Arquivo paraMaio 11, 2008

Trilha Caminho do Rio São Francisco

A gente já desenvolvia atividades com os mestres da cultura popular. Já havia um diálogo do “saber popular e o saber científico”. Tínhamos mesmo que inscrever o projeto e nos dá a oportunidade de conhecer e dialogar com instituições que tinha trabalhos afins.

Nasci na cidade de Piaçabuçu – AL, em um povoado chamado Potengy (rios de camarões), não tinha asfalto nem luz elétrica. Quando alguém ficava doente ia pra casa de um rezador ou logo procurava na mata ou no quintal plantas que curavam. Não tinha TV, e quando era noite, as pessoas sentavam em suas portas para conversar, contar histórias. Chega luz elétrica e as pessoas vão mudando seus hábitos, já não sentam em suas portas pra conversar. Em 1999 chega uma oficina de canto-coral no Potengy, e ao meio dos cânticos da Igreja católica, misturam-se músicas diferentes, cantigas de roda, cirandas… Em 2000, aos quinze anos, fui convidada a participar do grupo de artes integradas Caçuá. Lá, percebo hoje, já existia a roda das idades: no grupo tinha pescadores, poetas populares, pifeiro, estudantes universitários, professores, crianças e adolescentes. Fui vivendo sem questionar nada, tudo era comum e diferente. O pífano, antes usado nas procissões, ocupava outro espaço também, composições vinham com facilidade da cabeça do pifeiro Cícero Lino. Fui, até sem perceber, tomando posse das coisas que já eram minhas, mais que de certa forma estavam esquecidas, adormecidas em mim.

A partir de então conversava com outros pifeiros, cantadores de coco, com mestres da cultura popular relacionados à música. Em 2002, conheci o contador de histórias Luciano Pontes, foi quando lembrei das histórias que as pessoas contavam quando não tinha luz no meu povoado, e essas histórias ficavam o tempo todo dentro de mim gritando: Conta-me!!!!Conta-me!!!! Como sou obediente, contei-as; e outras vivem a aparecer e pedem para que eu as conte. Com a ação griô tive e tô tendo a oportunidade de aprender, de ouvir, contar e recontar as histórias tão apaixonantes desses mestres e griôs, agora bem mais próximos de mim e da Olha o Chico. To aprendendo a sistematizar esses saberes e ajudar em sua propagação.

Em Piaçabuçu potencializamos a convivência social, entendemos que, somos um coletivo, temos descendência africana, indígena, portuguesa… Ao fazermos essas informações chegarem às pessoas, fazemos com que haja uma potencialização da convivência humana.

Nenhum desenvolvimento se fará com qualidade se não houver a valorização da cultura popular e o fortalecimento da identidade das pessoas. No nosso ponto mobilizamos (através da cultura e meio ambiente) e contribuímos para a organização do povo ribeirinho através da articulação em rede de comunicação e trocas de experiências, de forma que se perceba protagonista consciente de sua história. Isso só acontece quando mim conheço e ao outro, valorizo a mim e minha história, quando respeito e valorizo a historia do meio a que eu pertenço.

Os mestres e griôs da cidade ficavam dentro de suas próprias bolhas. De lá eles repassavam o seu saber, não havia construção, para o mestre era aquilo e pronto. Talvez nós também estivéssemos em bolhas sem perceber. Questionávamos se podíamos propor mudanças na forma de repasse de conhecimento dos mestres, e de que forma intervir durante suas falas quando era necessário otimizar o tempo e amarrar o raciocínio, pois eles devaneiam e não estão muito preocupados com o tempo. A pedagogia griô foi como um espeto que furou as bolhas. Juntos, estamos aprendendo a conviver e interagir.

Aprendemos a respeitar os saberes dos mestres e eles aprenderam a respeitar nossos saberes. Percebemos o quão é importante dialogar, expor outro ponto de vista. Ouvir e ser ouvido. Não importa quem e em que “classificação” essa pessoas está, há um respeito e uma valorização mútua. Estamos construindo um novo saber.

Não era assim, mais hoje, existem respeito e carinho dos educadores para com os mestres e griôs. Muitas e muitas vezes não é necessário a mediação do griô aprendiz nas vivências das escolas. Coordenadores pedagógicos e professores assumem o lugar de griô aprendiz, o que se faz possível graças aos encontros de estudo sobre a pedagogia griô, onde estes discutem sobre as atividades nas escolas junto com mestres, griôs e alunos – não apenas os conveniados pela Ação Griô, mas com todos os mestres e griôs identificados pelas escolas em sua cidade, bairros e povoados. E isso tem funcionado. No Povoado Penedinho a escola Municipal fez um encontro com seus mestres, só fomos convidados. Os mestres vão às escolas, a escola vai aos mestres. Uma vez no mês elas param para rodas de contação de histórias, apresentação de danças e folguedos, conversas com mestres convidados, etc., não de forma aleatória, mas a partir de uma ação pensada e inserida nos Planos de Trabalhos das escolas, para que venham a compor o processo de ensino-aprendizagem.


Em se tratando da questão curricular, especificamente, nem o Município nem Estado tem um currículo definido. Um grupo, formado pelos coordenadores municipais e sob facilitação de uma consultora contratada (Joana Dark), vem se reunindo periodicamente, duas vezes ao mês para estudo e, dentre outros itens em pauta, estudam a construção de um currículo para o Município. São esses mesmos coordenadores que integram o grupo de estudo sobre a pedagogia griô.

O pedir a benção antes de todas as atividades, invocar a presença dos espíritos de luz, dos meus ancestrais… tem me ajudado a ter paz e calma na mediação das vivências.

Minhas vestes, em geral, lembram a etnia africana, com cores fortes e contrastantes, mas poderia associa-las a indígena pelos adereços, a cigana, com seus enfeites, etc.

Logo no começo da Ação Griô – e mesmo antes dela, o uso do figurino e a construção de um personagem dava-me a segurança necessária para mobilizar a comunidade e falar de idéias sobre as quais eu acreditava, mas que talvez ainda não tivessem sido de fato, incorporadas como crenças e verdades a serem respeitadas por todos. É como se fosse vergonhoso ser diferente e isso, de certa forma me incomodava.

Hoje percebo com orgulho que sou diferente – que em verdade todos são, ou deveriam ser se não se moldassem a um senso comum –, confio em minhas crenças, no que posso fazer pra mudar o mundo pra melhor. Minha veste para vivência da ação griô são parecidas e, às vezes a mesma roupa que uso no dia a dia. Quero dizer com isso, que não considero a roupa que uso como griô tão fundamental. Gosto muitas vezes de escolher com carinho um figurino para esse trabalho – ou outro – mas, acima de tudo, eu sou Linete, pessoa, igual e ao mesmo tempo diferente de todos.

Será que todos os griôs devem usar roupas diferenciadas das que utilizam em seu cotidiano? Gosto de saber que a roupa que estarei usando vai facilitar que as pessoas olhem para mim e escutem o que estou falando, mas gosto também quando, em um trabalho feito em círculo as pessoas têm dificuldade de perceber quem está mediando, e se tiver com uma vestimenta muito diferente, isso não acontecerá.

Antes da Ação Griô, a cidade já vinha trabalhando em sua rede de educação, questão ambientais. E pensar o ambiente é pensar também as pessoas que aí habitam o que nos leva, inevitavelmente, a pensar valores e práticas sócio-culturais. Foi nesse contexto que a Ação Griô chegou a Piaçabuçu e talvez por isso tenha encontrado terreno fértil e, chegado com uma energia forte e contagiante, se materializou com facilidade no som do pífano, nos passos e cantos do guerreiro e reisado, na delicadeza das bonecas de pano, nas plantas que curam, ocupando as salas de aulas, os pátios das escolas e ecoando pela cidade.

Desde quando o projeto foi escrito estava clara que haveria relação com as escolas, mas não imaginávamos que essa relação fosse ganhar proporções tão mágicas. É ainda incalculável a proporção que começa a se firmar nesta cidade – e nas outras 10 cidades ribeirinhas de Alagoas. São Planos de Trabalhos de Escolas planejados sob novas perspectivas; são mestres, griôs, coordenadores e alunos sentados juntos e pensando sobre que tipo de escola se quer e de que forma construí-la – nos encontros mensais sobre a pedagogia griô; é uma cidade se re-encantando com seus saberes, suas belezas vivas…

O envolvimento dos mestres, dos griôs e dos dirigentes da Olha o Chico foi fortalecido pelo encantamento que se deu com os coordenadores e se propagou no ambiente escolar. As escolas, que já vinham buscando a relação com a comunidade, encontraram nessa ação simples e forte, a possibilidade de trazer os pais para o convívio desse ambiente. São rodas de conversas onde os pais contam histórias sobre a cidade, mestres que orgulhosos repassam seus saberes…

Não discutimos questões religiosas, apenas buscamos a construção de um ambiente de respeito a todos, independente de raça, crença, opções sexuais, partido político, grau de instrução, etc.

Em uma escola apenas (Estadual) chegou a ser discutida a questão específica da religião, propondo a retirada desta disciplina do horário escolar e organizando momentos de espiritualização ao início do expediente, e de seminários com representantes das diversas expressões espirituais presentes na cidade: cristã (católica e protestante), espírita, umbandista, etc.

O estudo sobre as questões ligadas a questões étnico-culturais e a consciência histórica na escola relacionada à tradição oral

O diálogo efetivo entre o currículo e os saberes de tradição oral tem, por sua vez, provocado transformações bastante significativas a serem vivenciadas neste ano de 2008, como fica claro no texto de apresentação inserido em um dos Planos de Trabalho elaborados para 2008, o da Escola Municipal Deraldo Campos:

Partindo de nosso contexto, que é a falta do espaço físico e a possibilidade de transformar toda a comunidade em espaço efetivo de construção do saber, nosso Plano de Trabalho se pauta na construção coletiva de trilhas temáticas a partir das quais serão planejadas atividades pedagógicas para alunos e de melhoria da qualidade de vida para comunidade.

Contaremos para a realização deste Plano, com a parceira do Ponto de Cultura Olha o Chico que é integrante também das redes Escola Viva e Ação Griô Nacional e contribuirá com as ações de planejamento, produção e desenvolvimento das trilhas, a serem inseridas no Projeto Caminho do Rio São Francisco.

A Olha o Chico vinha em sua caminhada, buscando a valorização e o respeito pela questão ambiental e cultural. Mas era com se fosse um caminhar sozinho, sem um mapa guia, sem referenciais outros que ajudassem na caminhada. Nesse encontro com a Ação Griô, talvez a mais significativa contribuição no que se refere a Educação, consista no fato de que essa pedagogia – ainda que em construção, foi incorporada pelos educadores da Olha o Chico e a partir daí tenha se propagado e venha influenciando todos os projetos trabalhados por este Ponto de Cultural.

Na medida em que os mestres e griôs passam a discutir sobre a educação local (nos encontros da pedagogia griô), sobre políticas públicas (nos encontros da REDE NUDAP) e assumir cargos de diretoria em organizações (a exemplo de Seu Correia, griô voluntário / contador de histórias, escolhido como diretor de comunicação da Olha o Chico), acreditamos que estejam ocupando importante lugares políticos e sociais em suas comunidades.

No projeto encaminhado, a Ação Griô contempla 4 estruturas educadoras: Viveiro Educador de Plantas Medicinais, Bonecas de Pano, Banda de Pífano e

Guerreiro Aprendiz. Com o desenvolver das ações, mais uma estrutura surgiu, o Reisado. E muitos outros saberes vêm sendo vivenciados, como: as canções de trabalho, casa de farinha, olaria, lendas, etc… Os mestres e griôs têm dominado esta prática das vivências, eles têm estado nas escolas sem a presença do griô aprendiz, lógico que eles recebem toda uma acompanhamento dos coordenadores e professores da rede.

ü “O nosso Brasil cresceu depois que o homem amostrou os grande e pequeno mestre desse projeto griô. Seja bem vindo todo mestre griô afirmar nosso folclore que o ministro pensou. Governador assinou, senador e deputado. Com nosso projeto aprovado, nossa cultura mudou” Letra da Música de Cícero Lino.

ü Seu Círero Lino, pifeiro, vivia reclamando que não tinha aluno, que ninguém mais queria aprender esse instrumento. Que ele mandava os meninos irem para a casa dele e nenhum aparecia. Esse ano (2008), ele chega na Olha o Chico perguntando que dia pode utilizar para dar aula de pífano porque tem muito menino indo aprender na casa dele.

ü O pai de uma aluna do Penedinho – que não conhecíamos – nos relatou que nos conhecia através da filha dele, que era muito tímida e passou a se expressar mais a partir do trabalho de pesquisa sobre as canções de trabalho em sua comunidade, depois do qual esta passou a participar de um grupo de alunos que cantam canções de trabalho.

ü Vários alunos, depois de apresentações passaram a participar dos grupos de folguedos: Guerreiro e Reisado.

REISADO DO PENEDINHO

Mestra Guinaura e Contra-Mestre Socorro;

Auxiliar: Seu Pagode;

Música: Trio Beija-Flor.

“A última vez que vi o Reisado, deixe eu dizer bem. Em 60 eu tinha 6 anos. No mês de abril, eu fui embora pra Colégio; minha mãe morreu e minha vó veio buscar a gente: eu e a minha irmã. Passei 2 anos lá… Dá 62, né? Quando nós voltou… Em 63! Foi em 63 o último Reisado! Eu tinha 9 anos quando vi o último Reisado lá no Retiro. O Mateus era o finado Zé Preto. Esse já morreu, quem cavou a covinha dele foi eu. Tá interradinho lá no Retiro. O Reisado era lá no Retiro. Quem fazia era um rapaz que tinha, chamado… não tenho bem lembrança o nome dele. Vou perguntar. Já morreu. Vivo hoje, que eu lembro, tem a Gruinaura e a Socorro, das mais velha. Os que tem agora nem nunca viram essa brincadeira. Além da Guinaura tem outra mulher lá que brincava no Reizado, nesse reisado que existia lá no Retiro. Tá bem velhinha. O nome dela é Creuza, mas ela não brinca com a gente não. Ela brincava no tempo dela moça. A gente lá começou porque a Guinaura já sabia brincar. Aliás a mestra e a contra-mestra, que é a Guinaura e a Socoro, elas sá brincavam quando eram crianças. Então elas me convidaram prá nós fazer assim… a brincadeira. Então começemo a chamar as meninas e vamos ver se nós consegue fazer. Mas com fé em Deus nós vamos fazer, nem que fique só 4 num lado e 4 no outro, e a mestra e acontramestra, mas nós vamos fazer. Eu tô esperando para ver quem fica e quem não fica. Uma brincadeira dessa, hoje, você sabe, ums começa a ensair, aí na outra semana já não vai, aí entra outra na outra semana. Eu tô preferindo mais as crianças. É para brincar quem quiser, mas eu tô preferindo as crinças. É porque a criança que vai ficar com o nosso saber. Nós já estamos ficando velhos. Aí se nós não fizer agora, se não ensinar as crianças, acaba. Como bem, esse tempo todo, nada de ter um reisado, um guerreiro… Hoje em dia, a gente procura um palhaço, um mateus, não tem. Acabou. Os três que brincavam lá no Retiro tá tudo enterrado lá no cemitério. A gente chama o menino eles não querem, não sabem. A gente coloca só pra representar, mas eles não sabe. Foi parando e o povo foi esquecendo.”

Entrevista feita por Dalva com Seu Pagode, em 18/08/2007.

ü Prefeitura Municipal de Piaçabuçu, através da Secretaria Municipal de Educação e Cultura, disponibiliza transporte para realização de atividades no interior.

ü Projeto Caminho do Rio São Francisco – CRSF (Ponto de Cultura), que possibilita a disseminação da Pedagogia Griô nos 11 municípios do Baixo São Francisco Alagoano através da inserção dos mestres e griôs no grupo de agentes culturais do Caminho;

ü Uma Parceria entre Olha o Chico e Prefeitura municipal está sendo firmada, com o objetivo da Olha o Chico coordenar as ações do Ponto de Cultura da Prefeitura Meninos Guerreiro, este ponto irá trabalhar com o guerreiro alagoano, teremos a possibilidade de incorporar nesta ação mestres e griôs não bolsistas da Ação Griô, como bolsistas do Ponto de Cultura Meninos Guerreiro, então a rede de transmissão oral vem se alastrando na cidade.

Somos sementes na terra. Germinar e crescer é nossa missão. Mas por algum motivo, que não lave a pena discutir no momento, muitas de nós paramos de crescer a certa altura da vida. Onde chegamos, podemos ver o que nos é necessário para viver. Pensando estarmos satisfeitas, simplesmente esperamos o tempo de morrer e à terra retornar. Podemos passar muitos e muitos anos ali, no mesmo local, olhando o mundo do mesmo mirante, com medo – ainda que não percebido – de mudar um pouco nossos galhos e forçando as raízes, tombar-mos no chão. Somos sementes teimosas ou sofridas as que fizemos essas opções? Que motivos tivemos para esquecer e mudar completamente nossa missão? Talvez as mãos que nos regaram tenham sido ásperas, os ventos que por nós passaram tenham sido assustadores, as chuvas que caíram tenham sido tão fortes que nos machucaram e todas as vezes que tentamos direcionar nossos galhos para um lugar novo, tenha vindo uma tesoura nos podar. Por isso, chegamos a um momento em que pensamos estar na altura certa, com nossos galhos na direção certa, estamos equilibradas, tem conforto nosso caule e a raiz que nos sustentam. Damos poucas flores, poucos frutos, mas, e daí. Para que forçar as raízes, exigir delas mais resistência e trabalho em capturar seivas? Para que dirigir nossos galhos em vários sentidos se não temos liberdade de sair do local onde germinamos? O encantamento pela vida já não faz mais sentido, ficou na semente.

Mas a semente carrega a força de toda sua ancestralidade. E ainda que tenham se passado muitos e muitos anos, chegará um dia em que a semente lembrará que já teve sonhos. Sonhos de ser árvore com muitas flores para ouvir o zumbido das abelhas colhendo pólen para fazer o mel, sonho de ser árvore com muitos frutos para receber a visita de animais e pássaros que gratificados com o alimento recebido descansariam em seus galhos dando-lhes carinho. Sonho de ser feliz, de fertilizar com muitas outras sementes aquela terra, de onde ela não precisava sair para viver com intensidade, pois sua missão era germinar e crescer e para crescer ela só precisava viver com intensidade e isso ela tinha liberdade para fazer.

Somos sementes carregadas de sonhos e a Ação Griô veio nos lembrar que temos liberdade de sonhar.

Maria Linete

Vicentina Dalva

Caminho do Rio São Francisco

Trilha Estrela de Ouro

O Ponto de Cultura Estrela de Ouro, do Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, com sede no Sítio Chã de Camará, no município de Aliança faz parte do primeiro edital dos pontos de Cultura. Estava preocupado com certa insatisfação dos mestres, pois havia muito trabalho e, na verdade, estavam insatisfeitos com o resultado que se colhia para o grupo. Este Ponto de Cultura está situado na zona rural da cidade de Aliança, e esta a 72 quilômetros do Recife. Os mestre estavam todos ligados ao corte da cana, envolvidos no canavial desde a infância, sendo todos analfabetos.

Preocupados com a situação de necessidade econômica e financeira dos mestres, o Ponto de Cultura buscava uma maneira de assegurar um ganho mensal permanente aos mestres, quando foi publicado o edital do programa Ação Griô e foi entendido pelos coordenadores do Ponto de Cultura como uma possibilidade de realizar uma ação educacional junto à comunidade, ao mesmo tempo em que possibilitava uma maior tranqüilidade financeira mínima aos mestres e eles poderiam verificar de imediato o valor de seus trabalhos.

Pela própria história de vida de cada um dos griôs e mestres do Ponto de Cultura Estrela de Ouro, eles são parte da tradição oral da região onde vivem desde o seu nascimento. Tudo que aprenderam dependeu do uso atento dos sentidos, especialmente a visão e a audição. Todos eles trabalharam com as mãos e aprenderam, pela convivência as diversas artes que utilizam no dançar, no contar as histórias, no versejar, na realização das tarefas que lhe eram confiadas no canavial. Entretanto isso que eles faziam “naturalmente” não era processado cerebralmente. A Ação Griô permitiu aprofundar o trabalho que vinha sendo realizado nos encontros que se faziam para dar uma organização na sede do Ponto de Cultura. Os encontros passaram a ser mais sistemáticos e oficinas foram realizadas para preparar as atividades que iriam ser postas em práticas nas escolas da comunidade.

A comunidade de Chã de Camará, onde funciona o Ponto de Cultura é formada por seis famílias de trabalhadores rurais, alguns ali trabalhavam quando da fundação do Primeiro e Real Ponto de Cultura do Mestre Batista. Ali se encontram as diversas etnias formadoras do povo brasileiro, e as conversas sobre as diversas tradições culturais fortalecem o sentimento do grupo, nas suas diferentes ancestralidades, não dando, a coordenação do Ponto de Cultura, ordem de preferência por nenhuma das tradições étnicas, mas garantindo a celebração de todas. Assim, na Chã de Camará há um centro de Jurema, mas os griôs e mestres não participam dos rituais, enquanto se sabe que alguns caboclos e mulheres da comunidade adjacente participam dos ritos. O sacerdote do Centro Nossa Senhora da Conceição é o rei do Maracatu e, não são poucos os caboclos que entendem a sua importância.

A missão do Ponto de Cultura é a promoção da estima, a valorização de todo e de cada um, um lugar onde todos atuam para o bem de todos. Nesse sentido, observa-se que a Ação Griô adequou-se bem aos objetivos propostos pelo Maracatu Estrela de Ouro de Aliança e do Ponto de Cultura. Os Mestres Griôs são mestres do Maracatu, dos Caboclos, do Coco, do Terno do Maracatu e do Cavalo Marinho.

Embora seja boa a existência da Ação Griô, o Maracatu Estrela de Ouro de Aliança cuida para que o Ponto de Cultura Estrela de Ouro, nem a Ação Griô suplante a tradição do Maracatu e das demais tradições geradas na Zona da Mata Norte.

Penso que o que se põe nessa questão é mais própria para ser respondia por uma pessoa que use predominantemente os códigos da cultura letrada, o que não é o caso do Griô aprendiz Biu do Coco. Contudo posso observar que a sua relação com os mestres griôs, com os quais já se relacionava melhorou sensivelmente em várias direções. Ao mesmo tempo em que se viu mais valorizado, o Griô aprendiz passou a conceder maior importância às palavras que escuta dos demais mestres, ao tempo em que aprendeu a não ter receio de ofendê-los com as suas opiniões. Ao longo desse ano pudemos assistir o crescimento da autoconfiança, do auto-respeito e estima do Griô aprendiz.

O Ponto de Cultura Estrela de Ouro, considerou a diversidade cultural dos freqüentadores, daqueles que são parte do Maracatu Estrela de Ouro de Aliança e dessa tradição. Embora tenham sido produzidos alguns trabalhos acadêmicos que querem fazer ligação direta entre o folguedo do maracatu e as entidades religiosas, verifica-se que os que desejam participar do maracatu, seja como caboclos, seja como baiana, participam de variados credos e tradições religiosas. O Maracatu Rural ou de Baque Solto, diferentemente do Maracatu de Baque Virado não exige filiação religiosa de seus membros, convivendo com as diversas tradições e sofrendo os preconceitos – positivos e negativos – que as tradições populares sofrem socialmente.

Antes de ser iniciada a Ação Griô, o Maracatu Estrela de Ouro de Aliança exigiu a sua participação no desfile cívico do aniversário da cidade, o que causou estranheza, pois aquele desfile era apenas para as escolas e algumas outras instituições culturais e educacionais. Após o susto inicial, o Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança se pôs na sociedade como um lugar cultural e como um lugar de ensino-aprendizagem. Assim, quando se organizou a Ação Griô, ficou estabelecido que os Griôs iriam visitar as escolas e apresentar as suas criações e as suas vidas aos estudantes, em seus lugares de estudo. Não se pretendeu que os saberes entrasse na matriz curricular, mas que estudantes e professores pudessem perceber que há mais que dança, há mais que balanço, na tradição que a escola não estuda em seus cursos.

Ao chegarmos nas escolas, o aprendizado já havia se iniciado antes, através do Griô Aprendiz que visitava a escola para conversar com a direção. Assim ele desenvolvia a sua capacidade de comunicação, vencia as barreiras sociais que impunham o temor de falar, a vergonha da condição social. Depois o contato com outras instâncias do poder estatal – antes tão distante e temível – para a garantia dos transportes necessários. O Griô Aprendiz diz que outros passaram a lhe ver de maneira diferente, mas ele aprendia a ver-se de uma nova maneira.

A recepção nas escolas foi uma surpresa para os mestres. Na região, como em todos os espaços populares rurais, o respeito aos mais velhos é parte integrante da vida social, um respeito que se perde, aos poucos, nas sociedades letradas, onde o saber é transmitido profissionalmente pelos mais jovens, nem sempre mais experientes. O carinho e o respeito com que os estudantes ouviam o que os mestres diziam sobre as suas vidas e o significado de suas artes, emocionou a cada um deles. Paralisar as aulas para continuar em aula foi prazeroso para professores e alunos de cada escola visitada. Esse prazer promoveu o interesse de outras escolas que se sentiram prejudicadas pela não visita dos Griôs.

A inserção dos mestres e griôs contribui para introduzir uma reflexão das escolas e um maior aprofundamento das artes e culturas brasileiras.

Considerando política como o reconhecimento do poder que a experiência produz, um prestígio novo e a criação de uma nova audiência, nota-se que a comunidade – em seu sentido mais amplo – referenda um pouco melhor a atuação e os atos do mestre do saber popular. Esse reconhecimento é maior no seio da comunidade do Ponto de Cultura.

O maior ganho parece ter sido no ambiente da escola, lugar onde se discutia como cultura apenas o que era produzido fora da cidade. Agora se pode notar um orgulho dos aliancenses por seus mestres, não apenas os Griôs do Ponto de Cultura, mas de todos os maracatus da cidade. Ainda é grande o espaço a ser percorrido por todos os membros da sociedade local, mas hoje ela sente orgulho em saber que homens simples que eles conhecem são convidados a se apresentarem, não mais como uma atração exótica, mas como senhores de um saber que só aquela região produziu. Cada vez é mais fácil conseguir espaço nos meios de comunicação da região, onde esses mestres são reverenciados.

A permanência maior dos mestres no Ponto de Cultura, o que foi permitido pelo ganho garantido, tem permitido a eles receber um maior número de pessoas que chegam ao Ponto de Cultura para conhecê-los e ouvir. Essa presença alimenta a disposição de voluntários que acompanham jovens e senhoras na produção de artesanato e no acompanhamento de atividades com crianças.

Todos os sábados, os mestres, no terreiro, dividem-se e, cada um, forma um grupo para transmitir a sua arte: a arte de tocar, a arte de dançar, a arte de cantar. Assim eles atendem jovens que chegam de Aliança, e jovens que chegam das cidades vizinhas. Os Mestres Griôs e o Griô Aprendiz também recepcionam visitantes do Ponto de Cultura e com eles conversam, cantam e dançam. Importante é que nessas ações eles contam com a presença de duas jovens que os auxiliam e com eles aprendem a arte da conversação, dança ou canção.

Zé Duda, José Bernardo Pessoa, nasceu no Engenho Cavalcanti em Buenos Aires no ano de 1939, mestrava maracatus desde 1950, sendo já respeitado como o Peito de aço quando foi ser morador de Chã de Camará. Zé Duda diz que passou a noite ouvindo o mestre Baracho e aprendeu as suas cantigas. Dono de uma memória prodigiosa, Zé Duda nunca aprendeu a ler, mas guarda seus versos na memória. Durante algum tempo viveu no Recife como ajudante de pedreiro, mas sempre voltava para a zona da Mata para se Mestre de Maractu. Na Chã de Camará ficou amigo do Mestre Batista, com quem aprendeu Cavalo Marinho, sendo um dos maiores conhecedores dos versos e canções.

Como mestre de maracatu, o seu primeiro trabalho foi no Leão do Engenho Vasconcelos, de Buenos Aires; em seguido mestrou um boi amaracatuzado de Lau Marchante, também de Buenos Aires; Depois no Engenho Jardim mestrou na Caravana composta de Maracatu e um bloco de Manuel Rafael; então foi no Engenho Bonito de Condado no Maracatu Cambida Estrela de Luiz de Justo; depois foi para Engenho Retiro, também em Condado, onde foi mestre do Leão Coroado cujo dono era João Bevenuto. Vindo morar e trabalhar em Chã de Camará desde 1968, a vida do Mestre Zé Duda e a do Maracatu Estrela de Ouro se confundiram. Foi o mestre do Estrela de Ouro até 1991. Zé Duda afastou-se do Maracatu, retornando em 1997 para ser o Mestre até os dias atuais.

Ederlan Fábio foi um dos últimos a entrar no programa Agente Cultura Viva. Demorou algum tempo para se integrar ao grupo, mas o fez de modo gradativo e permanente. Participou das Oficinas de Produção, e foi sendo notado pela sua aplicação e interesse em aprender todos os aspectos da atividade. Logo ficou responsável um dos setores da produção e, ao mesmo tempo desenvolvia suas habilidades de percursionista enquanto transportava os tambores. Percebeu-se seu interesse em tocar rabeca, e logo o Ponto de Cultura comprou um rabeca e ele passou a ter aulas com os mestres, sendo aos poucos introduzido no Banco de Cavalo Marinho, e agora está sempre acompanhando as apresentações do Cavalo Marinho Mestre Batista, da Chã de Camará. Ederlan também se interessou pelos aspectos da produção sonora e quando o Ponto de Cultura recebeu o conjunto para criação do studio de gravação, nele se inseriu e já participou na produção dos três primeiros Cds produzidos pela Usina Cultural do Ponto de Cultura.

Estrela de Ouro

José Lourenço

Trilha Cultura para o Desenvolvimento

* Antes: Nossas atividades eram desenvolvidas basicamente de forma oral, já que não tínhamos muito a preocupação com registro, então desde as letras das músicas as histórias dos folguedos eram ensinadas e aprendidas oralmente.

* Durante: Com o envolvimento na Ação Griô, começamos a ter também o cuidado com a questão do registro de toda esta riqueza que são os conhecimentos dos mestres e griôs e isto é transmitido para as crianças, então além delas aprenderem ouvindo e se envolvendo nas ações elas também ficam com um pouco desse registro escrito, e em alguns momentos fazem a sua própria interpretação e recriação como na contação das histórias.

- Sua atuação no sentido de potencializar a convivência étnico-cultural na comunidade.

* Até o momento não trabalhamos diretamente relacionando as questões étnico, mas sempre procurando trabalhar a valorização e o respeito entre todos.

- Como incorpora a missão da Ação Griô e qual sua relação com a missão do ponto.

* Acredito que seja a valorização dos mestre e Griôs e preservação da riqueza de conhecimento que eles detém, sendo transmitido através da oralidade, fortalecendo assim a identidade de crianças e jovens, a partir daí relacionar com o resgate de todas as expressões de culturas populares da comunidade.

- Outros aspectos que considerar importantes

* O envolvimento do espaço escolar, seja material ou imaterial , pois devemos integra toda comunidade e absolver toda forma de aprendizagem principalmente quando ela vem de forma prazerosa .

Fale livremente sobre o processo do Griô Aprendiz na Ação, abordando aspectos como:

- Sua relação com os mestres, griôs e a tradição oral antes e durante a Ação Griô;

* Minha relação com os mestre vem de muitos anos de convivência e de admiração, pois nasci e me criei convivendo com estas pessoas maravilhosas que não perderam o encantamento pela e nem vontade de viver, com o desenvolvimento das atividades essa relação de respeito se fortaleceu ainda mais.

- Sua relação com a escola e os educadores

* A minha relação com a escola é muito forte, pois foi herança do meu avô, esta localizada em frente a minha casa, estudei parte do ensino fundamental nela, e antes de termos o reconhecimento de ponto de cultura, já desenvolvia atividades sociais e culturais e foi através dessa aproximação que comecei a trabalhar e realizar de forma mais direta as atividades com os outros educadores na escola.

- Sua atuação como mediador entre os mestres, griôs e os educadores

* Vem acontecendo de forma integrada e ao mesmo tempo diferenciada, pois com os e griôs existe uma relação de confiança e admiração profunda pelo prazer e vontade com que eles se envolvem nas atividades, e com os educadores ainda estamos em processo de conquista e demonstrações das atividades, não existe ainda o envolvimento total, mesmo sabendo que muitos trabalham a oralidade através da contação de história.

- A estimulação do diálogo entre o currículo e a tradição oral

* Sim, nas reuniões de planejamento, sempre coloco a importância da oralidade, no falar e no ouvir e cito exemplos da pedagogia Griô.

- O fortalecimento do vínculo com sua ancestralidade e universo simbólico capaz de ajudá-lo a ir descobrindo sua identidade como griô aprendiz, e expressá-la em um nome, vestes, rituais etc.

* Todo este fortalecimento esta em processo, pois tudo isso de certa forma é novo para mim, pois antes de conhecer a pedagogia Griô eu não percebia a necessidade desse personagem e nem da preparação de um ambiente, seja material ou simbólico, mas agora percebo que isto é importante pois estimula a imaginação e o prazer de quem faz e de ver.

- Sua caminhada nas escolas e o encantamento das mesmas a partir de rituais de vínculo e aprendizagem de tradição oral.

* Antes da visita do Griô Aprendiz Regional e do encontro regional eu ainda não tinha entendimento de como trabalhar a pedagogia Griô propriamente dita, e executava as atividades em forma de oficinas e espetáculos, a partir daí percebemos a dimensão dessa Ação e iniciamos um novo processo, não discartando o que víamos fazendo, mais aperfeiçoando e inovando de acordo com o que presenciamos e vivemos, ainda não adotamos tudo, mais estamos procurando aprender e melhorar a cada dia.

- Seu envolvimento geral com a Ação Griô, seus sentimentos, a incorporação da missão da Ação, etc.

* O envolvimento é total, pois me sinto de certa forma responsável pela continuidade de sonhos realizações de mestres e griôs que se sentem renovados desenvolvendo e participando dessas ações e me sinto muito feliz em fazer parte desse contexto que não é mais o Ponto de Cultura de Canafístula, e sim um universo maior que deseja melhorar a qualidade de ensino, mais como já coloquei esta questão de incorporação esta em processo pois ainda não estou desenvolvendo a pedagogia da Ação como ela propõe.

- Outros aspectos que considerar importante

* Estamos ajustando a proposta da pedagogia Griô a nossa realidade, aprofundando nossos conhecimentos, adequando cada aprendizagem ao nosso contexto.

Fale livremente sobre a relação da escola e do educador com a Ação Griô, abordando aspectos como:

- O envolvimento da escola e educadores com a Ação

* Já são desenvolvidas atividades de transmissão oral, só que não com o olhar e a importância que a Ação propõe.

- O envolvimento e encantamento da escola com a tradição oral

* Este é um processo que precisa ser trabalhado e conquistado para que floreça e brotem os frutos que são pessoas mais abertas para o ouvir e o falar.

- A estimulação da convivência religiosa e étnico-cultural e a consciência histórica na escola relacionada à tradição oral

* Deve-se trabalhar a questão do respeito de forma ampla e profunda, procurando conhecer as diversas formas de expressões.

- A existência de diálogo efetivo entre o currículo e os saberes de tradição oral

* Sim, através das diversas atividades.

- Outros aspectos que considerar importante

Fale livremente sobre o lugar ocupado pelos mestres e griôs na comunidade após o início da Ação Griô, abordando aspectos como:

- A sua ocupação de novos lugares políticos e sociais na comunidade – escolas, meios de comunicação, projetos;

* Os mestres e Griôs sempre estão presentes nas reuniões da associação, e alguns participam de outros grupos sociais e religiosos.

- O desenvolvimento da oficina/ofício/produto/serviço do griô ou

mestre na comunidade

* Todos estão diretamente envolvidos na execução das oficinas, e alem das oficinas ele participam de outros grupos oficiais que fazem parte do ponto e que desenvolvem um trabalho social mais amplo se apresentando em diversos municípios e até fora do estado.

- Outros aspectos que considerar importante

* Perceber o envolvimento e encantamento das crianças é extremamente gratificante e quando há uma participação mais efetiva por parte de alguns a satisfação aumenta ainda mais é o que percebemos em relação ao Rodrigo, Gabriel e principalmente o Lucas que ultimamente vem assumindo uma postura de griô aprendiz fazendo o papel de mediador nas oficinas de músicas, entre o mestre e os colegas que sentem mais dificuldade.

Maria Consuelo

Cultura para o Desenvolvimento

Trilha Coco de Umbigada

O Ponto de Cultura Núcleo de Memória Coco de Umbigada é um Terreiro que vem da herança familiar com a brincadeira do coco, tem como missão a Memória e a difusão da cultura popular com destaque para o coco e suas vertentes, traz a troca de saberes e a vivência dos terreiro como espaço de criação e salvaguarda da cultura popular de matriz africana.

A participação com a ação griô veio com a Identidade da proposta pedagógica, valorizar outros saberes, valorizar o saber popular, já tínhamos essa ação materializada no nosso ponto, com a chegada da ação griô,nossa missão foi fortalecida

Os mestres já participavam da Sambada de Coco, já trabalhava oficinas de troca de saberes no ponto e já tinha relação pedagógica com os alunos da escola da comunidade. Porém a bolsa trouxe auto-estima e troxe também aquilo que não se mensura, o reconhecimento de sua sabedoria que muitas vezes não se tinha nem mesmo dentro de suas casa.

Muito valoroso a ação de ir ao Ponto, ir à Escola e percorrer a comunidade trazendo sabedoria ancestral, valorizando o terrenos das tradições, trazendo auto-estima a quem fez de sua vida a história de uma brincadeira popular, importante a política pública compartilhar no reconhecimento deste outro saber.

O Griô Aprendiz é o grande vaso, no nosso caso, eu sou o griô aprendiz e recebo os mestres no nosso terreiro, os recebo no terreiro da Umbigada já a bastante tempo, a pelo menos dez anos que recebo os mestres de coco no nosso terreiro, e faço desse encontro uma grande sambada, no início eram poucos, agora , a noite toda é pouca pra tanta gente cantar, um espaço de visibilidade pra todos nós obtive muito respeito e muito aprendizado nesta ação griô.

A nossa auto-estima é grandiosa, fico demasiadamente feliz, toda sexta-feira das 14:00 às 20 h, os moradores, os mestres, os jovens, os estudantes, educadores, todos aprendendo juntos, com um formato diferente, integrando educação, cultura popular e comunidade.

Penso que o griô aprendiz deva conduzir este novo paradigma, de valorização dos espaços não formais de educação, vivenciados nas aldeias indígenas, nos assentamentos, nos terreiros e afins.

Na escola fortalecemos a cultura popular, puxamos por este pertencimento, Trazemos identidade em matriz africana, já enfrentamos intolerância muitas vezes, pelo próprio processo de desconhecimento da cultura popular, pela forma folclórica ou satanizada que a grande mídia nos rotula, porém penso que foi determinante estarmos na escola e trazer a escola pra nosso terreiro, nesta perspectiva de aproximar este dois saberes, O científico e o popular, sem intolerância, aprendendo juntos, o griô aprendiz usando da prerrogativa de ser rama de uma raiz ancestral, integrando o caminhante, o contador de história, o artista, a Iyalorixá, o poeta, o mestre coquista a uma nova forma de aprendizado.

Eu penso ser importante a mística da roupa, dos utensílios, dos paramentos na troca de saberes e na promoção da identidade griô, sempre trago os paramentos, as guias(cordão de misangas), o mojôlo(cordão de argila ou pedra pintada com os elementos do orixá), o ojá(pano de cabeça), e as vestes brancas, minha referência de indumentária griô, de sabedoria vem com o axó(roupa) da Iyalorixá(sacerdotisa de matriz africana), também traz o mestre griô usando um chapéu de palha e com um pandeiro na mão, sempre ele e seu pandeiro, nos nossos encontro, sempre trago meu pandeiro, uma forma de estar com a brincadeira sempre a mão.

Contribuição da Profa. Glauciane na elaboração dos resultados:

Apesar da Escola Maria da Glória Advíncula estar localizada no bairro do Guadalupe,Olinda–PE,local de extrema riqueza e diversidade cultural,a equipe pedagógica até então não tinha percebido a grande idéia de fazer parceria com um dos tantos centros de cultura que rodeiam a escola, nosso direcionamento cultural estava concentrado em visitas e caminhadas para valorização e reconhecimento da história local e em sala de aula nossos alunos faziam a releitura do que aprendiam através de desenhos produções de textos, expressão corporal e oral, percebíamos que faltava algo que trouxesse,mais satisfação no processo ensino-aprendizagem e como se fosse luz divina, numa tentativa de minimizar a agressividade na hora do recreio, coloquei os instrumentos musicais usados na capoeira(uma das oficinas da escola aberta) no pátio da escola. Eu acreditava que no mínimo as crianças prestariam atenção e por curiosidade iriam tentar manusea-los.convidei o funcionário da escola, Adriano Lopes, para apresentar aos alunos um pouco do seu talento e para minha surpresa as crianças estavam tocando,quis saber imediatamente quem havia ensinado-os e numa só voz me disseram que foi a Beth,naquele momento notei que se tratava de uma pessoa muito importante para aquela comunidade .As crianças me levaram até o centro cultural coco de umbigada (local onde fazem oficina de percussão) e lá me apresentaram a Beth,percebi naquele encontro a oportunidade de uma grande parceria ,finalmente algo que traria vida para nossa escola.Beth agendou comigo algumas visitas dos alunos ao centro e com muita generosidade nos envolveu num processo de identificação e reconhecimento afro-descendente, tivemos também aula de percussão e conhecemos a história que não tem nos livros.Em sala de aula os alunos fizeram a releitura do coco em várias dimensões :O coco de roda e suas vertente populares, nos ensaios de dança com voluntários.

O coco canção,na linguagem oral e escrita,O coco enquanto fruto,na criação de um livro de receitas(sabores do coco) e ainda conhecemos a arte produzida com a casca (catemba), o talo,a palha e a quenga do coco.O projeto desenvolvido na escola tomou como ponto de partida o coco da Beth e abraçou os outros ritmos do Guadalupe ao Bonsucesso(bairro onde está localizado nosso anexo, Espaço Aberto).Confesso que a princípio não foi fácil envolver o grupo de educadores na convivência religiosa e ético cultural,visto que o preconceito concebido pela falta de informação ainda persiste em nosso meio,sabendo disso eu me apoiava no discurso de que o que permeia a educação é a informação e que o indivíduo tem o direito a um desenvolvimento pleno e que é necessário que o educador oportunize ao aluno não só o conhecimento científico ,mas também o saber popular,Hoje me sinto mais confiante,pois sei que por trás dessa semente plantada existe a AÇÃO GRIÔ que irá garantir a continuidade deste trabalho.

Disco, programa de rádio, outras escola, protagonismo na comunidade.

Nossos Mestres e Griôs são lideranças artísticas e espirituais, na aldeia Indígena do povo Fetha em Águas Belas-Pernambuco e nos terreiros da região metropolitana do Recife. Com a ação griô seu protagonismo foi fortalecido em suas famílias, seus terreiros e suas comunidades.

Nas oficinas e vivencias foram desenvolvidas pedagogias que envolve canto, dança, ritmos, oralidade, contação de história, brincadeiras da cultura popular, pesquisa, leitura, elaboração de conteúdo para programação da rádio, gravação de cd’s e l formação continuada de multiplicadores, novos mestres de cultura popular.

São procurados com freqüência por escolas e universidades para ministrar oficinas e fazer vivencias que retratem a ação griô. Nossa Mestra Griô Mãe Lúcia de Oyá, representa o Grupo de Trabalho, GT de Matriz Africana na Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, esta griô tbm foi convidade pela Universidades Mauricio de Nasau e Faculdade Barros Melo, para ministrar aulas sobre a história da África e Africanidade Brasileira, como curso de extenção.

Nossos Mestres griôs, erm rodas de diálogos, conversamos bastante sobre o universo de comunicação das rádios, sobre o universo social da comunicação, que comunicação queremos para nosso ensinamentos.temos uma rádio no pontos e elaboramos em conjunto com nossos mestres, programação para rádio amnésia.

Gravamos 10 cd’s, todos dos mestres griôs do nosso terreiro, gravado com o kit multimídia do ponto de cultura pelos jóvens da comunidade, na perspectiva de nos apropiarmos das novas tecnologias de informação e comunicação, de entender esses cd’s como novos produtos culturais, oriundo de outra lógica de mercado cultural.

Com a tecnologia que hoje temos dentro de casa, gravamos nossa música, preservamos a memória do terreiro e promovemos a difusão desta cultura, estando além do edital para fomento.

O Encantamento é geral, dos mestres que tiveram este reconhecimentos, dos estudantes que tiveram este ensinamentos e da comunidade que hora se descobre protagonista da cultura popular. Porém hoje convivemos com uma grande contradição, o professor trabalhar em três expediente para manter os filhos na escola particular, na sala de aula ele aplica o ensinamento que ele não acredita.

Precisamos acreditar naquilo que fazemos…

Trazer vigor e identidade ao ensinamento.

Essa é a nossa proposta griô, pertencimento com a cultura popular e identidade com a matriz africana. O resultado foi maravilhoso, hoje temos uma escola integrada com a cultura popular do coco e suas vertentes. A proposta inicial de trazer a educação caminhando com a cultura da comunidade foi vivenciada e fortalecida, o resultado foi uma escola empoderada com sua cultura popular e com formação de novos mestres griôs.

A Sambada de Coco gera trabalho e renda para os mestres e para toda comunidade, envolvendo aproximadamente duas mil pessoas, entre mestres, artistas, estudantes, professores, gestores públicos, produtores culturais, turistas, terreiros e entorno. A sambada tem na ação inicial o Cine-Clube Macaíba, mídia que promove pertenciomento, forma platéias e foca suas exibições na Matriz Africana e na Cultura Popular, com destaque para documentarios que retratem a história de vida dos mestres do nosso país. Posterior ao Cine-clube, temos a presentação do Coco de Umbigadinha, grupo infanto juvenil da comunidade que resultou das oficinas com os mestrees griô e mestre aprendiz no ponto de cultura. Após o coco de umbigadinha, chamamos os mestres griôs do coco e começamos a Sambada que continua durante toda a noite e só termina no raiar do dia.

Mestra Griô, Mãe Lúcia de Oyá: Mãe Lúcia tem uma trajetória de vida integrada ao terreiro, aos dezoito anos foi iniciada, vem da rama nagô de Pernambuco, com sua avó Bernardina trazendo ensinamentos do velho sítio de pae Adão. Na década de oitenta precidiu o Afoxé Alafin Oyó, trazendo polêmica admitindo e integrando pessoas não negras a esta instituição religiosa. É coordenadora pedagógica da Escola de Ensinamentos de Mãe Preta, escola de vivencia que traz os ensinamentos dos terreiros. É parteira, benzedeira e Iyalorixá, coordena e lidera espiritualmente o Terreiro de candomblé Ilê Axé Oyá Togum, passando ensinamentos de cura, cidadania e espiritualidade a seus mais de 50 filhos de santo. Ministra oficinas e aulas de matriz africana em escolas e Universidades de Pernambuco Compõe o Quadro de Oficineiros de Matriz Africana no projeto Multicultural da Prefeitura da Cidade do Recife Coordena a Rede de Saúde dos Terreiros na cidade de Paulista em Pernambuco. Protagoniza a ação griô em Pernambuco e tem assento no GT de Matriz Africana na Comissão Nacional dos Pontos de Cultura.

Estudante Rayane

Rayane – Menina de 9 nos, afro-descendente, moradora do Beco da Macaíba, onde se localiza o Terreiro da Umbigada, estudante da segunda série da Escola pública municipal Maria da Glória, seus país tem mais 3 filhos, a renda da família se dar a partir da venda de bebidas na cidade alta em Olinda e durante a sambada no primeiro sábado do mês. Rayane, tem muita dificuldade no aprendizado, repetiu a primeira e a segunda série, falta bastante aula e não tem acompanhamento em casa das atividades escolares.

Não tem auto-estima com a escola e confessa ir a escola na maioria das vezes pela merenda, em contrapartida, no terreiro “ponto de Cultura” é sempre a primeira a chegar e a última a sair, ta sempre sendo convidada a dar entrevista, tem na dança e no canto grande protagonismo, compõe o grupo de cantores mirins do coco de umbigadinha e guarda varias matérias de jornais que retrata o coco e traz sua foto, sua avó lhe presenteou recentemente com um quadro, onde ela estar a dar muitas umbigadas com outras crianças no jornal de grande circulação em Pernambuco, ela pindurou este quadro durante um tempo no ponto de cultura e na escola onde estuda, demonstrando sua alegria e auto-estima com a brincadeira que já desde cedo carrega, também é entusiasmadíssima com o afoxé do nosso terreiro.

Antes éramos apenas um terreiro, grande na sua missão de trazer a memória do coco e fazer a difusão desta brincadeira, oportunizávamos os mestres coquistas a mostrar sua arte e ensinamentos, porém com a chegada da ação griô, nosso universo se ampliou muito, hoje temos a Uiversidade Federal de Pernambuco, através do mestrado do curso de administração, compartilhando os saberes, temos uma parceria com o Serpro na entrega dos computadores, que propiciou nosso telecentro, uma proposta de inclusão digital com apropriação das tecnologias de informação e comunicação, Temos uma grande parceria com o governo do estado, através do programa Células Culturais na FUNDARPE, realizamos e produzimos um grande pólo de carnaval na nossa comunidade, articulamos mais de 100 mil reais para cobrir cachê e estrutura de palco e som para 26 pontos de cultura de Pernambuco, na perspectiva de dar visibilidade as expressões de cultura popular dos pontos.

Beth D`Oxum

Coco de Umbigada

Trilha Casarão de Ofícios

Meu contato com a tradição oral surgiu ainda na minha infância, a vivência que as profissões exercidas pelos meus pais, de feirante (mãe) e de caminhoneiro, açougueiro, mecânico (pai) permitiu desde cedo o contato com pessoas de todos os segmentos sociais, de todas as vivências e de muitos lugares do país, experiências que despertou em mim o desejo de ouvir as pessoas, especialmente aquelas mais velhas, aprendi a sentar e ouvir histórias por horas a fio, era muito mais que escutar, era aprender todas aquelas experiências, cresci com esse mesmo desejo, continuar ouvindo e aprendendo. Ainda na adolescência criamos um grupo de pesquisa da história local (Grupo Cultural Jandu-Cari) com a institucionalização da Fundação Félix Rodrigues no município em 1997, todos nós que fazíamos parte do grupo de pesquisa, fomos apoiados por esta instituição e nos envolvemos nas suas atividades, que vem incentivando a valorização da cultura popular, a tradição oral, através das pesquisas, da capoeira, dos cursos de história local, da vivencia com a Mestra Dodora que desde o inicio é uma presença constante e na minha vida e na história da Fundação Félix Rodrigues.

A participação na Ação Griô surgiu pela necessidade que sentiamos de concretizar, potencializar e reconhecer a presença dos Mestres dentro da comunidade. Para mim (griô aprendiz) a participação como potencializadora dessa parceria têm sido de uma riqueza impar, ouvir e absorver os conhecimentos dos mestres juntamente com a comunidade escolar estreitando a relação já existente. É uma experiência que tem marcado a minha vida, pois me identifico com a missão de griô aprendiz e com a missão do Ponto porque ambos têm proporcionado aos alunos a compreensão de sujeitos responsáveis pela sua própria história dentro da comunidade e reconheçam a participação dos Mestres e Griôs como iniciadores e parceiros nesta construção.

Desejo ressaltar o prazer de ter identificado novos mestres da comunidade não apenas através da Mestra Dodora, mas através dos proprios alunos que ao final de cada roda de contação de história, de vivência, indicavam um outro nome dentro da comunidade que deveria ser ouvido e reconhecido por nós como Mestres e registrar o prazer de ouvir as proprias crianças identificarem-se com a figura de griô aprendiz e se autodeclararem dessa forma.

A relação com a Mestra Dodora iniciou-se através da relação professor/aluno, a quem sempre admirei pelo carinho que sempre demonstrou pela história e tradições locais e regionais. Mesmo após termos seguido caminhos educacionais diferentes, visto meu ingresso no ensino médio e posteriormente na universidade. Dodora sempre foi presença constante nas pesquisas que o Jandu-Cari realizava sobre a comunidade, suas informações eram de extrema importância para o desenvolvimento e credibilidade dos trabalhos que apresentávamos. Já com Damiana, nossa relação iniciou-se na própria comunidade onde hoje desenvolvemos a Ação (Porto do Carão), onde desenvolvi no ano de 2000 um trabalho como educadora, o qual me permitiu propor o desenvolvimento da Ação dentro da escola da comunidade, idéia que foi prontamente aceita, nos levando a encaminhar o Projeto da Ação Griô para o Minc. Assim, construção de uma relação de respeito e afeto com os educadores, as crianças e a propria comunidade permitem que o papel de mediador que preciso desenvolver como griô aprendiz ocorra de forma natural e produtiva.

As educadoras da escola são grandes parceiras para o sucesso da Ação, juntas criamos uma lista de sugestões para nortear as atividades a serem desenvolvidas durante 2007/2008, e desenvolvemos ainda os Projetos: “Cantigas de roda, na roda da vida” para ser desenvolvido com alunos das séries iniciais, e “Cordel, arte e identidade” para ser desenvolvido com os alunos das séries finais.

Sinto-me a vontade para desenvolver os rituais e vivências a partir da nossa realidade local, o encantamento e respeito pelas raízes de cada individuo e comunidade sempre fizeram parte da minha vivência familiar, e através desse respeito e convivo em paz com minhas raízes. Evidentemente que algumas características são preponderantes em minha postura e personalidade, mas acredito que isso faz do meu papel como griô aprendiz, mais rico e dinâmico, busco em contato com minhas Mestras encontrar a essência da nossa Ação de forma a fazê-la comungar com a essência da Ação Nacional e em conjunto construimos nossa rede local de transmissão oral.

A relação da escola com a Ação Griô é de parceria e encantamento, todos os educadores do turno matutino estão inseridos nas atividades, buscamos nestas atividades reconhecer e ampliar o respeito а diversidade e identidade de cada individuo, através da interação do saber dos mestres com o conhecimento prévio de cada criança e educador, fazendo das rodas de contação de histórias, de cantigas e de vivências uma perpetuação das tradições orais. Posso afirmar que a escola tem dialogado de forma efetiva com os saberes da tradição oral, ao flexibilizar seu horário de aula, ceder seu espaço geográfico e potencializar a inserção da tradição junto aos conteúdos da grade curricular.

A relação da Mestra Dodora e da Griô Damiana com a comunidade e a escola já era de muito respeito e cumplicidade, visto que as duas são reconhecidas pelo conhecimento e zelo que mostram pela história e tradições da mesma, mas a Ação potencializou essa relação que se tornou mais dinâmica e produtiva, visto que os alunos deixaram de vê-las apenas como gestoras da escola e passaram a vê-las como mestras na comunidade, mas, o mais especial foi que essa relação potencializou e permitiu o envolvimento com os demais mestres da comunidade que passaram a ser reconhecidos como portadores de saberes, de tradições e de conhecimentos que precisam ser perpetuados.

Relatar a história de vida de um único mestre é uma tarefa dificil diante da gama de vivências que esta Ação nos proporcionou, fazer um apanhado da alegria de Mestre Alfredo ao ser ouvido por crianças que não o viram dançar o Boi, mas que ficaram encantados em ouvir sua vivência, o prazer e a alegria de D. Lica que sendo uma mulher sem uma instrução formal assumi nossas salas de aula com o encantamento e a sabedoria de poucos educadores, seu Veridiano que sentado em sua canoa voltando de mais um dia de pesca nos deu uma aula de como conviver com a natureza de forma sábia mostrando para a meninada que não é o status que faz um bom profissional e sim o amor que devota a seu oficio, podemos citar ainda o encantamento de D. Tereza única parteira viva da comunidade ao ser entrevistada pelos nossos alunos e o prazer dos alunos em pesquisar quem na comunidade nasceu de parto natural e pelas mãos de quem, as histórias das salinas partilhadas por Chico Bode e seus conselhos para que as crianças se dedicassem ao estudo e reconhecessem os esforços realizados pelos seus pais para oferecer uma oportunidade de educação, e claro as experiências de vida e de conhecimento compartilhadas pela Mestra Dodora que levou nossas crianças a sentarem com seus familiares, vizinhos e conhecidos buscando saber com mais detalhes a história da comunidade e as horas de encantamento ouvindo os causos da Griô Damiana, que até iniciar a participação na Ação não sabia a importancia de seus causos e histórias de assombração para a tradição oral.

Diante de tudo isso, posso afirmar que todos fomos impactados, alunos que se prontificam a contar e a buscar as histórias para partilhar na roda, o prazer de ficar sem intervalo para retextualizar uma história ouvida, de não reclamar do atraso na merenda para fechar uma roda de contação de história ou de vivência, educadores que chegam com novas ideias de atividades a serem desenvolvidas para fazer o curriculo dialogar com a tradição oral. Para mim, tudo isso é encantamento.

Raquel do Nascimento

Casarão de Ofícios

Na Trilha das Parteiras

Nossa visão a princípio e no decorrer dos primeiros meses era focada na Tradição das Parteiras preservando a cultura enquanto guardiãs do saber milenar das ancestrais. Nosso trabalho junto as Parteiras é ancorado nos rituais que envolvem as rezas, a intuição, as simpatias, os chás, a espiritualidade. O trabalho era grandioso, profundo. A base cultural da prática das Parteiras Tradicionais é resultado da fusão de duas culturas, a das parteiras indígenas que habitavam o Brasil antes do descobrimento e das parteiras negras trazidas escravas da África nossa relação étnico cultural é permanente na valorização, transmissão e fortalecimento dessas raízes. Nós sabíamos o tesouro que cuidávamos e organizávamos mas também sabíamos que o resto da sociedade não sabia, que mesmo com alguns setores e ou indivíduos compreendessem eram “cúmplices” de algo que vivenciávamos em guetos sempre com muita precaução achando que corríamos riscos de nos perdermos e sermos perseguidas se tornássemos público, a história nos conta quanto sofreram nossas antepassadas desde as fogueiras da inquisição. Cada passo era muito bem pensado. Quando descobri o fundamento e a proposta da Ação Griô foi o sentimento de “alforria” graças a DeusDeusa e Orixás estou aqui para testemunhar esse marco histórico, momento de libertação das nossas Tradições dignamente, como é merecido.

Foi necessário um tempo existencial para compreendermos que era chegado o tempo da nossa ação ser incorporada a estrutura da formação do Ser na educação formal. Para seguirmos por esse caminho sentimos necessidade de primeiro conhecermos nossa própria história com o olhar de tornar público, com segurança, com beleza, com alegria finalmente juntar o antigo e o moderno sem alijar, mas integrando-se, incluindo-se, concordando com o cientista brasileiro Ubiratan D’Ambrosio quando em 1988 falava no Fórum nacional do Pensamento Inquieto “houve uma profunda ruptura entre a ciência e a Tradição nos séculos XIII-XIV-XV e XVI trazendo enormes prejuízos, há que se restabelecer o diálogo entre a ciência e a Tradição para que se crie uma nova ciência”.

A partir de uma oficina interna com o grupo Griô no Ponto de Cultura que é na sede do CAIS do Parto, fizemos nossa árvore genealógica revisitando nossa ancestralidade desde as nossas bisavós até nós. O resultado foi a auto afirmação e o empoderamento. Estávamos agora prontas para a ação que ainda não sabíamos exatamente o quê iríamos realizar.

Quando li o edital da Ação Griô vi que era exatamente o que fazíamos mas não sabia o que era Griô, ao ler o livro da pedagogia Griô desenvolvida pelo Grãos de Luz e Griô nos encontramos no conteúdo via pela primeira vez escrito num livro o que antes era parte de um sonho. Nossa querida assessora regional pedagógica Lucia dos Prazeres junto com a nossa também querida educadora pedagógica do CAIS Daniele pensaram juntas algumas idéias e em seguida num dia de planejamento, preenchido de revelações de talentos e emoções as idéias viraram planos e o passo seguinte foi a realização da ação nas escolas.

A ação político-pedagógica nas escolas foi completamente exitosa, vimos na prática que encontramos o caminho certo; contar aos alunos a história das Parteiras antepassadas, falar da tradição ancestral que eles ouvem com grande interesse e sentem-se estimulados a contar como eles nasceram e os que não sabem ficam desejando ir para casa e perguntar para sua mãe. Percebemos como foi grande o equívoco das famílias “escondendo” ou omitindo de suas crianças a história do nascimento deles que é uma parte importante da história de vida de cada um e cada uma, de forma as pessoas irão contar suas histórias de vida sem contar como chegaram a esta vida, como se suas vidas iniciassem após algum tempo de nascidos ou como se o nascimento não tivesse importância, o tempo da gravidez onde a pessoa está sendo gestada, o momento do parto que é um “rito de passagem” determinante para inúmeros fatos no decorrer da vida, as crianças percebem claramente esta importância e retomam sua própria história.

O meu processo individual enquanto Griô aprendiz foi um mergulho profundo nas histórias dos meus avôs, bisavô que eram raizeiro descendente índio nômade e rezador da cruz de caravaca seguidor de S. Cirpiano e pescador, a riqueza de detalhes das histórias que eles me contavam me fez registrar imagens inesquecíveis e que eu imaginava morreriam comigo sem socializar com outras pessoas porque acreditava que não havia interesse, finalmente encontrei o lugar onde essas histórias estão dignamente colocadas. Minhas bisavós e avós que eram parteiras de quem herdei o Dom e a Tradição.

A Ação foi desenvolvida em 4 escolas, uma em Ipojuca no engenho Queluz, duas em Caruaru e uma em Serra do Vento. Nas escolas de Caruaru, uma municipal no bairro Santa Rosa e outra estadual, as Parteiras Zefinha e Birô chamaram um trio de forró pé de serra e uma festa inesquecível. Na parte de manhã numa escola e a tarde na outra escola. As professoras ficavam assustadas a princípio sem entender o que estava acontecendo com aquele grupo de pessoas entrando na escola com um forró pé de serra e não havia mais como segurar as crianças nas salas de aula nos dirigíamos para o pátio tocando e dançando e a criançada atrás gritando de alegria e dançando. As professoras quando viram o que fazíamos ficaram emocionadas ajudavam organizar as crianças para sentarem e ouvir as histórias. Atentas elas faziam comentários davam depoimentos de como nasceram em casa com ajuda de parteiras umas sabiam o nome da parteira. Na escola municipal várias crianças reconheceram Biró como sua parteira e madrinha, Biró perguntava o nome das mães para lembrar das crianças, eram muitas. Na escola estadual da Zefinha foi emocionante porque muitos alunos adolescentes reconheceram Zefinha como colega, ela tem 70 anos e estudava o 3º ano do 2º grau naquela escola, assim que chegamos na escola estadual havia um conflito dois alunos adolescentes brigaram e um deles foi buscar uma arma ameaçando o outro de morte, a diretora completamente envolvida com sua função e comprometida com os alunos enfrentou o aluno armado tirou a arma de suas mãos não chamou a policia levou ele para sua sala e com afeto firmemente chamou a atenção. O aluno ameaçado estava na sala em que atuávamos com o grupo de forró, fizemos uma ação de auto ajuda com músicas, abraços, brincadeiras e histórias que valorizavam a amizade e a família.

Para chegarmos na Escola do engenho Queluz foi necessário caminharmos 15 kilometros a pé, não havia nenhum tipo de transporte, foram duas horas de caminhada pelo canavial. A escola municipal estava em reforma e as aulas estavam sendo na casa da professora, fomos para o quintal e brincamos de roda, dançamos mazurca puxada pela parteira Luzinete, as histórias eram de assombração com muito interesse das crianças. Em todas as escolas deixamos com a professora o Caderno Volante, cada criança leva para casa ficando por dois ou três dias onde o aluno/aluna registra as conversas com seu pais perguntando sobre seu nascimento, como se conheceram e namoraram, do que brincavam quando crianças. Da mesma forma com os avós se os tem por perto, pedir que avô e avó conte histórias do seu tempo de criança de juventude em relação as brincadeiras, a família como se organizavam para casar ter filhos e educar os filhos e filhas. O caderno após passar por todas as crianças fica na biblioteca da escola. Imaginamos anos após essa história estar registrada e disponível na biblioteca da escola. Na escola de Serra do Vento a parteira é mestra em plantas medicinais ela levou várias plantas da região e garrafas de chás que foi oferecido às crianças enquanto ela mostrava cada planta para que serve como usa as crianças contavam histórias das mães pais e avós sobre usar e conhecer as plantas. Ao final dançamos em roda.

Das Parteiras Griôs duas não lêem nem escrevem, uma apenas assina o nome e duas sabem ler e escrever, para mim enquanto Griô aprendiz ver estas parteiras nas escolas falando para os alunos e alunas, para as professoras, foram momentos de verdadeira alegria e muita emoção, a oralidade é uma ciência que ajuda democratizar a comunicação como um instrumento de inclusão rompendo barreiras do preconceito e discriminação. Finalmente as mestras parteiras eram ouvidas no lugar onde se oficializa a educação. Contar histórias vividas, dos antepassados, ancestrais e ou criadas no folclore das culturas desenvolvem os talentos, as artes e abre possibilidades de sonhar elevando a auto estima com perspectivas de qualidade de vida.

Birô é uma parteira de 69 anos de idade que iniciou seu oficio de parteira com 13 anos de idade, trabalha na roça junto com o marido. Usa vestidos de saias rodadas bem coloridos. Na parede da sua casa tem uma placa “Parteira 24 horas” é muito procurada para atender partos e para mediar conflitos familiares, é muito respeitada na sua comunidade.

Severina Regina é uma parteira mestra das plantas medicinais, na sua casa tem um grande terreno plantado e cultivado com ervas medicinais que ela distribui para pessoas que vão até sua casa pedir ela doa e orienta como utilizar. Não sabe exatamente a idade porque só foi registrada quando ia se casar. Quando criança vivia nômade com seus pais e duas irmãs ajudando nas lavouras para comer quando vinha a seca passavam fome. Seus pais morreram muito jovens de desnutrição ela e suas irmãs sobreviviam pedindo comida nas casas e ajudando nas cozinhas, não podia estudar. Para casar-se seu marido ensinou-a escrever o nome e fez seu registro de nascimento imaginando uma idade para ela. A generosidade o acolhimento e o conhecimento das plantas foi o resultado de todo o sofrimento.

Suely Carvalho

Cais do Parto, Olinda – PE

Trilha Alafin Mimi

O que motivou a escrever o projeto para a Ação Griô foi o que a Ação vinha propor, um novo formato pedagógico para educação um formato que já se trabalhava no dia-a-dia dos brinquedos populares mas que estes conhecimento não era sistematizado. Meu contato com a oralidade vem desde pequeno pois minha vivência com os mestres de cultura popular é muito forte, a minha relação com a ação griô é de renovação pois eu acredito que só com a renovação se á transformação.

Antes da Ação, o sentimento de respeito com os mestres e mestras da tradição oral já se fazia presente, respeito a todo conhecimento por eles adquiridos durante toda a sua vida junto a outros mestres, e hoje após a Ação sei que meu sentimento de respeito tem que se agregar ao sentimento que já existia mas que era muito calmo que era o sentimento de aprender de se alimentar deste vasto conhecimento agregado pelos mestres. Já a relação junto a escola foi fechado uma parceria que logo no segundo semestres ficou sufocado pela falta de assistência dada por parte da diretoria onde a parceria com as educadoras superaram todos os problemas trazidos pela coordenação da escola. A minha ação foi de estimular para que os mestres e educadores interagissem de forma livre sem muita mediação. O papel da ação foi tão forte tanto para os alunos quanto para os professores que naturalmente introduziu dentro do seu currículo escolar músicas cantada pelos mestres para alfabetizar os alunos. As minhas vestis sempre foram aquelas que sempre usei, o meu nome que significa “fava que cresce”, sempre tive motivos p/ vibrar quando escuto ele e minha conexão com ancestralidade sempre foi muito próximo então o vinculo foi bem maior com sentimentos pois após o primeiro encontro eu consegui chorar e despertar em mim sentimento esquecidos pelo tempo. O ritual da benção que foi esquecida na maioria das famílias eu agreguei outro valor, o do beijo no rosto ou na mão que fez com que os alunos se rendesse aos encantamentos da ação.

A Ação como eu tinha falado antes é a grande mudança para compreensão do que chamamos hoje de educação, quebrando este formato militar de se contar dois mais dois transformando isto numa coisa mas lúdica onde as criança aprendam a tabuada sem precisar de levar bolo. O envolvimento da escola e dos educadores só terá resultados satisfatórios se for de forma natural e expressiva pois a mudança deve ser pensada de forma horizontal que todos possam ver a mudança e se compreender nesta mudança e se ver com mãe ou pais deste processo . Os conflitos podem existir se nós não trabalharmos a oralidade trazida pelos mestres de forma expansiva passando dentro das diferenças de cada religião e etnia e mostrar como somos tão parecidos e tão deferentes.

Os mestres griôs sempre desempenharam um grande papel na comunidade onde moram ou atuam pois eles são os pretos velhos do presente eles detem o conhecimento da vida, da cura espiritual e medicinal.

Na Escola Rotary a compreensão foi incrível pois o público alvo por ser misto, a compreensão da Pedagogia Griô ficou mas fácil pois os mas velhos como tinha muito que trocar eles se tornaram mestres junto aos mestres da ação e os mas novos como começaram a escutar os mas velhos e se tornaram junto comigo griôs aprendizes e juntos como um só pensamos o encerramento escolhemos as fotos de cada ciclo e organizamos a festa de encerramento.

Fabiano Santos

Ala Alafin Mimi, Olinda – PE

GerAções, da Ação Griô – Centro Cultural Cartola-RJ

Pedimos a benção a D. Zica e Cartola, para contar o que é o Projeto GerAções, da Ação Griô, no Ponto de Cultura Centro Cultural Cartola. E com a poesia inspiradora do compositor, alinhavamos nossas histórias, nossas palavras.

Diz aí, Cartola!

A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida

Fim da tempestade
O sol nascerá
Fim desta saudade
Hei de ter outro alguém para amar

A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida

Jovem de 22 anos, Maíra de Freitas Ferreira é griô aprendiz, formação clássica em piano pela UFRJ, produtora musical de peças teatrais e recitais. Filha de pai músico – Martinho da Vila – e mãe porta-bandeira – Rita, do Salgueiro – traz a vida latente na confiança de que o sol nascerá para as crianças que aprendem flauta e teoria, num processo de descoberta pela musicalização. Fala, Maíra!

A participação na Ação Griô ocorreu como conseqüência de um trabalho que eu já vinha fazendo no ponto Centro Cultural Cartola com as crianças na oficina de flauta. Através da Ação Griô eu pude relacionar de forma mais sistemática a tradição oral com a minha prática pedagógica na aula de música.

Meu contato com a tradição oral é de origem familiar, onde as questões da música popular, do samba e da cultura do carnaval estão presentes na minha vida desde muito cedo. Durante a Ação, eu pude trocar estas experiências e aprender novos saberes juntamente com a organização dos mesmos em relação ao trabalho musical nas oficinas de música.

A convivência étnico-cultural na comunidade é muito harmônica e natural, uma vez que recebemos crianças de diversos locais, idades e classes sociais. Minha atuação é no sentido de conduzir para uma boa convivência e um compartilhamento dos diversos saberes que cada criança traz de casa. Confrontamos estas realidades e discutimos fazendo uma reflexão sobre própria diversidade.

Minha forma de incorporar a missão da Ação é justamente, através da aula de flauta, trazer as questões da tradição oral e aplicá-las aos conteúdos tradicionais da aula de música não esquecendo dos próprios conteúdos. Deste forma, comparamos e confrontamos o que dito como formal e acadêmico com o que vem da tradição oral, ambos em graus iguais de importância e valor artístico.

O vínculo com a minha ancestralidade se fortalece quando posso pensar nos saberes que incorporei ao longo dos anos de forma a relacioná-los com os conceitos teórico-musicais acadêmicos consagrados. Sem juízo de valor, posso colocar em pé de igualdade a cultura popular e a erudita, acabando com preconceitos e divisões que nos dias de hoje já não fazem mais sentido. Minha identidade e a identidade dos pequenos griôs se fortalece quando a nossa cultura ancestral é valorizada da mesma forma como é valorizado o currículo tradicional, sem supervalorizar um ou diminuir o outro em grau de valor.

A ação griô foi muito importante para mim, pois pude através da troca de experiências desenvolver um trabalho que incorpora valores importantes para mim e muito presentes na cultura carioca especialmente na comunidade da Mangueira.

Maíra Ferreira

Griô Aprendiz

Ensaboa mulata, ensaboa
Ensaboa
Tô ensaboando
Ensaboa mulata, ensaboa
Ensaboa
Tô ensaboando
Tô lavando a minha roupa
Lá em casa estão me chamando, Dondon
Ensaboa mulata, ensaboa
Ensaboa
Tô ensaboando


Lília Gutman Paranhos Langhi é a educadora, mestre em Letras pela UERJ e graduada em Gestão do Carnaval. Responsável Pedagógica pelo Projeto GerAções, cria desdobramentos a partir da contação do Griô mestre, estabelecendo pontes com o trabalho de musicalização do Griô aprendiz.

O fazer do educador é marcado pelo gerúndio – tempo verbal que enuncia a ação em processo. A educação é um constante vir a ser. No espaço democrático de um Centro Cultural, o desafio é equilibrar os saberes entre o antigo e o novo, entre o popular e o erudito, entre o sagrado e o profano, entre o pessoal e o coletivo, o acadêmico e o experimental.

Fazer um projeto de tradição oral onde o patrono – Cartola – canta que “as rosas não falam”, foi tomar um caminho para descobrir como as rosas falam, sentindo seus aromas, percebendo sua essência… Minha busca do samba tocou minha ancestralidade. Meu pai – prof. Paranhos – foi pioneiro no trabalho em sala de aula com letras de samba, no início dos anos 60. Mostrava aos alunos o caráter poético desses textos, dando crédito à voz do sambista… Esse aspecto me inspirou o desejo de criar o projeto GerAções, com o intuito de explorar esse universo.

Cartola é tema de muitos livros e projetos para escolas. Mas falar de Cartola dentro de sua própria casa tem gerado novas possibilidades. Algumas crianças não o conheciam, outras só conheciam suas composições. Aproximá-los de outros nomes destacados do mundo do samba fez com que se identificassem nas histórias familiares, relacionando-as às suas próprias, às dos avós, pais e irmãos, buscando informação sobre outros tempos.

O jeito de contar da Maria Moura é muito natural. É espontâneo, entremeado por citações de trechos de música e falas de expoentes da música popular, com quem conviveu. Desta forma, a fala ganha rubrica de verdade, ainda que se misturem referenciais desgastados pelo tempo, vivências da infância e testemunhos de um universo delimitado pelas fronteiras cariocas. As crianças construíram o painel da pedra do sal – onde, segundo Maria, teria sido enterrado o segredo e o axé dos primeiros negros – e sentam-se sob a bananeira decorativa, um espaço eleito para a contação de histórias. No discurso do griô, diversas histórias mostram questões de discriminação racial e social, provocando um questionamento sobre o que ainda é permanência na realidade

Um exemplo de atividade em que se buscou a relação com a ancestralidade afro-brasileira foi quando Maria mostrou ao grupo símbolos africanos. Com o conhecimento de seus significados, começaram a identificar esses desenhos nos elementos decorativos de gradis das casas, nos portões, signos que transcenderam os ferreiros que os fizeram e reproduziram. A partir desse entendimento, passaram para uma atividade coletiva de pintura com carimbos produzidos por eles. Já bem familiarizados, escolheram o símbolo para representar sua identidade como herói, criando uma bata pintada com tinta para tecido. Maria explicou o símbolo do “sankofa” e ensinou a idéia de que “nunca é tarde para voltar e apanhar aquilo que ficou para trás”, associando o símbolo ancestral a um conceito atemporal.

Para nós, educadores, nada melhor do que ajudar a perceber o que é erro e transformá-lo em acerto, clarificar o processo de sua releitura e resignificação. Depois desta atividade, percebemos uma mudança muito grande na escuta e na participação dos meninos.

O Centro Cultural tem um acervo relacionado ao samba como patrimônio cultural, com exposições permanentes e uma pequena biblioteca especializada. É do Centro Cultural Cartola a tarefa de zelar pelo plano de salvaguarda do samba carioca como patrimônio imaterial. E uma vez protetores do samba, estendemos os limites do mapa para além Mangueira, contando a história das tias de outras comunidades, das porta-bandeiras, das pastoras e cabrochas, dando saltos temporais que façam pontes entre Tia Doca e Dodô da Portela, Zé Pereira e o Bloco dos Arengueiros, o corso, Chiquinha Gonzaga e os homens vestidos de baianas. Nessa releitura de carnavais passados, propus a criação de golas de papel crepon, decoradas com pompons e purpurina. Paralelamente, Maíra incluiu no repertório marchinhas de antigos carnavais – Viva o Zé Pereira e Abre-alas, entre outras.

O projeto GerAções estabelece, também, elos entre nós, da equipe, três diversas gerações – griô aprendiz, educadora e griô mestre.

Tenho buscado fortalecer esses elos, aprendendo sempre, porque o trabalho do professor é sempre o de aprender.

Lília Paranhos Langhi

Educadora

Muito velho, pobre velho,
Vem subindo a ladeira
Com a bengala na mão
É o velho, velho Estácio
Vem visitar a Mangueira
E trazer recordação
Professor chegaste a tempo
Pra dizer neste momento
Como podemos vencer
Me sinto mais animado
A Mangueira a seus cuidados
Vai à cidade descer

Maria Moura é figura tradicional no mundo do samba, circula entre as rodas das quadras das escolas, das festas de velha guarda, dos rituais relacionados à tradição popular e à espiritualidade, inspirando profundo respeito entre representantes de todas as gerações.

Advogada, graduada em Gestão de Carnaval, é incansável na luta pela ressignificação das questões sociais no país. Dispõe-se integralmente ao trabalho com as crianças do projeto Ação Griô no Centro Cultural Cartola, afinada com as lembranças de quem viveu e conviveu com o compositor e outras grandes figuras do samba.

Solta a voz, Maria!

A cultura popular e a cultura negra sempre estiveram presentes na minha vida. Desde a infância, convivi com as senhoras da tradição do Carnaval e dos terreiros da Praça Onze onde, dentro das casas de cortiço, no bairro do Rio Comprido e do Estácio, minha avó Eliza, Tia Daí, Tia Guiomar me ensinaram a tradição que elas, por sua vez, aprenderam na antiga Praça Onze e que foi trazida das fazendas de escravos da Bahia e Minas Gerais.

Desta forma, o Projeto Griô me deu oportunidade de poder exercer esse “ofício” de Griô no Centro Cultural Cartola. Meu contato com o Griô começou na Universidade Estácio de Sá quando fui aluna da professora Nilcemar. A primeira tarefa foi elaborar uma proposta para a Ação Griô no nosso ponto de cultura.

No encontro de Vassouras, tomei contato com outras regiões onde o projeto atuava e assisti à exibição do documentário sobre o trabalho do “Grão de Luz” e de outros mestres de várias origens.

O que pude observar durante esses meses de convivência com os alunos, foi a mudança de comportamento, principalmente a auto-estima, concentração e participação dos alunos e responsáveis. As mães das comunidade da Mangueira, por exemplo, fizeram até uma horta na área da Casa de Cultura. Além disso observo que o grupo exercita a convivência com a diversidade, a partilha do material coletivo, voltada para uma ação ou produto e a capacidade de expressar-se através de diferentes linguagens.

Maria Moura

Griô Mestre

Tudo de alegrias e de tristezas conheci,
Coisas do amor e do sofrer, eu já senti,
Nada me transforma a alegria de viver,
Ver a noite vir e sorrir, ao sol nascer,
Vivo esperando o novo dia,
Que irá trazer a luz, que sempre ficará!

Nilcemar Nogueira é Mestre em Gestão de Bens Culturais e Projetos Sociais (FGV). É vice-presidente do Centro Cultural Cartola e atua como guardiã do plano de salvaguarda do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. Trabalha para construir um novo dia para as crianças e jovens do nosso Rio de Janeiro.

Com a palavra, Nilcemar:

Como membro de família de sambistas, atuando com meu irmão Pedro Paulo no Centro Cultural Cartola, convivendo com pessoas consideradas ícones da cultura popular praticada no Rio de Janeiro e sendo ouvinte de histórias vivenciadas pela família, sinto um compromisso com as pessoas que integram essa memória afetiva.

Não existe uma rede de transmissão oral, observa-se a passagem do saber cultural apenas nos principais núcleos familiares, poucos, porém, com consciência de que são detentores e produtores de um bem cultural. A Ação Griô veio preencher uma lacuna no nosso programa, ajudando na sobrevivência da nossa identidade cultural – o samba – contribuindo no Centro Cultural Cartola para o resgate, registro e difusão da música, da dança, do ritmo e de simbolos identitários da comunidade Mangueirense.

Nilcemar Nogueira

Coordenadora Geral do Projeto GerAções