArtEducAção convidou Geraldo Carreiro para ser o professor. Hoje a iniciativa conta com aproximadamente 120 crianças e com o apoio do Programa TIM ArtEducAção, da Prefeitura Municipal de Viçosa e da Ação Griô Nacional. Com o sucesso da oficina o, Mestre Geraldo Carreiro incentivado pela Prefeitura Municipal de Viçosa criou o Clube Raízes da Viola entidade considerada de utilidade pública municipal e subvencionado pelo município. O mestre procura conciliar o desdobramento da sua ação entre a propagação do seu conhecimento e a agenda de apresentações que realiza em conjunto com os meninos da viola de Viçosa.

“Todo e qualquer resgate cultural é muito importante de ser trabalhado nas escolas. O Projeto Griô, veio resgatar a cultura dos pais, avós e até mesmo bisavós dos alunos, mostrando como era sua cultura em vários aspectos. Os causos contados despertam o interesse nas crianças, através do seu conteúdo e da maneira que eles são contados. Na maioria das vezes, bons projetos chegam, mas não tem continuidade. Espero que este Projeto Griô esteja sempre presente nas escolas como fator de fundamental importância para alunos, professores e toda comunidade escolar.”

Maria de Lourdes Silva Rodrigues Ventura

Profª. 5º ano da Escola Municipal Dr. José Teotônio Pacheco – Posses – Zona Rural

Para Dona Chiquinha, tudo teve início em 1993. Com a poupança confiscada e tendo que fechar o seu salão de estética, Chiquinha foi convidada pelo Secretário de Cultura de Viçosa, então Marcelo Andrade, para participar da oficina de Contadores de Histórias da Biblioteca do Rio de Janeiro, que estava sendo realizada na Universidade Federal de Viçosa.

A partir daquele momento houve uma revolução na sua vida. Inicialmente ela começou o ofício de contadora no Lar dos Velhinhos, em praças, na universidade e na rádio e TV locais. Depois de vários anos de contação, foi convidada para ministrar oficinas a crianças de todas as escolas públicas de Viçosa através do Centro Experimental de Artes, com apoio da Prefeitura Municipal de Viçosa e da Ação Griô Nacional. O resultado dessa ação pode ser vista no aumento de concentração dos alunos nas aulas e na propagação da oralidade como forma de saber. Decorrente do seu êxito na contação de história, a nossa Dona Chiquinha foi capacitada para ser multiplicadora do Teatro do Oprimido. Em Viçosa o trabalho foi iniciado na Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC). Essa foi a primeira vez no estado que a iniciativa trabalhou com presos. E para surpresa de muito, com sucesso.

Atualmente Dona Chiquinha divide seu tempo entre, segundo ela mesma, “os seus dois passatempos favoritos”.

Eu acho importante para a gente saber com era a vida das pessoas no passado como era a história que eles ouviam como eram os seus costumes. As histórias que eles contam são histórias verdadeiras e que em muitas dessas, eles foram personagens principais. Tem histórias que são muito engraçadas, também revivem lendas interessantes e mostram o seus costumes. Essas histórias fazem nós alunos ficarmos interessados em aprender mais com eles e também despertar vontade de ler, tocar violão e contar causos.

Renato da Silva Bento 5º ano

Trilha – Manguerê

AÇÃO GRIÔ NACIONAL

TRILHA PARA SISTEMATIZAÇÃO

Primeiro Ano – 2007/2008

2. A criação do lugar do ponto na ação e sua ação político-pedagógica relacionada à tradição oral.

O Ponto de Cultura Manguerê/ES é produto do Centro Cultural Caieras, uma OSCIP que atua em um bairro de periferia da cidade de Vitória, tendo com missão oferecer alternativas às situações de risco que envolvem os jovens desta comunidade. Para tanto, promove o incremento e difusão da cultura local, com trabalho de sensibilização às artes e formação técnica através dos núcleos de: percussão –com ritmos regionais brasileiros e instrumentos alternativos; núcleo de artes cênicas – teatro e montagem de espetáculos e o núcleo de memória audiovisual , com oficinas de produção de texto, fotografia e vídeo.

O Ponto de Cultura Manguerê, embora esteja numa cidade vizinha (Vitória) foi a porta de entrada para a institucionalização da Ação Griô na Escola Serrana no município da Serra. Sua relação com os mestres é de enraizamento, uma vez que um dos coordenadores e idealizadores do ponto, o Sr Fábio Carvalho , buscou sua inspiração na convivência e conversas com mestres do congo serrano, em especial, o Mestre Antonio Rosa que sempre salientava “os velhos estão morrendo e nos novos não querem participar da brincadeira” dizia o mestre. Assim foi estabelecida uma ponte entre a Ação Griô, Manguerê e a Associação de Bandas de Congo da Serra, presidida por Terezinha Pimentel, filha e herdeira cultural do mestre Antonio Rosa. A ABC/Serra já mantinha um vínculo com a escola com o projeto de bandas mirins em escolas, assim, a Ação Griô expandiu este vínculo possibilitando a inserção de contos populares, música e outras manifestações na vida escolar de alunos das séries iniciais.

A ABC/Serra é uma instituição forte e presente no cenário cultural capixaba e serrano. Bem estruturada, desempenha um importante papel de revitalização das bandas, proporcionando , autonomia e força como entidade representativa e congregando em irmandades as bandas de congo que hoje tem reconhecimento e respeito em nível nacional. Este fato culminou em mudanças dos papéis estabelecidos junto a Ação Griô, uma vez que a ABC/Serra foi absorvendo o papel do ponto de cultura e tomando para si o papel de coordenadora da ação, na pessoa de Terezinha que, para atender a demanda da ação incluiu como griô aprendiz Suziê, que assumiu junto aos mestres as funções antes executadas por Terezinha. Estas novas costuras são inerentes a todo processo em construção e vem sendo realizadas de forma muito espontânea.

A relação entre a ABC/Serra, escola, grio aprendiz e mestre é de total harmonia e integração, uma vez que suas relações datam de outros tempos e outras atividades são realizadas em parceria. Sua identificação com a proposta da ação é como uma simbiose. Está nas entranhas da entidade o encantamento pela cultura popular, ela é a razão de ser de sua existência. Sua constituição se deu exatamente para não deixar morre a tradição oral. Todas as ações, parcerias e realizações convergem para valorizar a produção popular e os mestres portadores desta produção e vem de encontro ao pensamento instituído de que é necessário buscar meios de levar este conhecimento a instituição escola, para que a cultura consiga institucionalizar seu espaço com laços fortes e significtivos.

1.. A criação do ser do lugar do griô aprendiz e de sua ação político-pedagógico relacionado à tradição oral

Inicianos nossas atividades com a griô aprendiz Terezinha, filha de mestres, cresceu sob o berço da cultura popular, entre os sons de tambores e o repicar das casacas. De dançarina de banda de congo, caminhou até assumir a presidência da ABC/Serra, instituição fundada pelo velho mestre Antonio Rosa no intuito de congregar todas as bandas de congo do município, fortalecendo-as. Terezinha foi eleita por unanimidade pelos mestres congueiros para dirigir a associação, o que vem fazendo a ….anos com muito louvor. Foi aluna da Escola Serrana, sendo integrante da 1ª tentativa de levar o congo para dentro da escola em 1980. Esta primeira tentativa durou pouco e, hoje, da convivência na comunidade com professores e alunos da escola nova aproximação foi feita entre o congo e a escola. Cientes da necessidade do resgate da ancestralidade, identidade e od orgulho de ser portador de um conhecimento tão precioso e, atrelado a necessidade de não deixar a cultura popular ser sufocada e perder-se no tempo, em 1994 foi retomado o projeto e instituída a Banda de Congo Mirim, que tinha como mestre o Sr José Carlos Miranda. A proposta da ação griô veio ao encontro da caminhada que fazíamos, e, com a parceria ampliamos a atuação do congo mirim com a participação do mestre Sezóstenes e começamos a desenvolver com turmas de 1ª a 5ª séries oficinas de cantos & contos, onde o mestre Theodorico encanta os alunos com seus causos contados e cantados. Com as atividades na escola, muitos filhos e netos de mestres redescobriram o valor de sua arte no espaço escolar, passando eles mesmos a se valorizarem mais, bem como à sua família.

Na continuidade da caminhada, para superação dos contratempos , tivemos que buscar mais um colaborador para a ação. Assim, a griô aprendiz Suziê passou a compor o grupo, o que veio agregar grande valor a ação, uma vez que sua intermediação junto as atividades desenvolvidas pelo mestre Theodorico potencializou o diálogo junto ao currículo escolar e deu novo gás aos professores e ao próprio mestre.

As atividades estão inseridas no cotidiano escolar e como estudar a história local, as histórias de vida da comunidade e toda sua cultura já era um elemento constitutivo do currículo escolar, fazer isso através de instrumentos vivos , portadores da cultura deu mais vida e significado ao cotidiano das aulas. Ganhou a escola, em sua dinâmica de trabalho, ganharam os alunos na vivências experimentadas e ganharam os mestres e griôs que redescobriram seu valor na comunidade, sendo resgatado para alguns um espaço que já não existia mais e com isso o respeito por si e por seu conhecimento.

As atividades desenvolvidas culminaram em ações de grande valor, como as apresentações feitas pelas crianças por todo o município, levando o nome do congo e da escola, também destacamos a participação do grupo no Encontro de Bandas de Congo da cidade, um cortejo que desfilou pelas ruas seguido de uma multidão. Eles também participaram da gravação de uma faixa no CD mirim Canto da Alma Vol II, com as demais bandas mirins do município. No encerramento do ano letivo foi realizado um teatro sobre as histórias ouvidas e cantadas que contou com a participação de toda comunidade escolar. Estas ações marcaram a história de vida dessas crianças, que hoje, com certeza reservam um espaço em cada coraçãozinho para a cultura popular.

2. O sentimento de um dever cumprido e de realização se exala no ar, dada a simbiose existente entre os envolvidos no processo e a cultura popular, percebemos que ela se apresenta como uma forma de humanização das pessoas nesse mundo apressado e individualista onde nós coexistimos.

3. A criação da rede de transmissão oral na política de educação e da cultura local, regional e nacional

A escola pública hoje tem problemas em relação a ela mesma e sua razão de ser. Assim, as dificuldades vivenciadas não dizem respeito a ação si, pois qualquer que fosse a proposta a ser desenvolvida na escola esbarraria nas dificuldades intra-escola que já existem.

A ação na escola teve início com as atividades da banda de Congo Mirim, os alunos participavam de oficinas ouvindo histórias sobre a fundação da cidade, a vida dos escravos e os costumes e hábitos dessa gente. Paralelamente aprenderam sobre os instrumentos, sua história, confecção e sonoridade aprendendo a tocá-los. Mais tarde foi inserida junto às aula as atividades de cantorias e contação de histórias. No início a inserção de um elemento novo foi um pouco difícil, tendo em vista que nossa escola era muito grande e com muitos professores – com diferentes pensamentos e interesses. Com o desenrolar da ação, a identificação das crianças foi visível, elas esperavam ansiosamente as visitas recebidas. A partir daí os professores foram sendo conquistados aos poucos, aqueles que ainda resistiam – os mais difíceis foram os professores que queriam usar este momento para ‘descansar’ de seus alunos, ausentando-se da sala de aula. Outra situação vivenciada foi em relação à diversidade religiosa que compõem a escola. Acreditamos ter havido muitos conflitos nas famílias em relação a este aspecto, pois temos crianças de dissidências religiosas muito fechadas, mas as crianças resistiram a todos apelos nas famílias e continuam as atividades no congo, os próprios pais acompanham os filhos nas apresentações. Nas atividades de contação de histórias, alguns pais questionaram sobre as histórias de assombração e outras, mas nestes casos trabalhamos com eles a fantasia e a mitologia, após muitas conversas… mais conversas, finalmente chegamos a um consenso. Todas essas situações foram superadas.

4. O encantamento da identidade, ancestralidade e alteridade dos estudantes e de todos os participantes da Ação

História de vida do mestre

Theodorico Boa Mort, Poeta

Nascido no município de Aracruz

em 28/06/1950 …

Sangue de índio

Filho de pais operários,

Que plantavam a terra, e

Tiravam dela o alimento…

Adquiriu do pai todo amor

Vivência de luz

De amor e inteligência que com a

Energia da natureza tinha a

Sabedoria de criar e encantar com seus aprendizados!

No sangue do poeta

corre a alma do guardião da cultura

História de vida de estudante

Jéssica é uma aluna negra, de lindo olhos negros e atentos e muito alta para sua idade. Ela é neta de congueiros e tem verdadeira paixão pelo congo. Passou a fazer parte do congo mirim logo que este iniciou na escola, em 2004, na época Jéssica tinha 9 anos e estava na 4ª série, caminhando para reprovação. Sempre foi visita constante na coordenação de turno por questões disciplinares, vez ou outra agredia colegas verbalmente e fisicamente ou afrontava os professores com palavras ásperas e malcriadas. Quando estava com a pedagoga ou uma das coordenadoras, se percebia nela uma doçura latente que ela tentava arduamente esconder. Quando começávamos os ensaios do congo ela ficava de longe olhando e balançando as perninhas, sempre era convidada a entrar na roda, mas resistia. As meninas que já estavam dançando eram bem menores que ela e foi usando este artifício que a pedagoga e o mestre a convenceram a participar, foi confeccionado um lindo estandarte e dito a ela que era preciso uma moça esperta e alta para conseguir segurar e manejar o estandarte. Este foi a primeira de muitas apresentações. Ao iniciar as danças no congo, muitos meninos ainda implicavam com ela,pois sabiam seus pontos fracos. Ela tinha vergonha de ser negra, alta demais para sua idade, e ser dançarina, embora adorasse a idéia e se ressentia por gostar do congo. Nas aulas teóricas dadas pelo mestre, descobriu a importância das rainhas, princesas e porta-estandarte do congo, redescobrindo suas funções e se redescobrindo no uso das vestimentas para as apresentações , a linda menina que era. A participação em diversas apresentações do congo mirim onde os alunos eram aplaudidos de pé e sempre olhados com admiração e elogiados pessoalmente pelas pessoas, Jéssica foi gradativamente descobrindo seu valor, se olhando , se gostando… Começou até a ‘tirar onda’ na escola com as demais crianças. Em seu primeiro ano no congo, ainda ficou reprovada, porém nos anos seguintes, suas visitas à coordenação praticamente não existem mais, embora não leve desaforo para casa, não é mais aquela menina agressiva que todos evitavam, está bem sociável e principalmente encantada consigo mesma e orgulhosa de ser congueira.

Ação Griô, quando a arte canta e encanta

Quando a arte canta a história vão buscando as novidades

Quando através de um tema,

De um canto, de um poema,

A arte interpreta a vida,

Em uma sociedade.

É quando retrata os momentos,

Buscando a educação,

Não se resumindo em fatos.

Trazendo conhecimento,

Diversificando fontes

De um teor acumulado

No meio das gerações.

Ação griô um alerta

Da cultura popular,

Troca de conhecimento,

Veio para transformar…

As ações e gestos humanos

De um sonho que vive.

Tenta colocar em prática,

Um princípio acumulado

Que ainda não morreu.

Germina cultura viva,

Ascendendo este país.

Mostrando que mantém vivo

Aquilo que foi raiz.

Theodorico

A todos mandaram avisar que

a aÇão iria começar

ÃH!!! Quanta expectativa!

Os alunos se puseram a esperar.

Guardiãe da cultura

entRe nós começaram a circular

seu valIoso conhecimento

conOsco, se colocaram a partilhar.

No repique das casacas e tambores

nA estórias cantadas de coração,

Estavam presentes histórias de vida

Singelas, de toda uma geração.

a marCa de cada vivência

ficou nO coração,

ação griô na escoLa,

nossAs raízes vividas com emoção!

Thilha – Congonhas- Casa da Juventude

AÇÃO GRIÔ NACIONAL

TRILHA PARA SISTEMATIZAÇÃO

Primeiro Ano – 2007/2008

1. A criação do ser e do lugar do griô aprendiz e de sua ação político-pedagógica relacionada à tradição oral

-O Griô aprendiz possui todas as características de um mestre e sua relação com os Griôs é excelente. Ele possui um forte vínculo com a sua ancestralidade e expressa muito bem através de sua participação nas atividades da cultura do congado participando ativamente de uma grupo como congadeiro, realizando oficinas de tambores e contribuindo com a realização de festival de Congado e Folia.

2. A criação do lugar do ponto na ação e sua ação políticopedagógica relacionada à tradição oral

Do alto da ladeira, dentro do grande monumento cultural Romaria localiza a sede de nosso Ponto de Cultura Casa da Juventude. Lugar que em todo momento vivência cultura nos: Festival de Cultura, Festival da Quitanda, Festival do Congado, … Tudo, tudo conspirou para que o ponto obtivesse mais um grande projeto que foi o Ação Griô.

3. A criação da rede de transmissão oral na política de educação e da cultura local, regional e nacional

Ei, lá vai dona Fiinha, contadora de prosa e versos, faceira e leve com sua roupagem de moiça meio que desconfiada e arteira vestida de branco chega às crianças com jeitinho manso e atrevido dizendo “que oseis não pode fazer coisa errada, tem que obedecer sua professora e não pode de maneira nenhuma falar nome feio¨. A meninada acha tudo muito engraçado e fica todo mundo calado. Então dona Fiinha começa a contar como era a vida naquela comunidade e como ela mesma viveu sua vida de criança e diz ¨nossas brincadeiras erma muito inocentes, brincávamos de pique, de boneca de milho, brincávamos em roda e ai cantávamos e dançávamos, batendo o pé na poeira e fazendo rodopio com o corpo moleque mas dono de uma infância sofrida pois não tinha quase nada mas tinha a alegria dos mais velhos que contavam histórias de assombração e de nossos guerreiros negros¨… e assim dona Fiinha viaja nos olhinhos das crianças criando um mundo de figuras e canções e a criançada sorrir imaginando que em sua própria comunidade tem alegria, tem festa, tem raiz e tem gente boa, gente nossa, gente que gosta de nós… A professora brinca ¨dona finnha, como foi seu casamento ? como foi o namoro e a escola?” Dona Fiinnha retruca ¨ih nem te conto a gente não tinha escola, aprendia em casa com as histórias de nossos antepassados, num sabíamos ler nem escrever mas aprendíamos a contar casos como ninguém… Dona Fiinha lembra sua avó e para… convida a todos para rezar, começa rezando uma ave maria dai a pouco vem a cantoria triste que dá dó mas ela bate palma e dai mais um pouco, dá um pulinho e passa para outra musica e ai é uma alegria só, pois neste instante começa a contar como foi que aconteceu seu casamento a criançada da risadas .. e assim dona Fiinha consegue encantar toda a meninada que silencia para lhe escutar ao mesmo tempo saltam risinhos de devaneios deixando bem firme que aquele saber pertence a ela e a comunidade e os educadores tem a nítida certeza de que muita história ainda vai rolar e que dona Fiinha tem cadeira cativa no seio da escola… Dona fininha pede pra sentar a professora se dirige a ela e pergunta se ela deseja voltar a escola para contar mais caso. Ela responde rápido “claro quando oseis quiserem. Esses meninos são meus netinhos e precisam saber como era esse povo todo daqui e as histórias que eles contavam. A seguir dona fininha pede para ir embora e sai cantando e dizendo em bom tom “meninos não façam bagunça…”

Eu já vou imbora, já vou sim

Levo no coração

O sorriso de oseis

E o carinho da escola

Volto qualdo quiser

Pois quero contar

Minha história e

A história de vocês…

Batendo palmas a porta se fecha

4. O encantamento da identidade, ancestralidade e alteridade dos estudantes e de todos os participantes da Ação

Os professores contam alegres e entusiasmados com os olhinhos encantados:

Ô meu pai, meu pai, QUE COISA, HIII PARECE QUE TÔ VIVENDO DE NOVO. Já vivi isto e já vi isto na minha rua e na minha casa. Meus avos sentados em bancos com uma chapa de brasa no meio do chão e só contavam histórias de assombração, dava arrepios mas a gente não arredava o pé. A cantoria, o chiado da boca. A virada do corpo e o clamor da alegria que soltava do corpo e do coração. E não são diferentes dos alunos que de boquiaberta encantam com as histórias e pedem mais e mais. Fazem perguntas e sugerem outras histórias quando lembram nomes de avós, vizinhos…

Dona Fininha, negra, miudinha, mas forte e fortalecida em seus 83 anos, vive em Congonhas com suas 8 filhas e filhos, 25 netos e 14 bisnetos. Sempre foi uma cozinheira de mão cheia, que adora brincar com as panelas, conversando e contando causos dos mais variados, fazendo toda a cozinha tremer de tanto rir. Sempre viveu na comunidade do Campinho, um bairro com descendentes afros carregados de uma cultura de santos, orações, rezas no terreiro, danças em grande festas no caminho de chão batido, que levantava poeira ao som dos tambores e Dona Fiinha não se cansa de falar, “ gosto daqui, sou muito feliz aqui , toda minha alegria e tristeza passei aqui e aqui, quero morrer.”…

5. Outros registros

Turma da EJA, Centro Psiquiátrico, o encantamento de Dona Fininha e Senhor Sebastião que no barulho das palmas, nas flores dos arranjos campestres, no café com broa, despertam o lugar para uma alegria firme e diferente. São os mestre que chegam fazendo festas, lançando no ambiente uma emoção que leva todos os alunos presentes a fazer uma volta no passado e reviver emoções do tempo de crianças, do tempo dos avós. O tambor toca, dona Fiinha puxa uma música e todos cantam e dançam. Assim que terminam pede outra e a seguir sugerem um caso e mais outro e mais outro… assim roda se anima, o tempo passa e o momento torne-se ímpar para todos. É só olhar e vê todos os olhinhos cheios de brilho de uma gota que teima em cair de emoção.