Fundação Terra Mirim - FTM
A Fundação Terra Mirim (FTM) trabalha com a Queimada da Palhinha desde 2003, como parceira desta festa tradicional popular centenária da Região Metropolitana de Salvador. É uma parceria que dá bonitos frutos, uma relação de vizinhança e confiança já enraizada.
Iniciamos o contato com o grupo de anciões que guardam a memória desta festa, Dona Pina, Dona Sartíria, Seu Manoel, Seu Nilo e Seu Joaquim, através de uma pesquisa em história oral dentro do Projeto Águas Puras I, realizado pela FTM em 2002 com o apoio do Ministério do Meio Ambiente – FNMA, registramos depoimentos e fotografamos a festa na sua data original, em janeiro depois da Festa de Reis.
(Foto da Festa da Queimada da Palhinha em 2003)
Mapeamento Cultural
A gente queria muito conhecer os saberes, as expressões, os lugares que guardavam a memória do município de Simões Filho, e a pesquisa já iniciada desdobrou-se então em um projeto maior, o Mapeamento Cultural de Simões Filho.
O Mapeamento Cultural foi uma pesquisa realizada voluntariamente por profissionais da FTM entre 2003 e 2006: Sônia Maria Gomes, psicóloga (participou no primeiro ano); Maria Izabel, percussionista, fotógrafa e cinegrafista; Wayra Silveira, historiadora, pesquisadora em cultura e poeta. O trabalho contou durante algum tempo com o apoio da Prefeitura Municipal no transporte e alguns materiais de registro.
Conseguimos visitar as seguintes comunidades:
Palmares, Dandá, Pitanga de Palmares, Convel, Jardim Renatão, Dame, Mapele, Ilha de São João, Ponto Parada, Coroa da Lagoa, além da sede do município.
Registramos as seguintes manifestações culturais:
. Queimada da Palhinha – Palmares
. Fonte Nossa Senhora da Guia – antiga Cerâmica Três Rios
. Festa de São Gonçalo – Pitanga de Palmares
. Parteiras – Pitanga de Palmares
. Ervateiras – Pitanga de Palmares
. Festa dos Pescadores – Mapele
. Saturnino Repentista – Mapele
. Festa de Oxum – Terreiro Ilê Axé Ominigê
. Festa de São Miguel – Padroeiro de Simões Filho – Sede do Município
. Festa de Santa Luzia – Pitanguinha
(Fotos de Saturnino Repentista com a legenda:
“Seu Saturnino não tinha viola porque o filho vendeu sua viola para comprar uma bicicleta”.)
(Fotos da Festa de Oxum e Foto da Festa de São Gonçalo)
No total foram realizadas 31 entrevistas, registradas 400 fotografias e cerca de 20 horas de registro em vídeo.
Depoimento de Seu Manoel Lopes em maio de 2004:
A gente tinha casa lá, o velho meu pai tinha casa lá na fazenda [Coqueiro] e tinha dos morador tudo… O meu pai era homem de confiança do Coronel Cazuza., ah! era. O pai do meu pai já trabalhava com a família de Cazuza, é. Ele parece que alcançou a época da escravidão… O meu avô parece que era escravo dessa família, já. Com certeza era escravo dessa família, (…) aí construiu meu pai dentro dessa família, quando meu pai teve entendimento que gerou a gente, a gente já nasceu dentro dessa fazenda (…). Ele pegou, ainda pegou uma ponta da escravidão, meu avô… quando meu avô não pegou, meu bisavô pegou, meu bisavô pegou a ponta da escravidão…
Entre os diversos os saberes que conseguimos registrar no Mapeamento Cultural, o Baile Pastoril Queimada da Palhinha, prática religiosa popular em louvor ao Senhor Deus Menino foi do qual mais nos aproximamos. No povoado de Palmares no Vale do Rio Itamboatá a família Lopes (Seu Manoel, Dona Pina, Seu Nilo) é uma das mais antigas, eles são a memória viva da região e o núcleo mesmo da tradição Queimada da Palhinha.
Percebemos um processo de desvitalização na festa, as mais velhas já cansadas, desmotivadas diante de tantos elementos modernos que transformaram a ética de reciprocidade e solidariedade desta comunidade centenária, as roupas dos artistas-devotos já bastante descaracterizadas, mas a queima da palha continou acontecendo todo mês de janeiro todos os anos no barracão enfeitado no quintal de Dona Pina.
Trecho de Depoimentos de Dona Sartíria e Seu Manoel:
Sobre a Queimada da Palhinha, Seu Manoel informou em junho de 2002 que a festa:
… é do pessoal mais velho, aí vai passando de um prá outro (…). Aqui tinha uns devoto, um bocado de devoto da Queimada da Palhinha, um bocado mesmo. Aqui no fundo, (…) morava uma senhora, Dona Antônia que todo ano baiava, já tinha as pastoras tudo certo, aquele dia certo, aquelas roupa tudo de um tipo só, chapéu enfeitado, essa coisa toda, tudo já organizado. Ali em Pitanga, ali onde é a barragem hoje, o senhor que se chamava Aristides era outro devoto, começa no mês de baiar até o fim do dia das queimadas, era tudo organizado (…). Isso é antigo. São antigas essas festas. Agora, quem gosta da brincadeira sempre vem e acha bonito, arma aquele negócio, aquele presépio, dentro da lapinha…
Seu Manoel fala aqui da oralidade como via de transmissão dos elementos da festa, o grau de organização e participação da comunidade e a antigüidade da festa. Segue trecho do depoimento de Dona Sartíria também em junho de 2002:
Essa é uma coisa que vem desde o princípio, como eu lhe falei, né? Desde o princípio (…) eu já conheço essa brincadeira, era uma brincadeira muito bonita, (…) já armei aqui mesmo na minha casa, já armei lapinha, depois de Pina já voltou lá para casa dela. Eu morava em Camaçari, festejava lá na minha casa, com a minha sogra, a minha sogra faleceu, eu tomei a responsabilidade, aí depois abandonei tudo, eu fiquei sozinha, não dava para eu enfrentar sozinha. Abandonei porque não dá, cheguei aqui, aí Pina chegou. Começou a armar, a brincar, umbora, umbora todo ano ela arma e aí a gente vai brincar (…). É uma festa daqui mesmo. Foi criada aqui mesmo entre aqui Coqueiro e Pitanga, (…) mas tudo desse distrito daqui…
Dona Sartíria fala da festa como “brincadeira”, mas também como “responsabilidade”, testemunha a sua antigüidade na região e as dificuldades para continuar com o ritual.
A FTM promoveu a Oficina Queimada da Palhinha entre 2003 e 2004, trabalho que facilitou a transmissão dos conhecimentos tradicionais das mulheres mais antigas desta tradição para um grupo de 12 (doze) adolescentes moradoras da região, muitas delas netas de antigas pastorinhas da festa. Este grupo fez diversas apresentações na região.
(Foto da Oficina Queimada da Palhinha)
(Texto de Eliandra de 2003 falando da importância da Queimada da Palhinha)
Registramos as cantigas, os versos e as danças desta tradição, conhecimentos orais transmitidos de geração em geração. Fizemos uma roupa para as pastorinhas e tocadores, meio sem graça, branquinha e rosinha claro, com apoio da prefeitura municipal, mas já era legal todo mundo de saia rodada. O grupo começou a fazer apresentações nos eventos da FTM e em outros da região.
(Foto de uma apresentação da Queimada da Palhinha na FTM)
Cantiga da Queimada da Palhinha cantada à meia-noite no auge do ritual:
Minha gente fogo, fogo
Em Belém lá na Lapinha
Olha o fogo que nunca se apaga
Da Queimada das Palhinha
Eu pensei que cheguei tarde
Mas agora eu madruguei
Fui a primeira pastora
Que no presépio cheguei…
A Fonte de Nossa Senhora da Guia
Depoimento de Seu Manoel Lopes sobre a Fonte da Guia em janeiro de 2003:
Ave Maria, a água era uma prata. Essa fonte é um minador que não pára mesmo, é um minador forte, medonho. Ainda hoje a Fonte da Guia existe, não acabou não. Chama assim por que diz que apareceu uma santa nessa fonte, que era Nossa Senhora da Guia. Tinha um negócio, um barro embaixo quando lavava a fonte, o pessoal tirava um barro que tava lá e dizia que era a ‘relíque’ (relíquia) e aquilo usava em casa. Demovia assim na água pra quando sentir alguma dor. Eu mesmo acreditava, bebi muitas vezes na Guia, por diversas vezes a velha minha mãe me dava quando eu estava com dor de barriga… Qualquer dorzinha que a gente sentia, dizia: ‘Pega a relíque aí menino… ’.
A Fonte de Nossa Senhora da Guia é um bem cultural e ambiental desta região, inspirador de mitos e lendas que formam o imaginário da população local. Além disso, é uma nascente e, pela Legislação Ambiental do Estado da Bahia, Lei 6.569 e Decreto 6.785, é uma APP – Área de Preservação Permanente. Mesmo assim, a exploração desmedida da argila por pouco não fez desaparecer este importante local, a fonte esta localizada nas terras de propriedade da antiga Cerâmica Três Rios.
(Foto da Fonte da Guia em 2003 – local ainda degradado)
A FTM, através do Ambiental Terra Mirim, gerência da instituição ocupada na preservação e reconstituição do meio ambiente local, vem tomando algumas medidas para preservar a Fonte da Guia. Desde 2003 são realizados mutirões de limpeza e preservação na área da fonte com a participação de crianças e adolescentes, educadores e moradores, momentos educativos que promovem conhecimentos sobre este patrimônio. Na revegetação da área foram plantadas cerca de 300 mudas de plantas nativas da Mata Atlântica e é realizada a manutenção deste plantio através de ações como adubação, irrigação e roçagem da área.
Atualmente o cuidado com a Fonte da Guia é um dos temas centrais do Curso de Direito Ambiental Comunitário promovido pelo Ambiental Terra Mirim e faz parte da Agenda Sócio-Ambiental do Vale do Rio Itamboatá elaborada coletivamente com as associações e lideranças da região. Uma das questões mais palpitantes nas discussões deste curso é a legalização da área da Fonte da Guia como Unidade de Preservação.
(Foto da Fonte da Guia em 2008 – local já preservado)
Uma fonte de água pura, cheia de força mítica, água sagrada que nutria o imaginário do povo do lugar. Dizem que em algumas noites era possível ouvir a voz de uma mulher cantando na beira da fonte. Muitas pessoas só bebiam a água de lá. Hoje o povo não usa mais o barro da ‘relíque’, assim como muitos não usam mais como antes ervas como recursos para a cura e a limpeza do corpo. Porque o povo do Vale não usa mais a ‘relíque’? Aqui vão algumas opiniões sobre isso:
Seu Manoel Lopes:
- Por que o povo de hoje não tem fé e antigamente tinha, a gente antes tinha fé e hoje muitos não conhecem a história da Fonte da Guia. A minha mãe demolvia a ‘relíque’ na água e dava pra gente beber pra dor de barriga passar.
Alba Maria:
-
Wayra:
- Talvez por que estas práticas de cura mais ligadas aos recursos naturais foram se desvitalizando diante da modernização acelerada nos meios rurais. Aquilo que a ciência médica acreditou que era remédio tomou o lugar dos antigos recursos naturais para a cura das doenças do corpo e da alma.
Queimada da Palhinha na Ação Griô
Depois de tentar por alguns caminhos aprovar projetos que ajudassem a manter e a divulgar estes saberes orais, a gente escreveu um projeto para a Ação Griô Nacional. A FTM é Ponto de Cultura desde 2005 e realiza o Projeto Cultura: Direito de Todos, que são oficinas de arte para essa juventude que não sabe bem para onde caminhar, tem oficina de Capoeira, de Percussão e de Dança, com recursos deste projeto transcrevemos as entrevistas da Pesquisa Mapeamento Cultural de Simões Filho. Deste trabalho surgiu a Banda Meninos do Vale que já se apresentou em palcos da região. (colocar as notícias mais recentes…)
Escrevemos o projeto pedagógico para levar os conhecimentos orais da Queimada da Palhinha para turmas do ensino fundamental da Escola Maria Amélia. Trabalharíamos com 1 Mestre, Seu Manoel, 4 Griôs, Dona Sartíria, Dona Pina, Seu Nilo e Seu Joaquim, e uma Griô Aprendiz, Wayra. Quando saiu o resultado do Edital, a Fundação Terra Mirim estava entre os 50 Pontos de Cultura do Brasil que faria parte desta experiência pioneira. Foi um momento histórico dizer para anciões esquecidos no interior do nosso país que o governo do Brasil através do Ministério da Cultura reconhece o valor dos antigos e oferece recursos públicos para que partilhem o que sabem, o que são dentro das salas de aulas da sua própria comunidade, foi um momento muito especial. Versos e canções foram entoados em homenagem à Gilberto Gil e Célio Turino.
Depoimento da Griô Aprendiz Wayra Silveira sobre o início dos trabalhos:
No primeiro momento que entrei na escola, minha cabeça estava bem formal, então preparei material didático para os professores, foi bom, mas depois percebi que os caminhos podiam ser outros também. A gente sabia dos objetivos na escola, mas foi uma grata surpresa ver a possibilidade de estar na escola de maneira cortejante, brincante, ritualizando, fazendo cortejos e caminhadas. O contato com Márcio Griô e Eniéle abriu muito este caminho, eu troquei muitos e-mails nesta época com eles para ajudar a compor o lugar do Griô Aprendiz e a vivência em sala de aula. Passamos a cuidar da curva da vivência, cuidamos da roda e do pedido de bênção aos mais velhos. Nosso instrumento sagrado que passa de mão em mão na hora da bênção é o cajado da Véia Caduca, que é personagem cômico da Queimada da Palhinha. O cortejo chama atenção quando passa pelas ruas da comunidade. Nas rodas sempre vão visitantes e hóspedes estrangeiros de Terra Mirim, e é muito incrível esta riqueza, uma troca linda, a roda com tanta gente diferente, de culturas diferentes, junto com as crianças da escola. Uma visitante fez uma bonita doação: Fiapo, um dos netos da casa tem Seu Nilo como mestre e queria aprender a tocar pandeiro, mas não tínhamos como comprar o pandeiro, naquele momento a gente estava juntando dinheiro para fazer as roupas do ritual, aí a visitante, o nome dela é Amélia, doou o pandeiro para Fiapo, ele agora é aprendiz do Mestre Nilo. A gente entra na escola, faz a roda, pede a bênção, todos já conhecem este momento, os mais novos pedem a bênção aos mais velhos, de 15 em 15 dias temos reunião no quintal de Dona Pina e escolhemos as cantorias que vão acontecer na escola…
Umas palavras para Gilberto Gil
Quando saiu o resultado do Edital da Ação Griô, em março de 2007, depois de dar a notícia para os anciões, a Griô Aprendiz escreveu umas linhas para Gilberto Gil, mas nunca enviou esta mensagem para ele:
Gil, você está no meu altar. Numa foto recortada da capa de um jornal. Você está embaixo de Osho, ao lado de Buda, de São Longuinho e do Deus Elefante Ganesha. São ainda seus vizinhos na lapinha da minha cabeceira São Jorge e meu querido São Francisco, o santo que me faz chorar. Tenho no altar também um carneiro de vidro, que me lembra a fragilidade dos arianos como eu. Alguns hão de me indagar: “- O que faz um homem entre santos e deuses?”. Mas está tão justo o recorte de jornal, você com cabelos brancos e o indicador indicando alguma novidade, a boca pronunciando alguma revolução. Todos os dias medito contigo, o meu coração com um bem querer que te oferece paz, saúde e força. Não conheço as suas mazelas humanas, sei que hão de existir. Mas o que salta aos meus olhos é a novidade, a revolução vindas através de um… HOMEM. Muitos dirão: “- Estás venerando gente, coisa falível!”. Não! Venero a fertilidade, a boa vontade de partilhar a riqueza, a criatividade para transformar o curso secular dos interesses. Gil, você está no meu altar e o que você representa lá é a humanidade sã. Amo o artista. Admiro o Ministro. Mas o que venero no meu altar é o que se manifesta através de você, a coisa da qual você é canal aberto, é a poesia/ação, o feminino/masculino, a estrela/raiz, você humano como eu. Imagino a sua imensa jornada, as aflições e alegrias do caminho que te lapidaram até você poder ser este símbolo para mim. Imagino as suas dúvidas, medos, revolta, a pacificação da sua alma, a sua conversa com Deus. E me sinto privilegiada por estar de alguma forma conectada com alguém que realiza, no mundo das formas, as coisas que fazem parte da sua própria oração.
Wayra Silveira
(Foto de Gilberto Gil recortada no Jornal)
A griô aprendiz fez a ponte entre a Escola Maria Amélia e o grupo de tradição oral da Queimada da Palhinha. Wayra tem uma experiência de mais de 10 anos de trabalho comunitário, o que ajudou na construção de uma boa comunicação com os anciiões. Os cortejos até a escola são mensais e a Griô Aprendiz tem conquistado passo a passo os professores da escola Maria Amélia.
Dois professores ficaram mais parceiros da Ação Griô: o Prof. Feliciano de Artes e a Profa. Célia de Língua Portuguesa.
Prof. Feliciano trabalhou com cantigas e versos da festa, fazendo até um jogral com os versos da Queimada da Palhinha:
1ª. Atividade de Artes:
Fundação Terra Mirim
Ação Griô Nacional – Ministério da Cultura
Cantiga da Queimada da Palhinha
Disciplina: Artes
Cantiga de Chegada da Queimada da Palhinha
Entremos por esta sala
Pra louvar a Deus Menino
Ainda que nasceu flor
É sina de ouro fino
Meu Senhor meu Deus Menino
Vim aqui te visitar
Doença eu venho trazer
Saúde eu quero levar
Meu Senhor meu Deus Menino
Tão alvinho como leite
Me guarde um lugar no céu
Onde a minha alma se deite
Meu Senhor meu Deus Menino
Me dê a mão que eu subirei
Todo mundo já subiu
Só eu embaixo fiquei
Meu Senhor meu Deus Menino
Minha flor de bem-me-quer
Me dê um bom marido
Que eu serei boa mulher
Meu Senhor meu Deus Menino
Meu cordão de ouro grosso
Quem me dera uma volta
Pra botar em meu pescoço
Deus Menino já rompeu
O solado do sapato
De andar para o convento
Visitar mulher de parto
Deus menino já foi santo
Hoje em dia é marinheiro
Quero viajar com ele
Lá pro Rio de Janeiro
Meu Senhor meu Deus Menino
Essas pastoras são suas
As que não bailar direito
Bote com elas na rua
A Profa. Célia trabalhou com leitura e compreensão de textos sobre a festa, aplicou exercícios e redação.
(Exercício de casa de Língua Portuguesa com a letra de uma das estudantes com perguntas e respostas sobre a Queimada da Palhinha)
Tivemos a parceria também da Profa. Ivone, da disciplina História, que de maneira silenciosa divulgou este trabalho fazendo 8 cópias do DVD do Mapeamento Cultural da FTM, exibido para os professores da Escola Maria Amélia, e distribuiu com colegas professores do município dizendo assim:
- De Simões Filho para Simões Filho.
Fez uma capa bonita para o DVD com fotos de alunos e exibiu o filme na Escola Maria Quitéria e nos bairros de Cristo Rei e Coroa da Lagoa.
O que mudou?
Chegou um momento do trabalho que a gente se perguntou: Afinal o que a gente quer mudar com a Ação Griô na Escola Maria Amélia? E foi maravilhoso descobrir que não queríamos mudar nada… Ufa! Que alívio! O único propósito pulsante era entrar na escola em cortejo cantando, dançando, vivendo a cultura local.
São muitas as coisas difíceis que encontramos no caminho, a escola tem condições físicas precárias, o muro da frente chegou a cair, as salas não tem portas, não podíamos sentar no chão, pois é grande a sujeira e uma funcionária só não dava conta de tudo, é alto índice de agressividade entre os estudantes… Mas o cortejo dos Griôs da Queimada da Palhinha ignorou os impedimentos e abriu a dimensão da festa, da arte, da brincadeira que educa dentro da sala de aula. As transformações que vieram deste trabalho aconteceram por elas mesmas, espontaneamente, algumas ainda invisíveis que só darão frutos mais tarde.
(Foto do Cortejo entrando na Escola)
A sistematização de toda esta experiência iniciou-se durante o processo, sendo feitos registros em foto, vídeo e arquivados todos os materiais produzidos. A infra-estrutura administrativa da FTM é disponibilizada normalmente para as necessidades da Ação Griô.
Um pouco sobre a Griô Aprendiz
As vivências em sala de aula, os cortejos, os momentos rituais, os encontros em Lençóis e em Belo Horizonte, a inclusão da ancestralidade na escola, reafirmam de maneira ardente o propósito de vida e o universo subjetivo, mítico e ancestral já acessado pela Griô Aprendiz na sua caminhada de vida.
Wayra reside a doze anos na comunidade xamânica da Fundação Terra Mirim, vivenciando e participando de diferentes rituais com os quatro elementos da natureza, a Terra, a Água, o Fogo e o Ar, de iniciações em fogueiras, matas, grutas e montanhas com a Xamã Alba Maria, de Viagens Iniciáticas por caminhos sagrados do Planeta – Caminho Sagrado de Macchu Picchu no Peru, Caminho de Santiago de Compostela na Espanha, Caminho dos Ashrans na Índia, Caminho dos Himalaias no Nepal, Caminho de São Francisco de Assis na Itália, Caminho da Floresta entre a Alemanha, a Bélgica e a Holanda.
Na sua trajetória artística tem experiências no teatro como atriz e roteirista, como escritora e poeta já publicou dois livros – Um Conto de Bruxa e a coletânea Mãos Femininas Tecendo a Letra em conjunto com mais 3 poetas da FTM, na sua herança traz o amor pela música e pela dança.
Todo este capital simbólico facilita o contato com o encantamento, o que se reflete na construção da sua caminhada.
Os conteúdos trabalhados na Ação Griô fazem parte também da pesquisa que Wayra está realizando na Universidade Federal da Bahia como mestranda do Programa Multidisciplinar em Cultura e Sociedade sob a orientação do Prof. Dr. Milton Araújo Moura. Sob o título “A Queimada da Palhinha do Vale do Rio Itamboatá – A permanência de uma prática do Catolicismo Popular Rural na Região Metropolitana de Salvador” a pesquisa busca responder a seguinte pergunta: Qual a relação entre uma prática do catolicismo popular rural e o mundo consideravelmente capitalizado e urbanizado em que se situam, hoje, seus cultivadores? Na sua dissertação Wayra vai refletir sobre a Ação Griô Nacional do Programa Cultura Viva/MinC como uma política pública que colabora para a permanência e a valorização do saber popular e o respeito à cultura tradicional e oral do Brasil. Wayra Silveira acredita que…
…fazer parte da Ação Griô e ao mesmo desenvolver uma pesquisa na Universidade sobre temas como cultura popular, mito e festa, juntar o trabalho intelectual com o vivencial, é como conectar metades separadas, é um grande presente para mim.
Quando perguntada sobre o que mais lhe tocou em todo este trabalho, a Griô Aprendiz responde rapidamente:
O que me encanta é a poética da Queimada da Palhinha, os versos e as cantigas me emocionam muito…
Uma de suas cantigas preferidas é a Reza, cantada pelas pastorinhas de joelhos em louvor a Nossa Senhora:
Encontrei com a Senhora
Encontrei com a Senhora
Na beira do rio
Lavando os paninho
Lavando os paninho
Do seu bento filho
Maria lavava
Maria lavava
José estendia
Chorava o menino
Corava o menino
Do frio que tinha
(eu não sei que fazia)
A Griô Aprendiz já realizou inúmeros trabalhos na Fundação Terra Mirim em diversas frentes da instituição. Fez parte durante oito anos da superintendência como Gerente de Arte e Cultura. Neste período coordenou eventos, projetos sociais e pesquisas que estavam sempre relacionados com os saberes tradicionais da região. Sobre o vínculo com os anciões Wayra diz:
Conheço o grupo da Queimada da Palhinha há 5 anos. Fiz entrevistas em história oral com eles para a pesquisa Mapeamento Cultural, trabalhei com todo o grupo por 2 anos consecutivos facilitando o contato dos anciãos com um grupo de adolescentes. Durante estes trabalhos me iniciei nos saberes orais da Queimada da Palhinha.
Depois dos encontros da Ação Griô em Lençóis e em BH, Wayra conheceu os trabalhos de outros Griôs Aprendizes e o contato com esta gente bonita, feliz, aberta, deu um contexto para o seu trabalho. Nos contatos com Márcio, Líllian, Cláudia e Vanda, a Griô Aprendiz percebeu que o convite da Ação Griô Nacional é a vivência da ancestralidade, da transcendência em sala de aula, a inclusão do sagrado (não o religioso) no currículo:
A sala de aula como um espaço também de vivência da transcendência de cada um. Uau!!! Eu vibro muito com isso, eu acredito nisso, não sei se eu sei fazer isso, mas a gente vai fazendo até saber.
Wayra refletiu se o Griô Aprendiz veste um personagem:
Eu sinto que cada pessoa é uma multidão, temos muitas faces, e minha face Griô Aprendiz sou eu sim, uma eu que amo muito, o eu mais alegre que sou.
A Caixinha
A bolsa trabalho veio em boa hora, Dona Sartíria precisava mesmo consertar o telhado da casa que estava caindo e comprar uma geladeira, Dona Pina queria há muito tempo construir um barracão maior para a festa.
Foram até a Caixa Econômica Federal de Simões Filho para abrir as contas correntes. A Griô Aprendiz e os cinco anciões entraram no banco às 11 h da manhã e saíram às 14:30 h. A fila dos idosos dava voltas no salão, mas, mesmo neste ambiente pouco familiar para eles, os mestres griôs agüentaram firmes.
Aconteceram momentos engraçados. A funcionária do banco perguntou:
- Dona Crispina, seu estado civil?
- Meu o quê?
- A senhora é casada ou solteira?
Dona Pina baixou a cabeça, um risinho envergonhado de quem foi denunciada:
- Tive 12 filho, mas nunca me casei não senhora…
*
- Seu Manoel o senhor esqueceu de trazer o recibo da conta de luz, o original.
Silêncio. Um silêncio pensativo.
- O senhor entendeu Seu Manoel? É necessário trazer o original da conta de luz.
Ele então respondeu:
- Eu digo pra senhora, pode acreditar, não deixo de pagar a luz nenhum mês. A primeira coisa que faço é pedir pra minha neta pagar a conta de luz, tá tudo pago. IPTU a mesma coisa, recebi até uma carta de parabéns do IPTU…
Foi um encontro da tradição com a modernidade.
Os Mestres Griôs decidiram fazer uma caixinha doando um valor todo mês para as necessidades do grupo, roupas, transporte, a Festa da Queimada Palhinha em janeiro de 2008, etc. Além disso, os anciões partilharam o dinheiro da bolsa de trabalho com outros participantes do grupo, os mais novos. Decidiram abrir uma conta poupança em nome de Seu Joaquim e Dona Pina para guardar o dinheiro.
Esta prática de partilhar o que se tem com o grupo do qual se faz parte pode ser encontrada na história de solidariedade dos grupos negros escravizados, que coletivamente conseguiam comprar as alforrias dos seus irmãos ainda cativos. Parece que esta ética permanece viva.
Esta caixinha rendeu importantes frutos: partilha financeira com os integrantes do grupo; confecção de roupas novas, bonitas e coloridas para todos os artistas-devotos; auxílio para a preparação da Festa da Queimada da Palhinha de 05 de janeiro de 2008; contribuição para a construção do novo barracão no quintal de Dona Pina.
Com a Ação Griô o governo do Brasil reconhece o valor dos antigos e oferece recursos públicos para que eles partilhem o que sabem, o que são. O recurso da bolsa trabalho colaborou de diversas maneiras neste encontro entre a tradição e a modernidade. Lá para o mês de agosto Dona Pina falou para Wayra:
- Uara, você não sabe…
- O que Dona Pina, me conte.
Ela então abriu um largo sorriso:
- Comprei um DDD!!!
- Um o quê?
- Um DDD!
Só algum tempo depois a Griô Aprendiz entendeu o que Dona Pina havia comprado, não apenas para a sua família, mas para o deleite de toda a vizinhança. O grupo então passou a assistir diversos filmes na sala de Dona Pina com a presença de toda a meninada da rua.
Os saberes Xamânicos de Terra Mirim
(ainda vou escrever…)
E outro ponto importante é que a Xamã Alba Maria fará parte da Ação Griô também como Griô de saber oral. Nós já trabalhávamos com os saberes de tradição oral Xamã de Alba. Nós estávamos gravando muita conversas com ela, nós temos muito material gravado, cheguei a escrever um projeto para avançar com este material, e tem gente cuidando deste acervo, eram duas coisas. Dai a gente viu que pode trabalhar conjuntamente com estes saberes, vamos incluir este trabalho na Ação Griô. Os saberes Xamânicos que são fortes em Terra Mirim, vamos juntar com os saberes da Queimada da Palhinha.
Um pouco da História de Simões Filho
Fundação Terra Mirim
Ação Griô Nacional – Ministério da Cultura
Disciplina: História
Um pouco da História do Vale do Itamboatá
Há muitos anos o Vale do Rio Itamboatá era uma grande floresta chamada Mata Atlântica, habitada pelos índios Tupinambá que viviam na natureza. Os Tupinambá eram um povo guerreiro, bons caçadores e pescadores, e também plantavam mandioca e com ela faziam beiju, farinha e puba. Da natureza eles tiravam tudo o que precisavam para viver.
No ano de 1500 começaram a chegar outros povos, e novas pessoas vieram morar aqui na região: os brancos, de Portugal e outros países, e os negros da África. Os brancos eram os donos das terras e os negros foram escravizados e trabalhavam em várias coisas: na plantação de cana-de-açúcar, de laranjas, na criação de gado, e em outros serviços.
No tempo que o Brasil era dependente de Portugal, o lugar que hoje chamamos Simões Filho, se chamava Cotegipe, depois Água Comprida, e era uma região rica que produzia açúcar para vender em outros países. Hoje em dia é uma cidade pequena, com um povo carente de coisas importantes.
Seu Manoel, um dos moradores mais antigos da região conta que o Vale do Rio Itamboatá, as terras que vão da Convel até Pitanga de Palmares, mais ou menos a partir dos anos de 1800, eram três fazendas de um único dono: o Coronel Cazuza Teixeira. Nas terras onde hoje está a Eternit, a Fundação Terra Mirim e a Cerâmica Três Rios, estava a Fazenda Itamboatá. As terras do meio, onde hoje tem Palmares, chamava Fazenda Coqueiro. E a parte que vai até a barragem de Pitanga, chamava Fazenda Pitanga. A família Teixeira tinha léguas e léguas de terras que iam até Candeias por isso lá tem um local com o nome Passagem dos Teixeiras.
Eram fazendas de gado, os trabalhadores derrubavam a mata para pegar madeira e faziam carvão. O Coronel Cazuza mandava os burros para as bocas das covas e carregava os sacos de carvão e conduzia até a rodagem Feira de Santana/Salvador, e ia vender na capital. As fazendas tinham administrador, tinham vaqueiro, carro de boi… A família Teixeira tinha uma riqueza grande.
Depois que o Coronel Cazuza morreu, por volta de 1950, os filhos venderam parte das terras. A Fazenda Itamboatá foi vendida para a Empresa Circular de bondes de Salvador que queria plantar eucaliptos para os postes de madeira. A fazenda Coqueiro foi vendida e loteada e então nasceu a Chácara Palmares, que nós chamamos hoje simplesmente Palmares. A Fazenda Pitanga anos depois foi também vendida e loteada, formando então Pitanga de Palmares
Os antigos funcionários das fazendas eram quase todos negros. Só conheciam o trabalho de fazer carvão, tocar gado, plantar roça, criar animais. Depois que as fazendas foram vendidas eles, ou foram embora, ou tiveram que comprar os seus lotes e construir suas casas de madeira e piaçava como fez a família de Seu Manoel.
No ano de 1960 construíram em Simões Filho o CIA (Centro Industrial de Aratu) que ajudou a mudar muito esta região. Mais esta é uma outra história…
Sugestão de Atividades:
. Exposição Participativa sobre o tema (tópicos no quadro)
. Leitura em grupo do texto
. Elaboração em de 5 perguntas sobre o texto
. Jogo de pergunta entre os grupos
Antes de 1961 distrito de Salvador com o nome de Água Comprida, Simões Filho hoje é um grande município que vai da beira do mar na Baía de Aratu, possui um enorme parque industrial CIA (Centro Industrial de Aratu), chegando até os limites do Pólo Petroquímico de Camaçari.
Devastação de suas matas para construção de Engenhos. Ontem Simões Filho (Água Comprida) foi rica, fausta, produtora de açúcar para exportação. Hoje é um lugarejo rurícola, pobre, igual ao povo que habita suas terras, nascidas de uma usina.
Trabalhadores rurais prestavam serviços na fazenda de Dr. Cícero Simões, local hoje conhecido como Km 30, em virtude de ali ficar a placa indicativa do quilômetro trinta da Estrada de Ferro Salvador/Alagoinhas, e onde originalmente se formou o primeiro núcleo de casas da região. Existia também a rodovia Salvador/Feira de Santana. Hoje o trem continua rodando, apitando com suas locomotivas a diesel