Meu contato com a tradição oral surgiu ainda na minha infância, a vivência que as profissões exercidas pelos meus pais, de feirante (mãe) e de caminhoneiro, açougueiro, mecânico (pai) permitiu desde cedo o contato com pessoas de todos os segmentos sociais, de todas as vivências e de muitos lugares do país, experiências que despertou em mim o desejo de ouvir as pessoas, especialmente aquelas mais velhas, aprendi a sentar e ouvir histórias por horas a fio, era muito mais que escutar, era aprender todas aquelas experiências, cresci com esse mesmo desejo, continuar ouvindo e aprendendo. Ainda na adolescência criamos um grupo de pesquisa da história local (Grupo Cultural Jandu-Cari) com a institucionalização da Fundação Félix Rodrigues no município em 1997, todos nós que fazíamos parte do grupo de pesquisa, fomos apoiados por esta instituição e nos envolvemos nas suas atividades, que vem incentivando a valorização da cultura popular, a tradição oral, através das pesquisas, da capoeira, dos cursos de história local, da vivencia com a Mestra Dodora que desde o inicio é uma presença constante e na minha vida e na história da Fundação Félix Rodrigues.
A participação na Ação Griô surgiu pela necessidade que sentiamos de concretizar, potencializar e reconhecer a presença dos Mestres dentro da comunidade. Para mim (griô aprendiz) a participação como potencializadora dessa parceria têm sido de uma riqueza impar, ouvir e absorver os conhecimentos dos mestres juntamente com a comunidade escolar estreitando a relação já existente. É uma experiência que tem marcado a minha vida, pois me identifico com a missão de griô aprendiz e com a missão do Ponto porque ambos têm proporcionado aos alunos a compreensão de sujeitos responsáveis pela sua própria história dentro da comunidade e reconheçam a participação dos Mestres e Griôs como iniciadores e parceiros nesta construção.
Desejo ressaltar o prazer de ter identificado novos mestres da comunidade não apenas através da Mestra Dodora, mas através dos proprios alunos que ao final de cada roda de contação de história, de vivência, indicavam um outro nome dentro da comunidade que deveria ser ouvido e reconhecido por nós como Mestres e registrar o prazer de ouvir as proprias crianças identificarem-se com a figura de griô aprendiz e se autodeclararem dessa forma.
A relação com a Mestra Dodora iniciou-se através da relação professor/aluno, a quem sempre admirei pelo carinho que sempre demonstrou pela história e tradições locais e regionais. Mesmo após termos seguido caminhos educacionais diferentes, visto meu ingresso no ensino médio e posteriormente na universidade. Dodora sempre foi presença constante nas pesquisas que o Jandu-Cari realizava sobre a comunidade, suas informações eram de extrema importância para o desenvolvimento e credibilidade dos trabalhos que apresentávamos. Já com Damiana, nossa relação iniciou-se na própria comunidade onde hoje desenvolvemos a Ação (Porto do Carão), onde desenvolvi no ano de 2000 um trabalho como educadora, o qual me permitiu propor o desenvolvimento da Ação dentro da escola da comunidade, idéia que foi prontamente aceita, nos levando a encaminhar o Projeto da Ação Griô para o Minc. Assim, construção de uma relação de respeito e afeto com os educadores, as crianças e a propria comunidade permitem que o papel de mediador que preciso desenvolver como griô aprendiz ocorra de forma natural e produtiva.
As educadoras da escola são grandes parceiras para o sucesso da Ação, juntas criamos uma lista de sugestões para nortear as atividades a serem desenvolvidas durante 2007/2008, e desenvolvemos ainda os Projetos: “Cantigas de roda, na roda da vida” para ser desenvolvido com alunos das séries iniciais, e “Cordel, arte e identidade” para ser desenvolvido com os alunos das séries finais.
Sinto-me a vontade para desenvolver os rituais e vivências a partir da nossa realidade local, o encantamento e respeito pelas raízes de cada individuo e comunidade sempre fizeram parte da minha vivência familiar, e através desse respeito e convivo em paz com minhas raízes. Evidentemente que algumas características são preponderantes em minha postura e personalidade, mas acredito que isso faz do meu papel como griô aprendiz, mais rico e dinâmico, busco em contato com minhas Mestras encontrar a essência da nossa Ação de forma a fazê-la comungar com a essência da Ação Nacional e em conjunto construimos nossa rede local de transmissão oral.
A relação da escola com a Ação Griô é de parceria e encantamento, todos os educadores do turno matutino estão inseridos nas atividades, buscamos nestas atividades reconhecer e ampliar o respeito а diversidade e identidade de cada individuo, através da interação do saber dos mestres com o conhecimento prévio de cada criança e educador, fazendo das rodas de contação de histórias, de cantigas e de vivências uma perpetuação das tradições orais. Posso afirmar que a escola tem dialogado de forma efetiva com os saberes da tradição oral, ao flexibilizar seu horário de aula, ceder seu espaço geográfico e potencializar a inserção da tradição junto aos conteúdos da grade curricular.
A relação da Mestra Dodora e da Griô Damiana com a comunidade e a escola já era de muito respeito e cumplicidade, visto que as duas são reconhecidas pelo conhecimento e zelo que mostram pela história e tradições da mesma, mas a Ação potencializou essa relação que se tornou mais dinâmica e produtiva, visto que os alunos deixaram de vê-las apenas como gestoras da escola e passaram a vê-las como mestras na comunidade, mas, o mais especial foi que essa relação potencializou e permitiu o envolvimento com os demais mestres da comunidade que passaram a ser reconhecidos como portadores de saberes, de tradições e de conhecimentos que precisam ser perpetuados.
Relatar a história de vida de um único mestre é uma tarefa dificil diante da gama de vivências que esta Ação nos proporcionou, fazer um apanhado da alegria de Mestre Alfredo ao ser ouvido por crianças que não o viram dançar o Boi, mas que ficaram encantados em ouvir sua vivência, o prazer e a alegria de D. Lica que sendo uma mulher sem uma instrução formal assumi nossas salas de aula com o encantamento e a sabedoria de poucos educadores, seu Veridiano que sentado em sua canoa voltando de mais um dia de pesca nos deu uma aula de como conviver com a natureza de forma sábia mostrando para a meninada que não é o status que faz um bom profissional e sim o amor que devota a seu oficio, podemos citar ainda o encantamento de D. Tereza única parteira viva da comunidade ao ser entrevistada pelos nossos alunos e o prazer dos alunos em pesquisar quem na comunidade nasceu de parto natural e pelas mãos de quem, as histórias das salinas partilhadas por Chico Bode e seus conselhos para que as crianças se dedicassem ao estudo e reconhecessem os esforços realizados pelos seus pais para oferecer uma oportunidade de educação, e claro as experiências de vida e de conhecimento compartilhadas pela Mestra Dodora que levou nossas crianças a sentarem com seus familiares, vizinhos e conhecidos buscando saber com mais detalhes a história da comunidade e as horas de encantamento ouvindo os causos da Griô Damiana, que até iniciar a participação na Ação não sabia a importancia de seus causos e histórias de assombração para a tradição oral.
Diante de tudo isso, posso afirmar que todos fomos impactados, alunos que se prontificam a contar e a buscar as histórias para partilhar na roda, o prazer de ficar sem intervalo para retextualizar uma história ouvida, de não reclamar do atraso na merenda para fechar uma roda de contação de história ou de vivência, educadores que chegam com novas ideias de atividades a serem desenvolvidas para fazer o curriculo dialogar com a tradição oral. Para mim, tudo isso é encantamento.
Raquel do Nascimento
Casarão de Ofícios