Arquivo paraMaio 8, 2008

Fundação Terra Mirim, através de Wayra

Fundação Terra Mirim  - FTM

 

A Fundação Terra Mirim (FTM) trabalha com a Queimada da Palhinha desde 2003, como parceira desta festa tradicional popular centenária da Região Metropolitana de Salvador. É uma parceria que dá bonitos frutos, uma relação de vizinhança e confiança já enraizada.

 

Iniciamos o contato com o grupo de anciões que guardam a memória desta festa, Dona Pina, Dona Sartíria, Seu Manoel, Seu Nilo e Seu Joaquim, através de uma pesquisa em história oral dentro do Projeto Águas Puras I, realizado pela FTM em 2002 com o apoio do Ministério do Meio Ambiente – FNMA, registramos depoimentos e fotografamos a festa na sua data original, em janeiro depois da Festa de Reis.

 

(Foto da Festa da Queimada da Palhinha em 2003)

 

Mapeamento Cultural

 

A gente queria muito conhecer os saberes, as expressões, os lugares que guardavam a memória do município de Simões Filho, e a pesquisa já iniciada desdobrou-se então em um projeto maior, o Mapeamento Cultural de Simões Filho. 

 

O Mapeamento Cultural foi uma pesquisa realizada voluntariamente por profissionais da FTM entre 2003 e 2006: Sônia Maria Gomes, psicóloga (participou no primeiro ano); Maria Izabel, percussionista, fotógrafa e cinegrafista; Wayra Silveira, historiadora, pesquisadora em cultura e poeta. O trabalho contou durante algum tempo com o apoio da Prefeitura Municipal no transporte e alguns materiais de registro. 

 

Conseguimos visitar as seguintes comunidades:

 

Palmares, Dandá, Pitanga de Palmares, Convel, Jardim Renatão, Dame, Mapele, Ilha de São João, Ponto Parada, Coroa da Lagoa, além da sede do município.

 

Registramos as seguintes manifestações culturais:

 

. Queimada da Palhinha – Palmares

. Fonte Nossa Senhora da Guia – antiga Cerâmica Três Rios

. Festa de São Gonçalo – Pitanga de Palmares

. Parteiras – Pitanga de Palmares

. Ervateiras – Pitanga de Palmares

. Festa dos Pescadores – Mapele

. Saturnino Repentista – Mapele

. Festa de Oxum – Terreiro Ilê Axé Ominigê

. Festa de São Miguel – Padroeiro de Simões Filho – Sede do Município

. Festa de Santa Luzia – Pitanguinha

 

(Fotos de Saturnino Repentista com a legenda:

“Seu Saturnino não tinha viola porque o filho vendeu sua viola para comprar uma bicicleta”.)

 

(Fotos da Festa de Oxum e Foto da Festa de São Gonçalo)

 

No total foram realizadas 31 entrevistas, registradas 400 fotografias e cerca de 20 horas de registro em vídeo.

 

Depoimento de Seu Manoel Lopes em maio de 2004:

 

A gente tinha casa lá, o velho meu pai tinha casa lá na fazenda [Coqueiro] e tinha dos morador tudo… O meu pai era homem de confiança do Coronel Cazuza., ah! era. O  pai do meu pai já trabalhava com a família de Cazuza, é. Ele parece que alcançou a época da escravidão… O meu avô parece que era escravo dessa família, já. Com certeza era escravo dessa família, (…) aí construiu meu pai dentro dessa família, quando meu pai teve entendimento que gerou a gente, a gente já nasceu dentro dessa fazenda (…). Ele pegou, ainda pegou uma ponta da escravidão, meu avô… quando meu avô não pegou, meu bisavô pegou, meu bisavô pegou a ponta da escravidão…

 

Entre os diversos os saberes que conseguimos registrar no Mapeamento Cultural, o Baile Pastoril Queimada da Palhinha, prática religiosa popular em louvor ao Senhor Deus Menino foi do qual mais nos aproximamos. No povoado de Palmares no Vale do Rio Itamboatá a família Lopes (Seu Manoel, Dona Pina, Seu Nilo) é uma das mais antigas, eles são a memória viva da região e o núcleo mesmo da tradição Queimada da Palhinha.

 

Percebemos um processo de desvitalização na festa, as mais velhas já cansadas, desmotivadas diante de tantos elementos modernos que transformaram a ética de reciprocidade e solidariedade desta comunidade centenária, as roupas dos artistas-devotos já bastante descaracterizadas, mas a queima da palha continou acontecendo todo mês de janeiro todos os anos no barracão enfeitado no quintal de Dona Pina.

 

Trecho de Depoimentos de Dona Sartíria e Seu Manoel:

 

Sobre a Queimada da Palhinha, Seu Manoel informou em junho de 2002 que a festa:

 … é do pessoal mais velho, aí vai passando de um prá outro (…). Aqui tinha uns devoto, um bocado de devoto da Queimada da Palhinha, um bocado mesmo. Aqui no fundo, (…) morava uma senhora, Dona Antônia que todo ano baiava, já tinha as pastoras tudo certo, aquele dia certo, aquelas roupa tudo de um tipo só, chapéu enfeitado, essa coisa toda, tudo já organizado. Ali em Pitanga, ali onde é a barragem hoje, o senhor que se chamava Aristides era outro devoto, começa no mês de baiar até o fim do dia das queimadas, era tudo organizado (…). Isso é antigo. São antigas essas festas. Agora, quem gosta da brincadeira sempre vem e acha bonito, arma aquele negócio, aquele presépio, dentro da lapinha…

 

Seu Manoel fala aqui da oralidade como via de transmissão dos elementos da festa, o grau de organização e participação da comunidade e a antigüidade da festa. Segue trecho do depoimento de Dona Sartíria também em junho de 2002:

 

Essa é uma coisa que vem desde o princípio, como eu lhe falei, né? Desde o princípio (…) eu já conheço essa brincadeira, era uma brincadeira muito bonita, (…) já armei aqui mesmo na minha casa, já armei lapinha, depois de Pina já voltou lá para casa dela. Eu morava em Camaçari, festejava lá na minha casa, com a minha sogra, a minha sogra faleceu, eu tomei a responsabilidade, aí depois abandonei tudo, eu fiquei sozinha, não dava para eu enfrentar sozinha. Abandonei porque não dá, cheguei aqui, aí Pina chegou. Começou a armar, a brincar, umbora, umbora todo ano ela arma e aí a gente vai brincar (…). É uma festa daqui mesmo. Foi criada aqui mesmo entre aqui Coqueiro e Pitanga, (…) mas tudo desse distrito daqui…

 

Dona Sartíria fala da festa como “brincadeira”, mas também como “responsabilidade”, testemunha a sua antigüidade na região e as dificuldades para continuar com o ritual.

 

A FTM promoveu a Oficina Queimada da Palhinha entre 2003 e 2004, trabalho que facilitou a transmissão dos conhecimentos tradicionais das mulheres mais antigas desta tradição para um grupo de 12 (doze) adolescentes moradoras da região, muitas delas netas de antigas pastorinhas da festa. Este grupo fez diversas apresentações na região.

 

(Foto da Oficina Queimada da Palhinha)

(Texto de Eliandra de 2003 falando da importância da Queimada da Palhinha)

 

Registramos as cantigas, os versos e as danças desta tradição, conhecimentos orais transmitidos de geração em geração. Fizemos uma roupa para as pastorinhas e tocadores, meio sem graça, branquinha e rosinha claro, com apoio da prefeitura municipal, mas já era legal todo mundo de saia rodada. O grupo começou a fazer apresentações nos eventos da FTM e em outros da região.

 

(Foto de uma apresentação da Queimada da Palhinha na FTM)

 

Cantiga da Queimada da Palhinha cantada à meia-noite no auge do ritual:

 

Minha gente fogo, fogo

Em Belém lá na Lapinha

Olha o fogo que nunca se apaga

Da Queimada das Palhinha

 

Eu pensei que cheguei tarde

Mas agora eu madruguei

Fui a primeira pastora

Que no presépio cheguei…

 

A Fonte de Nossa Senhora da Guia

 

Depoimento de Seu Manoel Lopes sobre a Fonte da Guia em janeiro de 2003:

 

Ave Maria, a água era uma prata. Essa fonte é um minador que não pára mesmo, é um minador forte, medonho. Ainda hoje a Fonte da Guia existe, não acabou não. Chama assim por que diz que apareceu uma santa nessa fonte, que era Nossa Senhora da Guia. Tinha um negócio, um barro embaixo quando lavava a fonte, o pessoal tirava um barro que tava lá e dizia que era a ‘relíque’ (relíquia) e aquilo usava em casa. Demovia assim na água pra quando sentir alguma dor. Eu mesmo acreditava, bebi muitas vezes na Guia, por diversas vezes a velha minha mãe me dava quando eu estava com dor de barriga… Qualquer dorzinha que a gente sentia, dizia: ‘Pega a relíque aí menino… ’.

 

A Fonte de Nossa Senhora da Guia é um bem cultural e ambiental desta região, inspirador de mitos e lendas que formam o imaginário da população local. Além disso, é uma nascente e, pela Legislação Ambiental do Estado da Bahia, Lei 6.569 e Decreto 6.785, é uma APP – Área de Preservação Permanente. Mesmo assim, a exploração desmedida da argila por pouco não fez desaparecer este importante local, a fonte esta localizada nas terras de propriedade da antiga Cerâmica Três Rios.

 

(Foto da Fonte da Guia em 2003 – local ainda degradado)

 

A FTM, através do Ambiental Terra Mirim, gerência da instituição ocupada na preservação e reconstituição do meio ambiente local, vem tomando algumas medidas para preservar a Fonte da Guia. Desde 2003 são realizados mutirões de limpeza e preservação na área da fonte com a participação de crianças e adolescentes, educadores e moradores, momentos educativos que promovem conhecimentos sobre este patrimônio. Na revegetação da área foram plantadas cerca de 300 mudas de plantas nativas da Mata Atlântica e é realizada a manutenção deste plantio através de ações como adubação, irrigação e roçagem da área.

Atualmente o cuidado com a Fonte da Guia é um dos temas centrais do Curso de Direito Ambiental Comunitário promovido pelo Ambiental Terra Mirim e faz parte da Agenda Sócio-Ambiental do Vale do Rio Itamboatá elaborada coletivamente com as associações e lideranças da região. Uma das questões mais palpitantes nas discussões deste curso é a legalização da área da Fonte da Guia como Unidade de Preservação.

 

(Foto da Fonte da Guia em 2008 – local já preservado)

 

Uma fonte de água pura, cheia de força mítica, água sagrada que nutria o imaginário do povo do lugar. Dizem que em algumas noites era possível ouvir a voz de uma mulher cantando na beira da fonte. Muitas pessoas só bebiam a água de lá. Hoje o povo não usa mais o barro da ‘relíque’, assim como muitos não usam mais como antes ervas como recursos para a cura e a limpeza do corpo. Porque o povo do Vale não usa mais a ‘relíque’? Aqui vão algumas opiniões sobre isso:

 

Seu Manoel Lopes:

 

- Por que o povo de hoje não tem fé e antigamente tinha, a gente antes tinha fé e hoje muitos não conhecem a história da Fonte da Guia. A minha mãe demolvia a ‘relíque’ na água e dava pra gente beber pra dor de barriga passar.

 

Alba Maria:

 

-

 

Wayra:

 

- Talvez por que estas práticas de cura mais ligadas aos recursos naturais foram se desvitalizando diante da modernização acelerada nos meios rurais. Aquilo que a ciência médica acreditou que era remédio tomou o lugar dos antigos recursos naturais para a cura das doenças do corpo e da alma.

 

Queimada da Palhinha na Ação Griô

 

Depois de tentar por alguns caminhos aprovar projetos que ajudassem a manter e a divulgar estes saberes orais, a gente escreveu um projeto para a Ação Griô Nacional. A FTM é Ponto de Cultura desde 2005 e realiza o Projeto Cultura: Direito de Todos, que são oficinas de arte para essa juventude que não sabe bem para onde caminhar, tem oficina de Capoeira, de Percussão e de Dança, com recursos deste projeto transcrevemos as entrevistas da Pesquisa Mapeamento Cultural de Simões Filho. Deste trabalho surgiu a Banda Meninos do Vale que já se apresentou em palcos da região. (colocar as notícias mais recentes…)

 

Escrevemos o projeto pedagógico para levar os conhecimentos orais da Queimada da Palhinha para turmas do ensino fundamental da Escola Maria Amélia. Trabalharíamos com 1 Mestre, Seu Manoel, 4 Griôs, Dona Sartíria, Dona Pina, Seu Nilo e Seu Joaquim, e uma Griô Aprendiz, Wayra. Quando saiu o resultado do Edital, a Fundação Terra Mirim estava entre os 50 Pontos de Cultura do Brasil que faria parte desta experiência pioneira. Foi um momento histórico dizer para anciões esquecidos no interior do nosso país que o governo do Brasil através do Ministério da Cultura reconhece o valor dos antigos e oferece recursos públicos para que partilhem o que sabem, o que são dentro das salas de aulas da sua própria comunidade, foi um momento muito especial. Versos e canções foram entoados em homenagem à Gilberto Gil e Célio Turino.

 

Depoimento da Griô Aprendiz Wayra Silveira sobre o início dos trabalhos:

 

No primeiro momento que entrei na escola, minha cabeça estava bem formal, então preparei material didático para os professores, foi bom, mas depois percebi que os caminhos podiam ser outros também. A gente sabia dos objetivos na escola, mas foi uma grata surpresa ver a possibilidade de estar na escola de maneira cortejante, brincante, ritualizando, fazendo cortejos e caminhadas. O contato com Márcio Griô e Eniéle abriu muito este caminho, eu troquei muitos e-mails nesta época com eles para ajudar a compor o lugar do Griô Aprendiz e a vivência em sala de aula. Passamos a cuidar da curva da vivência, cuidamos da roda e do pedido de bênção aos mais velhos. Nosso instrumento sagrado que passa de mão em mão na hora da bênção é o cajado da Véia Caduca, que é personagem cômico da Queimada da Palhinha. O cortejo chama atenção quando passa pelas ruas da comunidade. Nas rodas sempre vão visitantes e hóspedes estrangeiros de Terra Mirim, e é muito incrível esta riqueza, uma troca linda, a roda com tanta gente diferente, de culturas diferentes, junto com as crianças da escola. Uma visitante fez uma bonita doação: Fiapo, um dos netos da casa tem Seu Nilo como mestre e queria aprender a tocar pandeiro, mas não tínhamos como comprar o pandeiro, naquele momento a gente estava juntando dinheiro para fazer as roupas do ritual, aí a visitante, o nome dela é Amélia, doou o pandeiro para Fiapo, ele agora é aprendiz do Mestre Nilo. A gente entra na escola, faz a roda, pede a bênção, todos já conhecem este momento, os mais novos pedem a bênção aos mais velhos, de 15 em 15 dias temos reunião no quintal de Dona Pina e escolhemos as cantorias que vão acontecer na escola…

 

Umas palavras para Gilberto Gil

 

Quando saiu o resultado do Edital da Ação Griô, em março de 2007, depois de dar a notícia para os anciões, a Griô Aprendiz escreveu umas linhas para Gilberto Gil, mas nunca enviou esta mensagem para ele:

 

Gil, você está no meu altar. Numa foto recortada da capa de um jornal. Você está embaixo de Osho, ao lado de Buda, de São Longuinho e do Deus Elefante Ganesha. São ainda seus vizinhos na lapinha da minha cabeceira São Jorge e meu querido São Francisco, o santo que me faz chorar. Tenho no altar também um carneiro de vidro, que me lembra a fragilidade dos arianos como eu. Alguns hão de me indagar: “- O que faz um homem entre santos e deuses?”. Mas está tão justo o recorte de jornal, você com cabelos brancos e o indicador indicando alguma novidade, a boca pronunciando alguma revolução. Todos os dias medito contigo, o meu coração com um bem querer que te oferece paz, saúde e força. Não conheço as suas mazelas humanas, sei que hão de existir. Mas o que salta aos meus olhos é a novidade, a revolução vindas através de um… HOMEM. Muitos dirão: “- Estás venerando gente, coisa falível!”. Não! Venero a fertilidade, a boa vontade de partilhar a riqueza, a criatividade para transformar o curso secular dos interesses. Gil, você está no meu altar e o que você representa lá é a humanidade sã. Amo o artista. Admiro o Ministro. Mas o que venero no meu altar é o que se manifesta através de você, a coisa da qual você é canal aberto, é a poesia/ação, o feminino/masculino, a estrela/raiz, você humano como eu. Imagino a sua imensa jornada, as aflições e alegrias do caminho que te lapidaram até você poder ser este símbolo para mim. Imagino as suas dúvidas, medos, revolta, a pacificação da sua alma, a sua conversa com Deus. E me sinto privilegiada por estar de alguma forma conectada com alguém que realiza, no mundo das formas, as coisas que fazem parte da sua própria oração.

 

Wayra Silveira

 

(Foto de Gilberto Gil recortada no Jornal)

 

A griô aprendiz fez a ponte entre a Escola Maria Amélia e o grupo de tradição oral da Queimada da Palhinha. Wayra tem uma experiência de mais de 10 anos de trabalho comunitário, o que ajudou na construção de uma boa comunicação com os anciiões. Os cortejos até a escola são mensais e a Griô Aprendiz tem conquistado passo a passo os professores da escola Maria Amélia.

 

Dois professores ficaram mais parceiros da Ação Griô: o Prof. Feliciano de Artes e a Profa. Célia de Língua Portuguesa. 

 

Prof. Feliciano trabalhou com cantigas e versos da festa, fazendo até um jogral com os versos da Queimada da Palhinha:

 

1ª. Atividade de Artes:

 

Fundação Terra Mirim

Ação Griô Nacional – Ministério da Cultura

Cantiga da Queimada da Palhinha

Disciplina: Artes

Cantiga de Chegada da Queimada da Palhinha

 


Entremos por esta sala

Pra louvar a Deus Menino

Ainda que nasceu flor

É sina de ouro fino

 

Meu Senhor meu Deus Menino

Vim aqui te visitar

Doença eu venho trazer

Saúde eu quero levar

 

Meu Senhor meu Deus Menino

Tão alvinho como leite

Me guarde um lugar no céu

Onde a minha alma se deite

 

Meu Senhor meu Deus Menino

Me dê a mão que eu subirei

Todo mundo já subiu

Só eu embaixo fiquei

 

Meu Senhor meu Deus Menino

Minha flor de bem-me-quer

Me dê um bom marido

Que eu serei boa mulher

 

Meu Senhor meu Deus Menino

Meu cordão de ouro grosso

Quem me dera uma volta

Pra botar em meu pescoço

 

Deus Menino já rompeu

O solado do sapato

De andar para o convento

Visitar mulher de parto

 

Deus menino já foi santo

Hoje em dia é marinheiro

Quero viajar com ele

Lá pro Rio de Janeiro

 

Meu Senhor meu Deus Menino

Essas pastoras são suas

As que não bailar direito

Bote com elas na rua

 

A Profa. Célia trabalhou com leitura e compreensão de textos sobre a festa, aplicou exercícios e redação.

 

(Exercício de casa de Língua Portuguesa com a letra de uma das estudantes com perguntas e respostas sobre a Queimada da Palhinha)

 

Tivemos a parceria também da Profa. Ivone, da disciplina História, que de maneira silenciosa divulgou este trabalho fazendo 8 cópias do DVD do Mapeamento Cultural da FTM, exibido para os professores da Escola Maria Amélia, e distribuiu com colegas professores do município dizendo assim:

- De Simões Filho para Simões Filho.

Fez uma capa bonita para o DVD com fotos de alunos e exibiu o filme na Escola Maria Quitéria e nos bairros de Cristo Rei e Coroa da Lagoa.

 

O que mudou?

 

Chegou um momento do trabalho que a gente se perguntou: Afinal o que a gente quer mudar com a Ação Griô na Escola Maria Amélia? E foi maravilhoso descobrir que não queríamos mudar nada… Ufa! Que alívio! O único propósito pulsante era entrar na escola em cortejo cantando, dançando, vivendo a cultura local.

 

São muitas as coisas difíceis que encontramos no caminho, a escola tem condições físicas precárias, o muro da frente chegou a cair, as salas não tem portas, não podíamos sentar no chão, pois é grande a sujeira e uma funcionária só não dava conta de tudo, é alto índice de agressividade entre os estudantes… Mas o cortejo dos Griôs da Queimada da Palhinha ignorou os impedimentos e abriu a dimensão da festa, da arte, da brincadeira que educa dentro da sala de aula. As transformações que vieram deste trabalho aconteceram por elas mesmas, espontaneamente, algumas ainda invisíveis que só darão frutos mais tarde.

 

(Foto do Cortejo entrando na Escola)

 

A sistematização de toda esta experiência iniciou-se durante o processo, sendo feitos registros em foto, vídeo e arquivados todos os materiais produzidos. A infra-estrutura administrativa da FTM é disponibilizada normalmente para as necessidades da Ação Griô.

 

Um pouco sobre a Griô Aprendiz

 

As vivências em sala de aula, os cortejos, os momentos rituais, os encontros em Lençóis e em Belo Horizonte, a inclusão da ancestralidade na escola, reafirmam de maneira ardente o propósito de vida e o universo subjetivo, mítico e ancestral já acessado pela Griô Aprendiz na sua caminhada de vida. 

 

Wayra reside a doze anos na comunidade xamânica da Fundação Terra Mirim, vivenciando e participando de diferentes rituais com os quatro elementos da natureza, a Terra, a Água, o Fogo e o Ar, de iniciações em fogueiras, matas, grutas e montanhas com a Xamã Alba Maria, de Viagens Iniciáticas por caminhos sagrados do Planeta – Caminho Sagrado de Macchu Picchu no Peru, Caminho de Santiago de Compostela na Espanha, Caminho dos Ashrans na Índia, Caminho dos Himalaias no Nepal, Caminho de São Francisco de Assis na Itália, Caminho da Floresta entre a Alemanha, a Bélgica e a Holanda.

 

Na sua trajetória artística tem experiências no teatro como atriz e roteirista, como escritora e poeta já publicou dois livros – Um Conto de Bruxa e a coletânea Mãos Femininas Tecendo a Letra em conjunto com mais 3 poetas da FTM, na sua herança traz o amor pela música e pela dança.

 

Todo este capital simbólico facilita o contato com o encantamento, o que se reflete na construção da sua caminhada.

 

Os conteúdos trabalhados na Ação Griô fazem parte também da pesquisa que Wayra está realizando na Universidade Federal da Bahia como mestranda do Programa Multidisciplinar em Cultura e Sociedade sob a orientação do Prof. Dr. Milton Araújo Moura. Sob o título “A Queimada da Palhinha do Vale do Rio Itamboatá – A permanência de uma prática do Catolicismo Popular Rural na Região Metropolitana de Salvador” a pesquisa busca responder a seguinte pergunta: Qual a relação entre uma prática do catolicismo popular rural e o mundo consideravelmente capitalizado e urbanizado em que se situam, hoje, seus cultivadores? Na sua dissertação Wayra vai refletir sobre a Ação Griô Nacional do Programa Cultura Viva/MinC como uma  política pública que colabora para a permanência e a valorização do saber popular e o respeito à cultura tradicional e oral do Brasil. Wayra Silveira acredita que…

 

…fazer parte da Ação Griô e ao mesmo desenvolver uma pesquisa na Universidade sobre temas como cultura popular, mito e festa, juntar o trabalho intelectual com o vivencial, é como conectar metades separadas, é um grande presente para mim.

                                                          

Quando perguntada sobre o que mais lhe tocou em todo este trabalho, a Griô Aprendiz responde rapidamente:

 

O que me encanta é a poética da Queimada da Palhinha, os versos e as cantigas me emocionam muito…

 

Uma de suas cantigas preferidas é a Reza, cantada pelas pastorinhas de joelhos em louvor a Nossa Senhora:

 

Encontrei com a Senhora

Encontrei com a Senhora

Na beira do rio

 

Lavando os paninho

Lavando os paninho

Do seu bento filho

 

Maria lavava

Maria lavava

José estendia

 

Chorava o menino

Corava o menino

Do frio que tinha

(eu não sei que fazia)

 

A Griô Aprendiz já realizou inúmeros trabalhos na Fundação Terra Mirim em diversas frentes da instituição. Fez parte durante oito anos da superintendência como Gerente de Arte e Cultura. Neste período coordenou eventos, projetos sociais e pesquisas que estavam sempre relacionados com os saberes tradicionais da região. Sobre o vínculo com os anciões Wayra diz:

 

Conheço o grupo da Queimada da Palhinha há 5 anos. Fiz entrevistas em história oral com eles para a pesquisa Mapeamento Cultural, trabalhei com todo o grupo por 2 anos consecutivos facilitando o contato dos anciãos com um grupo de adolescentes. Durante estes trabalhos me iniciei nos saberes orais da Queimada da Palhinha.

 

Depois dos encontros da Ação Griô em Lençóis e em BH, Wayra conheceu os trabalhos de outros Griôs Aprendizes e o contato com esta gente bonita, feliz, aberta, deu um contexto para o seu trabalho. Nos contatos com Márcio, Líllian, Cláudia e Vanda, a Griô Aprendiz percebeu que o convite da Ação Griô Nacional é a vivência da ancestralidade, da transcendência em sala de aula, a inclusão do sagrado (não o religioso) no currículo:

A sala de aula como um espaço também de vivência da transcendência de cada um. Uau!!! Eu vibro muito com isso, eu acredito nisso, não sei se eu sei fazer isso, mas a gente vai fazendo até saber.

Wayra refletiu se o Griô Aprendiz veste um personagem:

Eu sinto que cada pessoa é uma multidão, temos muitas faces, e minha face Griô Aprendiz sou eu sim, uma eu que amo muito, o eu mais alegre que sou.

A Caixinha

 

A bolsa trabalho veio em boa hora, Dona Sartíria precisava mesmo consertar o telhado da casa que estava caindo e comprar uma geladeira, Dona Pina queria há muito tempo construir um barracão maior para a festa.

 

Foram até a Caixa Econômica Federal de Simões Filho para abrir as contas correntes. A Griô Aprendiz e os cinco anciões entraram no banco às 11 h da manhã e saíram às 14:30 h. A fila dos idosos dava voltas no salão, mas, mesmo neste ambiente pouco familiar para eles, os mestres griôs agüentaram firmes.

 

Aconteceram momentos engraçados. A funcionária do banco perguntou:

 

- Dona Crispina, seu estado civil?

- Meu o quê?

- A senhora é casada ou solteira?

Dona Pina baixou a cabeça, um risinho envergonhado de quem foi denunciada:

- Tive 12 filho, mas nunca me casei não senhora…

 

*

 

- Seu Manoel o senhor esqueceu de trazer o recibo da conta de luz, o original.

Silêncio. Um silêncio pensativo.

- O senhor entendeu Seu Manoel? É necessário trazer o original da conta de luz.

Ele então respondeu:

- Eu digo pra senhora, pode acreditar, não deixo de pagar a luz nenhum mês. A primeira coisa que faço é pedir pra minha neta pagar a conta de luz, tá tudo pago. IPTU a mesma coisa, recebi até uma carta de parabéns do IPTU…

 

Foi um encontro da tradição com a modernidade.

 

Os Mestres Griôs decidiram fazer uma caixinha doando um valor todo mês para as necessidades do grupo, roupas, transporte, a Festa da Queimada Palhinha em janeiro de 2008, etc. Além disso, os anciões partilharam o dinheiro da bolsa de trabalho com outros participantes do grupo, os mais novos. Decidiram abrir uma conta poupança em nome de Seu Joaquim e Dona Pina para guardar o dinheiro.

 

Esta prática de partilhar o que se tem com o grupo do qual se faz parte pode ser encontrada na história de solidariedade dos grupos negros escravizados, que coletivamente conseguiam comprar as alforrias dos seus irmãos ainda cativos. Parece que esta ética permanece viva.

 

Esta caixinha rendeu importantes frutos: partilha financeira com os integrantes do grupo; confecção de roupas novas, bonitas e coloridas para todos os artistas-devotos; auxílio para a preparação da Festa da Queimada da Palhinha de 05 de janeiro de 2008; contribuição para a construção do novo barracão no quintal de Dona Pina.

Com a Ação Griô o governo do Brasil reconhece o valor dos antigos e oferece recursos públicos para que eles partilhem o que sabem, o que são. O recurso da bolsa trabalho colaborou de diversas maneiras neste encontro entre a tradição e a modernidade. Lá para o mês de agosto Dona Pina falou para Wayra:

 

- Uara, você não sabe…

- O que Dona Pina, me conte.

Ela então abriu um largo sorriso:

- Comprei um DDD!!!

- Um o quê?

- Um DDD!

 

Só algum tempo depois a Griô Aprendiz entendeu o que Dona Pina havia comprado, não apenas para a sua família, mas para o deleite de toda a vizinhança. O grupo então passou a assistir diversos filmes na sala de Dona Pina com a presença de toda a meninada da rua.

 

Os saberes Xamânicos de Terra Mirim

 

(ainda vou escrever…)

 

E outro ponto importante é que a Xamã Alba Maria fará parte da Ação Griô também como Griô de saber oral. Nós já trabalhávamos com os saberes de tradição oral Xamã de Alba. Nós estávamos gravando muita conversas com ela, nós temos muito material gravado, cheguei a escrever um projeto para avançar com este material, e tem gente cuidando deste acervo, eram duas coisas. Dai a gente viu que pode trabalhar conjuntamente com estes saberes, vamos incluir este trabalho na Ação Griô. Os saberes Xamânicos que são fortes em Terra Mirim, vamos juntar com os saberes da Queimada da Palhinha.

 

Um pouco da História de Simões Filho

 

Fundação Terra Mirim

Ação Griô Nacional – Ministério da Cultura

Disciplina: História

 

Um pouco da História do Vale do Itamboatá

 

Há muitos anos o Vale do Rio Itamboatá era uma grande floresta chamada Mata Atlântica, habitada pelos índios Tupinambá que viviam na natureza. Os Tupinambá eram um povo guerreiro, bons caçadores e pescadores, e também plantavam mandioca e com ela faziam beiju, farinha e puba. Da natureza eles tiravam tudo o que precisavam para viver.

No ano de 1500 começaram a chegar outros povos, e novas pessoas vieram morar aqui na região: os brancos, de Portugal e outros países, e os negros da África. Os brancos eram os donos das terras e os negros foram escravizados e trabalhavam em várias coisas: na plantação de cana-de-açúcar, de laranjas, na criação de gado, e em outros serviços.

No tempo que o Brasil era dependente de Portugal, o lugar que hoje chamamos Simões Filho, se chamava Cotegipe, depois Água Comprida, e era uma região rica que produzia açúcar para vender em outros países. Hoje em dia é uma cidade pequena, com um povo carente de coisas importantes.     

Seu Manoel, um dos moradores mais antigos da região conta que o Vale do Rio Itamboatá, as terras que vão da Convel até Pitanga de Palmares, mais ou menos a partir dos anos de 1800, eram três fazendas de um único dono: o Coronel Cazuza Teixeira.  Nas terras onde hoje está a Eternit, a Fundação Terra Mirim e a Cerâmica Três Rios, estava a Fazenda Itamboatá. As terras do meio, onde hoje tem Palmares, chamava Fazenda Coqueiro. E a parte que vai até a barragem de Pitanga, chamava Fazenda Pitanga. A família Teixeira tinha léguas e léguas de terras que iam até Candeias por isso lá tem um local com o nome Passagem dos Teixeiras.

Eram fazendas de gado, os trabalhadores derrubavam a mata para pegar madeira e faziam carvão. O Coronel Cazuza mandava os burros para as bocas das covas e carregava os sacos de carvão e conduzia até a rodagem Feira de Santana/Salvador, e ia vender na capital. As fazendas tinham administrador, tinham vaqueiro, carro de boi… A família Teixeira tinha uma riqueza grande.

Depois que o Coronel Cazuza morreu, por volta de 1950, os filhos venderam parte das terras. A Fazenda Itamboatá foi vendida para a Empresa Circular de bondes de Salvador que queria plantar eucaliptos para os postes de madeira. A fazenda Coqueiro foi vendida e loteada e então nasceu a Chácara Palmares, que nós chamamos hoje simplesmente Palmares. A Fazenda Pitanga anos depois foi também vendida e loteada, formando então Pitanga de Palmares

Os antigos funcionários das fazendas eram quase todos negros. Só conheciam o trabalho de fazer carvão, tocar gado, plantar roça, criar animais. Depois que as fazendas foram vendidas eles, ou foram embora, ou tiveram que comprar os seus lotes e construir suas casas de madeira e piaçava como fez a família de Seu Manoel.

No ano de 1960 construíram em Simões Filho o CIA (Centro Industrial de Aratu) que ajudou a mudar muito esta região. Mais esta é uma outra história…

 

Sugestão de Atividades:

. Exposição Participativa sobre o tema (tópicos no quadro)

. Leitura em grupo do texto

. Elaboração em de 5 perguntas sobre o texto

. Jogo de pergunta entre os grupos

 

Antes de 1961 distrito de Salvador com o nome de Água Comprida, Simões Filho hoje é um grande município que vai da beira do mar na Baía de Aratu, possui um enorme parque industrial CIA (Centro Industrial de Aratu), chegando até os limites do Pólo Petroquímico de Camaçari.

 

Devastação de suas matas para construção de Engenhos. Ontem Simões Filho (Água Comprida) foi rica, fausta, produtora de açúcar para exportação. Hoje é um lugarejo rurícola, pobre, igual ao povo que habita suas terras, nascidas de uma usina.

 

Trabalhadores rurais prestavam serviços na fazenda de Dr. Cícero Simões, local hoje conhecido como Km 30, em virtude de ali ficar a placa indicativa do quilômetro trinta da Estrada de Ferro Salvador/Alagoinhas, e onde originalmente se formou o primeiro núcleo de casas da região. Existia também a rodovia Salvador/Feira de Santana. Hoje o trem continua rodando, apitando com suas locomotivas a diesel

Tá na rua, através de Alexandre Santini

Ponto de Cultura Tá Na Rua

Griô aprendiz: Alexandre Santini

 

Com vocês, o grupo Tá Na Rua

Teatro, Alegria, Animação

São séculos, milênios de Teatro

Ao alcance do seu coração…

( trecho da Canção de abertura do grupo Tá Na Rua / 1981)

     

Minha atuação enquanto griô aprendiz do projeto político pedagógico do ponto de cultura Tá Na Rua em parceria com o Colégio Pedro II se vincula diretamente à minha história e projeto de vida na medida que integra e articula dimensões significantes e fundamentais de minha identidade, ancestralidade, formação e visão de mundo.

 

Nós levamos nas mãos

O futuro de uma grande e brilhante nação

Nosso passo constante e seguro

Rasga estradas de luz na amplidão

(…)

Estudaram aqui

Brasileiros de enorme valor

Teus exemplos, seguis, companheiros!

Não deixemos o antigo esplendor!

 (…)

Vivemos para o estudo

Soldados da ciência

O livro é nosso escudo

E arma, a inteligência…

 (trechos do Hino do Colégio Pedro II)

 

Sou ex-aluno do Colégio Pedro II, unidade Centro, onde desenvolvemos o projeto durante o ano de 2007. Nesta escola construí parte importante de minha formação, cidadania e inserção social e política na sociedade. Fui representante de turma, presidente do grêmio, participei do grupo de teatro amador da escola. Primeiros amores, prazeres, tristezas, vícios saudáveis (sinuca, cerveja, jogo de sueca), grandes mestres e amigos para toda a vida.

 

Ingressei no grupo Tá Na Rua em 2001, e desde então assumi como minha a missão desta instituição. Ao longo desses anos atuei e atuo como ator, dramaturgo, dirigente institucional e na elaboração e coordenação de diversos projetos, dentre os quais o Ponto de Cultura e o Memória Tá Na Rua.

 

“Ser artista é uma possibilidade que todo mundo tem, independente de ofício, carreira ou arte. Todo mundo pode viver a sua expressão sem estar preso a uma papel. Não se trata de todos os artistas serem operários, mas de todos os operários serem artistas. Das pessoas terem relações férteis, criativas e de transformação com o mundo, a realidade, a natureza, a sociedade. O homem não está condenado a ser destruidor, consumista, egoísta, como a sociedade nos leva a crer.”

(Manifesto do Grupo Ta Na Rua, 1981)

 

Um dia pobre, um dia rico, um dia no poder,

Um dia chanceler, um dia sem comer

Eu sou do Tá Na Rua

Eu tô legal

No palácio Guanabara ou em Vigário Geral

 

- É Roubada?? (É!)

 - É de graça?? (É!)

O Tá Na Rua tá na praça!

(Rap do Tá Na Rua, 1993)

 

 

O projeto da Ação, que firmou uma parceria entre essas duas instituições, me possibilitou fazer a ligação entre essas dimensões que formam a minha identidade, portanto muito mais que um trabalho, a Ação Griô se insere no meu projeto e história de vida. Devido a este histórico de vínculos e identificação pessoal tanto com o ponto como com a escola, o meu lugar enquanto griô aprendiz e articulador entre os saberes de tradição oral relacionados no projeto e o espaço escolar foi bastante natural e positivo

 

Os griôs e o mestre do projeto são pessoas cuja história de vida está diretamente ligada ao teatro popular e ao trabalho do grupo Tá Na Rua, que constrói sua linguagem e dramaturgia a partir de fontes da cultura oral. Meu vínculo afetivo e de trabalho com eles se consolidou em oficinas, ensaios, apresentações de espetáculos, viagens pelo Brasil e exterior e reuniões diversas, atividades próprias da dinâmica de um grupo de atuação e pesquisa teatral, que levam a uma convivência quase diária e bastante intensa.

 

“Os amigos já me chamavam de griô há muito tempo, talvez por ser filho do Abdias do Nascimento, uma figura mitológica para o movimento negro no Brasil e no mundo. Eu já era um griô músico na boemia da Lapa, fui “presidente de la movida madrileña” na Espanha dos anos 80. Mas agora eu sou um Griô oficial, do Tá Na Rua e do Brasil, com carimbo do Ministério da Cultura”

(Abdias do Nascimento Filho ( Bida ), Griô de tradição oral/ Ponto de Cultura Tá Na Rua- RJ)

 

Minha ligação mais recente com o Colégio Pedro II começou através do convite de uma aluna, Renata Sampaio (hoje estudante de artes cênicas na UNIRIO, onde me formei), que conheceu o meu trabalho no Ta Na Rua, soube que eu era ex-aluno e me convidou para orientar as oficinas de teatro que ela desenvolvia voluntariamente na escola, com o apoio da equipe docente do depto de sociologia. No final de 2006, com  lançamento do edital da Ação Griô, propus aos alunos e a prof. Silzane, que desenvolvêssemos um projeto conjunto. A proposta foi aceita e posteriormente a educadora Jane Aguiar se ligou ao projeto e foi a professora que se vinculou efetiva e afetivamente nesta parceria, como parte de seu projeto de vida, sonhos e aspirações profissionais.

 

Quando eu falei com a Lillian sobre observação participante, um conceito clássico da antropologia, ela me falou de encantamento. No Encontro Regional da Ação Grio eu entendi o encantamento, que tem a ver com a vivência, com a pedagogia, com a nossa história de vida, criando novos elos e dando novos significados ao que a gente fazia. Eu trabalho em outra unidade e não poderia invadir o espaço de outro professor, mas a aproximação com a pedagogia griô me transformou, não só ler mas vivenciar, virou estratégia de sobrevivência.

(Jane Aguiar, educadora do depto. de sociologia do Colégio Pedro II/ Unidade São Cristóvão –RJ)

 

E foi assim que me tornei um vetor dos desejos, aspirações, propostas, linguagens, projetos e histórias de vida que se reuniram no projeto da Ação Griô nesta parceria Pedro II / Ta Na Rua.   

 

Nossa proposta de trabalho na Ação Griô foi desafiadora no sentido de pensar a questão das redes de transmissão oral no espaço urbano, e de compreender a linguagem teatral do Ta Na Rua como uma pedagogia baseada em um meio de cultura oral por excelência: o teatro popular, que é praticado há milênios nas ruas e nas praças das cidades. Procurei incorporar essa dimensão da teatralidade na construção do meu lugar de griô aprendiz: na roupa, nas máscaras, na postura, nos gestos, na palavra.

 

Minha roupa de griô já vinha se construindo ao longo dos espetáculos do Ta Na Rua. Nas apresentações do grupo os atores sempre entram em cena com uma roupa-base Eu  uso sempre uma calça colorida, tênis all-star, colete, uma casaca que achei do acervo do grupo, que pra mim tem mais de 500 anos, é uma roupa ancestral que vem de geração em geração há mais de 500 anos, uma roupa de arlequim da comédia dell’arte. Cartola de mágico enfeitada com uma máscara dos carnavais de Veneza. A essa base eu fui acrescentando elementos e acessórios necessários  encontrados e recolhidos ao longo da caminhada: Instrumentos musicais. ( zabumba nordestina, agogô de cabaça e 06 gaitas de blues), bolsa a tiracolo, bonequinho do invenção brasileira, broche  da Escola Roberto Silveira, de Caxias, que troquei com uma estudante pela gaita, elementos das culturas indígenas Xavante e Tapajoara, que recolhi em Mato Grosso e Alter do Chão (PA).   

 

Trabalhar com griôs cuja linguagem de tradição oral é essencialmente o teatro contribui muito nessa construção e nesse aprendizado. Essa linguagem teatral, em diálogo com a inspiração da pedagogia griô e da caminhada do Velho Griô em Lençóis, definiu métodos e procedimentos de caminhada:

 

Lá, nos Sertões da África

 

Entre aldeias distantes

 

Caminham mulheres e homens

 

Aprendendo e ensinando as histórias de seu povo

 

São os Griôs!

 

E quando os griôs chegam nas aldeias

 

As crianças, os pais, as mães e as avós se sentam na roda.

 

Está aberto o ritual do contador de histórias!

(Apresentação do Velho Griô, incorporada ao roteiro das caminhadas da regional RJ)

 

A essa tarefa, já bastante desafiadora, de construir esta parceria entre o Tá Na Rua e o Pedro II, se somou o convite para assumir o lugar de griô aprendiz regional, articulador dos 8 pontos de cultura vinculados à Ação Griô no Rio de Janeiro. Ocupar este “duplo papel”, de griô aprendiz do ponto e da regional enriqueceu muito minha experiência e conhecimento vivencial sobre a cultura do Rio de Janeiro, estabelecendo pontes e conexões, vislumbrando uma rede de transmissão oral que se constrói nos trilhos urbanos e mistura samba, jongo, capoeira, trem, teatro, asfalto, favela, fazenda, compondo o mosaico cultural carioca e fluminense. Por outro lado, as diversas demandas e atividades da caminhada regional, somadas às minhas múltiplas atividades e interesses, impediram uma presença mais constante e regular no Pedro II.

 

Recuperar a fala da TEIA

 

Ainda assim, considero que na minha atuação como griô aprendiz compreendi, incorporei e vivenciei a missão da Ação Griô, com desdobramentos concretos e definitivos nos rumos da minha vida. Eu posso me considerar um excelente indicador de resultados da Ação Griô, uma vez que o reconhecimento deste meu lugar como griô aprendiz, dialogando com a pedagogia Griô, reconhecendo as especificidades e particularidades do meu lugar de artista, de militante do movimento social, engajado nesta movimentação dos pontos de cultura pelo Brasil, todas essas facetas se encontraram em minha caminhada da Ação Griô

 

Na primeira conversa com a equipe de griôs antes da caminhada na escola, eles colocaram uma resistência, dizendo que eles eram artistas do Tá na Rua, e não Griôs. Eu falei que eles eram Griôs exatamente por isso,  pelos que eles são, e que a Ação existia como espaço para afirmar este lugar, eles não teriam que ser outra coisas para serem griôs.

(relato na caminhada da Colheita 2008 )

 

É importante ressaltar o impacto positivo na implementação da Ação Griô no ponto de cultura Ta Na Rua, um resultado que a princípio não estava previsto no projeto e superou nossas expectativas. Os griôs do Ta Na Rua viram o seu lugar no ponto reconhecido e ressignificado a partir da ação Griô, passaram a ser reconhecidos e chamados de “griôs”, pelos atores do grupo e pelos alunos das oficinas do ponto de cultura, foram valorizados enquanto grupo nos encontros da Ação com os outros pontos da regional. Isso contribuiu para a valorização, auto-estima e empoderamento pessoal e social desses artistas. As atividades internas do ponto de cultura também foram influenciadas pela Ação Griô, Lillian Pacheco realizou 2 atividades no ponto de cultura (vivência da pedagogia griô e oficina de biodança), diversos alunos do ponto de cultura participaram das caminhadas no Pedro II e nos pontos da regional. O livro da pedagogia Griô e o filme Sou Negro foram objeto de estudo e debate nas oficinas do ponto.  Eu, como griô aprendiz e também dinamizador das oficinas teatrais no ponto, trouxe diversos conteúdos aprendidos na Ação para as oficinas: cantigas aprendidas nas caminhadas e encontros regionais, metodologias como os círculos de cultura, histórias de tradição oral e relatos das experiências de caminhadas nas escolas, como a ida com o repentista Zé Pedreira numa sala de aula em Lençóis (BA), ou a lenda do boto contada e cantada pelos estudantes de Alter do Chão (PA).

 

Eu sou educador e artista, fui animador cultural no primeiro governo do Brizola, trabalhei com Augusto Boal, Darcy Ribeiro, Amir Haddad. Me convenci que a escola estava falida, não tinha mais jeito, tinha que acabar e fazer outra! Mas começo a perceber que a Ação Griô pode ser uma possibilidade interessante de diálogo entre cultura e educação…

(Licko Turle, coordenador do ponto de cultura Tá Na Rua, Vivência da pedagogia Griô, MINC/ RJ, 2006)

 

Em relação à escola, a principal conquista foi a identificação pessoal, afetiva e profissional da educadora parceira, Jane Aguiar, com a missão e os objetivos da Ação. Jane se encantou e se vinculou com a Ação, foi parceira e cúmplice nas atividades na escola, participou do encontro regional da ação, do encontro de pontos de cultura RJ/ES e das atividades da Ação Griô na TEIA, em Belo Horizonte – MG. Jane ressignificou sua atuação como educadora em sala de aula, articulou  a metodologia da Ação com os conteúdos da disciplina de sociologia, mobilizou educadores de seu departamento. Hoje divulga e implementa a Ação Griô nos seus espaços de atuação profissionais e acadêmicos.

 

O Pedro II é muito tradicional, no bom e no mau sentido da palavra, com diversas disputas políticas, a questão é como conseguirmos ocupar estes espaços. Nesta história toda o que fica é o que já está marcado em mim, e não tem mais jeito. Acabei usando as vivências pensando a ocupação do morro do alemão e produzimos uma vinheta de animação, e naquele momento estava rolando a discussão do cristo redentor como a  8ª maravilha do mundo, então  você traz este nexo , e com a  pedagogia Griô você pensa isso sentado no chão, com música, trabalhando em grupo. A caminhada gerou uma parceria vinda de baixo, e daí eu entendi a estratégia da pedagogia griô, não vem por cima, das estruturas hierárquicas, são parcerias de vínculo e de identificação, isso para o tipo de política pública que estamos propondo é essencial. Tivemos uma reunião com os educadores, uma capacitação solicitada por eles a partir da caminhada. O Pedro II é hoje a base de uma disputa ideológica.

 

Com linha temática e os conteúdos trabalhados na caminhada na escola procuramos trabalhar a identidade histórica do Colégio Pedro II (instituição federal, que completou 170 anos em 2007) com o território onde sua sede está localizada. Até a inserção do projeto pedagógico da Ação Griô, o Colégio Pedro II não realizava nenhum trabalho relacionado aos saberes e fazeres da cultura oral de sua comunidade, apesar de se localizar em uma região da cidade (o Bairro de Santo Cristo, conhecido no séc. XIX como “África Pequena”, a Pedra do Sal, a estação Central do Brasil, a Praça Onze, onde era a casa de Tia Ciata, etc.), a região portuária da praça Mauá, espaços com grande importância na história da cultura negra no Rio de Janeiro e no Brasil. A escola, considerada modelo na educação pública do país, chegou a responder uma interpelação do Ministério Público Federal por  não ter aplicado, de forma sistemática e consistente, a Lei 10.639 em seus parâmetros e estruturas curriculares.

 

Fui na Bahia, e vim aqui para lhes contar

A história de um brasileiro

Seu nome é Dom Obá

Obá de Rei, Dom de Guerreiro

Nasceu junto com Lençóis

Na guerra do paraguai foi feroz

Morreu na favela do Rio de Janeiro

(adaptação do cordel de Dom Oba, de Lillian Pacheco e Márcio Caíres, na caminhada do Tá Na Rua no Colégio Pedro II, 2007.)

 

Apresentamos o cordel de Dom Obá em um formato de narrativa dramática, eu falando e os atores apresentando imagens daquelas cenas. A entrada de Dom Obá, Bida entrou com um chapéu comprido de palha, tinha tudo a ver o Bida fazer o Dom Obá, por essa coisa dele ser filho do Abdias Nascimento, a figura dele ficou forte. Depois os três griôs entraram fazendo os Reis Magos, e depois Marcelo Bragança e Bida improvisaram um encontro entre Dom Oba e o Imperador Pedro II, um número engraçadíssimo aplaudido em cena aberta.

(Relato da Caminhada)

 

A assessora pedagógica e o griô aprendiz foram convidados a participar da Reunião de Colegiado do Departamento de Sociologia, visando sensibilizar um grupo de 25 educadores e promover a capacitação na pedagogia Griô. O objetivo principal seria oferecer recursos para a reformulação curricular já iniciada no ano de 2007. As mudanças que estão sendo formuladas no Projeto Político Pedagógico do CPII consistem em pensar novos diálogos entre os conceitos sociológicos que integram o conteúdo programático em conexão com diferentes abordagens metodológicas.

Sonhei que estava acordado! – Projeto Presente

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Sonhei que estava acordado!

Eu tive um sonho: certo dia, eu estava em um programa discutindo educaçâo para o futuro do Brasil e o meu personagem, naquele momento, chamava-se “Zéfidelisperericopererecamichiricadaroseirapontequarabeiraalta”.
O “Zé” chegava com seu palitó de terno bem passado e limpo, e seu traje era muito colorido e divertido. Quando ele adrentava nas escolas para promover sua educaçâo, não havia um olhinho de criança que nâo se encantava com o “Zé”; e ele, com o seu vozeirão estupendo, cantarolava canções para admirar todos.
Os meninos, por sua vez, queriam conferir se o “Zé” era gente ou brinquedo de levar para casa e perguntavam para ele: – Qual o seu nome, você é gente?
E o Zé bem humorado dizia: - Fiquem caladinhos que vou falar o meu nome para todos guardarem, vou dizer bem devagarzinho…
E o personagem, naquele momento, disparava sua metralhadora de letras dizendo seu nome muito rápido, e não tinha uma criança que não sorria, tentando repetir sem entender a palavra, que era o nome do
“Zé fidelisperericopererecamichiricadaroseiraponteguarabeiraalta”.
Zé fidelis, no entanto, prosseguia repetindo e sorrindo o seu nome…
e, em um instante, o nosso Zé disse aos meninos: – Agora vou falar meu nome bem rápido para todos guardarem…
O Zé dizia lentamente seu nome (tudo era explicadinho tim, tim, por tim, tim). Sempre após a abertura do programa, todos os meninos encontrava-se querendo abraçar o Zé, e a conquista de alunos e professores era geral, tudo tornava-se muito fácil de se conduzir…Zé levava os alunos para o pátio da escola e perguntava para os meninos se eles escutavam história de seus pais ou avós… e, sempre, principalmente as meninas, contavam fatos belos de seus antepassados e o Zé teria que manter firme com o personagem - era muita emoção ver aquelas figurinhas animadinhas estudando com atenção o que ele falava, e quando alguma criança perguntava algo para o Zé e o menino dizia seu nome por completo, era hilário. Lembro-me hoje acordado, as cantigas que troquei com os meninos – eram músicas do nosso Mestre Juquinha aqui da Serra do Cipó; as canções todos decoravam em um instante…
Lembro ainda que várias vezes o Zéfidelis, encantou as crianças dançando e cantando o “Batuque” do seu Juquinha, as professoras todas dançavam também;
a roda do batuque estava ficando enorme… e os meninos pediam para o “Zéfidelis” cantar a música do
peixinho que subia a cachueira, que é assim “hó”!

“Lambari tá pelejando prasubir na cachueira
pra subir na cachueira
Eu também tô pelejando pra rumá moça solteira
prarumá moça solteira…”

E o Zéfideliz, após horas de encantamento, dançando batuque com as crianças já conquistadas por ele, convidava todos para uma nova roda do saber. E, no momento da despedida, como é de costume em nossa região, todos meditavam, de mãos dadas, agradecendo a Deus por mais um encontro bom, repleto de entendimento para com o próximo…
Sempre encerrava-se com muita emoção, e abraços apertados era comum de se ver em nossa roda.
Zé abraçava um por um e ía desfazendo-se, devagarzinho, de seu traje de Griô Aprendiz. Ali mesmo, em frente às crianças, ele entrava em sua nave de ilusão, sonhando com um Brasil mais digno, sem corrupção e repleto de O.N.G´s e projetos sociais -  um Brasil que, agora, implementa a Ação Griô, que é para o Zé, o futuro da educação em nossa nação!
Um vento soprara neste instante a cortina do quarto… ouvi ainda um Bem – te -vi cantando e anunciando que o novo dia começara - era o começo da primavera!
Fui até o computador responder os questionários propostos por Lilíam e Márcio, dois amigos super, super!