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AÇÃO GRIÔ NACIONAL / TRILHA PARA SISTEMATIZAÇÃO
Primeiro Ano – 2007/2008
1. A criação do lugar do ponto na ação e sua ação político-pedagógica relacionada à tradição oral – trajetória do ponto
A Guaimbê-Espaço e Movimento CriAtivo reúne grupos que tem como foco principal as práticas corporais e ações criativas de pesquisa e divulgação dos saberes e fazeres da tradição popular em vivências inovadoras de educação comunitária.
Esta metodologia concentra-se nas relações intergeracionais e gestão coletiva do espaço e tem por base o processo de formação em dança educativa (Método Laban), dança popular e convívio com mestres de dança, tai chi chuan e terapias corporais de sua coordenadora Daraína Pregnolatto. Iniciando sua trajetória em São Paulo, atuando em escolas e bibliotecas públicas municipais, transferiu-se para o Maranhão para aprofundar convívio com mestres da tradição oral para finalmente estabelecer-se no Planalto Central e colocar em prática os aprendizados vivenciados com a formação do Grupo de Danças Brasileiras Flor de Babaçu. Em Pirenópolis, estabeleceu relacionamento com brincantes de Catira, Folias de Reis e do Divino e principalmente com s. Ico, griô com que conviveu intimamente nos seus últimos anos de vida, sendo ele proponente de várias atividades realizadas no Quintal da Aldeia e anfitrião de tantas outras em sua própria casa.
Fundou a entidade em 2001 – juntamente com o Flor de Babaçu – e a partir de 2003 puderam finalmente sintetizar esta experiência em Pirenópolis GO, com a criação da Flor de Pequi – Brincadeiras e Ritos Populares e inauguração do Quintal da Aldeia, sede da entidade. (foto 1)
A Flor de Pequi – grupo formado por pesquisadores-brincantes e brincantes tradicionais – valoriza e difunde as manifestações da cultura popular brasileira brincando e encantando a todos por onde passa. Foi responsável pela criação de vínculos, sensibilização e reconhecimento dos protagonistas da comunidade, levando os resultados deste trabalho para outras comunidades da cidade e fora dela. Desde então, vem se espalhando pelas ruas de Pirenópolis e adentrando suas escolas, revitalizando e fomentando a prática das brincadeiras infantis e da tradição popular em momentos de valiosa integração e respeito entre as gerações. (fotos 2 e/ou 5)
No Quintal da Aldeia essa educação comunitária começou a ser organizada em ciclos temáticos anuais de Vivências Educativas, construídas de acordo com as relações e convívio com o Griô Ico e outros griôs, ampliando-se naturalmente com a participação da comunidade. Os educadores foram se imbuindo deste encantamento e hoje em dia todos reconhecem a importância deste convívio em suas próprias vidas. Nas Vivências Educativas abrimos novas possibilidades de aplicação pedagógica transdisciplinar dos temas da comunidade gerando a criação coletiva de autos teatrais e espetáculos de dança-teatro, textos, ilustrações, livros paradidáticos, peças artesanais e artísticas em madeira, como quebra-cabeças. Os resultados destas vivências são frequentemente apresentados à comunidade escolar e bastante solicitados à instituição. (fotos 3)
Conta com apoio financeiro (encaminhamento de benefícios) do Ministério Público local para manutenção da sede, uma vez que recebe crianças e adolescentes em Liberdade Assistida em seu programa diário; foi apoiada financeiramente pela ANABB – Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil para aquisição de mobiliário e equipamentos; foi patrocinada pela Funarte em 2007, ganhou o Prêmio Culturas Populares do MinC e foi aprovada nos editais de Patrimônio Imaterial do Iphan e no Programa Monumenta – Unesco/BID/Iphan.
Quando começou na cidade o Programa Ação Griô Nacional, todas estas atividades já aconteciam no Quintal da Aldeia e a relação com esses griôs foi compartilhada com o Ponto de Cultura Interarte/Coepi quando do convite de parceria. As griôs Laurita e Narcisa e o Mestre Griô Bastião de Chica foram convidados pela griô aprendiz do Ponto já em decorrência desta informação e intenção de parceira com a Guaimbê.
A parceria com a Ação Griô Nacional tem contribuído enormemente para a sistematização desta prática já recorrente no Quintal da Aldeia e para a reconstrução das relações de respeito e reconhecimento às histórias ancestrais, inclusive de seus familiares, validando suas experiências de infância.
2. A criação do ser e do lugar do griô aprendiz e de sua ação político-pedagógica relacionada à tradição oral
Ser griô aprendiz na Guaimbê é diferente, lá no Quintal da Aldeia trabalhamos de turma: somos 6 griôs aprendizes com idades variadas entre 17 e 48 anos. O cotidiano da gente é assim – vivemos em relação direta com nossos griôs/avós /mestres/orientadores/companheiros de jornada.
A Flor de Pequi uniu a gente, as Guerreiras do Bonfim e seus aprendizes. Com ela a gente adentra as escolas, ganha as ruas e a simpatia de todo mundo, crianças, jovens, adultos, homens, mulheres, professores e griôs a ufa! Na cintura um cinto boniiiiiito, cheinho de tiras de fuxico, fitas de cetim, penduricalhos… um bando de trem que significa alguma coisa pra cada um de nós…. tudo tem sua própria história. (fotos 4 e fuxicos)
Lá vem a Flor de Pequi, festiva, alegre, convidativa. Vem cantando alto, as caixas ressoando ao longe. A criançada alvoroçada, esperando, ansiando.
“Papagaio louro, do biquinho dourado, toma esse presente, morena, dá a seu namorado, ai ai!”
A roda vai se formando como que por encanto, uma criança, outra, a mãe, a avó, os irmãos, ao redor, a curiosidade dos que percebem. A sacolinha das brincadeiras está sempre cheia de surpresas cantadas e brincadas.
“Bento que benze é o frade – frade / Na boca do forno – forno /Jacarandá – dá /Tudo que seu mestre mandar – Faremos todos!!!” – a criança que primeiro se manifestou sorteia a brincadeira da sacolinha e a roda vai se animando, ganhando força, respirando vida.
As Guerreiras cantam, contam histórias e os olhos das crianças ganham mais brilho, imaginam os tempos de antes. A serpente surge do alto do morro, linda e colorida com seu imenso rabo que …. ops… ela perdeu!!?? “Essa é a história da serpente, que desceu o morro para procurar, um pedaço do seu rabo…. você aí, é um pedaço do meu rabãããão…”
Assim brincando segue o ritual que vira conta de matemática, história do bairro, rap das avós, segue em caravana rumo à história de cada um de nós.
(fotos 5)
Nós, griôs aprendizes carregamos um sentimento profundo da nossa ancestralidade; S. Ico, o primeiro griô que se encantou de verdade com a Flor, já ensinava isso pra gente. Depois nós conhecemos s. Bastião, velho sabido dos tempos do congo e do tapuio…. fez dupla com a Marieta e s. Ico com d. Benta e lá fizemos o casamento do Jorge e da Jorgina, dois bonecões que nós temos no Quintal. (foto 6)
Depois veio d. Narcisa, que mora na Vila Mutirão, em frente à rua em que a Flor brincava aos domingos, aquela meninada…. ela foi se encantando, domingo a domingo, foi lembrando da sua infância, domingo a domingo, até que se decidiu: essas brincadeiras eu conheço…. e chegou logo de uma vez, botando verso e ficando…. da Flor pro Quintal e o novo chamado – foi trazendo as companheiras griôs e lá chegaram d. Helena, Taninha e d. Laurita. Miuza veio vindo sozinha, trazida pelas mãos da neta.
Uma coisa leva à outra: uma festa, um almoço, aniversário de d. Benta, dia das mães, pamonhada.
O convívio foi se estreitando, as griôs foram se descobrindo guerreiras e renasceram Guerreiras do Bonfim. Hoje em dia, vejam só, são educadoras griôs nas Vivências Educativas, da criação do programa à sua avaliação, são conselheiras do Colegiado e co-gestoras do espaço sede (Quintal da Aldeia).
Seguindo nessa mão, a amizade com os outros griôs foi sendo alimentada nas festas de tradição popular, Festa do Divino e de Reis, principalmente. Griô aprendiz também é catireira e folioa e aprende diretamente com os mestres nas festas. Todo mundo mora no Bonfim, ou Aldeia como querem outros pejorativamente, esse grande bairro mãe que acolhe todos os moradores da roça, “é uma turma só”, como eles gostam de dizer. A partir deste convívio, foi proposta a criação dos “Bailes da roça”, atividade que vem reunindo um nº. cada vez maior de griôs da comunidade. Essa atividade tem valorizado sobremaneira a comunidade griô local, valorizando a relação intergeracional e dando a oportunidade às crianças e jovens de recriarem suas histórias a partir deste convívio. (fotos 7)
Nos bailes quem toca são os griôs Nô sanfoneiro, Armando, Luis cantor, Nego Aires, tio Duti (tio da Tereza é nosso tio também) e Lourenço sanfoneiro. Quem organiza são as Guerreiras. Dedé e Lourival (este último não bolsista no programa) organizam o Catira, que já ta virando grupo: o infantil e o adulto. E ainda tem o Lundu, que renasceu das cinzas da Vila Propício. Assim outros griôs locais estão se reconhecendo sabedores e fazedores.
Essa caminhada é longa e acabou formando uma Caravana – a Caravana Guaimbê – que viajou por lugares importantes da cidade juntando as crianças e professoras da escola, os griôs e quem mais queria. Virou auto teatral e se apresentou no Cine Pireneus e no Theatro de Pirenópolis, importante que só!
A montagem do “espetáculo” foi totalmente coletiva e foi sendo construída ao longo do semestre. O que a gente contou? Contou as histórias de vida das Guerreiras e de seo Bastião, a história do Bairro do Bonfim, um pedacin da história da cidade, figuras que fizeram a diferença, como Santa Dica da Lagolândia e Com.Joaquim Alves da Fazenda Babilônia.
Mais importante que tudo foi a riqueza dessa história, que foi inventada bem de pertinho, no convívio que se estabeleceu entre a equipe do Quintal da Aldeia, os griôs, as crianças e as professoras, todo mundo unido.
3. A criação da rede de transmissão oral na política de educação e da cultura local, regional e nacional – relação da escola e do educador
Uma caminhada se inicia com o primeiro passo. Encontro, troca, encantamento, re-união: presentes os griôs aprendizes do Quintal da Aldeia, três professoras do Colégio do Bonfim, a coordenadora griô aprendiz e a Griô Narcisa. Visitas ao Quintal da Aldeia foram programadas, cada semana uma turma. Tudo estaria certo se o errado não chegasse junto… Os pais não entenderam a saída das crianças para brincar. Brincar de aprender não pode.
Novo encontro, nova solução: se as crianças não podem ir ao Quintal, o Quintal vai até as crianças. Combinado. Toda semana adentrava a escola, junto mais três griôs: Helena, Taninha e Miuza, cada uma com seu cada qual. Você já viu alegria tamanha? E a algazarra? Maior ainda! As reclamações começam: que barulho fazem 60 crianças juntas no pátio interno de uma escola, já pensou? Criança que não faz barulho é criança? Criança que não se mexe é criança? Criança que não experimenta, ousa, inventa, cria, recria, faz e acontece é criança? Na escola criança tem que ser criança quieta e comportada, acomodada. Se atividades lúdicas e interessantes não fossem tão raras a excitação seria mais natural, menos exagerada.
“Bento que benze é o frade..!”
A Caravana avança, passeia, conta, reconta. As professoras quase em estado de choque… eu consigo? Eu entendo? Eu quero?
E os griôs lá, todos, mestres e seus aprendizes, contando coisas dos tempos de antes, de roça e mutirão, de baile na lua clara, de espantar passarinho da plantação. Os olhinhos das crianças brilhando com as pequenas descobertas, a canção de acalanto do rio, a produção do Rap das Avós.
“Minha avó era mais velha, ensinava eu e meus irmãos, coisas lindas, coisas belas…”
Lá veio a primeira apresentação, bem no meio do ano, uma em junho outra em agosto. Sucesso total! Então é isso? As professoras entenderam, o brilho no olhar deu sinais de conhecimento. Agora eu quero, quero até que estejamos mais juntas, mais próximas. Re-união mais uma vez, toda semana, griôs aprendizes e professoras. Ô trem bão! Planejar, construir, criar, programar, agir. O currículo se abriu, os passeios ampliaram os entendimentos da matemática, da produção de textos, da história e geografia locais. Passeio pra aprender a tecer. Passeios pra conhecer novos povoados, fazendas e fazedores de histórias.
(fotos
O semestre andou Caravana adentro e a história do bairro foi se desvendando e revelando junto com a história da cidade. Alegria, felicidade, realização. Chegava o dia de uma Caravana encontrar-se com outra, a da Expedição do Redescobrimento. Crianças felizes se mostraram ao Brasil Central na dança do catira sob a orientação de todos os griôs. Os visitantes encantados com a dimensão e importância do evento. Mas o grande evento ainda estava por fim e finalmente a Grande Caravana do Bonfim encerrou sua jornada no teatro de Pirenópolis, numa forma encantada de contar seu conto.
Hoje os griôs caminham pelas ruas e são reconhecidos. Hoje as crianças sabem que seus pais e avós também sabem histórias dos tempos de antes. Hoje as crianças cantam músicas desse tempo, recontam as histórias da sua cidade e experimentam os primeiros passos em direção aos seus próprios dons.
Agora a Caravana segue em direção à Escola Geraldo de Morais, e a gente miúda dessa nova viagem já se encanta com tantas cores e histórias. A Caravana não para e os viajantes não descansam jamais. Cada pouso é a continuação da última viagem.
(fotos 5)
Pela nossa experiência, sempre que ouvimos os anseios e necessidades dos Griôs, seus desejos e vontades, tudo se torna claro, afinal nós é que aprendemos com eles e por eles somos orientadas. Percebemos que nosso papel como griôs aprendizes é ouvi-los com profundo respeito e tentar fazer com que os professores e as crianças queiram ouvi-los também e se encantem com seus saberes.
4. O encantamento da identidade, ancestralidade e alteridade dos estudantes e de todos os participantes da Ação (griô, educadores, griôs aprendizes)
Griô ouvido é griô despertado. Griô reconhecido é griô feliz. Griô fortalecido é griô saudável. Griô valorizado é griô empoderado.
No Quintal da Aldeia os griôs não conseguiram se separar da “turma” e dividiram suas bolsas com outros dois companheiros que no final somaram 15 griôs bolsistas. Isso que é solidariedade e companheirismo.
Não tem conta o tanto de ensinamento bonito que eles compartilharam com a gente e com as crianças, mas algumas frases comoventes não saem de nossas cabeças:
Mestre Bastião de Chica: “Amizade não se compra”; “Minha filha, vocês estão me ajudando a perceber que eu sou uma pessoa boa”; “Vou passar a minha vaga pra outro (com relação a morrer)”.
Griô Nego Aires: “Os jovens precisam aprender a trabalhar; tem que estudar, mas estudar demais pode atrapalhar a fazer outras coisas importantes”. “Aprender não ocupa lugar, quanto mais sabe, melhor fica”.
Griô Armando: “A criança que tem o dom pra música precisa ser estimulada, a criança precisa aprender olhando os mais velhos tocando, que foi como eu aprendi com 10 anos.”
Griô Helena: “É importante ensinar as pessoas a trabalhar desde pequenos.”
Griô Dedé: “Tenho vontade de ensinar pras crianças como é o catira, o sistema da Folia, como a bebida na Folia tem que ser comedida.”
Griô Taninha: “Desde pequena adoro festar. Quando era dia de baile, eu engomava com polvilho a saia rodada e ia pras festas , flap, flap, com a saia fazendo um movimento bonito.”
Griô Laurita: “Acho que tudo que sei é importante. Foi importante pra mim, deve ser pros outros, só não o estudo, pois foi pouco. A seresta, a reza, o bordado, cozinhar. A coisa mais importante que ensinei pro meus filhos foi a responsabilidade. Até hoje eles me agradecem e acho que todos deviam aprender a responsabilidade, honestidade e respeito ao próximo, pois são o melhor bem que a pessoa pode ter.”
Griô Duti: “As coisas que eu gosto – bater pandeiro, por exemplo, pelejei para passar para meu filho. Se a criança tem interesse, ela tem que ser incentivada. Porque com um músico, um sanfoneiro, um pandeirista, a festa está feita. A Folia – o folião tem que saber pular catira e cantar, senão não é folião. Eu toda vida mantive meu repertório. Não sei dançar catira como muitos dançam por aí, mas sempre pulei pra dentro, pra ir aprendendo, pra salvar o bolo. Sanfona eu tive duas, ainda tenho sonho de ter de novo. E o pouso de Folia – só de ver a bandeira chegar quando se dá um pouso, aquele povão, a bandeira no altar da sua sala – é uma satisfação.”
Griô Miuza: “Plantar, é o que considero mais importante, saber limpar o arroz, o feijão e o milho pra planta crescer. Se não souber tirar o arroz, perde tudo. Tudo tem sua época certa de plantar e de colher, a lua certa. Porque sem alimento ninguém sobrevive e hoje em dia nenhuma criança sabe de onde vem o alimento.”
Griô Narcisa: “As mães conversavam entre si – você planta um pé de abóbora e vira ele pra onde quer que ele dê frutos. Se deixar alastrar e madurar na hora de virar, ele quebra. Tem que educar antes de amadurecer, enquanto o cipó está molinho. Elas trocavam referências sobre a educação dos filhos.”
(fotos 9)
Uma história
Miriam é uma jovem estudante com necessidades especiais que se identificou imensamente com o projeto, tendo passeado por todas as suas etapas. Interessante que ao longo do processo Míriam exprimia como se sentia excluída e frustada pelo dia-a-dia escolar, com o qual não se adequava, por suas dificuldades de aprendizado. Durante o processo foi conseguindo demonstrar variados talentos nas atividades corporais e plásticas, dando vazão a sua inteligência intuitiva e sintonia com as propostas. Na apresentação do teatro, apresentou o espetáculo e dançou hip hop acompanhando o grupo “Mensageiros do Rap”, também formado por jovens da comunidade e coordenado por Murcego, griô aprendiz que trabalhou com os alunos a composição do Rap das Avós.
Passou a freqüentar os bailes do Quintal da Aldeia e a conviver mais diretamente com os Griôs e Guerreiras. Em um almoço do dia dos pais, tocou pandeiro e violão com grande senso musical, exercitando aquilo que os mais velhos chamam de dom. Sua mãe passou a incentivá-la nestas atividades, quando antes partilhava com a filha o desconforto do ser “diferente”.
Depoimento de iriam Lima Azevedo, 19 anos
Aluna do Colégio Estadual Nosso Senhor do Bonfim /6° ano B
(foto 10)
Sobre o projeto na escola – as vivências
Foi bom ter a Caravana Guaimbê na escola. Passamos a aprender muitas coisas interessantes, o movimento. As Guerreiras ensinavam, cantavam música. Aprendemos muito com elas e os educadores. Comecei a me interessar pelo que as pessoas faziam, os projetos. Aprendi como trabalhar com projeto, os alunos dão continuidade ao jeito de cantar, de movimentar. Lembrei da minha avó, que mexia com roça, com plantação.
Alguns alunos não gostavam, que atrapalhava a aula. Outros passaram a gostar, a interessar pelas coisas. Eu me senti melhor porque a pessoa vai convivendo com os outros, vai aprendendo e desenvolvendo mais. Pra mim ajudou a esquecer os problemas de convivência.
Lembro que o projeto começava com movimentos, depois vinham as músicas dos griôs. Tinha a música das Avós, “minha avó era mais velha”. Tinham os movimentos da água… a pessoa reconhece mais quando faz o movimento com o corpo. Gostei do Arroxoxô, porque é música com movimentos. Das árvores que fazíamos uns com os outros.
A escola é melhor com projeto, a gente vai reconhecendo, vai dando continuidade. A professora gostou. Quando as Guerreiras falavam as histórias, a turma interessava mais. Esse ano tem gente que sente falta do projeto.
Sobre a apresentação no teatro – resultado do processo
O Murcego ficava cantando música, fazendo movimentos da Capoeira. Jackito fazendo hip hop dentro da roda. Pra mim dançar no palco foi legal, as pessoas ficaram olhando, me disseram que acharam bonito. Quando acabou o teatro, fez aquele baile.
Sobre sua participação nas atividades do Quintal da Aldeia e na comunidade
Acho bom os bailes, os movimentos. São momentos de reunião da comunidade. No baile da Guaimbê toquei pandeiro, violão. Não tinha tido oportunidade de experimentar instrumentos, achei bom mexer com música, dá aquela tranqüilidade. Gostei dos desenhos, fizemos diferentes: quadrados, retângulos bem coloridos, quebra-cabeças.
O Rap é bom de dançar, de desenvolver. Vai passando pela mente. A gente vai fazendo e vai ajudando outras pessoas que não conhecem o ritmo. Eu sou assim, gosto de fazer e ajudar os outros a aprender. Na escola, os jovens gostam do Rap.
Sobre continuidade
Já contei histórias pros meus sobrinhos. Se tivesse que dizer algo aos griôs pediria para eles ensinarem mais da vida deles pra gente, porque faziam de tudo e conheciam muita coisa.
Quero continuar participando, desenvolvendo mais, reconhecendo mais. Quando eu for mais velha vou ensinar sobre o que se conversava, como era a vida antes.
5. Outros registros
Observamos que este primeiro ano do Programa Ação Griô Nacional, como na maioria dos casos onde se implanta uma nova metodologia, serviu para dar início a um trabalho de reconstrução do modelo pedagógico oficial. Sabemos que as escolas são tão reféns das leis de educação instituídas a nível federal quanto de suas próprias limitações de experiência e convívio com metodologias criativas e de cunho comunitário. O convívio escolar é cansativo, competitivo e quase nada criativo, prática que estimula processos de tensão e stress entre a equipe. Deixando um pouco à margem estas questões, pudemos perceber que principalmente para as professoras, trabalhos como estes representam verdadeiros oásis no árduo cotidiano de sua tarefa como educadoras. Elas próprias carecem de estímulo, vivência, capacitação, oportunidades criativas, jogos, brincadeiras. Acharíamos importante o programa propiciar um primeiro momento de “encantamento” oficial.
Mesmo com as dificuldades que se apresentaram durante a caminhada, a experiência teve resultados maravilhosos e a apresentação dos resultados no teatro foi o consagramento, com coroa de ouro, da importância da participação e referência dos griôs em nossas vidas.
Percebemos que as escolas ainda temem a inovação, simplesmente pelo fato de desconhecerem possibilidades reais e não terem nunca, como professores ou educandos, experimentado alternativas ao já conhecido (e falido) método tradicional de ensino. De outro lado, os pais também não compreendem uma educação que não repita o modelo formal estabelecido e ficam alarmados ao perceber seus filhos “brincando” ao invés de “estudar”. A escola foi corajosa ao aceitar, mesmo desconhecendo a metodologia, essas novas propostas dentro de seus muros.
Um fato importante que engrandeceu anda mais a Ação em 2008 foi a integração deste projeto com a Expedição do Redescobrimento (BMR), pois uma metodologia trabalhou no sentido de fortalecer a outra e as duas fortaleceram a nossa metodologia, contribuindo para a sua sistematização. Por fazermos parte das duas ações, percebemos que as duas metodologias garantem definitivamente o empoderamento, protagonismo e autonomia das comunidades envolvidas. O foco das duas iniciativas é a memória, uma garantindo sua perpetuação nos sistemas oficiais de educação e a outra garantindo sua continuidade e valorização nas comunidades, ou seja, uma ação fortalece e valida a outra e quem sai ganhando são as comunidades. Uma parceria mais efetiva neste sentido poderia ser um modo bastante prático e eficiente de reconhecimento e fortalecimento do tema, propiciando maior tempo de convívio com as pessoas da comunidade, favorecendo uma efetiva troca de experiências e garantindo a disseminação destes saberes.
O que ficou de aprendizado pra nós:
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Griôs e griôs aprendizes em convívio de mestres e aprendizes valida a relação e a disseminação de seus saberes;
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Griôs não devem se sentir cumprindo horário de trabalho;
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Os Griôs sentem-se mais seguros se a transmissão de seus saberes nas escolas se der da maneira como eles mesmos aprenderam, promovendo mudanças dos paradigmas educacionais;
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Promover o convivio entre todas as gerações é fundamental para garantir o sucesso da Ação.
Sugestão para os próximos editais: observar a relação existente entre griôs aprendizes/griôs/pontos de origem, porque dessa maneira ela simplesmente se expande para a escola. Para a escola pode ser novo, mas a unidade estabelecida entre os atores envolvidos torna o processo mais natural.
Um bom termômetro a respeito do resultado desta primeira jornada foi o chamado por parte de outras professoras solicitando a ampliação da ação e o desejo de participar deste encantamento.
OBS: AS FOTOS 11 SÃO FOTOS TIRADAS NA CASA DE S. BASTIÃO QUE SE VOCÊ ACHAR QUE SERVEM PRA ALGUMA COISA…texturas, gostosuras…
As fotos 1e 10 são de autoria de Paula Andréa Ramos as outras pode colocar autoria Quintal da Aldeia?