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AÇÃO GRIÔ – PIRENÓPOLIS- COEPI
“Na primeira vez em que vim a Pirenópolis , já fazem alguns bons verões perguntei a uma senhora se ela sabia de um lugar tranqüilo com comida caseira. Ela que puxava um carrinho cheio de biscoitos, me disse: Eu levo vocês lá, me deixem entrar! Depois de algumas curvas e subidas chegamos ao destino. Podem descer, disse Dona Benta, bem-vindos à minha casa, vou fazer um franguinho delicioso. Nesse dia cantamos, ela contou histórias e eu, tão encantada nunca mais me separei- “Benta que Benta é frade.”
O Lugar da griô aprendiz Cristina começou a se desenhar quando ainda bem pequena, no exercício cotidiano vivenciado em familia, de respeito veneração e escuta dos griôs que circulavam em casa. Daí veio a paixão pela histórias, e a oralidade.Em 2000 participou da pesquisa “ Contos do Arco da Veia” (UFG) sob a coordenação da professora Angela Barcelos, revitalizando contadores de histórias e seus causos. O encantamento com os mestres levou-a ao teatro com Marieta, poetiza, Dona Benta (in memória), fazedora de biscoitos e Seu Ico, sineiro da Igreja da Matriz (in memória) coordenado pela diretora de teatro Julia Pascali. O grupo encontrou-se, brincou e apresentou-se inúmeras vezes para diferentes platéias com o espetáculo “ As Empregadas”, e tudo surpreendia sempre: eram momentos permeados pelo inusutado, um exercício profundo de situar-se no mundo com coragem e dignidade, sem medo de ser feliz. Em 2003 coordenou a pesquisa da Época do Natal na escola Waldorf Pirilampo com as griôs Laurita e Narcisa, tendo como resultado um singelo cd gravado com as Mestras de Canções de Presépio, pais e crianças. Todos se envolveram e emocionaram profundamente. Em 2005 Participou do projeto de reorientação curricular no estado de Goiás representando os historiadores de Pirenópolis e defendendo a necessidade de valorização da tradição oral e ancestralidade dentro da escola. Desde então vem realizando um trabalho de reconhecimento da história local e mapeamento de griôs da comunidade, com o envolvimento de alunos dos Ensinos Fundamental, Médio e Educação de Jovens e Adultos-EJA Dentro deste trabalho diversas ações vem sendo promovidas, como: sessões de contadores de história, pesquisa sobre a história do bairro, vivências com cantigas de presépio, brincadeiras, catira e outras tradições locais, propiciando, por meio destas atividades, a interação entre a comunidade e o ensino formal, fortalecendo a identidade cultural do bairro e da cidade como um todo. Em 2006 desenvolveu uma ação com contadores de história no Colégio Estadual Senhor do Bomfim. E atualmente está trabalhando em um espetáculo de teatro e música com dois griôs.
“Sinto-me privilegiada por trilhar a jornada da Ação Griô 2007 com tão honrados mestres do maior ofício- o da vida. Do poder da fé e veneração às modas de viola, do profundo respeito às ervas do cerrado à alegria de se pular catira e bater palmas com o eco da terra tremulando o coração!
Grão a grão venho descobrindo possibilidades cada vez maiores de luz no caminho da ancestralidade, reveladores da minha própria identidade, que se fortalece e recria com símbolos desses velhos amigos tão mestres.A Ação Griô oportunizou aos saberes locais a possibilidade de cruzar caminhos em todo o Brasil, fortalecendo a rede de tradição oral, que por se consolidar de dentro pra fora nas comunidades e indivíduos é capaz de transformações na estrutura do ser e da sociedade. Considero importante ampliarmos encontros e trocas “tali-quali” se faz na tradição oral: com mais rodas de conversa e escuta- “assim um ajuda o outro”. (Dona Benta)”
O Ponto
A Comunidade Educacional de Pirenópolis – COEPI – tem como missão promover a felicidade e o desenvolvimento humano através da Arte, Educação e Meio Ambiente. Fundada em 1996, a COEPI firmou-se na cidade como um centro complementar ao ensino formal. Em 1999 teve inicio a construção de sua sede com o apoio de associados e do comercio local, espaço que conta hoje com 4 módulos circulares de aula integrados por amplo jardim demonstrativo de praticas agroecologicas. Pouco a pouco o trabalho foi ganhando força da comunidade e a instituição ampliando suas atividades artísticas, lúdicas e ambientais através de oficinas, vivencias, treinamentos, festas e eventos culturais, buscando sempre o desenvolvimento integral do ser humano.
A COEPI teve a grata satisfação de conviver com dois importantes ícones da tradição oral em Pirenópolis, que foram Dona Benta e Seu Ico. Ambos atuaram em diversos encontros e oficinas em nossa anual Feira do livro, em sessões de contadores de história nas escolas públicas, em peças de teatro com o grupo “Coisas Nossas” e no projeto “Conhecer para Preservar” na qualidade de patrimônio imaterial, realizado pelo IPHAN em parceria com a COEPI. A saudosa perda, por falecimento, de tais depositários do saber popular, respectivamente em novembro de 2005 e janeiro de 2006, nos levou a reforçar a importância de divulgação e registro da sabedoria destes e de outros mestres pirenopolinos.
No ano de 2000 a professora Ângela Barcellos Café, deu início a pesquisa: “Contos do Arco da Véia: registro e valorização da cultura oral pirenopolina”, em Pirenópolis, identificando e registrando contos e narrativas de alguns Contadores de Histórias de raiz. Formou-se então, um grupo de contadores de histórias por meio de oficinas teórico-práticas ministradas pela professora Ângela, composto por professores da rede pública e moradores de bairros diversos de Pirenópolis. Com o principal objetivo de valorizar a cultura oral, todos os registros das histórias, foram recolhidos em sessões públicas e gratuitas de Contação de Histórias, procurando atingir vários espaços, com públicos diferentes, como: escolas, pousadas e hotéis, centros comunitários e outros… Em 2007, o grupo de pesquisa da UFG iniciou o registro dessas histórias para publicação de um livro e CD, ainda em andamento.
Como parceira na Ação Griô, a professora Ângela montou junto ao Conselho Estadual de Educação um curso de formação continuada para os professores da rede pública, com 120 horas de duração iniciado em 2008, dando subsídios para que estes possam desdobrar ações e formalizar um currículo contemplando os saberes da tradição oral como conteúdo dentro e fora da sala de aula.
Em 2006, a COEPI realizou o projeto Modinhas de Goiás – registro em imagem e som, que identificou e registrou várias fontes guardiãs de memória da prática desse gênero musical nas cidades de Pirenópolis, Cidade de Goiás, Goiânia e arredores. Coordenado pelo músico e pesquisador Roberto Corrêa, o projeto teve a participação de vários griôs e culminou com a publicação de um vídeo musical de 30 minutos, distribuído para Pontos de Cultura, bibliotecas e escolas.
Preocupada com a falta de apoio aos grupos tradicionais de catira em Pirenópolis, a COEPI vem trabalhando há 4 anos no fortalecimento do grupo Raiz de Pirenópolis, através de oficinas em nossa sede e em escolas da cidade e da promoção de apresentações públicas. Comandado pelos griôs Mário e Duti, esse trabalho se desdobrou em 2007 no grupo ProFusão Rítmica, que integra os grupos de Catira, Dança de rua, Teatro Infantil e Fruto Maduro da COEPI reunindo diferentes gerações no resgate e fusão de linguagens tradicionais e contemporâneas. Experimentando e fundindo ritmos, o grupo vem dando uma nova roupagem às brincadeiras e danças populares do interior de Goiás.
A Ação Griô trouxe para a Coepi neste ano de trabalho numa escola, com quinze griôs e oitocentas crianças, a certeza de que numa comunidade, tendo os pontos de cultura como parte dela, se há veneração, respeito e escuta de seus avós e mestres, fica muito mais verdadeiramente possível a busca de soluções para as questões fundamentais da vida, (e para as questões simples e delicadas também) que sejam transformadoras e norteadoras de valores e novos paradigmas. No convívio entre gerações todos crescem, de forma orgânica – sementes, frutos e flores. Mas… há muito que fazer, o caminho está só começando!!!
Aos Mestres
Enquanto Marieta poetiza o caminho,
Mário e Dedé ensinam aos meninos a postura reta de vida na catira,
Seu Duti com dignidade e mão certeira no pandeiro…dá o toque e elegância de quem viajou sem sair muito daqui,
A força que vem da alma e da voz do Armando e do Luís, causam estrondo às montanhas e aos vales da cidade,
O toque das sanfonas do Lourenço e do Nô alegram o coração de qualquer um, dão vontade de dançar!
Seu Nego Aires é exemplo de determinação no cavaquinho e postura de vida!
Miuza uma força tão delicada e absolutamente intensa como das ervas do cerrado
Tânia arauto da alegria, trazedora do sorriso que cura e que alivia
Dona Helena sempre acolhedora e terna, com causos tão engraçados…
Dona Laurita com fé intensa, capaz de mudar o mundo, declarada nas canções de presépio
Dona Narcisa tão forte e generosa que transparece no olhar, nas brincadeiras recordadas
Mestre Bastião, alegria de criança diante do poder renovar-se a cada momento, em si e nos amigos que fez
Peço a bênção a vocês, avós e avôs, pessoas de grande coração e coragem: de revelar-se e compartilhar-se! Deus os guarde e proteja!
Cristina campos