Arquivo paraMaio 10, 2008

Centro de Cultura e Educação Lúdica da Rocinha

Rocinha ontem e hoje: histórias brincantes

A parceria

A história do Ponto de Cultura Centro de Cultura e Educação Lúdica da Rocinha começa com uma parceria de longa data. Antônio Carlos Firmino, coordenador da ASPA (Ação Social Padre Anchieta) e Nathercia Lacerda, coordenadora de projetos do CIESPI (Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância) vêm traçando caminhos que convergem para práticas que promovem e debatem o sistema de garantia de direitos, mais especificamente de crianças e jovens, nos âmbitos da educação e da cultura.

Esse caminhar através de inúmeros desafios, longe de ser solitário, agrega experiências, saberes, profissionais e estudantes, amigos de convivência que enriquecem e ampliam perspectivas, tornando a ação coletiva: Marta, Carla, Eduardo, Pablo, Everton, Carol, Tayná, Isabelli, Heitor, Maicon, Arthur, Vicente, Aerson, Lino, Maria da Paz, Lena.

Diante de um território com área ocupada em mais de 877.575 m² e uma população aproximada de mais de 150.000 habitantes, os parceiros afinam o olhar para uma Rocinha lúdica, com uma história de lutas comunitárias e uma rede de cultura e educação infantil ativa e combativa. O estandarte, confeccionado pelo grupo Mulheres Solidárias: confecção e artesanato, sintetiza essa rede com a frase elaborada pela artesã Maria da Paz: “Educação é cultura na Rocinha”.

No caminho, uma Rocinha lúdica

O Centro de Cultura e Educação Lúdica da Rocinha tem, em sua estruturação, a proposta de integração entre educação, cultura, ludicidade e memória. Nesse sentido, promove ações que estimulem e favoreçam a articulação entre os diferentes atores e instituições locais: artistas, educadores, moradores de idades variadas, espaços formais e não-formais de educação que atingem diferentes faixas etárias.

Entre as atividades realizadas destacam-se:

Levantamento sócio-cultural que formou um pequeno acervo com informações (filmadas, fotografadas, gravadas e escritas) sobre a Rocinha no que diz respeito à sua formação inicial, urbanização, como também às brincadeiras, cantigas, festejos, histórias locais e pessoais, etc;

Formação de jovens agentes cultura viva através de palestras e debates abordando temas como educação, cultura, diversidade, participação, cidadania, dentre outros, e de práticas lúdicas envolvendo brincadeiras, confecção de brinquedos artesanais e a criação de espaços de convivência através do brincar;

Oficinas Lúdicas voltadas para crianças e educadores tendo os jovens, agentes cultura viva, como monitores.

A Rocinha é ampla e com muitas histórias a serem descobertas, desvendadas, recontadas. Encontramos pontas de fios dessa longa História em cada canto. Como juntá-los? O levantamento sócio-cultural que visa facilitar a junção de muitos desses fios, tem como um dos focos a tentativa de colher dados que esclareçam a possível existência de um quilombo na área hoje ocupada pela Rocinha. Informações recolhidas sobre a história local, registradas no livro Varal de Lembranças: Histórias da Rocinha (1983),datam de uma época mais recente, já no século XX. Contam os mais velhos que na Rocinha já houve, sim, um quilombo. Alguns dados históricos sobre a cidade do Rio de Janeiro também apontam para essa possibilidade.

Outro foco reside no fato da Rocinha estar situada numa das franjas da floresta da Tijuca como também estar plantada à beira mar. Como vivem hoje e viviam os caiçaras?

Outra questão que se soma a esses muitos fios a serem tecidos em uma história única: será que em tempos remotos também viveram índios nas terras litorâneas onde hoje se expande a Rocinha?

O levantamento não só gerou um pequeno acervo de informações sobre a Rocinha, sua história e seus moradores, como também acionou no grupo de jovens agentes cultura viva o desejo de ampliar essa ação promovendo o diálogo entre as escolas e os saberes e memórias da comunidade. Como forma de facilitar esse diálogo entre instituições e gerações unindo o levantamento sócio-cultural às oficinas lúdicas, alguns brinquedos foram confeccionados pelos jovens sob a orientação do grupo Mulheres Solidárias: confecção em artesanato.

Em um espaço de educação e cultura que tem como foco o lúdico, a idéia e a prática a serem expandidas residem na realização de oficinas com crianças, jovens e educadores locais, promovendo um grande caldeirão de histórias, onde os tempos se entrelaçam através do brincar. Brincando aprendemos sobre nós, sobre os outros, sobre o mundo; brincando, criamos elos entre pessoas, grupos e lugares; brincando juntamos fios de História.

As oficinas, realizadas em diferentes locais da Rocinha, tiveram os jovens agentes cultura viva como monitores e tornaram-se um rico laboratório que permitiu aos jovens experimentarem os conhecimentos assimilados no processo de formação, ampliando seu aprendizado como atores ativos no espaço comunitário.

Dentre os brinquedos criados, destaca-se aqui o jogo de tabuleiro – No caminho, uma Rocinha lúdica – que tem como base um mapa da Rocinha mostrando suas diferentes localidades/bairros. Através do percurso sugerido pelo tabuleiro, os participantes trocam informações sobre a história local e seus protagonistas como também são levados a brincar, cantarolar, adivinhar, etc. Para a criação, concepção e confecção desse jogo o grupo de jovens contou com a parceria de Vicente Barros (professor do departamento de Artes e Design da PUC-Rio).

“Nós queríamos mostrar a Rocinha de forma lúdica, pois temos esse compromisso com a ludicidade, daí pensamos na construção de um brinquedo que ao mesmo tempo trabalhasse a questão geográfica e histórica da Rocinha, pois já tínhamos passado por um processo de levantamento sócio-cultural através do Ponto de Cultura. Cada casinha representa uma cartela, cada cartela aborda atividades diferentes. Umas são perguntas relacionadas à história e geografia da Rocinha, outras são de quadras populares e “o que, o que é”, outras cartelas são de sorte ou revés e as últimas são brincadeiras e músicas. Muitas das perguntas relacionadas à Rocinha, retiramos do “Varal de Lembranças” (livro que conta a história da formação da Rocinha), outras são de relatos de moradores antigos que entrevistamos em nossas caminhadas. Temos também o “Rodo do Bonde”, antigo meio de transporte que percorria a rua Marquês de São Vicente (localizada na Gávea, bairro vizinho) com moradores da Rocinha. No Mapa-jogo, o “Rodo do Bonde” funciona como uma espécie de roleta que determina o número de casas que andaremos. O Mapa é um brinquedo que estará sempre em processo de construção (cada participante pode opinar, inserir perguntas, sugerir brincadeiras, etc.,ampliando o leque de cartelas), pois ele é também uma forma de coletar informações, brincadeiras e músicas, através do brincar.” (Pablo, jovem agente cultura viva)

“A gente faz uma comparação do uso do espaço da Rocinha com fotos da Rocinha antiga e da Rocinha atual. São muitas dúvidas sobre a Rocinha e sua ocupação, desde a quantidade de habitantes – 110 mil habitantes, 200 mil habitantes, 156 mil habitantes. Quando queríamos falar sobre ocupação e crescimento e vimos que de fato não existe um censo que fale da realidade e desse processo de ocupação e surgimento da comunidade, através de um mapa antigo começamos a desenvolver atividades com os jovens e foi criado o mapa-jogo”. (Firmino, equipe coordenadora do centro lúdico)

O caminho para a Ação Griô na Rocinha já estava criado, possibilitando uma integração imediata entre as propostas como uma ampliação e um fortalecimento de iniciativas em andamento que valorizam a tradição oral e a convivência étnico-cultural na comunidade.

Sobre esse percurso do Centro de Cultura e Educação Lúdica da Rocinha integrando-se à Ação Griô, com o projeto Rocinha ontem e hoje: histórias brincantes, Firmino, da equipe coordenadora, dá seu depoimento:

“Nós começamos as atividades do Ponto numa parceria entre o CIESPI (Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância) e a ASPA (Ação Social Padre Anchieta) que desenvolviam atividades complementares que envolviam a ludicidade e a criação de brinquedos. Com o passar do tempo, convidamos pessoas da comunidade que pudessem disseminar esse saber – educadores(as) e professores(as) das creches. Vimos então que tinham outros talentos ligados à questão da cultura e educação para serem compartilhados. Daí aconteceu o edital griô onde nós nos identificamos.

Eu já tinha ouvido falar de vô Aerson, encontrei com ele no ônibus e ele falou que me viu na televisão local com o Gilberto Gil falando sobre a Rocinha como quilombo. Daí a gente começou a contar a história da Rocinha. Lembrei que sempre quis conversar com ele. Fui em sua casa na época que surgiu o edital do griô e então indiquei Vô Aerson. Desde o início foi uma troca muito rica de saberes com ele que vem sendo muito gratificante. A gente não imaginava o que ele fazia como dirigente religioso e espiritual; não imaginávamos a dimensão que tinha. E tio Lino, este eu já conhecia desde 1999 realizando trabalhos fantásticos na comunidade da Rocinha. Ele transforma tudo que a gente conversa em brinquedo. A gente fala, ele ouve, imagina e cria o produto. Os materiais utilizados por ele são todos reciclados e reutilizados. Ele está sempre criando. Um exemplo é o Jacaré que ele construiu e que estamos sempre usando para falar do meio ambiente. Havia uma grande lagoa antes de chegar à antiga praia da Gávea, hoje praia de São Conrado. A gente começou a contar as histórias da Rocinha e seus mitos, a história da Bica das Almas e a história da lagoinha que era um pântano, e ele contou que quando ia pescar via aquele rabo grande. Daí surgiu o jacaré como símbolo sobre a ocupação e devastação do espaço para o surgimento do bairro de classe média alta de São Conrado. O jacaré acompanhou diversas atividades, inclusive foi o mediador do diálogo do griô regional Alexandre com as crianças e as histórias que ele trouxe para contar.

Tio Lino fez também a casinha que retrata como era a Rocinha de antes: a casa de taipa, de estuque. Fizemos também um barco. Pois, quando falamos de jacaré, as crianças sugeriram que tinha que ter um barco. Lembrando que se usava barco para chegar a uma parte da praia da Gávea, este barco rendeu em torno de um mês de histórias. A Martinha eu já conhecia do Centro Comunitário da rua Dois e da ASPA pelo trabalho que ela já desenvolvia como brinquedista.” (Firmino, equipe coordenadora do centro lúdico)

Martinha, uma andarilha brincante

Maria Marta Diniz da Silva, a Martinha, é uma brinquedista de longa data. Sua experiência com brinquedos e os diferentes espaços de brincar tem início na criação da Brinquedoteca Peteca da ASPA (Ação Social Padre Anchieta) em funcionamento ininterrupto há 20 anos. Sua facilidade de comunicação a faz referência na comunidade para escolas, educadores, pais e principalmente crianças.

A trajetória de brinquedista à griô aprendiz foi talhada no trilhar diário de sua prática ampliando sua atuação comunitária e lúdica. Tendo o brincar como eixo, sua principal fonte brota de sua própria infância.

“Na minha infância não tinha brinquedo, pois minha família sempre foi muito pobre, mas tinha espaço para brincar de pique-bandeirinha, pipa, corda, amarelinha, roda e queimado, brincadeiras que hoje quase não se vê por falta de espaço. Nessa época não havia luz elétrica na minha casa, somente em alguns pontos da Rocinha. Fazíamos lamparinas com lata e uma vela dentro. Brincávamos muito de sombra na parede. Quando chovia, a gente ficava brincando de barquinho dentro da vala. Finca-finca também era legal, a gente pegava um prego e íamos brincar no chão depois da chuva. Bola de gude nem se fala!” (Marta, griô aprendiz)

A relação entre Marta, o mestre e griô de tradição oral tem sido de total sintonia como uma equipe ativa que troca lembranças, idéias e encaminhamentos.

“O Vô Aerson eu já havia ouvido falar porque ele é rezador conhecido, mas não o conhecia pessoalmente. Hoje temos uma sintonia que se dá através das histórias da Rocinha que lembramos e contamos e das atividades desenvolvidas com as crianças. Vô Aerson é uma figura fundamental em relação ao que diz respeito à educação passada, conhecedor de saberes culturais para o nosso trabalho. O Lino eu já conhecia de vista, pois ele também passou a infância na Rocinha.” (Marta, griô aprendiz)

À sombra do jambeiro

Ao pé de um jambeiro, ladeado por um coqueiro e um pé de urucum, Martinha, Lino e Aerson conversam e tecem lembranças. Essas rodas de conversas semanais sob o jambeiro mostraram um celeiro rico em grãos de histórias e causos a serem maturados e germinados no terreno da escola. Esses encontros incensados pelo fumo do cachimbo de Vô Aerson (mestre de tradição oral), pelo olhar visionário de Tio Lino (griô de tradição oral) e pela energia brincante de Marta (griô aprendiz), trouxeram à tona muitas traquinagens, causos, folias, descrições de uma Rocinha de antes com suas construções em estuque, com aparições de seres fantásticos, brinquedos construídos com sobras caseiras, pessoas marcantes que se foram, ervas que curam e não se encontram mais com tanta facilidade. Risadas, curiosidades, perguntas e conversas, lembranças adentro movem as tardes desses griôs, que as transmitem com alegria contagiante para as crianças e jovens.

Passo a passo, de tarde em tarde, ensolaradas ou friorentas, mas sempre cercada de crianças que brincam, perguntam e olham curiosas o grupo que conversa, a história da Rocinha vai sendo mostrada através da palavra de griôs e mestres que partilham suas memórias do tempo de menina e meninos, montando, como em um quebra-cabeça, as peças de uma história vivida.

Vô Aerson tem a palavra:

“É com a raiz que estamos trabalhando.”

O quilombo

“Na mensagem que recebi, eu vi direitinho: eram uns homens assim, cor de canela, naquela pilha de barco vermelho e eles pareciam ciganos com aqueles brincos de argola e tudo com aquelas roupas de pano de saco do tempo colonial e andando assim tudo sério, e se dirigiam lá pra cima e lá era um quilombo. Eu comentei isso com o Firmino bem antes de entrar com vocês no projeto. Aqui, antes, eram fazendas de portugueses e espanhóis. Os escravos é que mantinham as fazendas daqui. Por isso a nossa raiz. Por isso na mensagem eu vi esse homem assim um pouquinho mais claro que ela aqui (Marta). Cabelo assim bem crespo, aquele brinco assim bem grande, e aquela roupa: “Eu vou subir.” Aí subiu. A rua Quatro era uma trilha assim dessa largura. A rua era no meio da favela, só podia ser a rua Quatro no século passado.”

As ervas que curam

“Aqui na Rocinha tinha muito o que colher de ervas que curam. Cânfora, não encontra mais Cânfora. Lembra de Cânfora? Dava em qualquer lugar. Hoje em dia você não acha. Você botava ela na infusão do álcool que você passava, aquilo ali curava… Arnica, Pé de galinha pra dor de dente. Muita coisa boa. A evolução acabou com tudo. Isso não era plantado, nascia pela natureza. Tomate também… broto de tomate também era bom pra dente. O quebra-pedra que fazia chá pros rins… cana do brejo também é pra chá. Erva santa Maria que é pra verme, socava ela mas tinha que botar na minguante pra poder resolver. Na lua cheia aí é que crescia mais. Erva de santa Maria ou óleo de ríceno, oh coisa ruim. E tinha que beber senão a vara de marmelo já estava. Óleo de fígado de bacalhau! Tudo pra limpar o intestino.”

Aparições

“As lendas que tinham! A gente tinha medo da Mula-sem-cabeça. “Vem a zebra aí!” não ficava um.

Era bom então o Lobisomem. Ninguém saía pra fora de casa. Naquela época tinha mesmo. Aqui na Rocinha, perto da minha casa, tinha um cachorro chamado Espião. Já tava dando uma meia noite e pouco, quase uma hora da manhã. Aí o cachorro: au, au, au! Eu senti o cachorro dando em cima, debaixo da janela. Eu levantei e fui ver o que era. Aí eu abri a porta. E tô vendo o cachorro au, au, au… Quando eu vi que era aquela bola preta. Tô vendo o cachorro dando em cima mas de uma bola desse tamanho! O cachorro dando em cima, dando em cima. Aí eu disse: “Olha a foice! Me dá a foice!” Aí ele por aqui, descendo ribanceira abaixo. E o cachorro foi atrás. Eu entrei e fechei a porta. Aquilo foi rolando, rolando, rolando… que tinha um galinheiro lá perto de um chiqueiro… E aquela bola rolando e o cachorro dando em cima. Essa bola era o lobisomem. Era um velho. Eu não botava muita fé não, mas depois que eu vi…ah, existe mesmo. E ele virava mesmo. Ali onde tem a mina d’água, ali tinha um chiqueiro de porco e tinha uns pés de bananeira ali. Ele saía dali.” (Aerson, mestre de tradição oral)

Aconchegados em roda, embalados pelas histórias, Tio Lino conta:

Folia de Reis

“Naquele tempo existia um folclore muito bonito na nossa comunidade que era a Folia de Reis e, de madrugada, aquele apito: Piiiiiiiii! Bum! A gente já sabia. E aí nós falávamos assim: “Vem descendo a Rua Um!” Nós no passo, na batida do tambor. Minha mãe tinha um terreiro, minha mãe dava almoço pra eles. E aí eu rezava pra visita todo o dia chegar em casa. Minha mãe só fazia coisa boa: café, era batata doce, aipim, inhame, mamãe matava galo, fazia aquela panelada de galo com quiabo, angu… Jesus! Sai de baixo! Aí eu ficava chateado porque a gente não comia aquilo, mas quando vinha a visita da Folia de Reis… carne de sol, aquela carne bonita. Vinha gente do subúrbio que vinha fazer isso na Rocinha. Mamãe recebia eles, mamãe tinha que rezar a bandeira, tinha um São Pedro que vinha na bandeira. Existiam vários palhaços. Então era uma coisa bacana porque, quando as Folias de Reis se encontravam, era uma briga dos palhaços… a gente vaiava eles. Era uma briga dos palhaços pelos territórios. Minha mãe cansava de discutir com os palhaços: “Você vai comer na minha casa, vou servir você…”

Avô índio

“Meu avô era caboclo, era índio. Engraçado que eu falava com ele assim: Ih, vô, você não tem botão na frente da sua calça não? Ele usava tipo um pijama. É um barbante… Você fazia a camisa e a calça de pano de carne seca. Engraçado que eu me lembro disso. Ele era um mulato, cabelo pretinho. Ele não usava henê não. Mas o cabelo… eu nunca vi! Cor de canela! E a roupa que ele usava, roupa que chamavam de carne seca, vinha de Portugal, não vinha aqui do Brasil não. Poucas pessoas podiam usar aquilo porque era caro. Nós morávamos na casa do meu avô que era feita de barro e bambu.”

Bichos, frutas e água

“Eu comia muito carne de paca. Meu avô falava assim pra mim: Hoje tem carne de paca. Aqui na Rocinha tinha muita paca. Tinha paca, tinha tatu. Eu comia muito tatu, paca, lagarto, cada lagarto maior do que o outro. Tinha gambá. Porque meu avô falava assim… ele chegava no meu ouvido e falava assim: “Eles fogem de lá pra vir parar aqui, sabe por que? Porque aqui tem comida, tem muita fruta: jaca, jabuticaba.” Tinha muita jabuticaba, tinha muito jamelão. Tinha uma cachoeira ali na curva do S, fantástica a cachoeira. Quando a gente vinha da praia, tomava banho ali. A gente carregava água dali porque não tinha água em casa.” (Lino, griô de tradição oral)

Conversa vai, conversa vem, Tio Lino transforma as lembranças em objetos; faz surgir, através das mãos, o tempo de hoje e de antes, antenado com o futuro.

Conversas que viram casa.

Casa que conta as tantas histórias.

Casa de estuque, casa de terra, casa da terra, casa-raiz.

“E a casa de sapê… eu já tô montando essa casa e trouxe aqui pra vocês. Então acontece uma coisa interessante: as pessoas passam no meu ateliê e falam assim: Caramba, tio Lino, o senhor vai dá isso pra quem? Não, isso é do projeto, eu não vou dá isso pra ninguém porque isso aqui é um histórico, é pra todo mundo vê e aí vai ter uma placa de como as casas de primeiro eram feitas. Essa casa tá ficando um mistério, todo mundo quer essa casa! Falta um bocado de coisa. Vai ter o fogão à lenha. O chão vai ser o seguinte: vou jogar areia da praia por fora, depois vou jogar o barro com pincel e verniz. Eu tô com a idéia de botar uns móveis aqui dentro. Não vou esquecer do poço não, tá tudo aqui na cabeça. Aqui são as janelas e as portas. Aqui vai ter uma cerca de arame farpado… E essa casa seria dos anos 40, 1940 até 60. Hoje você ainda acha casa assim. A gente pode fazer o seguinte: vou encher a casa de barro até aqui, mal acabado, pra aparecer o bambu e em cima vou deixar cru. O bambu, aqui… vou pegar um barbante, porque de primeiro existia cipó, era feito com o cipó, cipó caboclo.”

“Meu dom está nas minhas mãos. Agradeço a Deus esse dom. Meus filhos me dizem: Pai, seu saber tá nas suas mãos.” (Lino, griô de tradição oral)

Escola Caminhante

A mediação de Martinha entre crianças, jovens, educadores e griôs é brincante, alegre e estimulante, integrando saberes, histórias e vivências. As conversas à sombra do jambeiro são fonte inspiradora e ponte para a valorização do saber de tradição oral no processo da educação formal. Estabelece com os jovens uma relação de compromisso e companheirismo possibilitando uma importante interlocução entre diferentes gerações.

Sua atuação na escola está ligada a uma presença constante que se realiza a cada semana. A parceria com o CIEP Dr. Bento Rubião é anterior à Ação Griô, tendo sido local de estágio em sua formação no curso de Pedagogia. Seu caminho para repensar e propor uma nova prática escolar está na sintonia com as crianças. O estar junto brincando e conversando gera um encantamento mútuo que se expande para professores, pais e crianças de outras séries que se aproximam curiosas. Sua forma de agregar emana de sua energia brincante, do corpo flexível no espaço, do sentar no chão, em roda, onde cada um se vê e se descobre abrindo um espaço de convivência do brincar e aprender.

Com as crianças, sua prática metodológica parte de histórias, brincadeiras, brinquedos e objetos lúdicos que funcionam como ativadores de curiosidades, perguntas e conversas.

O jacaré do pântano

Houve um tempo em que a parte mais baixa da Rocinha era um pântano.

A Rocinha tem muitas histórias!

Casa de estuque, casa de todos

O que será que tem nessa caixa? Fechem os olhos que tem uma surpresa!

Antigamente as casas na Rocinha eram de estuque, assim desse jeito que está aqui.

Encantamento é a palavra para esse encontro dos pequenos olhos curiosos diante da maquete que resume as tantas histórias contadas e brincadas. Ali é possível ver o tempo de ontem e de hoje da Rocinha e antever o futuro. A moça que se prepara para cozinhar, o cachorro na porta, o poço que guarda a água, o quarto de dormir, o quintal de brincar. Hoje é igual a ontem? Como era antes? Como é hoje? Como será depois? Como tem sido a vida na Rocinha desde os tempos em que era uma grande floresta banhada pelo mar? Vamos conhecer brincando e contando histórias?

Patinete, rolimã e arco

Brincar é criar, construir, desconstruir, pensar, organizar, descobrir, recriar, reconstruir, repensar, reorganizar, redescobrir, redescobrir-se a cada dia, em um espiral que se move permanentemente. Confeccionar brinquedos a partir de materiais simples e acessíveis como patinete, carrinho de rolimã e arco, e brincar das brincadeiras que atravessam gerações levam a um mergulho no tempo acionando saberes e aprendizados.

O caminho de Martinha é um caminho pelo brincar e pelas crianças. Sua aposta metodológica é que as encantando, os adultos serão encantados e, com o tempo, agregados. Pelas ruas, crianças passam e apontam: “Olha, mãe, essa é a professora que brinca e conta histórias!”. O ato de brincar, por sua vez, cria um espaço de menos resistências, despertando lembranças de infâncias e convidando a participar.

No espaço escolar, caminha como observadora da prática institucional cotidiana. Busca compreender os inúmeros desafios da escola atual, mais especificamente da que está inserida em um grande centro urbano e em uma comunidade com dimensões e complexidades de cidade. Observa, anota, reflete e devolve seu aprendizado à equipe da Educação infantil (segmento com o qual iniciou a ação) através de oficinas lúdicas e encontros de avaliação e planejamento. As oficinas instigam temas que estimulam a reflexão coletiva da prática escolar e o diálogo entre o currículo e a tradição oral. Aposta na construção de uma relação de confiança, abrindo canais para possíveis transformações na escola atual.

Um convite à experimentação

Tudo pode ser brinquedo – uma caixa, um pedaço de madeira, uma roupa usada, um sapato maior que o pé, etc. Brinquedos novos ou usados, saídos da loja ou reaproveitados têm o mesmo caráter desafiador e desencadeador de curiosidade que leva à interação e à brincadeira; são sempre um convite a brincar.

O Centro de Cultura e Educação Lúdica da Rocinha possui um acervo de brinquedos artesanais singulares, versáteis em sua forma de uso, em sua maioria sem regras previamente definidas, que possibilitam a expressão livre e criadora – um convite à descoberta e à experimentação. Brinquedos únicos confeccionados com materiais simples que, assim como o mapa-jogo, brotam da convivência entre adultos, jovens e crianças, explorando cor, textura e movimento. São brinquedos orgânicos criados em parceria com o olhar sensível de Vicente Barros e mãos bordadeiras de Lena e Maria da Paz.

Histórias, brincadeiras, informações sobre a Rocinha, cantigas, encenações, construção de brinquedos fazem parte desse universo colorido e múltiplo, onde o brincar e o aprender caminham juntos.

O grupo de jovens agentes cultura viva realiza oficinas brincantes com adultos e crianças utilizando esse acervo e relembrando brincadeiras populares passadas de geração a geração.

Encontro de gerações

“Quem faz a ponte entre as idades, entre as crianças e os mais velhos, são os jovens; eles têm esse papel de interagir. Uma das ações que cada vez mais vai enriquecendo é que os griôs vão chamando os mais velhos da comunidade para darem seus depoimentos. Quando mostramos o mapa-jogo, eles vão corrigindo as informações das cartelas e contando sobre os brinquedos e brincadeiras. Um saber que mexeu muito comigo, e que é parte da pedagogia Griô, é essa coisa do “impacto de gerações”. Sempre que temos alguma atividade com os mais velhos, procuro estar presente, pois acho super interessante ouvi-los. Como sou jovem e conseqüentemente não desfrutei das vivências contadas por eles, fico imaginando e desenhando todo esse processo e isso pra mim é fantástico.” (Pablo, jovem agente cultura viva)

Trilhas primeiras

Os primeiros passos na direção da construção coletiva da Ação Griô na Rocinha, através do Centro de Cultura e Educação Lúdica da Rocinha, deram-se em um caminho formado por nomes. Nomes como pés caminhantes que deixam marcas e traçam trilhas em uma terra repleta de gravetos, folhas, pedras, asperezas, temperaturas, umidades, onde o vento, a chuva e o cotidiano intrincado e agitado da vida urbana interferem mudando rumos, desafiando os andarilhos.

Fomos desenhando, em conjunto, um esboço repleto de linhas e formas que se organizaram em trilhas brincantes, trilhas de histórias, trilhas de memórias, trilhas de oralidade, trilhas dos artistas da comunidade.

Chegamos a um momento em que não se delimita mais, tão claramente, o que é o centro lúdico e o que é a Ação Griô. O que é desenhado mistura-se fazendo surgir novas veredas que instigam, inspiram e desafiam aqueles que as percorrem juntos apostando em uma convivência justa e brincante, na direção da garantia de direitos igualitários para todos.

Abril de 2008

Sistematização: Nathercia Lacerda

Fotos:

Everton Carlos Maia

Lucas Pablo S. de Oliveira

Nathercia Lacerda

Autoria coletiva:

Antônio Carlos Firmino

Aerson Luiz Costa

Carla Daniel Sartor

Everton Carlos Maia

Lino dos Santos Filho

Lucas Pablo S. de Oliveira

Maria Marta Diniz da Silva

Nathercia Lacerda

Vicente Barros

Bibliografia:
Varal de Lembranças: histórias da Rocinha. Rio de Janeiro: União Pró-Melhoramentos dos Moradores da Rocinha; Tempo e Presença: SEC:MEC: FNDE, 1983.

Jongo da Serrinha, através de Carlos

Jongo da Serrinha

Em nossa festa de Cosme Damião e Doum, a roda de jongo aberta à visita, o Alexandre Santini, griô caminhante regional chegando com Cosme e Damião para seu encontro na escola que teve sua concentração na biblioteca do jongo. Tambores, histórias, agogôs e a dança pedindo licença à escola que desceu toda para matar a vontade de brincar.

Da parceria de Denise , Kátia e Mariangela, professoras da Escola Dominicana:

– Carlos, me desculpe, qual é seu santo ?

- não é santo, sou feito de yemanjá. Eu sou Ekede, sou de Odé. Meu Orixá me deu liberdade de trabalhar fora do barracão. Caí na educação.

Rimos muito. Liberdade ?

Assim é a relação com a nossa escola. Passa pelo informal. A história de vida é que permeia a relação. A cobrança da CRE-Coordenação Regional de Educação com a escola perpassa pelo envolvimento geográfico. Uma escola dentro da Serrinha, logo tem compromisso com o Jongo, com o Império Serrano e com o Mercadão de Madureira. Mais uma fala de Denise:

– a criançada evangélica estava chorando na escola porque a Império desceu para o grupo B.

Essa é a alavanca, o amor pelo samba. O DNA preto feito o sabor jabuticaba.

Na apresentação do espetáculo da Débora Kolker no Teatro Municipal, Tia Maria estava com um broche lindo ! era uma coroa imperiana. A Vanessa ( educanda de 11 anos) olha o broche e solta:

- Tia Maria, quando a senhora não quiser mais a senhora me dá esse broche ?

Na hora Tia Maria me chama e diz :

- Oh, Carlos, quando eu morrer eu quero que o broche vá para Vanessa, só assim é que não vou usar mais.
Num intervalo do balet, a história de vida, de morte, de tradição, de amor ao samba, ao tempo acontecendo no intervalo.

Uma vez foi um jornalista da TVE lá no Jongo, perguntou no início da entrevista pela importância de São Benedito, Tia Maria riu e disse que para o jornalista que São Benedito não tinha tanto destaque para o jongo, e que ela não sabia muito sobre o santo… Mais perguntas e de novo o jornalista pergunta por São Benedito. Tia Maria já sem sorrir informou que era católica, sabia de São Benedito, mas não sabia explicar a importância dele para as danças não!

Quando mais uma vez ele tentou outra pergunta, Tia Maria foi direta: Olha sobre santo você pergunte ao Carlos! – oh Carlos, fala pra ele de São Benedito, eu já disse que sou católica!
Uma outra vez que Tia Maria apontou bem essa relação de mediador do Aprendiz foi no encontro de Vassouras: – oh Carlos, eu fico até sem jeito, toda hora vem um e me pede “sua benção minha Yá” que coisa é essa de Yá?
Lhe disse pra responder ‘que minha Mãe te abençoe’, a mãe poderia ser Maria ou uma ayabá ao sabor da imaginação do interlocutor. Claro, isso nunca pretendeu ser um conselho, nem Tia Maria deixou de responder bem a qualquer pedido de benção. Nessas nossas conversas fica claro o quanto ela ri desse ideário do preto folclorizado. E ao ri disso comigo, me convidando a tomar parte no colóquio, ela valida a relação de mediador do Griô Aprendiz com a Mestra da tradição Griô.

É bom pensar nessa mediação do griô, mas a posição de validação dessa existência pulsante passa a ter uma cor, um nome, uma forma. Essa forma sou eu. O Carlos. Sempre que tomo a bênção a tia Maria, ela também pede a minha. Ela reconhece, ou melhor, ela diz que essa forma sujeito, sujeito mediador, é uma garantia da continuação oral. O registro desse cotidiano. A pista para a transmissão. Essa é a relação político pedagógica lá na serrinha através da Ação Griô. Não me sinto muito a vontade com missões, lembro muito dos Jesuítas. Já Ação, sim essa palavra me permeia. Ela vira sufixo para dar movimento. Estar na Ação Griô é possibilitar movimento às letras e às oralidades. Mediar cor, por o coração para trabalhar, isso é que incorpora…com a escola é a mesma relação. Eu , Marisa, Su e Braian ( os dois últimos nossos educandos mestres) somos contatados à qualquer intenção de manifesto jongueiro.

Um bom marcador dessa mediação tratada a cima, foi o novíssimo convite a estarmos na Sala de Leitura. O acervo literário a nossos cuidados jongueiros, eu, Suelen e Braion criando ponte entre dança, livro, percussão. Antes já estávamos lá e sempre muito bem recebidos, mas sempre ‘recebidos’ agora o assunto é outro, estamos no processo pedagógico estável da escola, parcerizando um espaço quase nunca usado e com bom nível e plural acervo que contempla a cultura preta no que há de melhor.

Fico pensando o sentido destes símbolos e histórias pros meninos do jongo. Outro dia eu tava contando pra eles sobre a primeira fada preta escrita no Brasil, de uma história não só de um ideário num contexto literário de Ana Maria Machada – a Gota de Mágica. Primeira não. A primeira fada preta é Nastácia do Sítio do Pica Pau Amarelo, ela era uma fada preta com sua colher de pau, sua vara de condão, ela era a magia da história como Dona Benta, duas faces da mesma moeda de um matriarcado. Mas Ana Maria Machado tem um potencial diferente na sua história, vou contar porque ela também é primeira no Brasil. Este livro é muito usado nas primeiras séries. Joana é um personagem, ela vai à fila da bica pegar água numa lata, dai ela fica olhando a gota de água e imagina uma fada de gola leve e etérea (a roupa dela era assim). Então a Joana se imagina como uma fada preta, mas Ana Maria Machado não relaciona a cor preta dentro do desenho ou no texto, mas por causa do cenário na favela. A gente vê. Joana pega a lata d’água e bota na cabeça e de novo volta ao mundo da imaginação, ela vê um caco de tijolo e um objeto mágico dentro dele que acende e apaga, era uma bola de gude como se fosse um vagalume, aí ela descobre que a gota de mágica está ali naquele objeto, dai ela chega em casa coloca a lata d´água na mesa e guarda a bola de gude. É sensacional o ordinário ser mágico, do dia a dia ser mágico, do meu fazer mais cansativo como pegar uma lata d´água tornar-se mágico. Mas porque eu peguei esse assunto para falar aqui ? Ah, sim claro ! eu parei de contar essa história para as crianças pobres por um tempo, porque este livro foi muito criticado como se fosse uma cartilha de alfabetização, mas ele na verdade cai na poesia concreta não cai na armadilha da cartilha. Vi isso quando fui pro Jongo e conheci Deli. Eu soube que lá na balaiada tinha um barro que descia que só ! quando chovia virava mingau de chocolate. Deli é a herdeira de direito do jongo, neta de Vovó Maria Joana, quem trouxe o jongo para a Mangueira e depois levou para a Serrinha. Essa historia da gota de mágica é a história de Deli, ela percebe neste fazer de buscar a água lá na balaiada uma mágica, uma ludicidade, ela não perde seu lugar de rainha pegando aquela lata de 20 k na cabeça, ela é plena de beleza, de poder, de boniteza, é invejada na comunidade, ela e as demais mulheres de lá   encerram e despertam esse processo da inveja, essa coisa etmologica da invídia, inveja, que dá video, liga aquilo que vejo e desejo.  É um exercício difícil, mas cada menina preta pode pegar um livro de Ana Maria Machado para ser uma Deli, qualquer uma pode ser assim, uma rainha, sem precisar viajar com o ideal estranho da barby, mas com uma gude. Quando você pega uma coroa da barby vc vê que não se aproxima da magia de uma bola de gude. A bola de gude tem um poder de brinquedo e obra e de arte. Este livro lida com isso. Quem é meu herói afinal ?
Essa inquietação do herói. Quem é o herói brasileiro ? os feriados nacionais nas escolas estão bem prolixos, essa discussão uma vez saiu no feriado de tiradentes. Uma professora pegou uma conversa na rua – hoje é feriado, porque ?. Antigamente a gente sabia, hoje se perdeu essa relação com tiradentes, mesmo com toda questão que pudesse ter em relação ao herói. Ela contou que ele não gostava de tirar dentes porque ele era dentista, e sabia que bonito era um sorriso cheio de dentes. A gente precisa contar a vida dos heróis, eu por exemplo não sabia que ele não gostava de tirar dentes, a gente sabia que ele era inconfidente, que ele foi morto que tem o palácio tiradentes e várias outras coisas, mas hoje nem isso se sabe mais. Até estes heróis estabelecidos pelo sistema de ensino estão perdendo espaço.

Nos anos 70 existia no Bairro do Campo Grande do  Rio de Janeiro uma praçã, a praça dos pretos velhos, esse lugar tem toda uma relação com um preto que de fato existiu, se chamava tio João, então, mamãe levava a gente para a praça do preto velho, sendo macumbeiro ou não, era uma grande festa do lugar tipo um São João, aí nos anos 77 ou 78 ( mae senhora morreu em 75 ou 65 ??), criaram uma estatua de Mãe Senhora a pedido de Antonio Olimpo e outros que faziam parte do Opô Afonjá. Como isso foi um pedido da intelectualidade do rio, a imagem ficou aqui no Rio mesmo, aí eu me respondo. M  as sendo a estátua de uma herói feminina ( não gosto da palavra heroina, lembra outra coisa), jogou-se a estatua para o Campo Grande, onde até hoje se acredita que a imagem na praça dos pretos velhos é de uma entidade espiritual e não de Mãe Senhora – amiga de Jorge Amado, Dourival Caimi, Pierre Verger. Isso é que é feito dos nossos heróis brasileiros, por não serem Joana Darc nem rainha da inglaterra, se quer Ana Neri.

Dai a gente pensa no antiherói, o herói brasileiro na minha opinião é o antiherói, vou fechar com o Mário de Andrade, o herói é minha pergunta, não existe o herói brasileiro, tem o zumbi que como tiradentes são antiheróis que o poder condena e não legitima, são perseguidos pelo poder, eles são exatamente o povo e encerram a questão do anti-heroi. Então, com as crianças temos que levantar quem são os heróis deles, o que é um herói. Na minha prática, juntando cacos dá um vaso, um indicador meu pro meu herói passou pelo objeto mágico, que a gente segura para a abertura da roda Griô. Sempre procurei trazer um objeto novo, são 3 por excelência : o opaxorô ( cajado de oxalá), eu aprendi isso com o Velho Griô quando o conheci com a mão de pilão na mão. Vi Oxalá e Exu homenageados alí com seu símbolo fálico masculino. Daí criei nosso cajado.

Nilcemar, Lygia da Mangueira ( mestre em educação), ao olharem o Apaxorô/ogó ( cajado, objeto mágico) nosso mais estimado signo das aberturas das rodas Griôs, diz: – Olha ! o pau dele é verde e rosa ! e conversamos sobre samba com educação. Eu disse de meu encontro com tia Neuma …

Dona Neuma, maravilhosa,
é a primeira mulher da verde e rosa !
E onde é que se junta o passado, o futuro e o presente ?
onde o samba é permanente
na mangueira, minha gente

… nos fins dos anos 90 e foi aí que formalizou-se as apresentações. Eu estava falando com a filha de Donga, um dos precursores do samba, grande amigo e parceiro de pixiguinha, a Lygia, e com a neta de Dona Zica e do Cartola, esse sambista das ” Rosas não falam” – a Nilcemar. Lygia me diz que todo sambista seja ele das tantas escolas do Rio, é sempre um imperiano. Me contou histórias da relação interna, da teia que envolve o samba não só no todo mas na individualidade do sujeito. Deu nesse dia para entender o que de fato é a Império Serrano no cenário do samba carioca. Elas duas são duas grandes figuras femininas da Mangueira e do cenário do samba dando a pauta no valor da verde e branco de Madureira.

Mas depois fiquei me perguntando que objeto mágico poderia representar o matriarcado jongueiro de mulheres e meninas:  Dona Eulália, Vovó Maria, Tia Maria, Deli, Luiza. Mulheres que trouxeram e sustentam o jongo na serrinha, dizendo para o mestre Darci para ensinarem o jongo para as crianças. Recriando as regras, porque antes não podia jongo para as crianças. Mulheres que dão a pista do novo, tomam decisões. Daí fiz um Calunga para representar e homenagear a Mãe Senhora do Ofô Apon Já, e levei para o jongo para apresentar esse objeto mágico para as crianças. A Calunga passou a encarnar outras personagens femininas como Euá, a Cumadre Florzinha ( no nordeste muito conhecida como protetora das meninas virgens) de acordo com a história feminina que tinha um mito importante. A calunga espelhava este mito feminino. Mas as crianças nunca falaram : – Ah, mas ela não é a Mãe Senhora do Pierre Verger , do Antonio Olimpo. Porque eu acho que a calunga cumpre o espelho da herói da própria comunidade que são as mulheres que já falei. Elas tem uma respeitabilidade que ninguém vai conseguir, são heroís femininas e a calunga entrega isso para as crianças. Os espaços estão tomando estes nomes, é a comunidade assumindo isso, a creche leva o nome de Vovó Maria Joana, outra a Tia Maria do Jongo … é diferente de nomear a rua dé Barão de Rio Branco e Presidente Vargas.

O cajado, a roda Griô e os heróis, o mais velho encontra o mais novo, o cajado encerra isso sendo objeto de oxalá que fecha o xirê, mas exu que é o mais novo também usa o cajado, cajado diferente, não é um cajado para descansar, é o cajado da potencia do não cansaço, seu ogó. Na roda Griô essa relação é também presente, o mais novo dialoga com o mais velho abrindo e fechando ciclos, o velho ensinando vida a quem na vida estréia.

No centro do Rio tem uma loja tradicional ( a casa Turuna) especializada em artigos de carnaval. Desde criança eu tenho uma relação de medo com três máscaras que pontuam o carnaval de rua, o carnaval de fantasia chamado de carnaval do Clóvis ou do bate bola. São as do diabo, da morte e do morcego. O sujeito não veste o Clóvis, ele se veste com uma túnica preta para usar tais máscaras. E sempre sai o trio, nunca se vê um só. Eu acreditava que já estavam extintas essas máscaras, mas vendo à venda na Turuna perguntei quem as confeccionava. O Sr me respondeu que era um artesão de Madureira. Daí falei com as crianças sobre as máscaras, elas me disseram da continuidade da tradição, mas que só os adultos as usavam, como na minha infância.

Passa o tempo e morre um irmão de minha mamãe – Tio Mário. No primeiro encontro com a meninada, na hora da roda de bênçãos estávamos usando a bandeira do jongo para passar na roda, na minha vez pedí a bênção ao meu tio Mário. Lembrei e contei meu carnaval de criança. Mário montava o molde de barro, colava tiras de jornal, pintava e fazia nascer a máscara. Era uma máscara parente das que vi na casa Turuna. No meio do meu relato para as crianças, o choro veio e cortou a fala. Eu era só memória. Me recompuz e passei a bandeira do jongo adiante na roda. Aí o Claudiney pediu também a bênção ao meu Tio Mário, depois Suelen e os outros ao tio do tio Carlos. Claro, a emoção foi muito maior, e pude ali, no encontro Griô chorar a morte de meu tio, como ainda não tinha feito. Tia Maria pediu benção a Xangô, Orixá de vida… E era isso, identidade, ancestralidade, cultura. Numa troca de ensinamento, de delicadeza, de memória.

Acredita esse griô que o maior produto da Ação Griô no ponto tenha sido um espetáculo “pock” que nasceu para atender ao TEIA em Minas Gerais. Contar a história do Jongo permeando-a com música e dança. Ficou tão bonito que virou presente para a festa de aniversário da Tia Maria no Império Serrano no dia 30 de dezembro que acontece todo ano.