Tá na rua, através de Alexandre Santini

Ponto de Cultura Tá Na Rua

Griô aprendiz: Alexandre Santini

 

Com vocês, o grupo Tá Na Rua

Teatro, Alegria, Animação

São séculos, milênios de Teatro

Ao alcance do seu coração…

( trecho da Canção de abertura do grupo Tá Na Rua / 1981)

     

Minha atuação enquanto griô aprendiz do projeto político pedagógico do ponto de cultura Tá Na Rua em parceria com o Colégio Pedro II se vincula diretamente à minha história e projeto de vida na medida que integra e articula dimensões significantes e fundamentais de minha identidade, ancestralidade, formação e visão de mundo.

 

Nós levamos nas mãos

O futuro de uma grande e brilhante nação

Nosso passo constante e seguro

Rasga estradas de luz na amplidão

(…)

Estudaram aqui

Brasileiros de enorme valor

Teus exemplos, seguis, companheiros!

Não deixemos o antigo esplendor!

 (…)

Vivemos para o estudo

Soldados da ciência

O livro é nosso escudo

E arma, a inteligência…

 (trechos do Hino do Colégio Pedro II)

 

Sou ex-aluno do Colégio Pedro II, unidade Centro, onde desenvolvemos o projeto durante o ano de 2007. Nesta escola construí parte importante de minha formação, cidadania e inserção social e política na sociedade. Fui representante de turma, presidente do grêmio, participei do grupo de teatro amador da escola. Primeiros amores, prazeres, tristezas, vícios saudáveis (sinuca, cerveja, jogo de sueca), grandes mestres e amigos para toda a vida.

 

Ingressei no grupo Tá Na Rua em 2001, e desde então assumi como minha a missão desta instituição. Ao longo desses anos atuei e atuo como ator, dramaturgo, dirigente institucional e na elaboração e coordenação de diversos projetos, dentre os quais o Ponto de Cultura e o Memória Tá Na Rua.

 

“Ser artista é uma possibilidade que todo mundo tem, independente de ofício, carreira ou arte. Todo mundo pode viver a sua expressão sem estar preso a uma papel. Não se trata de todos os artistas serem operários, mas de todos os operários serem artistas. Das pessoas terem relações férteis, criativas e de transformação com o mundo, a realidade, a natureza, a sociedade. O homem não está condenado a ser destruidor, consumista, egoísta, como a sociedade nos leva a crer.”

(Manifesto do Grupo Ta Na Rua, 1981)

 

Um dia pobre, um dia rico, um dia no poder,

Um dia chanceler, um dia sem comer

Eu sou do Tá Na Rua

Eu tô legal

No palácio Guanabara ou em Vigário Geral

 

- É Roubada?? (É!)

 - É de graça?? (É!)

O Tá Na Rua tá na praça!

(Rap do Tá Na Rua, 1993)

 

 

O projeto da Ação, que firmou uma parceria entre essas duas instituições, me possibilitou fazer a ligação entre essas dimensões que formam a minha identidade, portanto muito mais que um trabalho, a Ação Griô se insere no meu projeto e história de vida. Devido a este histórico de vínculos e identificação pessoal tanto com o ponto como com a escola, o meu lugar enquanto griô aprendiz e articulador entre os saberes de tradição oral relacionados no projeto e o espaço escolar foi bastante natural e positivo

 

Os griôs e o mestre do projeto são pessoas cuja história de vida está diretamente ligada ao teatro popular e ao trabalho do grupo Tá Na Rua, que constrói sua linguagem e dramaturgia a partir de fontes da cultura oral. Meu vínculo afetivo e de trabalho com eles se consolidou em oficinas, ensaios, apresentações de espetáculos, viagens pelo Brasil e exterior e reuniões diversas, atividades próprias da dinâmica de um grupo de atuação e pesquisa teatral, que levam a uma convivência quase diária e bastante intensa.

 

“Os amigos já me chamavam de griô há muito tempo, talvez por ser filho do Abdias do Nascimento, uma figura mitológica para o movimento negro no Brasil e no mundo. Eu já era um griô músico na boemia da Lapa, fui “presidente de la movida madrileña” na Espanha dos anos 80. Mas agora eu sou um Griô oficial, do Tá Na Rua e do Brasil, com carimbo do Ministério da Cultura”

(Abdias do Nascimento Filho ( Bida ), Griô de tradição oral/ Ponto de Cultura Tá Na Rua- RJ)

 

Minha ligação mais recente com o Colégio Pedro II começou através do convite de uma aluna, Renata Sampaio (hoje estudante de artes cênicas na UNIRIO, onde me formei), que conheceu o meu trabalho no Ta Na Rua, soube que eu era ex-aluno e me convidou para orientar as oficinas de teatro que ela desenvolvia voluntariamente na escola, com o apoio da equipe docente do depto de sociologia. No final de 2006, com  lançamento do edital da Ação Griô, propus aos alunos e a prof. Silzane, que desenvolvêssemos um projeto conjunto. A proposta foi aceita e posteriormente a educadora Jane Aguiar se ligou ao projeto e foi a professora que se vinculou efetiva e afetivamente nesta parceria, como parte de seu projeto de vida, sonhos e aspirações profissionais.

 

Quando eu falei com a Lillian sobre observação participante, um conceito clássico da antropologia, ela me falou de encantamento. No Encontro Regional da Ação Grio eu entendi o encantamento, que tem a ver com a vivência, com a pedagogia, com a nossa história de vida, criando novos elos e dando novos significados ao que a gente fazia. Eu trabalho em outra unidade e não poderia invadir o espaço de outro professor, mas a aproximação com a pedagogia griô me transformou, não só ler mas vivenciar, virou estratégia de sobrevivência.

(Jane Aguiar, educadora do depto. de sociologia do Colégio Pedro II/ Unidade São Cristóvão –RJ)

 

E foi assim que me tornei um vetor dos desejos, aspirações, propostas, linguagens, projetos e histórias de vida que se reuniram no projeto da Ação Griô nesta parceria Pedro II / Ta Na Rua.   

 

Nossa proposta de trabalho na Ação Griô foi desafiadora no sentido de pensar a questão das redes de transmissão oral no espaço urbano, e de compreender a linguagem teatral do Ta Na Rua como uma pedagogia baseada em um meio de cultura oral por excelência: o teatro popular, que é praticado há milênios nas ruas e nas praças das cidades. Procurei incorporar essa dimensão da teatralidade na construção do meu lugar de griô aprendiz: na roupa, nas máscaras, na postura, nos gestos, na palavra.

 

Minha roupa de griô já vinha se construindo ao longo dos espetáculos do Ta Na Rua. Nas apresentações do grupo os atores sempre entram em cena com uma roupa-base Eu  uso sempre uma calça colorida, tênis all-star, colete, uma casaca que achei do acervo do grupo, que pra mim tem mais de 500 anos, é uma roupa ancestral que vem de geração em geração há mais de 500 anos, uma roupa de arlequim da comédia dell’arte. Cartola de mágico enfeitada com uma máscara dos carnavais de Veneza. A essa base eu fui acrescentando elementos e acessórios necessários  encontrados e recolhidos ao longo da caminhada: Instrumentos musicais. ( zabumba nordestina, agogô de cabaça e 06 gaitas de blues), bolsa a tiracolo, bonequinho do invenção brasileira, broche  da Escola Roberto Silveira, de Caxias, que troquei com uma estudante pela gaita, elementos das culturas indígenas Xavante e Tapajoara, que recolhi em Mato Grosso e Alter do Chão (PA).   

 

Trabalhar com griôs cuja linguagem de tradição oral é essencialmente o teatro contribui muito nessa construção e nesse aprendizado. Essa linguagem teatral, em diálogo com a inspiração da pedagogia griô e da caminhada do Velho Griô em Lençóis, definiu métodos e procedimentos de caminhada:

 

Lá, nos Sertões da África

 

Entre aldeias distantes

 

Caminham mulheres e homens

 

Aprendendo e ensinando as histórias de seu povo

 

São os Griôs!

 

E quando os griôs chegam nas aldeias

 

As crianças, os pais, as mães e as avós se sentam na roda.

 

Está aberto o ritual do contador de histórias!

(Apresentação do Velho Griô, incorporada ao roteiro das caminhadas da regional RJ)

 

A essa tarefa, já bastante desafiadora, de construir esta parceria entre o Tá Na Rua e o Pedro II, se somou o convite para assumir o lugar de griô aprendiz regional, articulador dos 8 pontos de cultura vinculados à Ação Griô no Rio de Janeiro. Ocupar este “duplo papel”, de griô aprendiz do ponto e da regional enriqueceu muito minha experiência e conhecimento vivencial sobre a cultura do Rio de Janeiro, estabelecendo pontes e conexões, vislumbrando uma rede de transmissão oral que se constrói nos trilhos urbanos e mistura samba, jongo, capoeira, trem, teatro, asfalto, favela, fazenda, compondo o mosaico cultural carioca e fluminense. Por outro lado, as diversas demandas e atividades da caminhada regional, somadas às minhas múltiplas atividades e interesses, impediram uma presença mais constante e regular no Pedro II.

 

Recuperar a fala da TEIA

 

Ainda assim, considero que na minha atuação como griô aprendiz compreendi, incorporei e vivenciei a missão da Ação Griô, com desdobramentos concretos e definitivos nos rumos da minha vida. Eu posso me considerar um excelente indicador de resultados da Ação Griô, uma vez que o reconhecimento deste meu lugar como griô aprendiz, dialogando com a pedagogia Griô, reconhecendo as especificidades e particularidades do meu lugar de artista, de militante do movimento social, engajado nesta movimentação dos pontos de cultura pelo Brasil, todas essas facetas se encontraram em minha caminhada da Ação Griô

 

Na primeira conversa com a equipe de griôs antes da caminhada na escola, eles colocaram uma resistência, dizendo que eles eram artistas do Tá na Rua, e não Griôs. Eu falei que eles eram Griôs exatamente por isso,  pelos que eles são, e que a Ação existia como espaço para afirmar este lugar, eles não teriam que ser outra coisas para serem griôs.

(relato na caminhada da Colheita 2008 )

 

É importante ressaltar o impacto positivo na implementação da Ação Griô no ponto de cultura Ta Na Rua, um resultado que a princípio não estava previsto no projeto e superou nossas expectativas. Os griôs do Ta Na Rua viram o seu lugar no ponto reconhecido e ressignificado a partir da ação Griô, passaram a ser reconhecidos e chamados de “griôs”, pelos atores do grupo e pelos alunos das oficinas do ponto de cultura, foram valorizados enquanto grupo nos encontros da Ação com os outros pontos da regional. Isso contribuiu para a valorização, auto-estima e empoderamento pessoal e social desses artistas. As atividades internas do ponto de cultura também foram influenciadas pela Ação Griô, Lillian Pacheco realizou 2 atividades no ponto de cultura (vivência da pedagogia griô e oficina de biodança), diversos alunos do ponto de cultura participaram das caminhadas no Pedro II e nos pontos da regional. O livro da pedagogia Griô e o filme Sou Negro foram objeto de estudo e debate nas oficinas do ponto.  Eu, como griô aprendiz e também dinamizador das oficinas teatrais no ponto, trouxe diversos conteúdos aprendidos na Ação para as oficinas: cantigas aprendidas nas caminhadas e encontros regionais, metodologias como os círculos de cultura, histórias de tradição oral e relatos das experiências de caminhadas nas escolas, como a ida com o repentista Zé Pedreira numa sala de aula em Lençóis (BA), ou a lenda do boto contada e cantada pelos estudantes de Alter do Chão (PA).

 

Eu sou educador e artista, fui animador cultural no primeiro governo do Brizola, trabalhei com Augusto Boal, Darcy Ribeiro, Amir Haddad. Me convenci que a escola estava falida, não tinha mais jeito, tinha que acabar e fazer outra! Mas começo a perceber que a Ação Griô pode ser uma possibilidade interessante de diálogo entre cultura e educação…

(Licko Turle, coordenador do ponto de cultura Tá Na Rua, Vivência da pedagogia Griô, MINC/ RJ, 2006)

 

Em relação à escola, a principal conquista foi a identificação pessoal, afetiva e profissional da educadora parceira, Jane Aguiar, com a missão e os objetivos da Ação. Jane se encantou e se vinculou com a Ação, foi parceira e cúmplice nas atividades na escola, participou do encontro regional da ação, do encontro de pontos de cultura RJ/ES e das atividades da Ação Griô na TEIA, em Belo Horizonte – MG. Jane ressignificou sua atuação como educadora em sala de aula, articulou  a metodologia da Ação com os conteúdos da disciplina de sociologia, mobilizou educadores de seu departamento. Hoje divulga e implementa a Ação Griô nos seus espaços de atuação profissionais e acadêmicos.

 

O Pedro II é muito tradicional, no bom e no mau sentido da palavra, com diversas disputas políticas, a questão é como conseguirmos ocupar estes espaços. Nesta história toda o que fica é o que já está marcado em mim, e não tem mais jeito. Acabei usando as vivências pensando a ocupação do morro do alemão e produzimos uma vinheta de animação, e naquele momento estava rolando a discussão do cristo redentor como a  8ª maravilha do mundo, então  você traz este nexo , e com a  pedagogia Griô você pensa isso sentado no chão, com música, trabalhando em grupo. A caminhada gerou uma parceria vinda de baixo, e daí eu entendi a estratégia da pedagogia griô, não vem por cima, das estruturas hierárquicas, são parcerias de vínculo e de identificação, isso para o tipo de política pública que estamos propondo é essencial. Tivemos uma reunião com os educadores, uma capacitação solicitada por eles a partir da caminhada. O Pedro II é hoje a base de uma disputa ideológica.

 

Com linha temática e os conteúdos trabalhados na caminhada na escola procuramos trabalhar a identidade histórica do Colégio Pedro II (instituição federal, que completou 170 anos em 2007) com o território onde sua sede está localizada. Até a inserção do projeto pedagógico da Ação Griô, o Colégio Pedro II não realizava nenhum trabalho relacionado aos saberes e fazeres da cultura oral de sua comunidade, apesar de se localizar em uma região da cidade (o Bairro de Santo Cristo, conhecido no séc. XIX como “África Pequena”, a Pedra do Sal, a estação Central do Brasil, a Praça Onze, onde era a casa de Tia Ciata, etc.), a região portuária da praça Mauá, espaços com grande importância na história da cultura negra no Rio de Janeiro e no Brasil. A escola, considerada modelo na educação pública do país, chegou a responder uma interpelação do Ministério Público Federal por  não ter aplicado, de forma sistemática e consistente, a Lei 10.639 em seus parâmetros e estruturas curriculares.

 

Fui na Bahia, e vim aqui para lhes contar

A história de um brasileiro

Seu nome é Dom Obá

Obá de Rei, Dom de Guerreiro

Nasceu junto com Lençóis

Na guerra do paraguai foi feroz

Morreu na favela do Rio de Janeiro

(adaptação do cordel de Dom Oba, de Lillian Pacheco e Márcio Caíres, na caminhada do Tá Na Rua no Colégio Pedro II, 2007.)

 

Apresentamos o cordel de Dom Obá em um formato de narrativa dramática, eu falando e os atores apresentando imagens daquelas cenas. A entrada de Dom Obá, Bida entrou com um chapéu comprido de palha, tinha tudo a ver o Bida fazer o Dom Obá, por essa coisa dele ser filho do Abdias Nascimento, a figura dele ficou forte. Depois os três griôs entraram fazendo os Reis Magos, e depois Marcelo Bragança e Bida improvisaram um encontro entre Dom Oba e o Imperador Pedro II, um número engraçadíssimo aplaudido em cena aberta.

(Relato da Caminhada)

 

A assessora pedagógica e o griô aprendiz foram convidados a participar da Reunião de Colegiado do Departamento de Sociologia, visando sensibilizar um grupo de 25 educadores e promover a capacitação na pedagogia Griô. O objetivo principal seria oferecer recursos para a reformulação curricular já iniciada no ano de 2007. As mudanças que estão sendo formuladas no Projeto Político Pedagógico do CPII consistem em pensar novos diálogos entre os conceitos sociológicos que integram o conteúdo programático em conexão com diferentes abordagens metodológicas.

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