Pedimos a benção a D. Zica e Cartola, para contar o que é o Projeto GerAções, da Ação Griô, no Ponto de Cultura Centro Cultural Cartola. E com a poesia inspiradora do compositor, alinhavamos nossas histórias, nossas palavras.
Diz aí, Cartola!
A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida
Fim da tempestade
O sol nascerá
Fim desta saudade
Hei de ter outro alguém para amar
A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida
Jovem de 22 anos, Maíra de Freitas Ferreira é griô aprendiz, formação clássica em piano pela UFRJ, produtora musical de peças teatrais e recitais. Filha de pai músico – Martinho da Vila – e mãe porta-bandeira – Rita, do Salgueiro – traz a vida latente na confiança de que o sol nascerá para as crianças que aprendem flauta e teoria, num processo de descoberta pela musicalização. Fala, Maíra!
A participação na Ação Griô ocorreu como conseqüência de um trabalho que eu já vinha fazendo no ponto Centro Cultural Cartola com as crianças na oficina de flauta. Através da Ação Griô eu pude relacionar de forma mais sistemática a tradição oral com a minha prática pedagógica na aula de música.
Meu contato com a tradição oral é de origem familiar, onde as questões da música popular, do samba e da cultura do carnaval estão presentes na minha vida desde muito cedo. Durante a Ação, eu pude trocar estas experiências e aprender novos saberes juntamente com a organização dos mesmos em relação ao trabalho musical nas oficinas de música.
A convivência étnico-cultural na comunidade é muito harmônica e natural, uma vez que recebemos crianças de diversos locais, idades e classes sociais. Minha atuação é no sentido de conduzir para uma boa convivência e um compartilhamento dos diversos saberes que cada criança traz de casa. Confrontamos estas realidades e discutimos fazendo uma reflexão sobre própria diversidade.
Minha forma de incorporar a missão da Ação é justamente, através da aula de flauta, trazer as questões da tradição oral e aplicá-las aos conteúdos tradicionais da aula de música não esquecendo dos próprios conteúdos. Deste forma, comparamos e confrontamos o que dito como formal e acadêmico com o que vem da tradição oral, ambos em graus iguais de importância e valor artístico.
O vínculo com a minha ancestralidade se fortalece quando posso pensar nos saberes que incorporei ao longo dos anos de forma a relacioná-los com os conceitos teórico-musicais acadêmicos consagrados. Sem juízo de valor, posso colocar em pé de igualdade a cultura popular e a erudita, acabando com preconceitos e divisões que nos dias de hoje já não fazem mais sentido. Minha identidade e a identidade dos pequenos griôs se fortalece quando a nossa cultura ancestral é valorizada da mesma forma como é valorizado o currículo tradicional, sem supervalorizar um ou diminuir o outro em grau de valor.
A ação griô foi muito importante para mim, pois pude através da troca de experiências desenvolver um trabalho que incorpora valores importantes para mim e muito presentes na cultura carioca especialmente na comunidade da Mangueira.
Maíra Ferreira
Griô Aprendiz
Ensaboa mulata, ensaboa
Ensaboa
Tô ensaboando
Ensaboa mulata, ensaboa
Ensaboa
Tô ensaboando
Tô lavando a minha roupa
Lá em casa estão me chamando, Dondon
Ensaboa mulata, ensaboa
Ensaboa
Tô ensaboando
Lília Gutman Paranhos Langhi é a educadora, mestre em Letras pela UERJ e graduada em Gestão do Carnaval. Responsável Pedagógica pelo Projeto GerAções, cria desdobramentos a partir da contação do Griô mestre, estabelecendo pontes com o trabalho de musicalização do Griô aprendiz.
O fazer do educador é marcado pelo gerúndio – tempo verbal que enuncia a ação em processo. A educação é um constante vir a ser. No espaço democrático de um Centro Cultural, o desafio é equilibrar os saberes entre o antigo e o novo, entre o popular e o erudito, entre o sagrado e o profano, entre o pessoal e o coletivo, o acadêmico e o experimental.
Fazer um projeto de tradição oral onde o patrono – Cartola – canta que “as rosas não falam”, foi tomar um caminho para descobrir como as rosas falam, sentindo seus aromas, percebendo sua essência… Minha busca do samba tocou minha ancestralidade. Meu pai – prof. Paranhos – foi pioneiro no trabalho em sala de aula com letras de samba, no início dos anos 60. Mostrava aos alunos o caráter poético desses textos, dando crédito à voz do sambista… Esse aspecto me inspirou o desejo de criar o projeto GerAções, com o intuito de explorar esse universo.
Cartola é tema de muitos livros e projetos para escolas. Mas falar de Cartola dentro de sua própria casa tem gerado novas possibilidades. Algumas crianças não o conheciam, outras só conheciam suas composições. Aproximá-los de outros nomes destacados do mundo do samba fez com que se identificassem nas histórias familiares, relacionando-as às suas próprias, às dos avós, pais e irmãos, buscando informação sobre outros tempos.
O jeito de contar da Maria Moura é muito natural. É espontâneo, entremeado por citações de trechos de música e falas de expoentes da música popular, com quem conviveu. Desta forma, a fala ganha rubrica de verdade, ainda que se misturem referenciais desgastados pelo tempo, vivências da infância e testemunhos de um universo delimitado pelas fronteiras cariocas. As crianças construíram o painel da pedra do sal – onde, segundo Maria, teria sido enterrado o segredo e o axé dos primeiros negros – e sentam-se sob a bananeira decorativa, um espaço eleito para a contação de histórias. No discurso do griô, diversas histórias mostram questões de discriminação racial e social, provocando um questionamento sobre o que ainda é permanência na realidade
Um exemplo de atividade em que se buscou a relação com a ancestralidade afro-brasileira foi quando Maria mostrou ao grupo símbolos africanos. Com o conhecimento de seus significados, começaram a identificar esses desenhos nos elementos decorativos de gradis das casas, nos portões, signos que transcenderam os ferreiros que os fizeram e reproduziram. A partir desse entendimento, passaram para uma atividade coletiva de pintura com carimbos produzidos por eles. Já bem familiarizados, escolheram o símbolo para representar sua identidade como herói, criando uma bata pintada com tinta para tecido. Maria explicou o símbolo do “sankofa” e ensinou a idéia de que “nunca é tarde para voltar e apanhar aquilo que ficou para trás”, associando o símbolo ancestral a um conceito atemporal.
Para nós, educadores, nada melhor do que ajudar a perceber o que é erro e transformá-lo em acerto, clarificar o processo de sua releitura e resignificação. Depois desta atividade, percebemos uma mudança muito grande na escuta e na participação dos meninos.
O Centro Cultural tem um acervo relacionado ao samba como patrimônio cultural, com exposições permanentes e uma pequena biblioteca especializada. É do Centro Cultural Cartola a tarefa de zelar pelo plano de salvaguarda do samba carioca como patrimônio imaterial. E uma vez protetores do samba, estendemos os limites do mapa para além Mangueira, contando a história das tias de outras comunidades, das porta-bandeiras, das pastoras e cabrochas, dando saltos temporais que façam pontes entre Tia Doca e Dodô da Portela, Zé Pereira e o Bloco dos Arengueiros, o corso, Chiquinha Gonzaga e os homens vestidos de baianas. Nessa releitura de carnavais passados, propus a criação de golas de papel crepon, decoradas com pompons e purpurina. Paralelamente, Maíra incluiu no repertório marchinhas de antigos carnavais – Viva o Zé Pereira e Abre-alas, entre outras.
O projeto GerAções estabelece, também, elos entre nós, da equipe, três diversas gerações – griô aprendiz, educadora e griô mestre.
Tenho buscado fortalecer esses elos, aprendendo sempre, porque o trabalho do professor é sempre o de aprender.
Lília Paranhos Langhi
Educadora
Muito velho, pobre velho,
Vem subindo a ladeira
Com a bengala na mão
É o velho, velho Estácio
Vem visitar a Mangueira
E trazer recordação
Professor chegaste a tempo
Pra dizer neste momento
Como podemos vencer
Me sinto mais animado
A Mangueira a seus cuidados
Vai à cidade descer
Maria Moura é figura tradicional no mundo do samba, circula entre as rodas das quadras das escolas, das festas de velha guarda, dos rituais relacionados à tradição popular e à espiritualidade, inspirando profundo respeito entre representantes de todas as gerações.
Advogada, graduada em Gestão de Carnaval, é incansável na luta pela ressignificação das questões sociais no país. Dispõe-se integralmente ao trabalho com as crianças do projeto Ação Griô no Centro Cultural Cartola, afinada com as lembranças de quem viveu e conviveu com o compositor e outras grandes figuras do samba.
Solta a voz, Maria!
A cultura popular e a cultura negra sempre estiveram presentes na minha vida. Desde a infância, convivi com as senhoras da tradição do Carnaval e dos terreiros da Praça Onze onde, dentro das casas de cortiço, no bairro do Rio Comprido e do Estácio, minha avó Eliza, Tia Daí, Tia Guiomar me ensinaram a tradição que elas, por sua vez, aprenderam na antiga Praça Onze e que foi trazida das fazendas de escravos da Bahia e Minas Gerais.
Desta forma, o Projeto Griô me deu oportunidade de poder exercer esse “ofício” de Griô no Centro Cultural Cartola. Meu contato com o Griô começou na Universidade Estácio de Sá quando fui aluna da professora Nilcemar. A primeira tarefa foi elaborar uma proposta para a Ação Griô no nosso ponto de cultura.
No encontro de Vassouras, tomei contato com outras regiões onde o projeto atuava e assisti à exibição do documentário sobre o trabalho do “Grão de Luz” e de outros mestres de várias origens.
O que pude observar durante esses meses de convivência com os alunos, foi a mudança de comportamento, principalmente a auto-estima, concentração e participação dos alunos e responsáveis. As mães das comunidade da Mangueira, por exemplo, fizeram até uma horta na área da Casa de Cultura. Além disso observo que o grupo exercita a convivência com a diversidade, a partilha do material coletivo, voltada para uma ação ou produto e a capacidade de expressar-se através de diferentes linguagens.
Maria Moura
Griô Mestre
Tudo de alegrias e de tristezas conheci,
Coisas do amor e do sofrer, eu já senti,
Nada me transforma a alegria de viver,
Ver a noite vir e sorrir, ao sol nascer,
Vivo esperando o novo dia,
Que irá trazer a luz, que sempre ficará!
Nilcemar Nogueira é Mestre em Gestão de Bens Culturais e Projetos Sociais (FGV). É vice-presidente do Centro Cultural Cartola e atua como guardiã do plano de salvaguarda do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. Trabalha para construir um novo dia para as crianças e jovens do nosso Rio de Janeiro.
Com a palavra, Nilcemar:
Como membro de família de sambistas, atuando com meu irmão Pedro Paulo no Centro Cultural Cartola, convivendo com pessoas consideradas ícones da cultura popular praticada no Rio de Janeiro e sendo ouvinte de histórias vivenciadas pela família, sinto um compromisso com as pessoas que integram essa memória afetiva.
Não existe uma rede de transmissão oral, observa-se a passagem do saber cultural apenas nos principais núcleos familiares, poucos, porém, com consciência de que são detentores e produtores de um bem cultural. A Ação Griô veio preencher uma lacuna no nosso programa, ajudando na sobrevivência da nossa identidade cultural – o samba – contribuindo no Centro Cultural Cartola para o resgate, registro e difusão da música, da dança, do ritmo e de simbolos identitários da comunidade Mangueirense.
Nilcemar Nogueira
Coordenadora Geral do Projeto GerAções