Trilha Invenção Brasileira

AÇÃO GRIÔ NACIONAL

TRILHA PARA SISTEMATIZAÇÃO

Primeiro Ano – 2007/2008

Ser Griô aprendiz é um desafio múltiplo que passa por fases de encontro com o vivencial.

Após um ano de vivencias intensas e únicas na Ação Griô Nacional, sinto meu corpo livre e seguro para falar sobre a importância e as etapas deste papel. Posso relembrar com clareza a sensação indescritível do meu primeiro contato com o Velho Griô na Chapada dos Veadeiros e depois com Liliam Pacheco no lançamento do edital em setembro de 2006, em Brasília. Todas as propostas caíram em mim como uma luva e mesmo sem o entendimento da dimensão de toda a ação eu sentia na pele que este era um projeto que mudaria toda a minha trajetória humana e profissional.

Foi assim que Chico Simões, Luciana Meireles e eu decidimos juntos escrevermos o projeto. No processo descobrimos que não tínhamos uma rede de mestres fortalecida em nossa comunidade. Chico já tinha sua bagagem de caminhante e brincate de mamulengo há 20 anos, eu estava há meses caminhando com ele e os seus bonecos, Luciana caminhava conosco com um foco maior no aprendizado das brincadeiras dos palhaços populares.

Ao analizarmos o perfil proposto no edital decidimos que somente Chico poderia ocupar este lugar de aprendiz, pois Luciana e eu estávamos apenas começando e não tínhamos histórias para narrar sobre caminhadas com mestres. Assim foi… Projeto feito e aprovado. Nos primeiros meses atuamos os 3 como aprendizes, convivendo semanalmente com os mestres. Mas no desenrolar da tragetória Luciana e eu fomos nos fortalecendo e convivendo mais com os nossos mestres, ouvindo histórias, cantando e… encantadas construímos ao longo deste ano uma bagagem considerável de aprendizados. Antes da ação já tínhamos iniciado nossa caminhada de aprendizes com o Chico que apesar de aprendiz é quem nos ensinou e instigou a adentrar este universo, ele sem tempo de dedicar-se a todos os processos locais passa a ser representante e caminhante mundial da ação.

Assim esclarecido, gostaria de fazer uma reflexão sobre a importância de levar em conta no edital os aprendizes de aprendiz. Mesmo que estes ainda não tenham a trajetória de caminhadas com mestres eles, poderão ao longo do processo intensificar a convivência afetiva e efetiva com a tradição oral, reconhecendo-se e iniciando-se como um Griô.

Caminhos inicais de uma Griô Aprendiz

Em primeiro lugar peço a benção a:

    Dona Estelita, que na sua sábia diversidade, me ensinou, principalmete, a descobrir quem eu sou.

Tia Jacira, que com o seu silêncio me ensina o valor das palavras.

Mestre Dico, que no seu cotidiano me ensina em segredo o mistério de manter a tradição do construir e tocar violas há mais de 250 anos.

Ao seu Zé do Pife, figura do mestre caminhante que me ensina como levar a vida na ¨flauta¨… Leve e harmoniosa.

Ao mestre e amigo Virgílio que aguça a minha criatividade com suas gambiarras e extraordinárias construções de papelão e saco de cimento.

Meu contato com esses mestres veio com a proposta da ação Griô. Neste ano o momento foi de nos conhecermos, conhecermos a pedagogia Griô, a escola e o ponto. Convivemos em rodas de prosa contando partes de nossas histórias de vida, histórias de trancoso, cantando e ouvindo músicas. Vivenciei caminhadas em pleno centro de Taguatinga ouvindo histórias da vida do Zé do Pife. Tardes de sábado na porta da casa da Dona Estelita com as crianças da rua. Conversas com Tia Jacira no seu trabalho que enquanto costura tem o dom de falar lentamente com todo o carinho de seus netos. Além de conversas mais rotineiras com Virgílio e Mestre Dico que moram e trabalham no Mercado Sul, (onde está localizado o Ponto de Cultura).

Como não podia deixar de ser tivemos também nossas caminhadas na escola C.E.M 3 (centro de ensino médio 3) da Ceilândia e conhecemos, adentrando a sala da Professora de artes: Vilmária. Estamos aos poucos chegando e sistematizando nosso modo de dialogar com o ensino formal, para exemplificar o que está sendo construído proponho uma trilha, um ciclo possível para o fortalecimento dessas pontes escola-tradição oral.

Como ponto de partida, retorno as minhas origens rurais e interioranas e me encontro com Maria de Barro Gritadora do Tempo, uma mulher forte, conhecedora do tempo, das estações, do dia e da noite. É com ela que caminho por comunidades e escolas levando o encantamento da diversidade de uma ou várias tradições. Muitas vezes ela se encontra acompanhada de Carona, uma palhaça tocadora de caixa e contadora de histórias verdadeiras ou inventadas de suas andanças. Em outros momentos um mestre ou uma mestra são os companheiros do tempo.

Ao chegar em uma escola, uma canção de licença há de soar:

¨Meu Senhor, minha senhora

dê licença pra eu entrar…

Sou Maria de Barro

Gritadora do Tempo,

Vim aqui pra falar

do sol e do mar,

vim aqui pra conta

da chuva e do vento…

Eh, meu senhor,minha senhora

dê licença preu entrar

vim aqui pra ouvi

histórias daqui

vim aqui pra conta

histórias de cá…

Com uma sabedoria da gentileza desfazemos o quadrado pedindo que cada um levante sua cadeira levando-as para os cantos da sala para assim formarmos uma roda e no centro brincar com jogo dos versos:

“Uma cartinha

daqui pra Lagoinha,

uma cartinha

da tua mão para minha.

Da Bahia me mandaram

um lencinho com Pimenta

mandaram me perguntar

se eu era ciumenta.

Uma cartinha

daqui pra Lagoinha,

uma cartinha

da tua mão para minha.

Lagartixa na parede

parece camaleão

menina sai dessa rede

vem pra dentro do salão.

Uma cartinha

daqui pra Lagoinha,

uma cartinha

da tua mão para minha.”

(dentre outros versos aprendidos com Dona Estelita)

Maria de Barro inicia pedindo a proteção de um ancestral,um familiar, um mestre ou um amigo (ritual aprendido com o Velho Griô). E abre a Roda das Histórias de Vida, abre-se o espaço aberto para compartilhar e perceber em comunidade as belezas locais. Se houver algum mestre ou mestra presentes eles escolherão uma de seus saberes para dialogar com educadores e educandos.

Com estes saberes dos mestres temos aprendido que de uma forma ou de outra toda sabedoria remeterá a alguma lembrança, sobre alguém ou algo de nossas histórias de vida o que mexe com o corpo de todos porque é um momento em que todos se reconhecem no meio da roda. Assim, todos passam a fazer parte de um único centro que se ramifica para as extremidades em busca da diversidade, assim descobrem, consciente ou subconscientemente, que cada um de nós somos partes de um todo que se complementa. Também neste momento acontecem diálogos com o currículo escolar, o Griô aprendiz pode saber o que o educador está trabalhando naquele momento para mediar reflexões sobre o que é falado em sala de aula com o que está sendo compartilhado em roda. Por exemplo quando seu Zé do Pife conta que o pife é coisa antiga e foi inventado por índios, ou explica que se faz com bambu, como se fura, as medidas entre cada buraco, tudo isso é uma aula que pode ajudar no diálogo com a geografia, a história, a biologia e principalmente a matemática da música. Acreditamos que ao conseguirmos trazer o cotidiano do educando para o dia-a-dia escolar conseguimos facilitar as vias para um melhor desenvolvimento da aprendizagem.

Na verdade verdadeira Maria de Barro Gritadora do Tempo nunca está sozinha, ela possui uma mala com bonecos de madeira Mulungu. Depois da prosa em roda ela inicia uma brincadeira com os mamolengos junto com Benedito, Conceição, Espantalho Já-Ti-Vi, Coronel João Redondo, cobra, pássaro Preto Presepero e acrescenta na história elementos novos que ouviu na roda anteriormente.

Ao final, comemoram a semente plantada que acaba de nascer. Uma nova roda, novas vidas, novas emoções encorajadas giram no centro para que cada pessoa presente sinta-se inventor e participante desta história.

Uma roda de embalo finaliza com a canção ¨Periquito Maracanã¨.

¨Periquito maracanã

Cadê a sua iaia

Faz um ano

Faz um dia

que eu não vejo ela passar.

Faz um ano

Faz um dia

Que eu não vejo ela passar…¨

(canção que aprendi o Velho Griô que

aprendeu com Caio um menino de 9 anos)

Despedimos-nos e saímos cantando:

Eu vou deixar me levar,

O circo chegou…

Vou passear na alegria.

Vida viva,

Vida!!

Vida, asas de querubim

Na careta do palhaço

Alegria não tem fim”.

(canção aprendida com a amiga Gabi,

que aprendeu com o Grupo Boca em Boca

que aprendeu com a Companhia Carroça de Mamulengos).

É assim que caminhamos e desejamos caminhar mais a cada dia vivenciando o proposto e sentindo na pele a certeza de que Paulo Freire tanto falou de que: ¨Ninguém educa ninguém os homens se educam entre si mediatizados pelo mundo.¨

Finalizo minha narração de aprendiz pedindo a benção aos meus pais Maria Luiza e João Bosco com quem eu me inspiro na pureza do interior mineiro.

Fabíola Gritadora do Tempo

Uma breve história do ponto e sua missão

As cidades satélites do Distrito Federal, hoje chamadas Regiões Administrativas de Brasília, foram formadas a partir da necessidade de “desfavelar” o centro do poder de Brasília. Essas cidades foram se estruturando com a chegada de migrantes de todas as regiões do país.

A cidade de Taguatinga foi a primeira oficialmente criada, em 05 de julho de 1958, com o propósito de por fim aos aglomerados humanos denominados “invasões” que tanto desesperaram os idealizadores da capital federal, antes mesmo da sua inauguração. Ceilândia, fundada em 1971, fruto da Campanha de Erradicação de Invasões – CEI (inspiração para o nome da cidade), também surgiu do mesmo propósito.

Foi assim em meio ao cerrado inóspito, que gente de todos os estados do Brasil teve de aprender a viver, conviver e superar todos os estranhamentos culturais.

Em um pedaço de toda essa história em 2003, no Mercado Sul, num beco, numa loja, num desejo do ator- brincante Chico Simões e outros companheiros surgiu o espaço oficina Invenção Brasileira. Junto com o Mestre Dico, o nosso mestre lutier que mora ao lado, iniciou-se o trabalho lento de revitalização deste espaço. Ofereciam-se oficinas de teatro e aos sábados viola, brincadeiras de mamulengos e outras prosas recheavam os olhos de toda a comunidade.

Em 2004 tornou-se um Ponto de Cultura dentro do Programa Cultura Viva, assim muitos jovens se achegaram e ficaram participando das oficinas de teatro comunitário, teatro de bonecos e percussão. A família foi crescendo e cada um de nós se apoderando do que gosta de fazer.

A caminhada de Chico Simões com muitos mestres da cultura popular como Mestre Solon, Zezito, Carlinhos Babau instigou o interesse pela ação Griô, porque sabiámos que tudo que estavamos aprendendo e fazendo ali estava inteiramente ligado à tradição Oral. E que poderíamos por meio desta parceria unir mestres dos mais diversos lugares e ofícios, fortalecendo uma rede de transmissão oral em pleno Distrito Federal. Reestruturando a lógica urbana em rodas de prosas que foram sistematizadas ao longo deste ano como por exemplo as rodas de prosa que já eram uma prática antiga do Ponto, mas que ganhou uma nova versão para a Ação Griô e seus mestres.

RODAS DE PROSA

Acontece entre os mestres, griôs aprendizes, jovens, crianças e aprendizes da comunidade

Objetivo: recriar e fortalecer uma rede de transmissão oral; co-memorar espontaneamente histórias, brincadeiras e canções

Chegada: estimulando o abraço e o sorriso, nos recebemos, fazemos a roda e cantamos uma canção aprendida como os mestres

Meu limão, meu limoeiro,

meu pé de jacarandá

uma vez tindolele

outra vez tindolala

cravo branco no cabelo

é sinal de casamento

menina tira esse cravo

ainda não chegou seu tempo

Meu limão, meu limoeiro,

meu pé de jacarandá

uma vez tindolele

outra vez tindolala

(aprendida com Dona Estelita)


Sensibilização: nutrindo e aguçando os sentidos do corpo e da alma, compartilhamos o alimento e nossos cotidianos.

Palavras geradoras: são o centro da prosa, em torno das quais ela vai girar, podem já ter sido decididos em grupo ou sugeridos na hora por algum dos participantes.

Ex.: HISTÓRIAS DE VIDA; INFÂNCIA ; SABERES DO PÍFANO, DA VIOLA, DAS COSTURAS; HISTÓRIAS DE TRANCOSO e outros.

Contação de histórias: estimulados pelas palavras geradoras, os mestres espontaneamente começam uma prosa, contando causos, revivendo memórias, recriando opiniões é na roda que vamos construindo através da fala e da escuta o conhecimento.

“Quando eu criança, meu pai me deu uma boneca de plástico no natal

e eu danei a chorar

minha irmã me perguntou o que que era, e eu disse que num era nada não

depois que eu fui contar pra ela,

que era porque as pernas da boneca era presa

e o meu sonho era uma boneca com braços e pernas soltas

uma boneca que pudesse caminhar. Livre”

(dona Estelita em Histórias da infancia)


Despedida: celebrando o encontro, cirandamos canções e brincadeiras de roda.

Barqueiro novo
embarca essa donzela
sou remador
adeus morena Bela

(dona Estelita)

Fabíola Resende e Luciana Meireles

O ensino formal e a tradição oral

O maior desafio, encontrado em nossas ações é estar na escola, é fazer parte dela e de sua rotina. O espaço está aberto, o diálogo mediado, além de firmado o desejo de muitos educadores em participarem da ação. Todas a portas foram abertas neste ano por meio de rodas prosas com professores e rodas do saber fazer com educandos e educadores. Consideramos este primeiro ano a fase de maturação do projeto. A escola está aberta a nos receber, o que temos ainda, é uma dificuldade com o tempo para estar mais dentro da sala de aula mediando, junto do educador o diálogo de nosso aprendizados tradicionais com o currículo formal.

Nossa parceira e educadora Vilmária Meireles envolveu-se com a Ação Griô Nacional a partir do trabalho desenvolvido pela sua filha, Luciana Meireles, no Ponto de Cultura Invenção Brasileira. Portanto, não é vinculada e nem atua diretamente no Ponto de Cultura. Com formação acadêmica em Educação Artística – Artes Plásticas e mais de 20 anos de prática em sala de aula, a educadora sempre trabalhou com a comunidade do Setor P Sul – Ceilândia, onde mora há 27 anos.

Na Educação Infantil buscou proximidade com as propostas construtivistas e com o método de Paulo Freire. Ao concluir a formação acadêmica, passou a trabalhar com o ensino de Artes plásticas no Ensino Fundamental e Médio, dando preferência para a Educação de Jovens e Adultos – EJA.

A atual escola onde Vilmária é educadora é o Centro de Ensino Médio 03 da Ceilândia, onde atuamos neste primeiro ano. O vínculo do Invenção Brasileira com a escola era esporádico. Já havíamos feito apresentações de Teatro de Bonecos, em feiras culturais, mas ainda não havia nenhuma ação contínua.

Na sua prática de sala de aula com a EJA, a educadora investe em diversas linguagens, baseando-se nos princípios de interdisciplinaridade e contextualização dos conteúdos. Um ponto favorável para a parceria, é que nas suas aulas, Vilmária já trabalhou com a linguagem do teatro de bonecos, com propostas de reciclagem e reutilização de materiais. Junto com educadores de diferentes áreas, ela procura trazer os saberes de seus alunos para a sala de aula, com projetos de feiras culturais, onde os próprios alunos organizam as salas por temáticas e facilitam oficinas dos seus saberes de culinária, costura, pintura, bordado e etc.

A educadora identifica seus alunos jovens e adultos que não tiveram acesso à escolarização na idade apropriada, com um perfil diferenciado. Pois são pessoas, na sua maioria, com ampla experiência de vida, são mestres e mestras de muitos saberes e ofícios, que tanto tem o desejo de aprender, quanto o de ensinar o que vivenciaram e vivenciam em suas histórias de vida. Assim podemos dizer que a ação Griô veio complementar o trabalho da educadora com a RODA DO SABER E FAZER, que é o encontro dos mestres com os educandos e educadores onde o saber fazer de cada mestre é fazer saber.

“Vou contar aqui umas historinha pro cês, cês sabe o que é isso aqui?

(mostra o Pife)

Pois é isso aqui é coisa antiga.

Foi os índio que inventou.

É bambu.

Eu tenho é muito prazer de ensinar ocês tocarem, tem gente que num gosta de passar o que sabe, mas o meu maior prazer é ensinar, porque quando eu morrer fica aí o sopro do sertanejo pro cês.”

Assim o Mestre Zé do Pife começa a cantoria acompanhada por versos, preenche os espaços sonoros e as lacunas do currículo de ensino formal e com o sopro do seu instrumento encanta e envolve os educandos e educadores no embalo da roda.

Assim principia a roda do fazer e do saber onde todos podem compartilhar suas vivências, suas histórias e seus imaginários.

O saber se soma ao fazer: o toque da viola e do pife são fazeres que encantam e estimulam o desejo de aprender. A arte de transformação do papelão reinventa olhares. A costura é um desafio para alguns e para outros já é brinquedo, as histórias, pinturas e desenhos vão ao encontro da memória e história de vida dos jovens e adultos.

Para fecharmos a roda que permanece sempre viva, cantamos canções de roda e nos despedimos com versos.

Outros registros

    Durante este ano como griô aprendiz me dediquei também a estudar educadores com a proposta vivencial no ensino formal, como por exemplo o grande mestre Paulo Freire. A baixo registro um texto sobre a Pedagogia do Oprimido que só foi construído e entendido por causa da vivência obtida com a Pedagogia Griô.

    Um pouco sobre Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire, 1968

Fabíola Resende

¨Gosto de discutir sobre isto porque vivo assim. Enquanto vivo, porém, não vejo. Agora sim, observo como vivo.¨

(do livro, depoimento de um operário em aula)

	¨Pedagogia – paideia: do latim que significa ao mesmo tempo educar e civilizar¨. Ora, ¨Pedagogia do Oprimido¨, educação e civilização do oprimido. Mais que isso Paulo Freire, vem dialogar com seus leitores sobre a educação e a civilização humana, porque mais que educadores e/ou educandos somos humanos. E como humanos somos, somos transformados e transformadores durante toda a nossa existência terrestre. A escola, é, ou deveria ser, um dos veículos incentivadores da transformação consciente e necessária em nossas vidas. Seria por meio dela somado a nossas histórias de vida que nós fortaleceríamos a nossa distinção animal, por sermos seres pensantes e históricos. 
	A relação oprimido e opressor, bem explícita e desenhada durante toda a leitura nos faz refletir sobre até que ponto temos consciência do tamanho inconsciente dos nossos desejos de nos tornarmos opressores ou dominadores de situações. Ou, como sabemos se a situação de oprimido não é um cômodo ideal e/ou inconsciente? Como podemos nos perceber, nos conscientizar se somos opressores e/ou oprimidos? E até que ponto estes estados nos deixam confortáveis? A educação, ao levar em conta situações históricas do indivíduo poderá ajudar nestas descobertas, a partir do momento em que pudermos também nos desvincularmos, o mínimo possível, da era capitalista devastadora e compulsiva que se faz presente no nosso dia-a-dia . Transformando valores e tradições, tentando, mas não conseguindo, acredito, nos desvincular de nossas raízes e ancestralidades que nos faz seres repletos de sentimentos e puramente humanos. A busca junto a pedagogia do Oprimido é de um equilíbrio, basicamente, onde possamos ser mais do que ter, possamos ser seres desejantes, feitores de nossas próprias histórias e caminhos. É a negação da entrada em um ciclo, onde me torno opressor e faço oprimidos, oprimidos desejantes de se tornarem opressores... A busca inquieta por status que leva ao consumo do ter para ser, ter uma chefia, ter um carro (ou muitos), ter uma casa, ter uma família, ter... Enfim termos o encobrimento ingênuo e inconsciente de que somos aquilo que somos ou desejamos ser. Freire, deixa claro na págian 118; ¨a inserção é um estado maior que a emersão e resulta da concientização da situação. É a própria consciência histórica.¨ Em muitos momentos de nossas vidas nos tornamos seres emersos, a deriva do mundo em que estamos inseridos, parecemos alheios a ele, esquecendo de nossos sentimentos de pertencimento ao nosso mundo, a nossa própria natureza humana. Assim Paulo Freire nos propõe a nossa inserção como um estado maior, como um estado desalienante e ao mesmo tempo desvelador, em que podemos aprender ao aprendermos sobre nós mesmos.

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