Carta Avaliação da Colheita – Rosana Bianchini / Instituto kairós

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Carta Avaliação da Colheita

Depois de três dias de caminhada me pego sentada ao computador no bate pronto da emoção em direção à conquista de um espaço de comunicação e aprendizado com vocês.

Apesar da noite de quase inverno o que eu queria mesmo era estar agora em um campo ensolarado colhendo poemas silvestres, juntá-los em buquê e presentear cada um de vocês que contribuíram com este plantio! Minha esperança é que a gratidão que sinto hoje por todos aqui presentes, fosse devolvida em dobro por tudo que me proporcionaram nestes três dias.

Cheguei aqui com uma grande curiosidade pela forma como nossa reflexão se daria na direção da sistematização de nosso livro e de nossa ação, que cheguei pronta a fazê-la , mas fui percebendo ao longo dos dias, que de fato ainda não a conhecia. Pelo menos não na sua alma, na sua essência, em seus cheiros e perfumes mais especiais.

Pela primeira vez depois de um ano de ação Griô, tive o meu momento de encantamento: encantamento pelas pedagogias dos pontos, pelas conquistas do nosso ponto no ano, pelas facilidades que hoje temos, pelas nossas dificuldades encontradas ao longo deste caminho. A Colheita da Caminhada foi para mim de fato um primeiro ato de aprendizagem da Ação.

Toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva. E o afeto, ( que em sua raiz etmológica significa “ir atrás”), é sempre o movimento da alma na busca de algo que se quer.

Uma vez li não me lembro onde, o papel do educador é como o do cozinheiro…. antes de dar a faca e o queijo ao aluno, deveria provocar a sua fome… Se ele tiver fome, mesmo que não haja queijo, descobrirá uma forma de fazer uma maquineta para roubar queijos…

Portanto, pela primeira vez desde que a ação começou, percebo que senti fome. Não aquela de todos os dias do almoço corrido ou de lanches fast food encontrados pelas esquinas da vida. Uma fome que não se sacia rapidamente pelo simples fato de preencher uma necessidade física. Eu tive a fome do encontro ou da possibilidade dele, do sopro de afeição necessário só conseguido quando nos preparamos para o real embate de almas famintas…

Uma fome que preza antes do preparo do prato, o preparo da mesa, onde o ritual faz parte do jantar, (que melhor seria se pudesse demorar…) pela possibilidade de sentir todos os aromas e sabores no vapor que se espalharia pela casa, trazendo só depois ao ato de comer , a grata confirmação dos sentidos que se colocaram a postos na experimentação…

Experimentamos portanto o labor como sabor fazendo caber a possibilidade de ter a fome como o prato principal, como combustível de nosso desejo de descobrir não a receita do bolo , mas o ingrediente único e mágico que dá a ele ao mesmo tempo a magnitude do manjar dos deuses e a simplicidade real do sabor do fogão de roça e de vó que tem uma correspondência direta com o nosso mundo afetivo capaz de ativar nossas memórias mais íntimas e pessoais !

Me sinto agora portanto preparada para um banquete às avessas, que sei, não será servido nem hoje e nem agora , mas quando a emoção do encontro que eu vivi aqui nestes três dias contagiar toda equipe de nosso Ponto e encontrar correspondência e espaço para o compartilhamento real do aprendizado e da continuidade de nossas experiências…

Como eu me sinto agora, depois da colheita? preparada para construir maquinetas de roubar queijos!

Rosana Bianchini / Instituto kairós

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