Jongo da Serrinha, através de Carlos

Jongo da Serrinha

Em nossa festa de Cosme Damião e Doum, a roda de jongo aberta à visita, o Alexandre Santini, griô caminhante regional chegando com Cosme e Damião para seu encontro na escola que teve sua concentração na biblioteca do jongo. Tambores, histórias, agogôs e a dança pedindo licença à escola que desceu toda para matar a vontade de brincar.

Da parceria de Denise , Kátia e Mariangela, professoras da Escola Dominicana:

– Carlos, me desculpe, qual é seu santo ?

- não é santo, sou feito de yemanjá. Eu sou Ekede, sou de Odé. Meu Orixá me deu liberdade de trabalhar fora do barracão. Caí na educação.

Rimos muito. Liberdade ?

Assim é a relação com a nossa escola. Passa pelo informal. A história de vida é que permeia a relação. A cobrança da CRE-Coordenação Regional de Educação com a escola perpassa pelo envolvimento geográfico. Uma escola dentro da Serrinha, logo tem compromisso com o Jongo, com o Império Serrano e com o Mercadão de Madureira. Mais uma fala de Denise:

– a criançada evangélica estava chorando na escola porque a Império desceu para o grupo B.

Essa é a alavanca, o amor pelo samba. O DNA preto feito o sabor jabuticaba.

Na apresentação do espetáculo da Débora Kolker no Teatro Municipal, Tia Maria estava com um broche lindo ! era uma coroa imperiana. A Vanessa ( educanda de 11 anos) olha o broche e solta:

- Tia Maria, quando a senhora não quiser mais a senhora me dá esse broche ?

Na hora Tia Maria me chama e diz :

- Oh, Carlos, quando eu morrer eu quero que o broche vá para Vanessa, só assim é que não vou usar mais.
Num intervalo do balet, a história de vida, de morte, de tradição, de amor ao samba, ao tempo acontecendo no intervalo.

Uma vez foi um jornalista da TVE lá no Jongo, perguntou no início da entrevista pela importância de São Benedito, Tia Maria riu e disse que para o jornalista que São Benedito não tinha tanto destaque para o jongo, e que ela não sabia muito sobre o santo… Mais perguntas e de novo o jornalista pergunta por São Benedito. Tia Maria já sem sorrir informou que era católica, sabia de São Benedito, mas não sabia explicar a importância dele para as danças não!

Quando mais uma vez ele tentou outra pergunta, Tia Maria foi direta: Olha sobre santo você pergunte ao Carlos! – oh Carlos, fala pra ele de São Benedito, eu já disse que sou católica!
Uma outra vez que Tia Maria apontou bem essa relação de mediador do Aprendiz foi no encontro de Vassouras: – oh Carlos, eu fico até sem jeito, toda hora vem um e me pede “sua benção minha Yá” que coisa é essa de Yá?
Lhe disse pra responder ‘que minha Mãe te abençoe’, a mãe poderia ser Maria ou uma ayabá ao sabor da imaginação do interlocutor. Claro, isso nunca pretendeu ser um conselho, nem Tia Maria deixou de responder bem a qualquer pedido de benção. Nessas nossas conversas fica claro o quanto ela ri desse ideário do preto folclorizado. E ao ri disso comigo, me convidando a tomar parte no colóquio, ela valida a relação de mediador do Griô Aprendiz com a Mestra da tradição Griô.

É bom pensar nessa mediação do griô, mas a posição de validação dessa existência pulsante passa a ter uma cor, um nome, uma forma. Essa forma sou eu. O Carlos. Sempre que tomo a bênção a tia Maria, ela também pede a minha. Ela reconhece, ou melhor, ela diz que essa forma sujeito, sujeito mediador, é uma garantia da continuação oral. O registro desse cotidiano. A pista para a transmissão. Essa é a relação político pedagógica lá na serrinha através da Ação Griô. Não me sinto muito a vontade com missões, lembro muito dos Jesuítas. Já Ação, sim essa palavra me permeia. Ela vira sufixo para dar movimento. Estar na Ação Griô é possibilitar movimento às letras e às oralidades. Mediar cor, por o coração para trabalhar, isso é que incorpora…com a escola é a mesma relação. Eu , Marisa, Su e Braian ( os dois últimos nossos educandos mestres) somos contatados à qualquer intenção de manifesto jongueiro.

Um bom marcador dessa mediação tratada a cima, foi o novíssimo convite a estarmos na Sala de Leitura. O acervo literário a nossos cuidados jongueiros, eu, Suelen e Braion criando ponte entre dança, livro, percussão. Antes já estávamos lá e sempre muito bem recebidos, mas sempre ‘recebidos’ agora o assunto é outro, estamos no processo pedagógico estável da escola, parcerizando um espaço quase nunca usado e com bom nível e plural acervo que contempla a cultura preta no que há de melhor.

Fico pensando o sentido destes símbolos e histórias pros meninos do jongo. Outro dia eu tava contando pra eles sobre a primeira fada preta escrita no Brasil, de uma história não só de um ideário num contexto literário de Ana Maria Machada – a Gota de Mágica. Primeira não. A primeira fada preta é Nastácia do Sítio do Pica Pau Amarelo, ela era uma fada preta com sua colher de pau, sua vara de condão, ela era a magia da história como Dona Benta, duas faces da mesma moeda de um matriarcado. Mas Ana Maria Machado tem um potencial diferente na sua história, vou contar porque ela também é primeira no Brasil. Este livro é muito usado nas primeiras séries. Joana é um personagem, ela vai à fila da bica pegar água numa lata, dai ela fica olhando a gota de água e imagina uma fada de gola leve e etérea (a roupa dela era assim). Então a Joana se imagina como uma fada preta, mas Ana Maria Machado não relaciona a cor preta dentro do desenho ou no texto, mas por causa do cenário na favela. A gente vê. Joana pega a lata d’água e bota na cabeça e de novo volta ao mundo da imaginação, ela vê um caco de tijolo e um objeto mágico dentro dele que acende e apaga, era uma bola de gude como se fosse um vagalume, aí ela descobre que a gota de mágica está ali naquele objeto, dai ela chega em casa coloca a lata d´água na mesa e guarda a bola de gude. É sensacional o ordinário ser mágico, do dia a dia ser mágico, do meu fazer mais cansativo como pegar uma lata d´água tornar-se mágico. Mas porque eu peguei esse assunto para falar aqui ? Ah, sim claro ! eu parei de contar essa história para as crianças pobres por um tempo, porque este livro foi muito criticado como se fosse uma cartilha de alfabetização, mas ele na verdade cai na poesia concreta não cai na armadilha da cartilha. Vi isso quando fui pro Jongo e conheci Deli. Eu soube que lá na balaiada tinha um barro que descia que só ! quando chovia virava mingau de chocolate. Deli é a herdeira de direito do jongo, neta de Vovó Maria Joana, quem trouxe o jongo para a Mangueira e depois levou para a Serrinha. Essa historia da gota de mágica é a história de Deli, ela percebe neste fazer de buscar a água lá na balaiada uma mágica, uma ludicidade, ela não perde seu lugar de rainha pegando aquela lata de 20 k na cabeça, ela é plena de beleza, de poder, de boniteza, é invejada na comunidade, ela e as demais mulheres de lá   encerram e despertam esse processo da inveja, essa coisa etmologica da invídia, inveja, que dá video, liga aquilo que vejo e desejo.  É um exercício difícil, mas cada menina preta pode pegar um livro de Ana Maria Machado para ser uma Deli, qualquer uma pode ser assim, uma rainha, sem precisar viajar com o ideal estranho da barby, mas com uma gude. Quando você pega uma coroa da barby vc vê que não se aproxima da magia de uma bola de gude. A bola de gude tem um poder de brinquedo e obra e de arte. Este livro lida com isso. Quem é meu herói afinal ?
Essa inquietação do herói. Quem é o herói brasileiro ? os feriados nacionais nas escolas estão bem prolixos, essa discussão uma vez saiu no feriado de tiradentes. Uma professora pegou uma conversa na rua – hoje é feriado, porque ?. Antigamente a gente sabia, hoje se perdeu essa relação com tiradentes, mesmo com toda questão que pudesse ter em relação ao herói. Ela contou que ele não gostava de tirar dentes porque ele era dentista, e sabia que bonito era um sorriso cheio de dentes. A gente precisa contar a vida dos heróis, eu por exemplo não sabia que ele não gostava de tirar dentes, a gente sabia que ele era inconfidente, que ele foi morto que tem o palácio tiradentes e várias outras coisas, mas hoje nem isso se sabe mais. Até estes heróis estabelecidos pelo sistema de ensino estão perdendo espaço.

Nos anos 70 existia no Bairro do Campo Grande do  Rio de Janeiro uma praçã, a praça dos pretos velhos, esse lugar tem toda uma relação com um preto que de fato existiu, se chamava tio João, então, mamãe levava a gente para a praça do preto velho, sendo macumbeiro ou não, era uma grande festa do lugar tipo um São João, aí nos anos 77 ou 78 ( mae senhora morreu em 75 ou 65 ??), criaram uma estatua de Mãe Senhora a pedido de Antonio Olimpo e outros que faziam parte do Opô Afonjá. Como isso foi um pedido da intelectualidade do rio, a imagem ficou aqui no Rio mesmo, aí eu me respondo. M  as sendo a estátua de uma herói feminina ( não gosto da palavra heroina, lembra outra coisa), jogou-se a estatua para o Campo Grande, onde até hoje se acredita que a imagem na praça dos pretos velhos é de uma entidade espiritual e não de Mãe Senhora – amiga de Jorge Amado, Dourival Caimi, Pierre Verger. Isso é que é feito dos nossos heróis brasileiros, por não serem Joana Darc nem rainha da inglaterra, se quer Ana Neri.

Dai a gente pensa no antiherói, o herói brasileiro na minha opinião é o antiherói, vou fechar com o Mário de Andrade, o herói é minha pergunta, não existe o herói brasileiro, tem o zumbi que como tiradentes são antiheróis que o poder condena e não legitima, são perseguidos pelo poder, eles são exatamente o povo e encerram a questão do anti-heroi. Então, com as crianças temos que levantar quem são os heróis deles, o que é um herói. Na minha prática, juntando cacos dá um vaso, um indicador meu pro meu herói passou pelo objeto mágico, que a gente segura para a abertura da roda Griô. Sempre procurei trazer um objeto novo, são 3 por excelência : o opaxorô ( cajado de oxalá), eu aprendi isso com o Velho Griô quando o conheci com a mão de pilão na mão. Vi Oxalá e Exu homenageados alí com seu símbolo fálico masculino. Daí criei nosso cajado.

Nilcemar, Lygia da Mangueira ( mestre em educação), ao olharem o Apaxorô/ogó ( cajado, objeto mágico) nosso mais estimado signo das aberturas das rodas Griôs, diz: – Olha ! o pau dele é verde e rosa ! e conversamos sobre samba com educação. Eu disse de meu encontro com tia Neuma …

Dona Neuma, maravilhosa,
é a primeira mulher da verde e rosa !
E onde é que se junta o passado, o futuro e o presente ?
onde o samba é permanente
na mangueira, minha gente

… nos fins dos anos 90 e foi aí que formalizou-se as apresentações. Eu estava falando com a filha de Donga, um dos precursores do samba, grande amigo e parceiro de pixiguinha, a Lygia, e com a neta de Dona Zica e do Cartola, esse sambista das ” Rosas não falam” – a Nilcemar. Lygia me diz que todo sambista seja ele das tantas escolas do Rio, é sempre um imperiano. Me contou histórias da relação interna, da teia que envolve o samba não só no todo mas na individualidade do sujeito. Deu nesse dia para entender o que de fato é a Império Serrano no cenário do samba carioca. Elas duas são duas grandes figuras femininas da Mangueira e do cenário do samba dando a pauta no valor da verde e branco de Madureira.

Mas depois fiquei me perguntando que objeto mágico poderia representar o matriarcado jongueiro de mulheres e meninas:  Dona Eulália, Vovó Maria, Tia Maria, Deli, Luiza. Mulheres que trouxeram e sustentam o jongo na serrinha, dizendo para o mestre Darci para ensinarem o jongo para as crianças. Recriando as regras, porque antes não podia jongo para as crianças. Mulheres que dão a pista do novo, tomam decisões. Daí fiz um Calunga para representar e homenagear a Mãe Senhora do Ofô Apon Já, e levei para o jongo para apresentar esse objeto mágico para as crianças. A Calunga passou a encarnar outras personagens femininas como Euá, a Cumadre Florzinha ( no nordeste muito conhecida como protetora das meninas virgens) de acordo com a história feminina que tinha um mito importante. A calunga espelhava este mito feminino. Mas as crianças nunca falaram : – Ah, mas ela não é a Mãe Senhora do Pierre Verger , do Antonio Olimpo. Porque eu acho que a calunga cumpre o espelho da herói da própria comunidade que são as mulheres que já falei. Elas tem uma respeitabilidade que ninguém vai conseguir, são heroís femininas e a calunga entrega isso para as crianças. Os espaços estão tomando estes nomes, é a comunidade assumindo isso, a creche leva o nome de Vovó Maria Joana, outra a Tia Maria do Jongo … é diferente de nomear a rua dé Barão de Rio Branco e Presidente Vargas.

O cajado, a roda Griô e os heróis, o mais velho encontra o mais novo, o cajado encerra isso sendo objeto de oxalá que fecha o xirê, mas exu que é o mais novo também usa o cajado, cajado diferente, não é um cajado para descansar, é o cajado da potencia do não cansaço, seu ogó. Na roda Griô essa relação é também presente, o mais novo dialoga com o mais velho abrindo e fechando ciclos, o velho ensinando vida a quem na vida estréia.

No centro do Rio tem uma loja tradicional ( a casa Turuna) especializada em artigos de carnaval. Desde criança eu tenho uma relação de medo com três máscaras que pontuam o carnaval de rua, o carnaval de fantasia chamado de carnaval do Clóvis ou do bate bola. São as do diabo, da morte e do morcego. O sujeito não veste o Clóvis, ele se veste com uma túnica preta para usar tais máscaras. E sempre sai o trio, nunca se vê um só. Eu acreditava que já estavam extintas essas máscaras, mas vendo à venda na Turuna perguntei quem as confeccionava. O Sr me respondeu que era um artesão de Madureira. Daí falei com as crianças sobre as máscaras, elas me disseram da continuidade da tradição, mas que só os adultos as usavam, como na minha infância.

Passa o tempo e morre um irmão de minha mamãe – Tio Mário. No primeiro encontro com a meninada, na hora da roda de bênçãos estávamos usando a bandeira do jongo para passar na roda, na minha vez pedí a bênção ao meu tio Mário. Lembrei e contei meu carnaval de criança. Mário montava o molde de barro, colava tiras de jornal, pintava e fazia nascer a máscara. Era uma máscara parente das que vi na casa Turuna. No meio do meu relato para as crianças, o choro veio e cortou a fala. Eu era só memória. Me recompuz e passei a bandeira do jongo adiante na roda. Aí o Claudiney pediu também a bênção ao meu Tio Mário, depois Suelen e os outros ao tio do tio Carlos. Claro, a emoção foi muito maior, e pude ali, no encontro Griô chorar a morte de meu tio, como ainda não tinha feito. Tia Maria pediu benção a Xangô, Orixá de vida… E era isso, identidade, ancestralidade, cultura. Numa troca de ensinamento, de delicadeza, de memória.

Acredita esse griô que o maior produto da Ação Griô no ponto tenha sido um espetáculo “pock” que nasceu para atender ao TEIA em Minas Gerais. Contar a história do Jongo permeando-a com música e dança. Ficou tão bonito que virou presente para a festa de aniversário da Tia Maria no Império Serrano no dia 30 de dezembro que acontece todo ano.

Deixe um comentário