Arquivo paraMaio 7, 2008

Uma ação, ao pé do fogão – Projeto Presente

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Casa de Dona Piedade- 08/08/007.

Uma ação, ao pé do fogão.

O aprendizado começou à afunilar, D. Piedade, orientou-me, numa conversa ao pé do fogão, sobre seus aprendizados, com as ervas medicinais, disse-me, acreditar que tudo que aprendeu sobre “ervas”, veio de sua tia, uma senhora vidente que lhe pediu em primeiro lugar, que (nunca) deixasse de conversar com as plantas, só assim elas (as ervas) dariam o favor da cura ao próximo.

Disse- me também naquela tarde, que não gostava dos Anús Preto que sobrevoavam sua casa, afirmando-me, que quando Anu-Preto sobrevoa seu terreiro, era sinal de notícia ruim, e na mesma tarde por menos de duas horas passadas, sua filha, a “Ana Paula”, dentrou-se em sua cozinha dizendo que o vizinho, uma criança de 10 aninhos teria caído da carroça do cavalo, e teria quebrado a cabeça na parte frontal. Curar câncer com argila, afirma D. Piedade, que é só se entender com o barro, e se possível, o barro que vem do fundo da terra trazido pelas formigas. – Neste mesmo dia pedi a ela com devoção , que preparasse um chá que devorasse minha bronquite. E dona Pi, com muita piedade de mim, disse para eu ter calma, que em setembro o Cipó de São João florescera novamente, e me trará a cura.

Feira da palavra – Projeto Presente

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Feira da Palavra

Pra´quem sabe ler um pingo é letra,

25/08/07. Casa do SR. Juquinha, Lapinha da Serra, Serra do Cipó M/G.

Estávamos em bar tomando um suco de frutas, preparando para seguir viagem quando seu Juquinha, nos disse que gostaria que houvesse um encontro em sua casa similar ao que aconteceu na residência de Dona Piedade, no primeiro semestre, em meios de muitas brincadeiras disse a ele que não faria nem um encontro em seu terreiro, Juquinha por sua vez, fechou a cara para mim e o Vinicius, logicamente meio sem graça e ao mesmo tempo feliz… Abracei o Sr. Juquinha, pedi desculpas pela brincadeira que (jamais pensei em ser de mal gosto) e depois com muitas risadas, combinamos a data da Feira da Palavra , lembro-me bem naquele fim de tarde inicio de noite de um domingo de junho, seu Juquinha emocionado gritou de longe:- “hô Fernando, vê se o ce marca a data da Fêra da Palavra lá pru fim de Julho!”, com o carro saindo, respondi a ele:-Poço marcar para o dia vinte e cinco?-Pode é um ótimo dia, falou o seu Juquinha com um belo sorriso escancarado de norte a sul, felicíssimo e sentindo muito forte a presença de Deus naquele momento e ainda sentindo muito de perto o que era a verdadeira Luz divina do Mestre e do Griô para o Griô Aprendiz que sou eu este Fernando que lhes escreve e que gritou despedindo (agora de vez) do seu Juquinha, -será no dia vinte e cinco de Julho, o dia do meu aniversário! –Serio, se eu escrever aqui que vi luzes, irão todos os leitores achar que fiquei louco, mas afirmo: vi sim luzes, alias belas luzes

DIA 25 DE JULHO, ( o dia fora do tempo ).

A viagem foi maior que o tempo, o mês passou e lá estava eu novamente na Casa de seu Juquinha, não conseguimos montar de vez a Feira da Palavra, mas a festa foi ótima, estava com a Pollianna, minha parceira de todas as horas, encontramos vários amigos e fizemos um feriado com muitas miraçôes, marcamos para o fim de agosto, agora com melhor entendimento para todos, Pollianna, D. Lina, esposa do Sr. Juquinha, e eu, anotamos em um papel, o nome de todas as arvores e plantas que havia em seu quintal, anotamos também, outros nomes de objetos que habitava aquele terreiro, passado alguns dias,( e já encontrava-mos em agosto ante véspera de nossa festa/ação) voltamos a Lapinha da Serra, com a programação pronta, em papel, logicamente introduzo o leitor a um passeio por estes últimos dias, e já adianto – tivemos problemas sérios nas últimas semanas na “lapinha da Serra”, ( é uma peninha ter que citar estes fatos lamentáveis em um livro didático) um estúpido indivíduo tentou assassinar o outro , pronto, fim, falamos. A comunicação com o seu Juquinha para a organização do encontro foi via fone comunitário, e a comunidade da Lapinha encontrava-se a pavorosa devido o fato citado, nisto desmarcamos o evento duas vezes, e acertamos para vinte e cinco de agosto, confirmamos a ida de D. Mercês nossa outra Mestre querida para comparecer na nossa Ação Griô, com muita alegria ela levantou a mão para o Céu pediu graças a Nossa Senhora do Rusario, e confirmou a sua presença, D.Piedade, nossa outra Mestres que nos orienta sobre ervas medicinais, quase explodiu de alegria quando eu e Vinicius confirmamos a data, “já tô lá!” disse ela a nós.D. Divina (que o nome já diz tudo) não pôde comparecer, dizendo que seu machucadinho nos pés ainda não havia melhorado.

-Convidei Daniel Porto, um grande amigo e profissional na área de Vídeo para nos ajudar na organização e filmagens, tudo muito acertado com a O.N.G. Rede Catitu, que é parceira do Projeto Presente, a O.N.G. proponente da Ação Griô, seguimos de Belo Horizonte para a Serra do Cipó (M/G.) no dia 23 de agosto as 07:00 hs. De uma manhã ensolarada, em companhia do Vinicíus que é um moço sério, Presidente do Projeto Presente, seu carro Toyota, Daniel Porto com sua Câmara de Vídeo e eu com a minha cabeça em cima do pescoço, seguimos primeiro para o Município de Jaboticatubas M.G. onde encontramos a nossa querida agente cultural, Paula Oliveira que nos brindou na escola Municipal Cândida de Lima na mesma cidade de Jaboticatubas M/G , juntamente estava dona Divina que ali estava para uma palestra de nossa programação de calendário da nossa Pedagogia Griô que foi batizada de Amamentação, a qual simbolizava o “ encantar com suas Histórias de vida”encantado os alunos coordenados pela a Professora ,D. … da 4º série do ensino fundamental. Eu como entre mediador, soprava aos alunos de D. …, um pouco da sapiência de Dona Divina, uma lembrança boa e especial que guardo deste encontro, foi um hino que recebi dos Céus, e o título que escolhi, foi:- O Divino e a Fé, vejam!

O Divino e a Fé.

A dona Divina,

Ela é Divina

*Majestosa, sapiente,

Reza a oração, faz a comunhão,

*Em seu terreiro Matição

Todo São João, ergue o Bastão,

*Tem fogueira no Matição

Atravessar aquela brasa,

*Tem que Mirar, pedir Perdão.

Faz o festejo da consagração

(Convidamos a cantar duas vezes onde tiver este símbolo, (*) na frente da canção).

Bem, voltando ao encontro com dona Divina na escola, digo a todos (as) foi um encanto!

As crianças estavam comportadíssimas, pareciam que todos nos estávamos flutuando naquela sala de aula, as perguntas das crianças foram ótimas, desde; – o que é sapé, até como era cidade nos bons tempos de infância de dona Divina, perguntaram também se ela ia a escola descalço, e a rizaiada foi geral, e o restante da História vocês vão ver no Vídeo que o Daniel Porto produziu junto com a Rede Catitu Cultural.

Dia 23 de agosto

Depois de ter passado na casa de dona Mercês e ganhado um abraço daqueles apertado d´ela pedi ao Vinícius que rumasse para o distrito de Cardeal Mota, via a estrada velha para que nós apanhássemos limões, para nossa limonada no dia seguinte, e ao bater palmas na primeira moradia que arregalava nossos olhos envolvidos de tantos frutos de nosso interesse, veio outra surpresa boa, o proprietário da fazenda era, e é mais um Mestre de nossa Cultura popular brasileira o Sr. Jó, que nos presenteou com os limões, e afirmando que também iria nos dar a graça de comparecer em nossa Feira da Palavra, como foi e tocou belas musicas. Depois da boa conversa ali como senhor Jô, continuamos nossa jornada, estrada a fora, e dez minutinhos já estávamos tomando um café mineiro, coado com amor pelo marido “Zezé” de dona Piedade, conversa vai, conversa vem, combinamos tudo tim-tim por tim-tim sobre nossa “Feira” com dona Piedade e seguimos para a casa do Vinicius em busca de um jantar e pensamento, ligado na Feira da Palavra, que estava por pouco para dar certo. Vinícius ficou a favor de levar de carro no outro dia os nossos Mestres, eu e Daniel Porto, seguiríamos no raiar do sol para a Lapinha da Serra, e estávamos a 45 km. De distancia da casa de seu Juquinha. Então após aquele jantar, o qual eu preparei, miramos em umas orações de agradecimentos e firmamento para o outro dia , começamos ali a confeccionar as palavras pré anotadas pela a Pollianna, e ditadas pela dona Lina , ainda naquela noite pós o jantar, escolhi o slogam, que foi proposto por nosso Daniel , que ficou, até então:- Feira da Palavra, Encontro do saber, pra´dar e vender”. Vinícius o craque multimídia de nossa História , pôs-se a confeccionar em suas cartolinas letras maravilhosas, bem no estilo Hai tech, Daniel o do porto, mas que vive nas montanhas porque tem as manhas, confeccionou belas palavras coloridas e abusadas, algumas com desenhos, outras com letras conjugadas, e assim com os meus poemas , colorindo aquela noite e as cartolinas azuis, passamos a mais bela noite literária de nossas vidas.- Para deixar o leitor curioso retratarei um dos poemas que recebi naquela noite, véspera da nossa Feira. Na cartolina desenhei, samambaias e escrevi obviamente a palavra Samambaia, e atrás do cartão, veio este Poema:- “Sou eu que enfeito sua varanda, e recebo teus amigos”, num é legal?- As demais frases vocês verão em nosso vídeo.

Dia 24 de agosto

Agora é relaxar e aproveitar

De coração a sabedoria.

Eu vim aqui me apresentar

Me reconhecer neste lugar

Simples pessoas, ricas sabedorias

De encantamento, infinito saber.

Com esta cantiga descíamos e subíamos montanhas, eu, Daniel e a “Kombi, de codinome:- Marileide pé na roça” do Projeto Presente que delicadamente apelidamos de (roceira, pois ela só gostava de rodar na estrada de terra) e fomos cantarolando em busca de entender o que seria nossa Feira da Palavra. –Alegrissimos, chegamos cedo na casa do Mestre Juquinha, sua família encontrava-se preocupada com nossa Feira que estava por poucas horas à começar. Depois de um bom papo, pedimos licença aos donos da casa e começamos a varredura no terreiro de seu Juquinha, e o movimento foi geral as crianças ficaram, na incumbência de convidar outras crianças para participarem da festa, embora o nosso agente jovem o “Wilmar” já havia convidado os moradores local, depois da limpeza do terreiro, escrevemos a lista de mantimentos proposta por dona Lina, e fomos até a uma mercearia situada na Lapinha e fizemos as compras de alimentos que serviríamos no dia seguinte na festa da Feira da Palavra, tudo muito organizado, aplicamos $153,00 (Cento e cinqüenta e três reais) em mantimentos que serviram o nosso cardápio, caldo de feijão com carne cosida, caldo de mandioca com lingüiça, pipocas, frutas e doces da roça também abrilhantaram nossa festança. Logo que dona Lina começou a preparar a comilança, partiu eu e Daniel, em busca de convidar outras pessoas que considerávamos importante comparecer em nossa festa, tudo solucionado, fomos dormir e sonhar com o encantamento que estava por vir no outro dia…

Dia 25 de Agosto:

-Ainda não era sete da manhã quando Rafael e Gilmara (netos de seu Juquinha e de dona Lina) havia nos acordado para tomar café e começar a arrumação do terreiro, meio sonolento e feliz, acorda eu e Daniel amassados da dormida na barraca, e partimos para a organização final antes da festa. Decidimos que a frase “ Feira da Palavra” ficaria afixada na cerca de arame farpado na entrada do terreiro onde seria o encontro festivo, os transeuntes perguntavam a todo momento o significado daquela peleja, e as respostas pedimos as crianças que respondiam por todos, dona Lina pediu que comprássemos mais balões para enfeitar o varal de secar roupas, as mais de dez crianças que já se encontrava por ali, colocamos a disposição dezenas de lápis de cera para que todas pudessem desenhar, e escrever frases de boas práticas para colorir ainda mais aquele terreiro. Wilmar, o agente Cultural que atua na comunidade da Lapinha da Serra, trouxe e afixou com um barbante todo trabalho pré confeccionado pelos alunos que participam de nossa Pedagogia Griô, as redações que foram casos extraídos anteriormente com a passagem do Mestre Juquinha na escola deu um brilhantismo grande em nossa Feira, e assim fomos pregando as frases e palavras pré confeccionadas em seus devidos lugares, onde tinha uma bananeira afixávamos a palavra bananeira, e assim sucessivamente colamos todas as frases em seus devidos lugares, só uma exceção, na arvore do café, colocamos (propositalmente) a palavra “Dama da noite”para brincar na ora da Feira, com o propósito de fazer valer à adivinhação, que foi um sucesso e corre-corre, o homem que adivinhasse a troca proposital, ganharia um abraço apertado de dona Lina, e se fosse uma mulher que acertasse o combinado ganharia um abraço do Sr. Juquinha, com muitos sorrisos, chegamos as 13:00hs, e os convidados já se estavam chegando para a Festa. Foi muito forte ver os convidados chegarem, parecia que toda a comunidade iria participar da nossa Ação, ver aquelas vovós e vovôs descendo a rua de seu Juquinha e adentrando em seu terreiro foi surpreendente, afinal a Lapinha havia passado por uma grande decepção social, e logo-logo chegou o Vinícius com os nossos Mestres e convidados e o terreiro ficou ainda mais lindo e colorido. O almoço foi servido e eu que estava preparado para dar inicio as atividades, fiquei a ver navios, pois dona Mercês e os demais Mestres começaram com uma oração linda abençoando a casa de seu Juquinha e a nossa festa, um chororó de emoção tomou conta de todos, e logo após fiz meu palavreado de agradecimento a Deus e convidei a todos para participarem da brincadeira de adivinhar qual arvore foi trocada de nome, e pra´variar as crianças espertas da Lapinha não demoraram mais que um minuto e adivinharam a brincadeira que foi ótima e marcante para todos. Como interlocutor da farra convidei seu Juquinha para contar uma História e ele na mesma ora levantou-se da cadeira e nos contou a mais bela História que havia escutado em um terreiro, foi de uma emoção encantadora, não sabia se prestava á atenção em seus gestos ou no rosto daquelas pessoas simples e bonitas que estavam em nosso redor. Assim que terminou a fala do nosso Juquinha, dona Mercês abriu seu vozeirão com as mais belas cantigas que já havia escutado e como era normal a festa foi chegando gente bonita de todos os lados e a música de dona Mercês tomou conta daquele terreiro, seu Jô nosso mestre tocava viola, eu na percussão juntamente com o Wilmar e o Vinícius no pandeiro, e vários números de dança nos envolveu naquela tarde, recortado, umbigada, e batuque não faltou, tivemos até um batuque especial com as crianças dançando e cantando e mais chororó nos rostos de todos, rolou….

-Acreditamos depois de ter visto estas cenas, que jamais o batuque nestas montanhas acabará, que lindo foi!- D. Mercês já tinha combinado conosco que retornaria as 18h00minhs, e provavelmente nesta passagem que estamos descrevendo deveria ser 17h59minhs, mas quem disse a ela que conseguiria voltar no horário combinado, eram beijos e abraços por todos os lados, dona Piedade emocinadissíma abraçava todos, una grande emoção veio à tona, quando sugeri que saiscímos da casa de seu Juquinha cantarolando, “ta caindo fulô”, Música que eu imaginava ser a mais bela para o momento, como foi.

Dona Geralda, filha do Mestre Mundinho não desgrudava de dona Mercês, pedindo a ela que rezasse um terço em sua residência, atravessamos o pequeno povoado da Lapinha ainda pesadíssimos de tanta emoção, e chegamos até a casa de dona Geralda e de seu marido Belizário para rezarmos o terço, que por sua vez, foi o mais belo até então.

Dona Mercês além de puxar as orações convidava a todos para abraçar a” Nossa Senhora da Aparecida” que esta resguardando o lar da cumá (comadre) Geralda, mais um chororó tomou conta novamente de todos nós, neste momento sublime de saída da casa, dona Piedade pesadíssima elevou suas mãos aos Céus e agradeceu por estar ali conosco, dizendo que a poucos meses teria feito uma operação de risco.-Nisto, Vinícius já havia ligado seu carro, o último corre-corre do dia estava por acabar, as luzes dos postes já estavam todas acesas, dona Mercês da janela do carro gritou pra´mim, “hô Fernando cê gostou da festa, foi do jeito que você queria?” –Eu então respondi:- Adorei, tudo que sonhei em ver, era os nossos Mestres juntos aqui na Lapinha!- Um vento soprou a poeira que nos envolvia, e descemos a ladeira em direção a casa da casa do nosso Mestre Juquinha cantarolando as mais belas cantigas de improviso “ viva a Feira da Palavra

Viva a Feira da Palavra

Quem vai querer,

Quem vai levar.

Quem vai querer,

Quem vai chegar.

Palavras descritas, pelo Griô Aprendiz, Fernando Fabrini.

Trilha – COEPI

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AÇÃO GRIÔ – PIRENÓPOLIS- COEPI

Na primeira vez em que vim a Pirenópolis , já fazem alguns bons verões perguntei a uma senhora se ela sabia de um lugar tranqüilo com comida caseira. Ela que puxava um carrinho cheio de biscoitos, me disse: Eu levo vocês lá, me deixem entrar! Depois de algumas curvas e subidas chegamos ao destino. Podem  descer, disse Dona Benta, bem-vindos à minha casa, vou fazer um franguinho delicioso. Nesse dia cantamos, ela contou histórias e eu, tão encantada nunca mais me separei- “Benta que Benta é frade.”

O Lugar da griô aprendiz Cristina começou  a se desenhar quando ainda bem pequena, no exercício cotidiano vivenciado em familia, de respeito veneração e escuta dos griôs que circulavam em casa. Daí veio a paixão pela histórias, e a oralidade.Em 2000 participou da pesquisa “ Contos do Arco da Veia” (UFG) sob a coordenação da professora Angela Barcelos, revitalizando contadores de histórias e seus causos. O encantamento com os mestres levou-a ao teatro com Marieta, poetiza, Dona Benta (in memória), fazedora de biscoitos  e Seu Ico, sineiro da Igreja da Matriz (in memória) coordenado  pela diretora de teatro Julia Pascali. O grupo encontrou-se, brincou e apresentou-se inúmeras vezes para diferentes platéias com o espetáculo “ As Empregadas”, e tudo surpreendia sempre: eram momentos permeados pelo inusutado, um exercício profundo de situar-se no mundo com coragem e dignidade, sem medo de ser feliz. Em 2003 coordenou a pesquisa da Época do Natal na escola Waldorf Pirilampo com as griôs Laurita e Narcisa, tendo como resultado um singelo cd gravado com as Mestras de Canções de Presépio, pais e crianças. Todos se envolveram e emocionaram profundamente. Em 2005 Participou do projeto de reorientação curricular no estado de Goiás representando os historiadores de Pirenópolis e defendendo a necessidade de valorização da tradição oral e ancestralidade dentro da escola. Desde então vem realizando um trabalho de reconhecimento da história local e mapeamento de griôs da comunidade, com o envolvimento de alunos dos Ensinos Fundamental, Médio e Educação de Jovens e Adultos-EJA Dentro deste trabalho diversas ações vem sendo promovidas, como: sessões de contadores de história, pesquisa sobre a história do bairro, vivências com cantigas de presépio, brincadeiras, catira e outras tradições locais, propiciando, por meio destas atividades, a interação entre a comunidade e o ensino formal, fortalecendo a identidade cultural do bairro e da cidade como um todo.   Em 2006 desenvolveu uma ação com contadores de história  no Colégio Estadual Senhor do Bomfim. E atualmente está trabalhando em um espetáculo de teatro e música com dois griôs.

Sinto-me privilegiada por trilhar a jornada da Ação Griô 2007 com tão honrados mestres do maior ofício- o da vida. Do poder da fé e veneração às modas de viola, do profundo respeito às ervas do cerrado à alegria de se pular catira e bater palmas com o eco da terra tremulando o coração!

Grão a grão venho descobrindo possibilidades cada vez maiores de luz no caminho da ancestralidade, reveladores da minha própria identidade, que se fortalece e recria com símbolos desses velhos amigos tão mestres.A Ação Griô oportunizou  aos saberes locais a possibilidade  de cruzar caminhos em todo o Brasil, fortalecendo a rede de tradição oral, que por se consolidar  de dentro pra fora nas comunidades e indivíduos é capaz de transformações na estrutura do ser e da sociedade. Considero importante ampliarmos encontros e trocas “tali-quali” se faz na tradição oral: com mais rodas de conversa e escuta- “assim um ajuda o outro”. (Dona Benta)”

O Ponto

A Comunidade Educacional de Pirenópolis – COEPI – tem como missão promover a felicidade e o desenvolvimento humano através da Arte, Educação e Meio Ambiente. Fundada em 1996, a COEPI firmou-se na cidade como um centro complementar ao ensino formal. Em 1999 teve inicio a construção de sua sede com o apoio de associados e do comercio local, espaço que conta hoje com 4 módulos circulares de aula integrados por amplo jardim demonstrativo de praticas agroecologicas. Pouco a pouco o trabalho foi ganhando força da comunidade e a instituição ampliando suas atividades artísticas, lúdicas e ambientais através de oficinas, vivencias, treinamentos, festas e eventos culturais, buscando sempre o desenvolvimento integral  do ser humano.

A COEPI teve a grata satisfação de conviver com dois importantes ícones da tradição oral em Pirenópolis, que foram Dona Benta e Seu Ico. Ambos atuaram em diversos encontros e oficinas em nossa anual Feira do livro, em sessões de contadores de história nas escolas públicas, em peças de teatro com o grupo “Coisas Nossas” e no projeto “Conhecer para Preservar” na qualidade de patrimônio imaterial, realizado pelo IPHAN em parceria com a COEPI. A saudosa perda, por falecimento, de tais depositários do saber popular, respectivamente em novembro de 2005 e janeiro de 2006, nos levou a reforçar a importância de divulgação e registro da sabedoria destes e de outros mestres pirenopolinos.

No ano de 2000 a professora Ângela Barcellos Café, deu início a pesquisa: “Contos do Arco da Véia: registro e valorização da cultura oral pirenopolina”, em Pirenópolis, identificando e registrando contos e narrativas de alguns Contadores de Histórias de raiz. Formou-se então, um grupo de contadores de histórias por meio de oficinas teórico-práticas ministradas pela professora Ângela, composto por professores da rede pública e moradores de bairros diversos de Pirenópolis. Com o principal objetivo de valorizar a cultura oral, todos os registros das histórias, foram recolhidos em sessões públicas e gratuitas de Contação de Histórias, procurando atingir vários espaços, com públicos diferentes, como: escolas, pousadas e hotéis, centros comunitários e outros… Em 2007, o grupo de pesquisa da UFG iniciou o registro dessas histórias para publicação de um livro e CD, ainda em andamento.

Como parceira na Ação Griô, a professora Ângela montou junto ao Conselho Estadual de Educação um curso de formação continuada para os professores da rede pública, com 120 horas de duração iniciado em 2008, dando subsídios para que estes possam desdobrar ações e formalizar um currículo contemplando os saberes da tradição oral como conteúdo dentro e fora da sala de aula.

Em 2006, a COEPI realizou o projeto Modinhas de Goiás – registro em imagem e som, que identificou e registrou várias fontes guardiãs de memória da prática desse gênero musical nas cidades de Pirenópolis, Cidade de Goiás, Goiânia e arredores. Coordenado pelo músico e pesquisador Roberto Corrêa, o projeto teve a participação de vários griôs e culminou com a publicação de um vídeo musical de 30 minutos, distribuído para Pontos de Cultura, bibliotecas e escolas.

Preocupada com a falta de apoio aos grupos tradicionais de catira em Pirenópolis, a COEPI vem trabalhando há 4 anos no fortalecimento do grupo Raiz de Pirenópolis, através de oficinas em nossa sede e em escolas da cidade e da promoção de apresentações públicas. Comandado pelos griôs Mário e Duti, esse trabalho se desdobrou em 2007 no grupo ProFusão Rítmica, que integra os grupos de Catira, Dança de rua, Teatro Infantil e Fruto Maduro da COEPI reunindo diferentes gerações no resgate e fusão de linguagens tradicionais e contemporâneas. Experimentando e fundindo ritmos, o grupo vem dando uma nova roupagem às brincadeiras e danças populares do interior de Goiás.

A Ação Griô trouxe para a Coepi neste ano de trabalho numa escola, com quinze griôs e oitocentas crianças, a certeza de que numa comunidade, tendo os pontos de cultura como parte dela, se há veneração, respeito e escuta de seus avós e mestres, fica muito mais verdadeiramente possível a busca de soluções para as questões fundamentais da vida, (e para as questões simples e delicadas também) que sejam transformadoras e norteadoras de valores e novos paradigmas. No convívio entre gerações todos crescem, de forma orgânica – sementes, frutos e flores. Mas… há muito que fazer, o caminho está só começando!!!

Aos Mestres

Enquanto Marieta poetiza o caminho,

Mário e Dedé ensinam aos meninos a postura reta de vida na catira,

Seu Duti com dignidade e mão certeira no pandeiro…dá o toque e elegância de quem viajou sem sair muito daqui,

A força que vem da alma e da voz do Armando e do Luís, causam estrondo às montanhas e aos vales da cidade,

O toque das sanfonas do Lourenço e do Nô alegram o coração de qualquer um, dão vontade de dançar!

Seu Nego Aires é exemplo de determinação no cavaquinho e postura de vida!

Miuza uma força tão delicada e absolutamente intensa como das ervas do cerrado

Tânia arauto da alegria, trazedora do sorriso que cura e que alivia

Dona Helena sempre acolhedora e terna, com causos tão engraçados…

Dona Laurita com fé intensa, capaz de mudar o mundo, declarada nas canções de presépio

Dona Narcisa tão forte e generosa que transparece no olhar, nas brincadeiras recordadas

Mestre Bastião, alegria de criança diante do poder renovar-se a cada momento, em si e nos amigos que fez

Peço a bênção a vocês, avós e avôs, pessoas de grande coração e coragem: de revelar-se e compartilhar-se! Deus os guarde e proteja!

Cristina campos

Rap das Guerreiras – Guaimbê

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NA TRILHA DAS GUERREIRAS

Nas trilhas das guerreiras,

Imaginando o antigamente e vendo as belezas,

Nos caminhos dos tropeiros,

Não tinha maldade e muito menos desespero,

Água em abundancia,

Os lindos campos do cerrado aumentavam a esperança,

De um povo humilde que não tinha arrogância,

Muito menos pensava em vingança,

Dona Helena, Laurita, Tânia, Miusa e dona Narcisa,

Já caminhavam por estas, quando o Bonfim nascia,

Pequi, mangaba, baru, caju do mato,

Ipê, quaresmeira, sabugueiro, delicias e belezas do cerrado.

Crianças dessas terras que deram origem às Guerreiras do Bonfim,

Passando seus conhecimentos pras crianças e também pra mim,

Recuperando o respeito ente as gerações,

Ganhando lugar em nossos corações,

Cantando, dançando,brincando e relembrando os tempos de criança,

Relembrando os lindos tempos de infância,

Brincavam na água que desaguavam nas pedreiras,

De longe ouviam o murmurar das cachoeiras,

Cantavam com os passarinhos que voltavam aos seus ninhos,

Junto com a natureza cantavam os mais belos hinos.

Fichas Griôs – Guaimbê

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Armando Machado

Endereço: Chácara José Leite, Pirenópolis GO

Telefone: 3331 15 13

Idade: 53 anos

Data de nascimento: 16 /09/1954

Filhos, netos e bisnetos: ­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­3 filhos e 5 netos

Local onde nasceu: Chácara José Leite

Local onde foi criado /onde passou a infância: Na chácara.

Com quem foi criado?

4 avós que vieram de Minas, tio Nô, pais e 6 irmãos.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? De 1995 a 2005

O pai: José Machado Neto, nascido em Itaguara, MG. Veio para Pirenópolis em 1944, filho de Geraldo Machado Neto e de Geralda José da Silva. Comprou a chácara com os pais pra fazer roça. O irmão, Nô, chegou com 2 anos. Sempre trabalhou em serviços de fazenda, principalmente como leiteiro. Toca um pouco de violão. Na época em que vieram, muita gente de Minas mudou para a zona rural de Pirenópolis. Em Minas a terra era boa, mas dava muita maleita. Aqui a terra é mais empedrada mas a água é limpa e boa pra gado.

A mãe: Helena Marques Machado, nascida em Itaguara, MG. Dona de casa e serviços de fazenda. Tecedeira. Não compravam roupa em casa. Veio com os pais morar na Serra do Misael e conheceu o marido na região.

Histórias:

Ia com os pais montado na cabeça do arreio do cavalo até a Serra do Misael, visitar os avós maternos. Os paternos moravam perto de casa, do outro lado do rio. Em época de muita chuva e de trocar ou colher roça, faziam mutirão. O pai não gostava muito porque achava o serviço mal feito; gostavam mesmo era por causa dos forrós de noite inteira. Ajudou em muitos mutirões da região, que era conhecida como Carçada e Mata Buraco. A região tinha muitos moradores, hoje ficaram os filhos e algumas terras viraram pousadas.

A chácara já teve muita produção. Hoje o adubo custa muito caro, os filhos não ajudam mais e o preço do trator pra roçar a terra não compensa. O pai agora trabalha mais com leite.

Quando era novo gostava muito de namorar – hoje diz que não arranja mais namoro. Casou algumas vezes e voltou a morar com os pais. Ainda plantam mandioca, na época de ralar os irmãos vão ajudar.

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: Filha no Col. Sr. do Bonfim e o neto estuda em Anápolis.

Como aprendeu a ler e escrever? Em 1970 tirou Ginásio na escola do lado da Igreja no Bonfim, morando na roça.

No que trabalha ou trabalhou? Serviços de fazenda – Derrubar mato com foice e machado, queimar, encoivarar (cortar os galhos e amoitar pra queimar de novo), plantar arroz, milho e feijão pra vender, socar arroz e café, engenho de cana, fabricar farinha – até vir morar na cidade; motorista de caminhão por 13 anos fazendo frete de pedras pela região (Anápolis, Brasília, Goiânia). Ajudava muito nos mutirões da região. Hoje trabalha novamente com o pai prestando serviço de roçar pasto.

Quais são os seus saberes e fazeres? Cantador, repentista e instrumentista – cavaquinho e violão – violeiro dos Cavaleiros das Cavalhadas, e dos forrós da roça e festas de aniversário.

Com quem aprendeu? Observando e acompanhando o tio Nô. Aprendeu de dom. Desde os 10 anos foi estimulado a acompanhar o tio nos forrós da região da chácara. Há 20 anos toca com Luís Cantor. É considerado o melhor repentista de Pirenópolis. O Divino Espírito Santo que põe o verso na língua, é só olhar pra uma pessoa que vem.

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações?

Valorizar a vida em família. Estudar, porque não estudou e o emprego de roça cansa muito. Manter as tradições e o dom. Seu dom de tocar e cantar ele não larga nunca. A criança que tem o dom pra música precisa ser estimulada, mas acha que a criança precisa aprender olhando os mais velhos tocando, que foi como ele aprendeu desde os 10 anos. Não se considera bom para ensinar música, pois acha que conhece só acordes mais comuns e porque aprendeu fazendo.

O cabo da enxada me faz correr

o cabo da foice me faz tremer

Arroz com feijão eu mato no prato

roça se eu plantar vai morrer no mato

Telefone é preto e não é café

Eu sou bom no taco e melhor no pé

Eu sou bom na bola e não sou Pelé

Eu sou ruim pros homem e bom pras mulher”

Jacó e Jacozinho

Sebastião Profeta do Amaral

Endereço: r. Sete de Setembro, nº. – Alto do Bonfim /Pirenópolis GO

Telefone: 3331 2436

Idade: 92 anos

Data de nascimento: 10/04/1916

Filhos, netos e bisnetos: eram 10 (dez) filhos, agora são 8 (oito). Tem mais de 40 (quarenta) netos, mais de 40 (quarenta) bisnetos e 1 (um) tataraneto.

Local onde nasceu: na rua dos Pireneus, ao norte da cidade de Pirenópolis.

Local onde foi criada /onde passou a infância: dentro de Pirenópolis mesmo.

Com quem foi criado? Com a mãe e um padrasto.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde que nasceu.

O pai se chamava Benedito Alves de Amorim e nasceu em Pirenópolis e morreu em Goiás Velho. Ele era Cabo da Polícia. Morreu quando ele tinha 5 (cinco) anos. Joaquim Augusto Pereira da Veiga, o padrasto, também era nascido em Pirenópolis e era fiandeiro, artesão de utensílios para a casa (candeeiro, lamparina …).

A mãe: Francisca Garcia do Amaral nasceu em Pirenópolis, mas o pai e a família eram de Pilar de Goiás. Era doméstica. Gostava muito de uma pinguinha e cigarro. Morreu com 79 anos em 1974, de desastre: quebrou a bacia. Pisou numa bacia e caiu, foi morrendo aos poucos.

Histórias:

Quando mudei praqui (bairro do Bonfim), era tudo mato. Fiz só uma cozinha. O tio da Laurita tinha água em casa e eu não. Eu ia lá na Passagem Funda pegar a água de beber, porque eu não gosto de pedir nada pra ninguém.

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: Tem filho, tem neto, é muita gente.

Como aprendeu a ler e escrever? Na escola eu não aprendi nada, saí no ABC. Aprendi algum coisa depois de homem. A precisão faz o sapo pular, né?

No que trabalha ou trabalhou? Trabalhou 44 anos no Garimpo. Vinte e tantos anos como fiscal arrecadador da Pedreira, pela Prefeitura (de 1974 a 2002).

Quais são os seus saberes e fazeres? Já fiz muito remédio, porque o garimpeiro sabe fazer de casca de pau. Benzo cobreiro, sopro no olho… coisa que a gente aprende na beira do rio, nem sei como. De matar bicho e pescar é comigo mesmo, comer então… se precisar fazer uma cova no meio do mato, eu faço, mas terra de cemitério não tenho coragem.

Com quem aprendeu? Na comvivência com os mais antigos. A gente ficava observando, mas nem todo mundo aprende. A precisão faz aprender também.

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? A amizade, lealdade, perseverança. A amizade não tem quantidade; a pessoa que tem lealdade, tem tudo; porque a pessoa não tem ambição, vive a sua vida sem botar olho gordo na do outro.

D. Helena Maria de Oliveira

Endereço: Travessa Santa Bárbara, nº 1 – Alto do Bonfim / Pirenópolis GO

Telefone: 3331 2480

Idade: 64 anos

Data de nascimento: 03/05/1943

Filhos, netos e bisnetos: Tem 3 filhos, 8 netos e 2 bisnetos.

Local onde nasceu: Fazenda Brejo Alegre /município de Monte Carmelo MG – nasceu de 8 meses. Seu parto foi feito em casa, pelo pai. Ele cortou o cordão como canivete de cortar fumo.

Local onde foi criada /onde passou a infância: morou na Fazenda Brejo Alegre até os 3 anos de idade quando então se mudou pra Fazenda Ferragem e por lá morou até os 7 anos, indo depois pra Goiânia de trem de ferro. Se lembra até hoje! Foi bom demais! O trem era tocado a lenha e voava faísca pra todo lado e parava em todas as estações. Levaram 2 (dois) cachorros: o Guarani e o Japão

Com quem foi criado? Morou com os pais até se casar. Sua infância foi trabalhar na roça. Brincava de cozinhadinho e boneca de pano. O pai não deixava dançar, é por isso que não sabe dançar. Sua infância não foi boa, é agora que está aproveitando a vida. O primeiro namoro foi no eito (faixa de plantação) de café. À noite reuniam-se para brincar de roda. Uma das brincadeiras que mais gostava era vilão e sombra crioula. Os pais sempre trabalharam com café. Ele tirava o da despesa, o outro levava de carro de boi pra cidade e vendia tudo. Ela e os irmãos catavam a sobra que ficava em baixo do pé de café, para vender e comprar panos para fazer vestido.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde 1968, há 40 anos. Mudou-se pra Pirenópolis em 1966, mas não parou na cidade. Tinha uma casa mas viajava demais e foi morar nas fazendas ao redor da cidade, me Mato Grosso do Norte…

O pai: João Francisco de Almeida, nascido na Fazenda Penedo, município de Monte Carmelo MG. O pai era lavrador mas mexia muito com boiada. Puxava muito gado pra Uberlândia no lombo dos burros. Ele garimpava muito diamante também, no Garimpo da Vaca Brava. Foi muitas vezes no garimpo com ele. Uma vez, uma catre (pedaço de terra que se solta do barranco, desbarranca) caiu em cima dele e ele ficou um ano sem andar, só em cima de uma cama. A mãe dela ficou sozinha trabalhando na roça pra tratar dela e dos irmãos, que eram três.

A mãe: Joana Maria de Jesus, nascida na Fazenda Areado, município de Monte Carmelo MG. O nome era porque o rio tinha muita praia de areia, ela trabalhava na roça, mexia muito com algodão, tear, essas coisas. Eles só vestiam roupa de algodão que ela fazia. Desde os 6 ajudava a mãe a descaroçar e cardar o algodão … de tudo um pouquinho. Ajudava a plantar e capinar.

Histórias:

Quando casei eu fui morar com meu marido nas Araras, aquele lugar longe, ruim de tudo. Minha mãe foi embora pra Mato Grosso, eu chorava, mas tinha que ficar. Aí um tempo depois meu sogro, minha sogra e minha cunhada vieram morar comigo. Era uma casinha de um cômodo só. Logo a gente foi amassar barro pra fazer adobe. Aí eu já fiquei mais feliz, tinha companhia.

Engravidei logo, nossa filha nasceu com 10 meses de casados. Pois um dia eu desci no rio e to vendo aquele cará (tipo de peixe) enorme embaixo d’água. Me deu aquela vontade de comer o peixe e não tinha nada pra pescar. Pensei assim: não é possível que eu não consiga pegar esse peixe… Voltei em casa e a primeira coisa que eu vi foi uma tábua. Peguei aquela tábua, voltei pro rio e esperei o peixe aparecer e quando ele apareceu dei nele com a tábua e ele morreu. Quando o povo chegou em casa tava aquele peixe frito gostoso. Meu sogro disse que já tinha ouvido falar do pegar peixe de muito jeito, mas de tábua ainda não!

Ajudei Tânia a fugir, chorando de mentira pros pais dela. Depois chorei de verdade, de arrependimento.

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: os netos estudam nas escolas municipais Geraldo de Morais, Luciano Peixoto e na estadual Com. Christóvam de Oliveira.

Como aprendeu a ler e escrever? Em casa, nunca foi à escola. Aprendeu um pouquinho com um, com o outro, com o irmão um pouquinho. A maior parte foi sozinha, nas casacas das árvores, folha da bananeira, o lápis era o espinho de laranja nos brotinhos das folhas de bananeira…

No que trabalha ou trabalhou? Trabalhou com lavradora, fiou muito algodão, lavou muita roupa pras pensões de Pirenópolis. Lavava, passava… passava com ferro de brasa. Lavou roupa durante 12 anos! Perto da Babilônia colheu muitas sacas de café, ralava a mandioca e fazia polvilho e farinha…. gosta muito, muito, muito de criança, de verde e de lua cheia! Agora é educadora no Quintal da Aldeia.

Quais são os seus saberes e fazeres? Contar histórias, piadas, cantar, dançar e viajar. Fazer doce ela também gosta. Gosta muito de rezar! Cantar também, mesmo sem saber!

Com quem aprendeu? Com pais e avós. Com a mãe aprendeu muito, trabalhando na casa dos outros também.

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? Em primeiro lugar a educação, o respeito aos mais velhos e a ser trabalhador. É importante ensinar as pessoas a trabalhar desde pequenos. As rezas e orações também não podem acabar.

D. Laurita Vitoriano da Veiga

Endereço: Travessa Santa Bárbara, nº 2 – Alto do Bonfim / Pirenópolis GO

Telefone: 3331 1681

Idade: 68 anos

Data de nascimento: 19/07/1939 no registro / data real: 19/06/1939

Filhos, netos e bisnetos: Teve 8 filhos, criou 7 e agora tem 6 e 16 netos (12 homens e 4 mulheres).

Local onde nasceu: Campos Belos (no registro Niquelândia)

Local onde foi criada /onde passou a infância: veio para Pirenópolis com 1 (um) ano de idade e mora aqui até hoje.

Com quem foi criado? Com a mãe e o padrasto.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde 1940.

O pai: Sebastião Profeta do Amaral (Bastião de Chica), seu padrasto, garimpeiro nascido e criado em Pirenópolis, atualmente com 92 anos. Não conheceu o pai biológico que chamava-se Austeclínio Vitoriano, tropeiro e lavrador nascido no norte de Goiás. Já é falecido.

A mãe: Idalina da Veiga, nascida e criada em Pirenópolis, costurava e bordava para fora, além de cuidar da casa, falecida.

Histórias: A lembrança mais antiga que tem é de quando morava com seu avô Joaquim (esposo da mãe de S. Bastião, que antes foi casado com a avó de sua mãe), na rua do Bonfim. Era muito apegada a ele e adorava ver seu avô trabalhar fazendo esculateira (vasilha de coar café) e candeeiro de folha de “frande” (flandres). Na casa tinham dois quartos, o dos avós dormirem e o que ela dormia. Embaixo tinha uma varanda enorme que era a cozinha. Ele (avô) trabalhava num salão enorme. E “batia com um martelinho a folha de frande, dobrava as beiradinhas, rebatia tudinho pra não machucar. Ele mesmo fazia o rebite, pois não tinha esses que se compra pronto. Tudo era de cobre ou da própria folha”. O dia em que o avô dela morreu, ela lhe pediu a benção e ele não deu (já estava morto), daí ela ficou muitos dias enfezada e só conseguiram levá-la de volta na hora do enterro. Ela é apaixonada na reza de Nossa Senhora da Conceição por causa do avô. Nisso tudo, ela tinha mais ou menos 3 anos.

Depois disso, eles se mudaram prum barraquinho na rua Santa Bárbara, já no bairro do Bonfim. Tinham poucas casas por aqui. Ela e sua mãe iam até a Passagem Funda pegar lenha e lavar roupa (antes a mãe lavava na ponte) e uma época teve que buscar água pra todos os usos da casa também.

Bastião conseguiu comprar o terreno onde é a casa dele hoje, mas só tinha um cômodo fechado, o resto tudo era pau-a-pique, não tinha porta, não tinha nada. Um dia, quando S. Bastião estava trabalhando fora, a mãe dela, grávida, resolveu mudar para a casa nova. Mas estava uma sujeira, cheio de unha-de-gato e elas duas arrumaram tudo e fizeram a mudança. Quando S. Bastião chegou na casa antiga procurando por elas, tinha ficado só o feijão pra ele levar.

De outra vez, o S. Bastião começou a furar uma cisterna pra não precisarem mais buscar água no rio. Um dia ele teve que sair e quando voltou D. Laurita já estava cavando a cisterna pra acabar mais rápido.

Ela fazia de tudo: ajudava a matar porco; fazia farinha na mão, ralando a mandioca; socava arroz no pilão pra mãe fazer perém (?); ia pro garimpo; lavava roupa pra fora; vendia legumes dos vizinhos; buscava lenha pra mãe; fazia comida; fazia tijolo de adobe… Até bordado! E com muito esmero!

S. Bastião era perfeccionista e não admitia uma bolotinha de terra no tijolo. Sua mãe também, era muito dura.

Mesmo trabalhando muito desde pequena, isso nunca atrapalhou suas brincadeiras. Brincou e cantou muito na sua infância. Brincou muito no mato, no meio do cipó. Via os tatus cavando: a mãe fuçando a terra e os tatuzinhos atrás, catando os cupins. Catava gravatá, bacupari, graviola, aticum, caju… até lobeira já comeu: “É uma delícia, mas se comer demais repuna, pois é muito doce”.

Adorava fazer caju azedo com arroz: cozinhava na panela de ferro e ficava roxinho… Com caju doce também dá pra comer, mas com azedo é mais gostoso!

A gente comia muita fruta do mato, acho que por isso tínhamos mais saúde”.

Hoje as crianças não têm mais essa liberdade… Sente muito que seus filhos e netos não puderam ter uma infância tão livre.

Na época em que a gente lavava roupa no rio, a água era tão clarinha que dava pra ver o fundo. Até se caísse uma agulha lá dentro, dava pra ver. A gente passava o dia inteiro lavando. Passava o sabão, botava na pedra pra quarar, batia, passava água, quarava de novo, até a roupa ficar cheirosa de sabão. Ficava aquela roupa macia, limpinha, ninguém pensava nessa época em amaciante.

O rio não era como hoje. A água era tão clara que até se caísse uma agulha no fundo, dava pra achar. Eu ficava vigiando a roupa quarando, jogava água pra ela não queimar. Um dia eu tava sentada em cima da pedra e vi aquelas duas traironas, elas gostam de andar de duas e ficar embaixo de pedra. Via aqueles (?) que é um cascudo grande, via cardume de lambari.

Minha mãe gostava de lavar roupa na ponte. Cada dia era em um lugar. Tinha o lugar do banho das mulheres. Tinha a pedra também do apanhador d’água.

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: as cinco filhas são professoras de escolas públicas, sendo três delas do Colégio Estadual Senhor do Bonfim e a mais velha diretora do Colégio Estadual Santo Agostinho. Todos os netos estudam (Colégios Estaduais Joaquim Alves e Senhor do Bonfim), com exceção de um que já se formou. Três netos cursam faculdade.

Como aprendeu a ler e escrever? As primeiras letras foram em casa, pois antigamente ia-se para a escola depois de conhecido o alfabeto. Estudou apenas no primeiro ano no Colégio Joaquim Alves (hoje casa de Zé de Pina).

No que trabalha ou trabalhou? Fez de tudo um pouco, mas “estudou” os filhos com dinheiro de bordado. Fez adobe, foi garimpeira, vendeu verduras e lavou roupa para os outros.

Quais são os seus saberes e fazeres? “Não sei fazer nada, mas faço de tudo”. Canta, faz quitanda, é rezadeira, doceira, costureira e bordadeira.

Com quem aprendeu? Tudo que sabe aprendeu com a mãe. O que não aprendeu com ela, aprendeu sozinha, pois sempre foi curiosa demais.

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? Acho que tudo que sei é importante. Foi importante pra mim, deve ser pros outros, só não o estudo, pois foi pouco. A serena, a reza, o bordado, cozinhar. A coisa mais importante que ensinei pro meus filhos foi a responsabilidade. Até hoje eles me agradecem e acho que todos deviam aprender a responsabilidade, honestidade e respeito ao próximo, pois são o melhor bem que a pessoa pode ter.

Geraldo Vicente dos Santos (Dedé)

Endereço: r. Joaquim Augusto Curado,Qd 4, lote 15 – Alto do Bonfim /Pirenópolis GO

Telefone: 3331 2351

Idade: 46 anos

Data de nascimento: 04/07/1964

Filhos, netos e bisnetos: tem um casal de filhos e uma neta.

Local onde nasceu: na Fazenda Matutina /Pirenópolis.

Local onde foi criada /onde passou a infância: na Fazenda Catingueiro. Quando os pais vieram rpa cidade, quis ficar na roça, aos 5 (cinco) anos de idade. Passou a fazer de tudo: capinar, roçar, tratar de porcos, tirar leite, moer cana, ralar mandioca. À noite todas as crianças podiam ir às festas. Girou (participou) da Folia do Divino (da roça) durante 16 (dezesseis) anos, desde os 8 anos de idade. Hoje em dia é folião da Folia do Divino da zona urbana (folia da rua) e se tornou regente.

Com quem foi criado? Com o irmão mais velho, Jair Vicente dos Santos e a esposa.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Veio pra cidade com 20 (vinte) anos de idade. Na cidade veio pra trabalhar na pedreira, morando com os pais. Cansou de trabalhar pro outros na roça. Essa era a opção possível na época… Achou bom o trabalho, é como um garimpo. Ganhava por metro tirado, como empregado do dono da pia, o finado João Figueiredo. Ganhava muito bem e era suficiente pra sustentar a família. Hoje em dia é mais difícil, por causa da exigência dos materiais de segurança e INSS, mas trabalha arrendando um pedaço de pia e pagando ao proprietário uma porcentagem do que ganha.

O pai: Juscelino Vicente dos Santos, nascido na zona rural de Patos de Minas. Era vaqueiro, lavrador, folião (em Minas e na Fazenda Matutina). Veio para a Fazenda Matutina com a esposa e uma filha mais velha, há cerca de 25 anos. Passou alguns anos na Fazenda onde tiveram os filhos e depois mudou-se pra rua do Frota onde se tornou jardineiro e capinador de rua. Também conhecia os ofícios do dia-a-dia, como fazer balaios, pás e peneiras.

A mãe: Dousila Luiza da Conceição, nascida na zona rural de Patos de Minas era lavradora, dona de casa, tecelã, costureira e artesã de cestaria. Acompanhava o marido nos Pousos de Folia. Vieram pra cidade a convite de seu irmão que lhes contou que em Pirenópolis ganhava-se em um mês o que em Patos se ganhava em um ano. Ele diz que era o boato que se contava pra incentivar outros moradores a virem pra Pirenópolis, dizendo que aqui se vivia na fartura, mas ele diz que era mentira, mas que eles acreditavam e depois da terra, não tinha como voltar pra roça. É irmã de d. Onídia, mãe da d. Lu do Carmo. Na cidade foi lavadeira e dona de casa. Era benzedeira e conhecedora dos remédios do mato.

Histórias:

Como regente da Folia, Dedé tem responsabilidade de fazer: alvorada às 4 horas da manhã; dar assistência e disciplina aos foliões; chamar para a reza da manhã; agradecer a mesa. É regente desde que veio pra cidade. Foi convidado pelo alferes da Folia pra tirar esmola, depois tornou-se alferes pela experiência.

Tem vontade de transmitir às crianças como é o catira, o sistema da Folia, como a bebida na Folia tem que ser comedida. Ajudou a organizar a Folia de Reis da cidade, pagando ao Zé Inácio muito dinheiro pra ele desenhar a bandeira dos Três Reis Santos. Isso já faz 20 (vinte) anos e é a mesma bandeira que é usada até hoje.

Na roça tudo era muito custoso e o irmão pra agradá-lo (ele era uma criança quando os pais vieram pra cidade) comprou pra ele na cidade 2 (dois) chicletes de uma vez. Ele então, pra fazer o presente durar o mês inteiro, lavava o chiclete quando ele endurecia e colocava mais açúcar… quando chegava a noite ele grudava no lado da cama e no outro dia lavava novamente e colocava açúcar de novo! E assim até acabar o mês, pra economizar!

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: sua companheira é diretora do Colégio Estadual Senhor do Bonfim.

Como aprendeu a ler e escrever? Na escola da zona rural, precisava andar uma légua pra chegar. Freqüentou até o 2º ano.

No que trabalha ou trabalhou? Foi lavrador e ajudante de veterinário.

Quais são os seus saberes e fazeres? Sabe lidar com os animais: é vaqueiro, moxador e aplica vacina em gado. fez cursos veterinários de inseminação. É regente de Folia, catireiro e cantor.

Com quem aprendeu? Curso de veterinário: Prefeitura; roça, pedreira e regente: na prática.

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? Pular catira, dançar o chá e a experiência de vida aprendida com os mais velhos.

Verduti José da Costa

Endereço: R. Santa Rita, qd. 3, lote 32 – Alto do Bonfim /Pirenópolis GO

Telefone: -

Idade: 64 anos

Data de nascimento: 05 /11/1943

Filhos, netos e bisnetos: ­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­6 filhos e 10 netos

Local onde nasceu: Formosa DF

Local onde foi criado /onde passou a infância: saiu de Formosa aos três meses de idade para Pirenópolis, com o pai, a mãe, dois irmãos (já falecidos) e uma irmã. O pai não gostou e foi embora. A mãe casou de novo e teve mais um filho. Morou primeiro em uma propriedade no bairro da Lapa (zona urbana), que na época era um cerradão, a cidade ficava só no miolo em volta da Igreja Matriz. De lá foram para a região do Mato Escuro trabalhar em fazenda. Começou carregando água na cabaça e aprendendo os serviços da roça. Passaram para o outro lado do rio Tapiocanga, para trabalhar na propriedade de Totó Lobo. Subiram para o Engenho, na fazenda de João Gomes. Era molecote. A família ainda trabalhou para Eusébio Geriza, no São João. Compraram duas casas na cidade, uma no Alto do Bonfim e outra na Rua do Sapo. A mãe veio com porcos e novilha, mas na rua não podia criar; vendeu e comprou um bom terreno na região de Cocalzinho. Lá ficaram por 18 anos. Ele ficou lá 10 anos e voltou a trabalhar em outras fazendas.

Com quem foi criado? Com Deus, a mãe, o padrasto, três irmãos e uma irmã, além dos muitos agregados das fazendas.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde 1976.

O pai: Domingos da Costa, lavrador, com origem na Bahia. Gostava muito de Duti, exigiu que ele fosse registrado com o seu sobrenome.

A mãe: Francisca Cardoso dos Santos, original de Formosa. Era dona de casa e cuidava de roça também. Gostava de dar pousos de folia. Tinha voto de reza para São João, todo ano, de 23 a 24 de junho. Era festa por uma semana na casa, fazendo doces. Primeiro ela dava aquela jantona para as crianças, depois vinha a janta dos adultos e o forró.

Histórias: Detrás da Igrejinha em frente ao Posto Xepa, onde moraram logo que chegaram, tem uns pés de manga que a mãe dele plantou. Se tivesse ficado lá as terras seriam da família.

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: Uma neta na Escola Municipal Geraldo de Morais e outra na Escola Municipal Tia Olívia.

Como aprendeu a ler e escrever? Estudou primeiro em uma casona amarela (atual Museu dos Pina), na rua Santa Cruz. A escola passou para onde hoje é uma padaria, na mesma rua. De lá foi para o Colégio, em frente à Igreja do Carmo. Estudou pouco, morando na roça. De volta à cidade, estudou no Colégio Luciano Peixoto por apenas três meses, logo se ocupou novamente de roça. Não aprendeu a ler e escrever.

No que trabalha ou trabalhou? Serviços de roça.

Quais são os seus saberes e fazeres? Folião, oferta pouso de folia, sanfoneiro e pandeirista.

Com quem aprendeu? Com a mãe aprendeu a gostar de dar pouso de folia. Toda vida foi folião. De pequeno, na chácara de Totó Lobo, não tirava a vista do trio Pedro de Nego (sanfoneiro), tio do Matias (pandeirista), e do Lu (cavaquinho), músicos da roça. Pedia ao tio para tocar o pandeiro, ele deixava. Depois que veio para a cidade, que tinha mais festa, foi só aprimorando o pandeiro. Sanfona gostava muito de tocar a pé de bode, até ter um pequeno problema com o dedo da mão. Acompanhava o cunhado, Caetano, e era considerado bom tocador como o Mangabinha.

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? “As coisas que eu gosto – bater pandeiro, por exemplo, pelejei para passar para meu filho. Se a criança tem interesse, ela tem que ser incentivada. Porque com um músico, um sanfoneiro, um pandeirista, a festa está feita. A Folia – o folião tem que saber pular catira e cantar, senão não é folião. Eu toda vida mantive meu repertório. Não sei dançar catira como muitos dançam por aí, mas sempre pulei pra dentro, pra ir aprendendo, pra salvar o bolo. Sanfona eu tive duas, ainda tenho sonho de ter de novo. E o pouso de Folia – só de ver a bandeira chegar quando se dá um pouso, aquele povão, a bandeira no altar da sua sala – é uma satisfação.”

D. Narcisa Pereira da Cunha

Endereço: R. José da Veiga, Qd.1, Lote 7 – Vila Mutirão – Alto do Bonfim /Pirenópolis GO

Telefone: 3331 2805

Idade: 65 anos

Data de nascimento: 07/08/1942

Filhos, netos e bisnetos: Teve 7 filhos (6 vivos) e 13 netos.

Local onde nasceu: Nasceu na Fazenda Quilombo, município de Corumbá de Goiás

Local onde foi criada /onde passou a infância: Fazenda Forquilha /Corumbá GO.

Com quem foi criado? Com os pais e 3 irmãos. Convivia com três famílias vizinhas, mas cada uma tocava sua própria roça. Eu brincava muito com Terezinha, que depois se tornou minha concunhada. Era um pouquinho mais velha do que ela e até vestíamos igual, mesma combinação. Com 10 anos saíamos pra apanhar caju a uma distância como daqui até o Morro do Frota, sem medo de nada. Passávamos o dia no mato, chupando caju ou tirando catulé. Papai e o povo de casa adorava quando chegávamos carregadas de caju. No meio dos trilheiros, poucas vezes encontrávamos com um senhor vizinho. Ele ralhava de brincadeira dizendo que ia descer a correia na gente; saíamos rindo. Em casa apanhávamos café, papai tinha fábrica de farinha. Eu ralava a mandioca no ralo. Depois tivemos uma rodilha, tocada a dois. Por fim era uma roda de água. As pessoas da cidade vinham comprar farinha em casa. Pegavam a estrada do Bonsucesso, passavam pela Vargem Grande, morro do Tombador, cabeceira do Quebrado, mata da cabeceira do rio Corumbá, chegavam na cabeceira da Encruzilhada e avistavam o Cercado. O pai de seu Nego Aires, por exemplo, voltava com dois cargueiros cheios, cada um com mais de 100 kg de farinha. A gente também, quando queria vir pra cidade, saía de madrugada e chegava de tarde em casa. Meus pais não nos batiam, só no repreender eram respeitados. Lembro de quando mamãe me deu uma correada, uma vez só. Nós obedecíamos de natureza, com os exemplos. Éramos criados num limite só. Mamãe contava muitas histórias de pavor e assombração que davam medo quando éramos pequenos. Depois entendíamos que eram apenas histórias. Ficavam os exemplos, a experiência de vida. As mães conversavam entre si: você planta um pé de abóbora e vira ele pra onde quer que ele dê frutos. “Se deixar alastrar e madurar na hora de virar, ele quebra. Tem que educar antes de amadurecer, enquanto o cipó está molinho.” Elas trocavam referências sobre a educação dos filhos. Eu também aprendia com meus irmãos mais velhos. Nós quatro sempre mantivemos o respeito. Já tive a oportunidade de ajudar minha irmã mais velha em uma situação com o filho dela. Ela não aceitava a companheira dele e a neta e eu a lembrei da importância de manter o apoio familiar principalmente nesses novos tempos. Quando casei foi por amor. Meus pais me preveniram sobre meu marido, que apesar de criado no mesmo costume, já não era peça muito boa. Mas eu agüentei as dificuldades até quando decidi não continuar mais. Hoje aprendi a conversar de novo com ele. Pois antes nosso dia-a-dia era muito bom. Tinha felicidade. Mamãe morreu 25 anos depois do meu pai, e nunca vi os dois brigarem. Quando papai morreu, mamãe ficou apaixonada e passou a beber; mas deu a volta por cima e largou muito antes de seu falecimento.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde 1972 /73.

O pai: Francisco Pereira Cirino, lavrador, artesão de balaios e tapitis. Papai de tudo sabia um pouco. Conhecia tudo de roça. Tinha uma rancharia, que era onde o povo costumava ficar acampado pra fazer a roça, uma semana, como um mutirão pra queimar a roça antiga, descoivarar e plantar de novo. De noite era o forró. Ele também era carpinteiro, pedreiro. Nascido em Planaltina, mudou com a família para a Fazenda Capão Comprido. Fabricava balaio, bruaca, cangalha, jacá de taquara, tapiti, peneira, bateia de tamboril. Também garimpava nas horas vagas, eu o acompanhava. Também acompanhava muito meu tio Joaquim Pinto em suas andanças pelos matos. Ele era raizeiro, benzedor, uma espécie de vidente, tinha visão espiritual. Com ele aprendi a conhecer as plantas do mato. Outro tio, Benedito Turino, participou da revolução e talvez até do exército de Santa Dica.

A mãe: Benedita Gomes Cirino, nascida na Fazenda Pedra Infincada e criada na Fazenda Forquilha, lavradora, tecelã, dona de casa. Minha mãe tecia no tear, era tecedeira de trabalho. Tecia coberta, baixeiro, pano. Tingia os panos com as plantas do mato. Pro azul ela usava anil; o ramo do quaresmeiro dava amarelo; a árvore conhecida como cabelo de negro dá o marrom. Esse cabelo de negro fixa sozinho, é como uma nódoa. Já as outras cores se usava o sal para fixar. Papai não nos deixou aprender a tecer, dizia que fazia mal pro útero. Costume dele, porque mamãe tecia toda vida e nunca teve nada. Tínhamos os suprimentos da lavoura e mamãe tecia para os gastos, com o dinheiro do tecido ela pagava a costureira. Nós costumávamos fiar; eu fiava no arco, que é usado antes de cardar. Uma irmã fiava no fuso e a outra na roda. Desde pequena acompanhei minha mãe. Eu era a caçula. Íamos aos parentes e vizinhos e ouvíamos suas histórias. Lembro de um dia, quando andava na frente de mamãe, e vimos um tiú (teiú). Era outubro e minha mãe falou pra tomar cuidado, que nessa época o tiú fica bravo. Ela jogou uma pedra pra afugentá-lo e eu, de assustada, dei uma carreira pra um lado e ele pro outro! Minha mãe caiu sentada de tanta risada e nunca mais esqueceu de contar essa história por onde ia. Guardei todas as experiências que vivi com minha mãe e hoje entendo que isso é sabedoria. Sempre a respeitei; hoje vemos os jovens repreendendo a sabedoria dos antigos, dizendo que é superstição. Até pouco tempo, eu não tinha coragem de contar o que aprendi com ela. Era uma sabedoria completa, para a vida.

Histórias:

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: Uma neta de 22 anos (Ariadna) é professora no Colégio Estadual Santo Agostinho. Tem netos que moram em Chapadão do Céu e Anápolis e freqüentam escolas públicas. Em Pirenópolis os netos estudam na Escola Municipal Dom Emanuel e no Colégio Estadual Senhor do Bonfim.

Como aprendeu a ler e escrever? Em casa, com os dois irmãos mais velhos que foram ensinados pelo pai. Quando não tinha caderno treinava na casca da gueroba. Nunca estudou em escola.

No que trabalha ou trabalhou? Na lavoura (café, mamona, mandioca) e também como lavadeira e passadeira.

Quais são os seus saberes e fazeres? Conhece profundamente as plantas do cerrado e seu uso medicinal e na culinária; conhece brincadeiras de roda, cantigas de trabalho, brincadeiras de traição e mutirão, é rezadeira de terço e do presépio.

Com quem aprendeu? Plantas: com o tio raizeiro (Joaquim Pinto de Aquino); rezas e brincadeiras: com a mãe e vizinhas mais velhas; cantos de presépio: com d. Laurita. E a lavoura?

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? O aprendizado estudando a natureza, observando as estações, os animais, a harmonia com os ciclos naturais (sabiá, cupins, sapo engenheiro, cachoeira, etc); o poder das orações para a cura de problemas familiares; e a educação pelo exemplo de vida dos familiares (“pé de abóbora”).

Lembrar mais com ela de:

Sabedoria dos ciclos da natureza – quando os bichos, as plantas e as águas falam das estações – que ela comentou quando preenchemos a ficha da Ação Griô.

Emilio Aires da Silva (Nego Aires)

Endereço: r. Luiz Gonzaga Jayme, nº. 62 – Alto do Bonfim / Pirenópolis GO

Telefone: 3331 1254

Idade: 75 anos

Data de nascimento: 04/02/1933

Filhos, netos e bisnetos: Tem 3 filhas e 4 netos.

Local onde nasceu: em Pirenópolis, no bairro do Bonfim.

Local onde foi criada /onde passou a infância: foi criado no bairro do Bonfim. Conheceu a mãe de s. Bastião. Trabalhou na pedreira desde os 10 anos de idade; a brincadeira era muito pouca pois naquele tempo a obediência aos pais vinha na frente de tudo. Gostava de brincar de pudi (esconde-esconde /pique) na porta de casa à noite. Trabalhou como guieiro de carro de boi e dirigia os bois gritando por seus nomes, pois cada boi tinha um nome. Nos carros de boi carregava madeira pra construção e também para lenha; trazia pedra da pedreira pra cidade – arrancava, cortava e vendia a pedra para calçamento; buscava farinha na fazenda onde morava d. Narcisa montado a cavalo. Quando era menino só haviam cinco ou seis casas no Bonfim e ainda não havia o campo de avião (campo de aviação que mais tarde tornou-se área invadida para construção de casas populares). Ele morava na rua Santa Bárbara.

Com quem foi criada? Com os pais e irmãos (11).

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Sempre morou em Pirenópolis.

O pai: José Aires da Silva, nascido em Porto Nacional, era Cabo policial antes de vir para Pirenópolis. passou por várias cidades e em 1927 veio definitivamente para cá e se casou. Casou-se com 43 anos. O pai era muito sério e respeitado, não era de muita brincadeira.Deu baixa na polícia e passou a ser cargueiro e construtor de casas. Nessa época era muito comum criar gado na cidade, até que um prefeito passou a não aceitar esta prática e mandou cercar toda a cidade. Muita gente como eles, teve que se mudar pra zona rural pra garantir o sustento da família. Moraram mais ou menos cinco anos pra uma chácara na beira do rio das Almas, criando gado e tocando uma rocinha. Depois que mudou a Prefeitura, voltaram pra cidade. Faleceu aos 87 anos de idade.

A mãe: Maria de Fonte Silva nasceu em Pirenópolis e foi criada na cidade. Ela costurava e depois que se casou trabalhou como doméstica. Cardava, fiava e tecia. Gostava de cantar trabalhando, era uma mulher muito alegre e gostava muito de ajudar. A mãe tinha 19 anos quando se casou. Também faleceu aos 87 anos. Era uma mãe muito zelosa, sempre fazia merendas de arroz doce, canjica, tudo no fogão caipira e servia cada um. Até hoje a esposa de s. Nego mantém esse costume.

Histórias:

Considera-se muito respeitador. Sempre praticou muitos esportes; jogou futebol desde os 16 anos. Tinha prazer em fazer educação física. Nunca brigou em campo ou em alguma competição.

Tinha 20 anos quando começou a trabalhar como motorista na Prefeitura. Logo conseguiu reunir dinheiro com o irmão e compraram o primeiro caminhão para transportar pedras pra Uberlândia (durante 2 anos) e depois pra São Paulo, durante 11 anos. Ele e o irmaão compraram 4 (quatro) caminhões, um a cada ano. Viu muita coisa boa e muita coisa ruim nas estradas: quando tinha 46 anos, sofreu um acidente muito grave com o irmão dirigindo, batendo de frente em outro caminhão. O irmão. Que tinha 48 anos, faleceu e Deus poupou sua vida. Ficou 9 dias na UTI. Durante um ano não esteve presente nesse mundo – nem viu passar, não tem recordação, ficou fora do ar – e quase sofreu uma cirurgia na cabeça. Machucou seriamente as pernas. Não precisou passar nenhum medo pro cérebro voltar a funcionar. Do nada, fez um barulho na cabeça dele e a mente voltou. Não tinha medo de nada naquela época. Ficou bom, curou, ia ficar na cadeira de rodas e não precisou. Tá firme hoje em dia, forte, saudável e muito jovem!

Uma vez numa festa, tinham dois tocadores, ele e outro. Nessa época ele era dançador. Como erma apenas eles dois, passaram a noite toda tocando sem poder dançar. Nesse dia ele fez uma moda de viola pra contar esta história (Pingo d’água).

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: A neta estuda na Escola Municipal Dom Bosco

Como aprendeu a ler e escrever? Estudou à noite já rapaz, mas apenas até o 2º ano. O resto que abe o mundo que ensinou, aprendeu na prática.

No que trabalha ou trabalhou? Foi guieiro de carro de boi e caminhoneiro, hoje em dia é aposentado, mas faz alguma viagem pra perto. Seu caminhão chama-se “Estimação”. Sabe trabalhar com machado, foice, enxada, marreta. É músico, toca cavaquinho, sanfona pé de bode, violão, viola e canta.

Quais são os seus saberes e fazeres? Música: além de tocar e cantar, compõe algumas modas.

Com quem aprendeu? Aprendeu a tocar pro conta própria, um dom que Deus lhe deu. O trabalho foi com o pai, que o levava pro serviço e explicava como era o trabalho e com os irmãos.

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações?

Pras pessoas da família, netos e filhos, ensinou a ter educação e a não ter vícios. Observa que os jovens precisam aprender a trabalhar; tem que estudar, mas estudar demais pode atrapalhar a fazer outras coisas importantes. “Aprender não ocupa lugar, quanto mais sabe, melhor fica”.

Miuza Correa de Sousa

Endereço: r. Jacy da Luz, Qd 3, lote 6 – Alto do Bonfim / Pirenópolis GO

Telefone: 3331

Idade: 55 anos

Data de nascimento: 13/03/1953

Filhos, netos e bisnetos: Tem 2 filhas e 4 netos.

Local onde nasceu: Nasceu na Fazenda Baixão no Povoado de 2 irmãos /Pirenópolis GO. Situa-se perto de Niquelândia, próximo ao Povoado de Quebra-linha. Dois irmãos era uma “currutela”, um “patrimoniozin” de Pirenópolis. É a filha mais nova de quatro irmãos.

Local onde foi criada /onde passou a infância: passou toda a sua infância na Fazenda Baixão, no Povoado de Dois Irmãos. Seu pai “tocava” a roça do dono da fazenda. Ela e os irmãos trabalhavam na roça com o pai e a mãe morava na casinha de adobe no “patrimônio” onde trabalhava. Na roça a casa era um ranchinho de pau a pique. Durante o dia ajudava na lida da roça – plantar, limpar a roça e vigiar pra que os passarinhos não comessem a plantação – a criançada se divertia espantando os passarinhos.

Com quem foi criada? Com os pais e irmãos.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Há 29 anos, desde 1979.

O pai: José Cândido da Silva, nascido em Goiabeira MG. A família do pai é totalmente desconhecida dela, parece que tava todo mundo “desgarrado”. Não conheceu avós nem tios paternos. Seu pai foi criado por uma madrasta que distribuiu os irmãos por diversos locais diferentes (“deu pros outros”). Seu pai era lavrador, benzedor e raizeiro. Fazia garrafada pra vender pros outros. A casa estava sempre cheia de pessoas que vinham se benzer com ele. Ela e os irmãos não podiam perguntar nada pra ele, por isso ela não aprendeu esse ofício com ele. Ela tinha 15 anos quando o pai morreu. Com a morte do pai, a mãe e os irmãos se uniram pra colher o “plantado” do ano, entregaram a parte do dono da fazenda e foram morar com a mãe no “patrimônio” (Povoado de 2 Irmãos) e trabalhar em casa de família: arrumando, lavando, passando, cuidando dos meninos. Não ganhavam nada, pois a patroa dizia que eles estavam “aprendendo”. A irmã mais velha foi pra Goiânia trabalhar e ajudou muito a família.

A mãe: Joana Correia de Sousa, nascida em Anicuns GO, perto de Minas. Seu avô materno era casado com uma índia. Quando ela era pequena (Miuza) o povo a tratava por “tapuia”, pois ela parece índia. Ela não se importava, pois nem imaginava como eram os índios. Um dia um circo passou pelo povoado e o dono do circo falou pra sua mãe tomar cuidado com ela porque se os índios passassem por ali, levariam ela, que era “purinha” índia. Dos irmãos só ela se parecia com a avó índia. A mãe então proibiu-a de sair de casa à noite. Miuza não conheceu a avó, pois a mãe dizia que ela tinha morrido. Ela não sabe se é verdade, pois parece que a mãe e o pai saíram da terra natal deles fugidos em conseqüência de alguma confusão que o pai teria arranjado por lá. A mãe contou que a avó se escondia no mato durante o resguardo quando chegava visita em casa. Miuza quer perguntar à mãe sobre a avó índia. Seu avô paterno era negro, o que explica o fato de uma de suas filhas ser bem morena. A mãe ainda é viva e sofre com alguns problemas de saúde naturais aos seus 92 anos de idade.

Histórias:

Na fazenda onde morava passava um rio, no fundo da casa onde moravam. Todos os dias ela e os irmãos se banhavam no rio no final da tarde e ficavam lá até o anoitecer. Ela adora nadar, nada melhor que um peixe. Ela pulava de cima de um barranco e nadava por debaixo da água até chegar à outra margem. Em época de chuva eles não iam ao rio pois era muito perigoso e sempre tinha tromba d’água. Uma vez, durante a época das águas foram escondidas pro rio, ela , a irmã e uma amiga. Nessa parte que elas nadavam tinha um coqueiro no meio do rio, elas então pulavam e se agarravam na folha do coqueiro pra não descer rio abaixo, só que dessa vez ela não conseguiu se agarrar. Vieram muitos troncos de jatobá, os troncos passavam por cima dela e ela mergulhava até que conseguiu se agarrar num cipó. As meninas correram a avisar sua mãe que logo chegou e a resgatou com um pedaço de pau. Foi só o prazo de sair do barranco pra levar uma surra de vara de malva nas costas e pernas. Nunca mais ela se meteu em rio brabo.

De sábado pra domingo elas faziam o “cozinhadinho”. Foi nessa brincadeira que ela aprendeu a cozinhar. O pai matava passarinho com bodoque e pedrinha de estrada. Não errava um. Trazia os passarinhos e entregava pra elas que depenavam, sapecavam, temperavam e fritavam na trempinha debaixo da latadona de cipó, perto do rio, como se fosse uma caverna. Era uma casa perfeitinha, mobiliada e tudo. Na época da chuva era perigoso cobra.

Na época da chuva a brincadeira era dentro de casa, de esconder, de cabra cega. Uma vez o pai fez uma brincadeira horrível com ela, achando que ela tava enganando e enxergando por debaixo da venda e deu um tição de fogo que ele pegou na fornalha pra ela segurar. Ela tinha uns 12 anos. Ela ficou muito temo sem falar com o pai por causa disso.

Logo que se mudou para o povoado conheceu o Zezão, seu marido até hoje, que tinha e mudado pra Dois Irmãos com toda a família (pais e irmãos). Logo passaram a namorar e se casaram. Ela tinha 15 anos e ele 27. Sua primeira filha ainda nasceu em Dois irmãos.

Mocinha de hoje em dia

Só fala em casar

Põe a panela no fogo

Mamãe vem temperar”

Quando Maria, a filha mais velha tinha apenas 1 (um) ano, mudaram-se, junto com toda a família de Zezão, pais e irmãos solteiros, para Minaçu, primeiro pra trabalhar na roça e depois para garimpar no Córrego do Macaco e no Garimpo da Serra Grande, garimpo de castelita. Era um garimpo fácil, muito valorizado; tinha ouro também. Morou nessa região durante mais ou menos sete anos, primeiro numa região de roça pra lá de Goianéisa, depois em Minaçu, numa fazenda depois em outra na beira do Rio S. Felix. Nessa última fazenda o sogro só foi acompanhando a mudança. Nesse lugar eles tiveram muito prejuízo, pois a roça era constantemente invadida por capivaras, passarinhos, formigas queimadeiras e as enchentes eram freqüentes. Mesmo assim ficaram ali durante 4 anos… Um belo dia Zezão resolveu sair pra procurar outro trabalho porque não tava dando certo aquela roça. Miuza ficou sozinha com as filhas. A casa que moravam era apenas um ranchinho coberto de palha, sem paredes. Durante a noite uma onça rondava a taperinha e ela não podia dormir com medo que a onça atacasse suas filhas na calada da noite. Isso durou aproximadamente quatro meses. Um dia ela arriou o cavalo, colocou as meninas em cima (cavalo Canário) e foi pro Garimpo do Macaco, onde o Zezão estava, morando com o irmãos, mas logo depois cansou daquela vida e largou o Zezão, vindo se encontrar com a mãe que já morava em Pirenópolis. Ficaram morando com ela, todas as quatro dormindo juntas em uma cama de solteira. Passados dois anos seu sogro trouxe o Zezão adoentado para ela cuidar. Ela rejeitou o “presente”, mas a mãe assumiu a responsabilidade de cuidar dele e desde esse tempo voltaram a viver juntos.

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: cada neto estuda em uma escola diferente: Geraldo de Morais, Luciano Peixoto, Joaquim Alves e Com. Christóvam de Oliveira.

Como aprendeu a ler e escrever? Não freqüentou a escola porque precisava ajudar o pai na lida da roça. Aprendeu a ler . Seu caderno era a casca da gueroba, a areia da praia e as pedras que escrevia com carvão. Quando eles se mudaram pro povoado, depois que o pai morreu, começou a freqüentar a escola, mas logo a professora veio embora pra Pirenópolis e eles ficaram sem escola mais uma vez. Mais recentemente cursou o EJA, já em Pirenópolis.

No que trabalha ou trabalhou? Quando criança ajudava seu pai na roça; quando jovem e no início da fase adulta, trabalhou no garimpo. Atualmente trabalha como doméstica (serviços gerais) e como educadora griô no Quintal da Aldeia /Guaimbê.

Quais são os seus saberes e fazeres? Faz farinha de mandioca, sabe cozinhar muito bem; fia no fuso e na roda; bate com arco e carda o algodão, sabe fazer o arco de bater; sabe construir trempe pra cozinhar no mato; sabe fazer fornalha (fogão caipira); adobe e fumo de rolo.

Com quem aprendeu? Com os pais

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações?

Plantar, é o que considera mais importante, saber limpar o arroz, o feijão e o milho pra planta crescer. Se não souber tirar o arroz, perde tudo. Tudo tem sua época certa de plantar e de colher, a lua certa. Porque sem alimento ninguém sobrevive e hoje em dia nenhuma criança sabe de onde vem o alimento. Aprender a cozinhar também é muito importante. Muitas coisas eu aprendi sozinha ou trabalhando na casa dos outros. Quando eu era criança só bebia remédio do mato, só conheci remédio de farmácia quando vim morar na cidade. Lombrigueiro pé mastruz, meu pai curava a gente. Observando meu pai apanhar as plantas, fui aprendendo a conhecer os remédios do mato. Não aprendi a benzer, mas estou esperando minha mãe melhorar pra ela me ensinar alguns benzimentos.

Ana da Conceição Oliveira (Taninha)

Endereço: r. Sete de Setembro, nº.48 – Alto do Bonfim / Pirenópolis GO

Telefone: 3331 2062

Idade: 62 anos

Data de nascimento: 18/09/1945 no registro – de fato: 20/05/1948

Filhos, netos e bisnetos: Tem 6 filhas e 16 netos.

Local onde nasceu: nasceu em casa em Pirenópolis GO

Local onde foi criada /onde passou a infância: na roça, no Povoado São João e depois mudou-se pra Campo Limpo.

Com quem foi criado? Com o pai, pois os pais se separaram quando ela tinha 9 anos e ela acompanhou o pai que mudou-se pra Águas Limpas, na casa da tia Celina (pros lados da Fazenda Babilônia). Ficava com a mãe durante uma semana ou duas, pois brigavam muito (a mãe a proibia de fazer as coisas que gostava). Deixou o pai nas Águas Limpas e mudou-se pra casa da cunhada Helena (e do irmão) nas Araras. Lá arranjou um namorado pra fazer birra pra mãe e menos de um mês depois fugiu com ele, a cavalo, pra se casar. As fechaduras das portas da casa rangiam alto, então ela e a cunhada lubrificou todas elas pro irmão não ouvir. O avô foi atrás com a polícia, mas não conseguiu encontrá-la. Teve três filhos com ele, mesmo sem amor. Nessa época ela foi morar na Fazenda Pedra Preta, em Artulândia (entre Jaraguá e Goianésia). Trabalhava na roça com plantação de fumo e fiava fumo também. Era divertido porque ficava no meio dos outros. Ela ia com aquele tamanha de pança (grávida) levar merenda pros homens na roça… Desde pequena adora festar. Quando era dia de baile, ela engomava com polvilho as saias rodadas e ia pras festas , flap, flap, com a saia fazendo um movimento bonito.

Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde os 25 anos de idade.

O pai: Luiz Basílio de Oliveira, nascido em Pirenópolis na Fazenda Raizama, lavrador. Já falecido.

A mãe: Joventina Batista de Oliveira, dona de casa. Ela acha que a mãe nasceu em Pirenópolis, pois os avós sempre moraram na cidade. Ela cozinhava, lavava roupa pros outros e fazia empadão pra vender. Já falecida.

Histórias:

Quando eu fui criada no São João, a gente gostava muito de ir pro rio, fazer barquinho nas toras de bananeira, pescar… lá tinha festa de mutirão, meu pai fazia muita comida pra tratar dos outros. Eu puxava o cavalo pra moer cana. As vacas do meu pai não tavam de bezerrinho novo e a gente ia nos vizinhos buscar leite. Meu pai falava que a gente não podia fazer bagunça porque o Pai do Mato pegava a gente, a gente não acreditou e um dia ele apareceu pra gente e todo mundo se machucou porque na fuga passamos por baixo de um rame. A nossa sorte é que o Pai do Mato não agacha, daí ele bateu no arame e não nos alcançou. Tenho a cicratriz até hoje!

Casar em fogueira de São João (Quadrilha) quase demais…. adoro essa festa!!!

Nós morava perto do rio de São João, a casa nossa era pertinho do rio. Quando eu era novinha, a gente fujia da minha mãe todo dia pra ir pro rio, ia a turma pequena pra ir pro rio, era pertinho. Um belo dia um irmão meu que não ficava muito com nóis disse: – “Pera aí, que eu vou arrumar um barco pra carregar vocês”, e nóis ia na onda dele, aí ele fazia aquele tanto de toro de bananeira, e furava ele assim e punha a gente em cima e diz que ia remando, né, e punha nóis sentado em redor dele. Daí quando ia chegando no lugar mais fundo ele ia e jogava nóis tudo lá dentro. Depois ele acodia. Ele nunca ficou junto com nóis. Toda a vida ele foi custoso, e não morava com a minha mãe não, mas quando ele ia, era só pra aprontar com nóis.Tinha uma pau lá que lá em cima, assim, ele entortava, daí ele subia nesse pau e pulava lá de cima e fingia que ele morreu lá dentro dágua, ai, daí nóis gritava, de medo dele ter morrido e a gente não dar conta de acudir ele. E nóis gritava, e pelejava pra acudir ele. Aí nóis escutou os outros falando que não queria chover e ele falou assim: -“olha, se pegar um santo, São Sebastião, e lavar ele”- nóis ficou de olho, escutando- “e molhar ele, chove, se lavar o pé dele”. Nóis juntou os meninos, fuxicou um pro outro e panhou o santo da minha mãe e nóis foi pro rio. Mais nóis pelou o santo da minha mãe tudo! Nóis rapou a tinta do santo da minha mãe, escondeu ele dela e ela, pra achar esse santo, deu o que fazer… Mas deu uma chuva!! Ih, matou peixe que chegou a feder na beirada do rio…!

Eu morava com Helena, nas Araras. Arranjava os namorados e minha mãe não gostava, corria com tudo. Pois eu arrumei um, com poucos meses resolvi fugir com ele. Não gostava dele, fugi de pirraça com minha mãe. Helena me ajudou a fugir. Sentei na garupa do cavalo e fomos parar em Jaraguá.

Lá quando ele brigava comigo, eu fazia pirraça e fugia pro campo. Tinha um tio dele que imitava a jaó pra me chamar. Eu ia. Quando ele já tava desconfiando do assovio da jaó, eu fugi com o tio dele pra cidade. Ele foi atrás e me viu beijando na boca do tio dele até. Sacou do revólver, mas eu tinha tirado as balas do revólver dele e jogado no rio. O outro foi mais rápido e sacou do revólver primeiro. Ele não veio mais pra cima. Já tinha três filhos com ele. Não gostava dele, mas a gente ia fazendo filho. Pois larguei dois com ele e levei um comigo. Minha mãe não deixou criar esses dois. Hoje tão casados lá em Jaraguá.

Fui viúva de três maridos, sou quase viúva do quarto e continuo solteira. Meu pai me registrou pra casar, quando eu tinha 15 anos. Depois descobri que eu sou touro virgem. Nasci em maio e meu pai me registrou em setembro.

Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: O neto estuda na Escola Municipal Luciano Peixoto

Como aprendeu a ler e escrever? Ela morava na zona rural, em Campo Limpo, então veio pra cidade morara na casa da avó. Estudou perto da Igreja Matriz, numa escolinha paroquial, quando tinha mais ou menos 10 (dez) anos, depois foi pro Grupão Amarelo (Colégio Estadual Joaquim Alves de Oliveira).

No que trabalha ou trabalhou? Trabalhou como lavradora e atualmente trabalha como educadora griô no Quintal da Aldeia /Guaimbê. Ela trabalha agora como educadora, mas já trabalhou até de doméstica. Trabalhou na roça e depois que teve quatro filhos, arranjou outro marido e mudou pra Fazenda Barreiro, perto de Alexânia. Lá ela cozinhava pros peões da roça, engordava e matava porco, buscava gado no pasto montada a cavalo. O arroz que comiam nessa época era socado no monjolo.

Quais são os seus saberes e fazeres? Talentos para a dança (“eu danço forró pra valer!”), culinária (“gosto de fazer comida”), tecelagem e para ser mãe. Sabe costurar tapete de retalho: “a gente corta os pedaços e costura fazendo biquinho”.

Com quem aprendeu? Com os pais. O tapete ela aprendeu sozinha, cozinhar também. A mãe cozinhava mas não gostava que as crianças ficassem perto. Ela não tinha paciência pra ensinar. O pai contava muitas histórias pra ela e para os irmãos, mas ela não lembra mais…

De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? Honestidade, trabalho, educação e alegria.

Trilha – Guaimbê

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AÇÃO GRIÔ NACIONAL / TRILHA PARA SISTEMATIZAÇÃO

Primeiro Ano – 2007/2008

1. A criação do lugar do ponto na ação e sua ação político-pedagógica relacionada à tradição oral –   trajetória do ponto

A Guaimbê-Espaço e Movimento CriAtivo reúne grupos que tem como foco principal as práticas corporais e ações criativas de pesquisa e divulgação dos saberes e fazeres da tradição popular em vivências inovadoras de educação comunitária.

Esta metodologia concentra-se nas relações intergeracionais e gestão coletiva do espaço e tem por base o processo de formação em dança educativa (Método Laban), dança popular e convívio com mestres de dança, tai chi chuan e terapias corporais de sua coordenadora Daraína Pregnolatto. Iniciando sua trajetória em São Paulo, atuando em escolas e bibliotecas públicas municipais, transferiu-se para o Maranhão para aprofundar convívio com mestres da tradição oral para finalmente estabelecer-se no Planalto Central e colocar em prática os aprendizados vivenciados com a formação do Grupo de Danças Brasileiras Flor de Babaçu. Em Pirenópolis, estabeleceu relacionamento com brincantes de Catira, Folias de Reis e do Divino e principalmente com s. Ico, griô com que conviveu intimamente nos seus últimos anos de vida, sendo ele proponente de várias atividades realizadas no Quintal da Aldeia e anfitrião de tantas outras em sua própria casa.

Fundou a entidade em 2001 – juntamente com o Flor de Babaçu – e a partir de 2003 puderam finalmente sintetizar esta experiência em Pirenópolis GO, com a criação da Flor de Pequi – Brincadeiras e Ritos Populares e inauguração do Quintal da Aldeia, sede da entidade. (foto 1)

A Flor de Pequi – grupo formado por pesquisadores-brincantes e brincantes tradicionais – valoriza e difunde as manifestações da cultura popular brasileira brincando e encantando a todos por onde passa. Foi responsável pela criação de vínculos, sensibilização e reconhecimento dos protagonistas da comunidade, levando os resultados deste trabalho para outras comunidades da cidade e fora dela. Desde então, vem se espalhando pelas ruas de Pirenópolis e adentrando suas escolas, revitalizando e fomentando a prática das brincadeiras infantis e da tradição popular em momentos de valiosa integração e respeito entre as gerações. (fotos 2 e/ou 5)

No Quintal da Aldeia essa educação comunitária começou a ser organizada em ciclos temáticos anuais de Vivências Educativas, construídas de acordo com as relações e convívio com o Griô Ico e outros griôs, ampliando-se naturalmente com a participação da comunidade. Os educadores foram se imbuindo deste encantamento e hoje em dia todos reconhecem a importância deste convívio em suas próprias vidas. Nas Vivências Educativas abrimos novas possibilidades de aplicação pedagógica transdisciplinar dos temas da comunidade gerando a criação coletiva de autos teatrais e espetáculos de dança-teatro, textos, ilustrações, livros paradidáticos, peças artesanais e artísticas em madeira, como quebra-cabeças. Os resultados destas vivências são frequentemente apresentados à comunidade escolar e bastante solicitados à instituição. (fotos 3)

Conta com apoio financeiro (encaminhamento de benefícios) do Ministério Público local para manutenção da sede, uma vez que recebe crianças e adolescentes em Liberdade Assistida em seu programa diário; foi apoiada financeiramente pela ANABB – Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil para aquisição de mobiliário e equipamentos; foi patrocinada pela Funarte em 2007, ganhou o Prêmio Culturas Populares do MinC e foi aprovada nos editais de Patrimônio Imaterial do Iphan e no Programa Monumenta – Unesco/BID/Iphan.

Quando começou na cidade o Programa Ação Griô Nacional, todas estas atividades já aconteciam no Quintal da Aldeia e a relação com esses griôs foi compartilhada com o Ponto de Cultura Interarte/Coepi quando do convite de parceria. As griôs Laurita e Narcisa e o Mestre Griô Bastião de Chica foram convidados pela griô aprendiz do Ponto já em decorrência desta informação e intenção de parceira com a Guaimbê.

A parceria com a Ação Griô Nacional tem contribuído enormemente para a sistematização desta prática já recorrente no Quintal da Aldeia e para a reconstrução das relações de respeito e reconhecimento às histórias ancestrais, inclusive de seus familiares, validando suas experiências de infância.

2. A criação do ser e do lugar do griô aprendiz e de sua ação político-pedagógica relacionada à tradição oral

Ser griô aprendiz na Guaimbê é diferente, lá no Quintal da Aldeia trabalhamos de turma: somos 6 griôs aprendizes com idades variadas entre 17 e 48 anos. O cotidiano da gente é assim – vivemos em relação direta com nossos griôs/avós /mestres/orientadores/companheiros de jornada.

A Flor de Pequi uniu a gente, as Guerreiras do Bonfim e seus aprendizes. Com ela a gente adentra as escolas, ganha as ruas e a simpatia de todo mundo, crianças, jovens, adultos, homens, mulheres, professores e griôs a ufa! Na cintura um cinto boniiiiiito, cheinho de tiras de fuxico, fitas de cetim, penduricalhos… um bando de trem que significa alguma coisa pra cada um de nós…. tudo tem sua própria história. (fotos 4 e fuxicos)

Lá vem a Flor de Pequi, festiva, alegre, convidativa. Vem cantando alto, as caixas ressoando ao longe. A criançada alvoroçada, esperando, ansiando.

Papagaio louro, do biquinho dourado, toma esse presente, morena, dá a seu namorado, ai ai!”

A roda vai se formando como que por encanto, uma criança, outra, a mãe, a avó, os irmãos, ao redor, a curiosidade dos que percebem. A sacolinha das brincadeiras está sempre cheia de surpresas cantadas e brincadas.

Bento que benze é o frade – frade / Na boca do forno – forno /Jacarandá – dá /Tudo que seu mestre mandar – Faremos todos!!!” – a criança que primeiro se manifestou sorteia a brincadeira da sacolinha e a roda vai se animando, ganhando força, respirando vida.

As Guerreiras cantam, contam histórias e os olhos das crianças ganham mais brilho, imaginam os tempos de antes. A serpente surge do alto do morro, linda e colorida com seu imenso rabo que …. ops… ela perdeu!!?? “Essa é a história da serpente, que desceu o morro para procurar, um pedaço do seu rabo…. você aí, é um pedaço do meu rabãããão…”

Assim brincando segue o ritual que vira conta de matemática, história do bairro, rap das avós, segue em caravana rumo à história de cada um de nós.

(fotos 5)

Nós, griôs aprendizes carregamos um sentimento profundo da nossa ancestralidade; S. Ico, o primeiro griô que se encantou de verdade com a Flor, já ensinava isso pra gente. Depois nós conhecemos s. Bastião, velho sabido dos tempos do congo e do tapuio…. fez dupla com a Marieta e s. Ico com d. Benta e lá fizemos o casamento do Jorge e da Jorgina, dois bonecões que nós temos no Quintal. (foto 6)

Depois veio d. Narcisa, que mora na Vila Mutirão, em frente à rua em que a Flor brincava aos domingos, aquela meninada…. ela foi se encantando, domingo a domingo, foi lembrando da sua infância, domingo a domingo, até que se decidiu: essas brincadeiras eu conheço…. e chegou logo de uma vez, botando verso e ficando…. da Flor pro Quintal e o novo chamado – foi trazendo as companheiras griôs e lá chegaram d. Helena, Taninha e d. Laurita. Miuza veio vindo sozinha, trazida pelas mãos da neta.

Uma coisa leva à outra: uma festa, um almoço, aniversário de d. Benta, dia das mães, pamonhada.

O convívio foi se estreitando, as griôs foram se descobrindo guerreiras e renasceram Guerreiras do Bonfim. Hoje em dia, vejam só, são educadoras griôs nas Vivências Educativas, da criação do programa à sua avaliação, são conselheiras do Colegiado e co-gestoras do espaço sede (Quintal da Aldeia).

Seguindo nessa mão, a amizade com os outros griôs foi sendo alimentada nas festas de tradição popular, Festa do Divino e de Reis, principalmente. Griô aprendiz também é catireira e folioa e aprende diretamente com os mestres nas festas. Todo mundo mora no Bonfim, ou Aldeia como querem outros pejorativamente, esse grande bairro mãe que acolhe todos os moradores da roça, “é uma turma só”, como eles gostam de dizer. A partir deste convívio, foi proposta a criação dos “Bailes da roça”, atividade que vem reunindo um nº. cada vez maior de griôs da comunidade. Essa atividade tem valorizado sobremaneira a comunidade griô local, valorizando a relação intergeracional e dando a oportunidade às crianças e jovens de recriarem suas histórias a partir deste convívio. (fotos 7)

Nos bailes quem toca são os griôs Nô sanfoneiro, Armando, Luis cantor, Nego Aires, tio Duti (tio da Tereza é nosso tio também) e Lourenço sanfoneiro. Quem organiza são as Guerreiras. Dedé e Lourival (este último não bolsista no programa) organizam o Catira, que já ta virando grupo: o infantil e o adulto. E ainda tem o Lundu, que renasceu das cinzas da Vila Propício. Assim outros griôs locais estão se reconhecendo sabedores e fazedores.

Essa caminhada é longa e acabou formando uma Caravana – a Caravana Guaimbê – que viajou por lugares importantes da cidade juntando as crianças e professoras da escola, os griôs e quem mais queria. Virou auto teatral e se apresentou no Cine Pireneus e no Theatro de Pirenópolis, importante que só!

A montagem do “espetáculo” foi totalmente coletiva e foi sendo construída ao longo do semestre. O que a gente contou? Contou as histórias de vida das Guerreiras e de seo Bastião, a história do Bairro do Bonfim, um pedacin da história da cidade, figuras que fizeram a diferença, como Santa Dica da Lagolândia e Com.Joaquim Alves da Fazenda Babilônia.

Mais importante que tudo foi a riqueza dessa história, que foi inventada bem de pertinho, no convívio que se estabeleceu entre a equipe do Quintal da Aldeia, os griôs, as crianças e as professoras, todo mundo unido.

3. A criação da rede de transmissão oral na política de educação e da cultura local, regional e nacional – relação da escola e do educador

Uma caminhada se inicia com o primeiro passo. Encontro, troca, encantamento, re-união: presentes os griôs aprendizes do Quintal da Aldeia, três professoras do Colégio do Bonfim, a coordenadora griô aprendiz e a Griô Narcisa. Visitas ao Quintal da Aldeia foram programadas, cada semana uma turma. Tudo estaria certo se o errado não chegasse junto… Os pais não entenderam a saída das crianças para brincar. Brincar de aprender não pode.

Novo encontro, nova solução: se as crianças não podem ir ao Quintal, o Quintal vai até as crianças. Combinado. Toda semana adentrava a escola, junto mais três griôs: Helena, Taninha e Miuza, cada uma com seu cada qual. Você já viu alegria tamanha? E a algazarra? Maior ainda! As reclamações começam: que barulho fazem 60 crianças juntas no pátio interno de uma escola, já pensou? Criança que não faz barulho é criança? Criança que não se mexe é criança? Criança que não experimenta, ousa, inventa, cria, recria, faz e acontece é criança? Na escola criança tem que ser criança quieta e comportada, acomodada. Se atividades lúdicas e interessantes não fossem tão raras a excitação seria mais natural, menos exagerada.

Bento que benze é o frade..!”

A Caravana avança, passeia, conta, reconta. As professoras quase em estado de choque… eu consigo? Eu entendo? Eu quero?

E os griôs lá, todos, mestres e seus aprendizes, contando coisas dos tempos de antes, de roça e mutirão, de baile na lua clara, de espantar passarinho da plantação. Os olhinhos das crianças brilhando com as pequenas descobertas, a canção de acalanto do rio, a produção do Rap das Avós.

Minha avó era mais velha, ensinava eu e meus irmãos, coisas lindas, coisas belas…”

Lá veio a primeira apresentação, bem no meio do ano, uma em junho outra em agosto. Sucesso total! Então é isso? As professoras entenderam, o brilho no olhar deu sinais de conhecimento. Agora eu quero, quero até que estejamos mais juntas, mais próximas. Re-união mais uma vez, toda semana, griôs aprendizes e professoras. Ô trem bão! Planejar, construir, criar, programar, agir. O currículo se abriu, os passeios ampliaram os entendimentos da matemática, da produção de textos, da história e geografia locais. Passeio pra aprender a tecer. Passeios pra conhecer novos povoados, fazendas e fazedores de histórias.

(fotos 8)

O semestre andou Caravana adentro e a história do bairro foi se desvendando e revelando junto com a história da cidade. Alegria, felicidade, realização. Chegava o dia de uma Caravana encontrar-se com outra, a da Expedição do Redescobrimento. Crianças felizes se mostraram ao Brasil Central na dança do catira sob a orientação de todos os griôs. Os visitantes encantados com a dimensão e importância do evento. Mas o grande evento ainda estava por fim e finalmente a Grande Caravana do Bonfim encerrou sua jornada no teatro de Pirenópolis, numa forma encantada de contar seu conto.

Hoje os griôs caminham pelas ruas e são reconhecidos. Hoje as crianças sabem que seus pais e avós também sabem histórias dos tempos de antes. Hoje as crianças cantam músicas desse tempo, recontam as histórias da sua cidade e experimentam os primeiros passos em direção aos seus próprios dons.

Agora a Caravana segue em direção à Escola Geraldo de Morais, e a gente miúda dessa nova viagem já se encanta com tantas cores e histórias. A Caravana não para e os viajantes não descansam jamais. Cada pouso é a continuação da última viagem.

(fotos 5)

Pela nossa experiência, sempre que ouvimos os anseios e necessidades dos Griôs, seus desejos e vontades, tudo se torna claro, afinal nós é que aprendemos com eles e por eles somos orientadas. Percebemos que nosso papel como griôs aprendizes é ouvi-los com profundo respeito e tentar fazer com que os professores e as crianças queiram ouvi-los também e se encantem com seus saberes.

4. O encantamento da identidade, ancestralidade e alteridade dos estudantes e de todos os participantes da Ação (griô, educadores, griôs aprendizes)

Griô ouvido é griô despertado. Griô reconhecido é griô feliz. Griô fortalecido é griô saudável. Griô valorizado é griô empoderado.

No Quintal da Aldeia os griôs não conseguiram se separar da “turma” e dividiram suas bolsas com outros dois companheiros que no final somaram 15 griôs bolsistas. Isso que é solidariedade e companheirismo.

Não tem conta o tanto de ensinamento bonito que eles compartilharam com a gente e com as crianças, mas algumas frases comoventes não saem de nossas cabeças:

Mestre Bastião de Chica: “Amizade não se compra”; “Minha filha, vocês estão me ajudando a perceber que eu sou uma pessoa boa”; “Vou passar a minha vaga pra outro (com relação a morrer)”.

Griô Nego Aires: “Os jovens precisam aprender a trabalhar; tem que estudar, mas estudar demais pode atrapalhar a fazer outras coisas importantes”. “Aprender não ocupa lugar, quanto mais sabe, melhor fica”.

Griô Armando: “A criança que tem o dom pra música precisa ser estimulada, a criança precisa aprender olhando os mais velhos tocando, que foi como eu aprendi com 10 anos.”

Griô Helena: “É importante ensinar as pessoas a trabalhar desde pequenos.”

Griô Dedé: “Tenho vontade de ensinar pras crianças como é o catira, o sistema da Folia, como a bebida na Folia tem que ser comedida.”

Griô Taninha: “Desde pequena adoro festar. Quando era dia de baile, eu engomava com polvilho a saia rodada e ia pras festas , flap, flap, com a saia fazendo um movimento bonito.”

Griô Laurita: “Acho que tudo que sei é importante. Foi importante pra mim, deve ser pros outros, só não o estudo, pois foi pouco. A seresta, a reza, o bordado, cozinhar. A coisa mais importante que ensinei pro meus filhos foi a responsabilidade. Até hoje eles me agradecem e acho que todos deviam aprender a responsabilidade, honestidade e respeito ao próximo, pois são o melhor bem que a pessoa pode ter.”

Griô Duti: “As coisas que eu gosto – bater pandeiro, por exemplo, pelejei para passar para meu filho. Se a criança tem interesse, ela tem que ser incentivada. Porque com um músico, um sanfoneiro, um pandeirista, a festa está feita. A Folia – o folião tem que saber pular catira e cantar, senão não é folião. Eu toda vida mantive meu repertório. Não sei dançar catira como muitos dançam por aí, mas sempre pulei pra dentro, pra ir aprendendo, pra salvar o bolo. Sanfona eu tive duas, ainda tenho sonho de ter de novo. E o pouso de Folia – só de ver a bandeira chegar quando se dá um pouso, aquele povão, a bandeira no altar da sua sala – é uma satisfação.”

Griô Miuza: “Plantar, é o que considero mais importante, saber limpar o arroz, o feijão e o milho pra planta crescer. Se não souber tirar o arroz, perde tudo. Tudo tem sua época certa de plantar e de colher, a lua certa. Porque sem alimento ninguém sobrevive e hoje em dia nenhuma criança sabe de onde vem o alimento.”

Griô Narcisa: “As mães conversavam entre si – você planta um pé de abóbora e vira ele pra onde quer que ele dê frutos. Se deixar alastrar e madurar na hora de virar, ele quebra. Tem que educar antes de amadurecer, enquanto o cipó está molinho. Elas trocavam referências sobre a educação dos filhos.”

(fotos 9)

Uma história

Miriam é uma jovem estudante com necessidades especiais que se identificou imensamente com o projeto, tendo passeado por todas as suas etapas. Interessante que ao longo do processo Míriam exprimia como se sentia excluída e frustada pelo dia-a-dia escolar, com o qual não se adequava, por suas dificuldades de aprendizado. Durante o processo foi conseguindo demonstrar variados talentos nas atividades corporais e plásticas, dando vazão a sua inteligência intuitiva e sintonia com as propostas. Na apresentação do teatro, apresentou o espetáculo e dançou hip hop acompanhando o grupo “Mensageiros do Rap”, também formado por jovens da comunidade e coordenado por Murcego, griô aprendiz que trabalhou com os alunos a composição do Rap das Avós.

Passou a freqüentar os bailes do Quintal da Aldeia e a conviver mais diretamente com os Griôs e Guerreiras. Em um almoço do dia dos pais, tocou pandeiro e violão com grande senso musical, exercitando aquilo que os mais velhos chamam de dom. Sua mãe passou a incentivá-la nestas atividades, quando antes partilhava com a filha o desconforto do ser “diferente”.

Depoimento de iriam Lima Azevedo, 19 anos

Aluna do Colégio Estadual Nosso Senhor do Bonfim /6° ano B

(foto 10)

Sobre o projeto na escola – as vivências

Foi bom ter a Caravana Guaimbê na escola. Passamos a aprender muitas coisas interessantes, o movimento. As Guerreiras ensinavam, cantavam música. Aprendemos muito com elas e os educadores. Comecei a me interessar pelo que as pessoas faziam, os projetos. Aprendi como trabalhar com projeto, os alunos dão continuidade ao jeito de cantar, de movimentar. Lembrei da minha avó, que mexia com roça, com plantação.

Alguns alunos não gostavam, que atrapalhava a aula. Outros passaram a gostar, a interessar pelas coisas. Eu me senti melhor porque a pessoa vai convivendo com os outros, vai aprendendo e desenvolvendo mais. Pra mim ajudou a esquecer os problemas de convivência.

Lembro que o projeto começava com movimentos, depois vinham as músicas dos griôs. Tinha a música das Avós, “minha avó era mais velha”. Tinham os movimentos da água… a pessoa reconhece mais quando faz o movimento com o corpo. Gostei do Arroxoxô, porque é música com movimentos. Das árvores que fazíamos uns com os outros.

A escola é melhor com projeto, a gente vai reconhecendo, vai dando continuidade. A professora gostou. Quando as Guerreiras falavam as histórias, a turma interessava mais. Esse ano tem gente que sente falta do projeto.

Sobre a apresentação no teatro – resultado do processo

O Murcego ficava cantando música, fazendo movimentos da Capoeira. Jackito fazendo hip hop dentro da roda. Pra mim dançar no palco foi legal, as pessoas ficaram olhando, me disseram que acharam bonito. Quando acabou o teatro, fez aquele baile.

Sobre sua participação nas atividades do Quintal da Aldeia e na comunidade

Acho bom os bailes, os movimentos. São momentos de reunião da comunidade. No baile da Guaimbê toquei pandeiro, violão. Não tinha tido oportunidade de experimentar instrumentos, achei bom mexer com música, dá aquela tranqüilidade. Gostei dos desenhos, fizemos diferentes: quadrados, retângulos bem coloridos, quebra-cabeças.

O Rap é bom de dançar, de desenvolver. Vai passando pela mente. A gente vai fazendo e vai ajudando outras pessoas que não conhecem o ritmo. Eu sou assim, gosto de fazer e ajudar os outros a aprender. Na escola, os jovens gostam do Rap.

Sobre continuidade

Já contei histórias pros meus sobrinhos. Se tivesse que dizer algo aos griôs pediria para eles ensinarem mais da vida deles pra gente, porque faziam de tudo e conheciam muita coisa.

Quero continuar participando, desenvolvendo mais, reconhecendo mais. Quando eu for mais velha vou ensinar sobre o que se conversava, como era a vida antes.

5. Outros registros

Observamos que este primeiro ano do Programa Ação Griô Nacional, como na maioria dos casos onde se implanta uma nova metodologia, serviu para dar início a um trabalho de reconstrução do modelo pedagógico oficial. Sabemos que as escolas são tão reféns das leis de educação instituídas a nível federal quanto de suas próprias limitações de experiência e convívio com metodologias criativas e de cunho comunitário. O convívio escolar é cansativo, competitivo e quase nada criativo, prática que estimula processos de tensão e stress entre a equipe. Deixando um pouco à margem estas questões, pudemos perceber que principalmente para as professoras, trabalhos como estes representam verdadeiros oásis no árduo cotidiano de sua tarefa como educadoras. Elas próprias carecem de estímulo, vivência, capacitação, oportunidades criativas, jogos, brincadeiras. Acharíamos importante o programa propiciar um primeiro momento de “encantamento” oficial.

Mesmo com as dificuldades que se apresentaram durante a caminhada, a experiência teve resultados maravilhosos e a apresentação dos resultados no teatro foi o consagramento, com coroa de ouro, da importância da participação e referência dos griôs em nossas vidas.

Percebemos que as escolas ainda temem a inovação, simplesmente pelo fato de desconhecerem possibilidades reais e não terem nunca, como professores ou educandos, experimentado alternativas ao já conhecido (e falido) método tradicional de ensino. De outro lado, os pais também não compreendem uma educação que não repita o modelo formal estabelecido e ficam alarmados ao perceber seus filhos “brincando” ao invés de “estudar”. A escola foi corajosa ao aceitar, mesmo desconhecendo a metodologia, essas novas propostas dentro de seus muros.

Um fato importante que engrandeceu anda mais a Ação em 2008 foi a integração deste projeto com a Expedição do Redescobrimento (BMR), pois uma metodologia trabalhou no sentido de fortalecer a outra e as duas fortaleceram a nossa metodologia, contribuindo para a sua sistematização. Por fazermos parte das duas ações, percebemos que as duas metodologias garantem definitivamente o empoderamento, protagonismo e autonomia das comunidades envolvidas. O foco das duas iniciativas é a memória, uma garantindo sua perpetuação nos sistemas oficiais de educação e a outra garantindo sua continuidade e valorização nas comunidades, ou seja, uma ação fortalece e valida a outra e quem sai ganhando são as comunidades. Uma parceria mais efetiva neste sentido poderia ser um modo bastante prático e eficiente de reconhecimento e fortalecimento do tema, propiciando maior tempo de convívio com as pessoas da comunidade, favorecendo uma efetiva troca de experiências e garantindo a disseminação destes saberes.

O que ficou de aprendizado pra nós:

  • Griôs e griôs aprendizes em convívio de mestres e aprendizes valida a relação e a disseminação de seus saberes;

  • Griôs não devem se sentir cumprindo horário de trabalho;

  • Os Griôs sentem-se mais seguros se a transmissão de seus saberes nas escolas se der da maneira como eles mesmos aprenderam, promovendo mudanças dos paradigmas educacionais;

  • Promover o convivio entre todas as gerações é fundamental para garantir o sucesso da Ação.

Sugestão para os próximos editais: observar a relação existente entre griôs aprendizes/griôs/pontos de origem, porque dessa maneira ela simplesmente se expande para a escola. Para a escola pode ser novo, mas a unidade estabelecida entre os atores envolvidos torna o processo mais natural.

Um bom termômetro a respeito do resultado desta primeira jornada foi o chamado por parte de outras professoras solicitando a ampliação da ação e o desejo de participar deste encantamento.

OBS: AS FOTOS 11 SÃO FOTOS TIRADAS NA CASA DE S. BASTIÃO QUE SE VOCÊ ACHAR QUE SERVEM PRA ALGUMA COISA…texturas, gostosuras…

As fotos 1e 10 são de autoria de Paula Andréa Ramos as outras pode colocar autoria Quintal da Aldeia?

Trilha – Projeto Presente

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Terça feira, 06 de maio de 2008

PONTO CULTURAL E AMBIENTAL DA SERRA DO CIPÓ/

PROJETO PRESENTE/ MINAS GERAIS/ BRASIL

Neste ano que passamos associados à Ação Griô Nacional, a entidade Projeto Presente, proponente e executora do Ponto Cultural e Ambiental da Serra do Cipó e de variadas atividades em arte educação e meio ambiente desde o ano 2000, cresceu significativamente. Tanto no âmbito do aprofundamento das pesquisas sobre manifestações culturais como das iniciativas no âmbito de desejos compartilhados em ver estas praticas reconhecidas como um direito do povo brasileiro.

Sem perder de vista a dinâmica local, as nossas dificuldades e o contexto socioeconômico e cultural fazedor e vivificador das aprendizagens coletivas, considero uma celebração, o impulso que a Pedagogia Griô agrega e engaja no processo da nossa identidade, liberdade e dignidade como um todo.

O Brasil vem, portanto, encurtar a distancia com relação à incorporação pelos poderes instituídos, através da sociedade civil organizada, da maestria insubstituível da raiz de tradição oral. Nesta rede que é criada e instituída pelo Grão de Luz e Griô junto com a imensa teia de Pontos de Cultura Brasil adentro testemunha, o interesse crescente de nos educarmos em nossas vidas constantemente ligados á nossa ancestralidade, ao fortalecimento dos vínculos interinstitucionais, de pertencimento da comunidade e no envolvimento determinado em melhorar o processo de ensino-aprendizagem transformador da nossa realidade.

Para traçar um panorama geral desta intensidade de relações vibrantes no laboratório da Ação Griô, faço este testemunho que acena alguns aspectos e problematizaçoes, questões criticas e patamares dos espaços do visível e do invisível; escolha que afirma a vontade de participar de modo pro positivo na elaboração e viabilização de respostas, na esfera social e publica, para o degelo da conjuntura atual ainda tão injusta no nosso território.

-Antes da Ação Griô se apresentar ao Ponto, a instituição que represento – Projeto Presente, já trabalhava com a comunidade local e pesquisadores da cultura popular, na força espiritual e vital que as manifestações tradicionais corporificam a perspectiva ambientalista intrinseca ao culto e vice versa. Entre alguns destes trabalhos estão a capoeira, a dança afro, o teatro, o intercambio entre comunidades adjacentes, festas de integração, carnavais temáticos, levantamento de bois e visitas a instituições regionais. Foi numa destas ocasiões que a atuação do “Cavuco” Fernando (Griô Aprendiz) se destacou e sua intervenção em um dos territórios abrangidos pelo Presente –Lapinha, proporcionou, entre outras indicações interpessoais, o acumulo de afeto e anseios, propensos ao desejo de a qualquer hora, complementar nossas aprendizagens em uma nova ação vinduoura.

-No momento que a Ação Griô Nacional é anunciada em forma de Edital para os Pontos de Cultura vimos neste profissional respeitado e atuante há tempos na região, o Fernando, como a melhor decisão de escolha para coordenador Griô, pela sua qualificação popular, pela necessidade de atingir determinados resultados no tempo limitado de realização do programa, pelo volume de recurso bastante reduzido e, sobretudo, pela sua entrega e dedicação em debruçarmos juntos na construção de um projeto político pedagógico básico, capaz de orientar e favorecer nossas futuras atividades e alcances. Assim entrelaçamos nossos planos e nos entendemos arduamente nesta criação como uma nova possibilidade, não só do Griô Aprendiz e tão pouco de uma reprodução do que existia no Ponto, mas justamente na exploração comum do desejo próprio ao nosso espaço e ao encontro de nossos sentidos.

-Nesta etapa de preparação ao Edital, os proponentes ficaram incumbidos de formalizar uma parceria com Escolas e/ou universidades. Qual importância no encantamento entre os pares da ação, deste oficio de compromisso? Provocar mudanças de paradigma nas instituições vão alem do alcance de atuação dos projetos muito embora, a “linha de frente” das organizações – que enfrentam o aconchego hierárquico das oligarquias instauradas nos locais consagrados onde se institui quais conhecimentos serão valorizados, aprendidos e mantidos ao longo do tempo – devam tentar sempre, romper com a lógica burocrática fechada do sistema escolar, pouco flexível e intransigente. “Agulha puxa linha” e neste processo educativo, que conceitos não estarão sob influencia de posições e trajetórias pessoais, políticas e/ou ideológicas? Esta reflexão contribui para a ampliação do nosso universo educativo que se desenvolve na valorização extra escolar, na vida familiar e nas praticas sociais. Tendo como base esta discussão, trago a baila algumas acontecencias próprias do nosso jogo elástico da vida, do vai e vem construtivo e transformador que praticamos ao assumir a tarefa de aproximação junto ao sistema escolar:

1-fizemos o formal como manda o edital

2-mudou a autoridade que assinou o oficio encaminhado no período de analise do projeto

3-Ao ser aprovado no edital, mudou supervisora pedagógica de duas das quatro escolas que elegemos trabalhar.

4- Novamente mudou a Secretaria de Educação do Município

5-de novo mudou a Supervisora pedagógica da escola

6-a Escola transferiu a matriz para a Sede do município o que acarretou no deslocamento e sobrecarga da diretora ate então foco de nossa estratégia

7- é trocada a inspetora de Ensino da escola

8- a diretora retorna a suas funções agora na escola filial

9-acontece o Encontro Regional Brasil Central no nosso município e tivemos o privilegio da participação das duas Secretarias de Educação, das duas supervisoras pedagógicas, da diretora e de duas educadoras.

10- Chegou o momento da entrada nas Escolas e somente uma das quatro escolas apresentou resistência e a atuação do Griô Aprendiz se deu apenas no contato formal de reuniões, o mestre sequer entrou em sala de aula.

11-Houve aceitação e demanda por continuidade das atividades nas escolas hospitaleiras.

12- O envolvimento da educadora na Escola resistente a Ação propôs uma formalização da Ação Griô Nacional junto a Superintendência Estadual de Ensino para o reajuste desta conduta da Escola para com a entidade executora da Ação local

13-Por hora no Encontro da Colheita, flutuou o encaminhamento de embutir no debate das conferencias Estaduais e Federal a reivindicação de uma consideração em diretriz ao reconhecimento e incorporação na pratica docente da tradição oral.

14-Como consenso naquela ocasião, fica a opção estratégica pela conquista do corpo docente para, a partir do dialogo com os alunos e comunidade escolar, eclodir a demanda por esta abordagem e empatia generalizada.

15-É postulada uma nova Secretaria de Ensino no município.

-Resta a certeza que a política local em educação não mantêm uma linha de raciocínio norteador e que nossas Ações devem favorecer o empoderamento de ‘baixo para cima”, junto aos alunos e professores para depois alcançar uma norma ou lei.. E o adentramento nesta Escola fechada, enquanto isso, fica sujeito a entretenimento e recreação?

-Nas intervenções diretas, nos núcleos, meandros e entornos destas dificuldades e potencialidades, vai crescendo e assumindo importante papel o lugar dos Griôs Aprendizes e sua ação político-pedagogica. O nascimento deste ser iluminado, que se descobre ao caminhar, que é o sangue que circula e movimenta a auto imagem do povo, que dá vida às conexões orais de uma região, tem o dever de inclusive, dar espaço às preocupações e expectativas depositadas pela instituição no qual está inserido. Esta sensibilidade é necessária para suporte e organização do Ponto nas demandas e responsabilidades assumidas e, portanto, no fortalecimento institucional, de afirmação de identidades e dos direitos. Esta ponderação recai no desafio de criarmos um sistema de comunicação entre nós, mesmo que à distancia e em ambiente eletrônico, por exemplo, um síitio onde os Griôs Aprendizes teriam a incumbência de animar e onde todas as regionais poderiam expressar seus desejos e seus passos freqüentes e para que os resultados possam ser visíveis e compartilhados num lugar/tempo comum de ser alcançado. Ou seja, devemos possibilitar maior interlocução, alcance e transparência na apropriação dos processos, dos sentidos e das proposições nas políticas publicas da Ação Griô Nacional. Cabe ao Griô regional dar apoio e suporte para a superação das dificuldades, ficando atentos para não colocar nos ombros do Griô Aprendiz local e do Ponto, o peso e conseqüências para a superação das dificuldades que são objetivas, geracionais, sociais, políticas e econômicas. Cito alguns fatos da nossa realidade que poderiam ter tido uma aproximação e assimilação mais harmônica: 1-alguns assuntos e demandas eram destinados via e-mail exclusivamente ao Griô Aprendiz 2-houve apenas um encontro dos Griôs Aprendizes, no Encontro regional 3- O Griô aprendiz local do nosso Ponto se manteve na função desde o inicio da Ação. 4- Aconteceu troca de direção na função do Griô Aprendiz Regional, saiu Chico e ficou Fabiola 5- A Griô Aprendiz Regional realizou uma caminhada de surpresa e às pressas, sem participação do Griô aprendiz local

Mas como discutir e “pesar na balança” assuntos de desdobramentos e de combinados que extrapolam as relações institucionais e perpassa atuações particulares em eventos e em negócios autônomos porem complementares a Ação? Por exemplo, a consultoria do Griô Aprendiz na produção do espaço Escola Viva na Teia 2007? Ou no aluguel de equipamentos do Griô aprendiz na realização do Encontro da Colheita? Ou na contratação do diretor do Ponto na assistência de pré produção e como motorista do Encontro Regional? É preciso estabelecer demarcações do singular e do coletivo pra que no decorrer da Ação os ruídos e interferências das diversas atividades simultâneas não dispersem para fora do campo entendido. Estes combinados interpessoais afetam a responsabilidade e compromisso social do destino do grupo e da convivência comunitária? O que garante esta coesão? De quem é o lugar da produção executiva nas regionais da Ação Griô? Acredito ser importante o esclarecimento e conhecimento do responsável pela gestão do recurso financeiro nas regionais e dos direitos das partes para que possamos exercer nossa participação percebendo a importância das nossas atuações na implementação desta política publica.

Sem duvida, dos conflitos gerados destas turbulências e pressões, das melhores extensões, os esforços e dedicação aplicados na Ação, superaram as metas físicas e quantitativas, transbordando a imersão apaixonada em coisa de família, suprimindo, de tal maneira, as adversidades do dinheiro.

Na busca experimental por um “modus operandis” que contemple as iniciativas, ritmos, interesses e tempos da sociedade e que simultaneamente estabelece uma dinâmica comum, própria de grupos, devemos nos apoiar sobretudo, na nossa capacidade de renovar e enfrentar os problemas surgidos no decorrer da ação.

Considerando a dependência e a conseqüência de cada meta/alem da meta e etapa/tapa e a interação entre estas práticas e visões, tenho constatado uma condição única, criadora de um percurso infalível e inesgotável do saber na troca de transmissões orais. Isto tem se mostrado possível com todo confronto necessário entre entidades civis, órgãos públicos, escola, poderes locais e componentes da equipe. Descobrimos na nossa região diversos elementos, miudezas e invisíveis facilitadores ou acumuladores de virtudes, de simbolismos, e de representatividade, seja de vinculo parentesco, seja de origem histórica e/ou de origem social. A mestra Piedade, por exemplo, descobriu que o mestre Juquinha é casado com uma prima sua e que ele aprendeu um pouco do batuque que sabe num lugar comum, onde Piedade também costuma ir à procura das ervas milagrosas dos campos rupestres. E nesta recíproca, a bisavó de Dona Mercês veio da Africa no mesmo comboio da bisavó de dona Divina e no Brasil, seus antepassados viveram juntos na mesma senzala – aquela onde fizemos a roda da vida no Encontro Regional Brasil Central – local de onde saíram cada uma e foram constituir família cada qual no seu mocambo. Para alem destas constatações outras aproximações, cognições e significados vão sendo somados, continuados e desdobrados entre os presentes, sejam mestres, Griôs, gerentes, coordenadores, comunidade, crianças, turistas…. Esta vivencia, tanto nos eventos promovidos no decorrer da Ação, ou apenas no contato áudio visual dos registros, sucumbem aos resquícios e deflagram uma cumplicidade? Isto possibilita maior grau de participação e confiança? Dentre os vários caminhos encontrados e percorridos, muitas pontes fizemos e compartilhamos com os Pontos de São Gonçalo, Milho Verde, Diamantina e outras poeiras e repasses levantados em Itambé, Conceição, Serro e na Chácara em Santa Luzia. Realmente um caminho largo e extenso, firme, onde pudemos cruzar espinhos, tempestades, sol na mulera e muita fartura nas bonança da semeadura, sobre a memória e imaginário conterrâneo, do histórico de ocupação da região, da tradição dos cultivos, dos nomes geradores das paragens e das lá vão gerais.

-Outra discussão a salientar; será a bolsa auxilio um reconhecimento do que já foi feito? Uma compensação? Ou será este recurso financeiro mais uma tarefa a fazer para conquistá-la? Ou será um estimulo a constancia das praticas?

-A mediação do ponto de Cultura implica em algumas interferências: ao nível da estrutura política cultural como direito dos mestres a ser oficializado; ao nível da didática e conteúdo a ser apresentado em conjunto aos educadores, escolas e familiares; no nível da importância dos mestres em se auto-reconhecer e a se auto-determinar perante o espaço comunitário e ás forças dominantes. Inerente a estes vários níveis de interferência, ressaltam outros aspectos que definem, transformam e reinventam a organização do aprendizado. Como por exemplo, a afinidade, o engajamento, a disponibilidade, o discernimento, a compreensão, a disposição, a saúde, a mobilidade e acessibilidade entre tantas outras situações, articulações e iniciativas de todas as partes envolvidas na ação que são imensuráveis, imprevistas e indiscutíveis, pois estão sempre acontecendo independente do nosso consentimento. Trata-se, sem duvida, de assunto bastante polemico, que ao ser abordado a partir de referências culturais e identitaria dos grupos não dominantes, trazem imensa gama de abertura e desalienaçao em relação à realidade. Pois a bolsa que os mestres recebem mensalmente é o inicio do reconhecimento a existência destas pessoas porem, ainda não se compensa o desnível condicionado pela visão eurocentrica guardada na sociedade desde quinhentos anos até hoje. Neste sentido a opção no destino destes recursos pelos bolsistas, visam a suprir direitos básicos das leis fundamentais da vida, como moradia, compra de remédios, de mantimentos, de serviços fúnebres, e de contas abusivas de agua e luz. A demais é um compromisso assumido entre os participantes, uma troca oficial, de uma carga horária a cumprir e uma moeda a receber cujo sujeito ocupa um novo espaço social. E por ser novo este espaço, inclusive para as pessoas que circundam, altera o dia a dia da comunidade em seus desejos, em suas cobranças, opiniões, subjetividades, constrangimentos e liderança. O fato é que, a indústria criativa merece ser mais bem discutida; o valor moral do dinheiro agregado a atividades de visibilidade internacional e de repercussões locais subsidiam perspectivas de inserção profissional mesmo que indiretas; o aperfeiçoamento e/ou esclarecimento a este modelo em implementação, media a própria forma do modo que a pessoa lembra e conta a própria vida.

Isto observado, é fundamental pensar na memória, na historia das raízes brasileiras, na oralidade e que esta educação não é exclusividade da escola. Entretanto, cabe a Escola abordar e dialogar com a diversidade dos diferentes raciocínios e vivacidades que a rodeia e a compõe. A experiência da Ação Griô na Serra do Cipó, serve praticamente, como possibilidade de aproximação entre as cercas da Escola e o que a cerca, quer dizer, o que está contido na escola e o que a contem. Bem ou mal, buscou-se esta convivência, com problemas da instituição Projeto Presente, do Ponto de Cultura, da própria Escola, dos adolescentes aprendizes que foram alunos, dos educadores, dos mestres, dos Griôs Aprendizes, das acessórias e coordenação da Ação, dos moradores e ate dos visitantes da região.

-Foi possível constatar que não é o projeto ou planejamento político pedagógico bem montado e acabado que determina o sucesso maior de uma invenção educativa. Muito mais determinante é o afeto e a relação que se forma e se prolonga entre os envolvidos, a maneira como se expressam e traduzem no cotidiano as necessidades culturais e sociais individuais e do grupo. De modo geral, a eficiência dos espinhos e a boniteza da rosa, superaram nossas expectativas, como estratégia de luta por política publica articulada a diversas outras áreas alem da Cultura Popular. Cabe a nós, na intensidade e intimidade de nossas aprendizagens, redirecionar o processo a ser obtido, nos colocando em continua renovação, fundamentado no respeito entre as pessoas e perante o grupo e tornando como premissa que a comunidade é que deverá explicitar e estimular a participação da Escola no processo de reconhecimento das manifestações culturais locais. Neste sentido, nós do Ponto de Cultura somos temporariamente, intermediadores entre a ação comunitária que ocorre nos distritos e os escalões governamentais, tendo como referencia o fazer e o pensar das comunidades em questão, inseridos no contexto global.

-Por outro lado, devemos levar em conta, que o processo é acelerado e os resultados não são imediatos. Daí a importância, no desenvolvimento da abordagem e da apreensão dos conteúdos culturais pela e com a comunidade, da garantia e amplitude do tempo de atuação da Ação no local. Neste sentido, é louvável e gratificante a noticia de que o próximo edital esta por vir, com mais participantes e com duração mais expandida. É uma grande conquista que cria condições para haver sincronia entre as dinâmicas cultural, educacional e institucional, dentro e fora da Ação.

-Uma ultima consideração diz respeito ao entrelaçamento, não só dos objetivos e metas indicados pelas instituições da regional Nascente das Veredas e das diretrizes da Ação Griô Nacional, como também da generosidade, congruência e sinergia na criação de trabalhos e formas para troca entre as instituições e os profissionais das equipes. Esta alteridade e maturidade ficaram evidenciadas nos últimos consensos do Encontro da Colheita que deliberou por um encontro próprio desta rede independente da próxima configuração do edital 2008, em promover um momento para concepção e viabilização de um projeto para capacitação de educadores com material didático próprio. Outro protagonismo coletivo é a tentativa de arranjos para captação de recursos solidários a manutenção das bolsas, e por ventura, outras despesas de deslocamento, enquanto o resultado e pagamento dos selecionados neste próximo edital se consolide. Esta potencialidade e vontade do grupo, em muito fortifica a Ação Griô e desperta para o pensar dos impactos e das efetividades sócio culturais alem do projeto em si, em seus contextos de vida, de relações com o mundo do trabalho, do estimulo á participação social, da inserção em espaços de tomada de decisão comunitária e ao mesmo tempo, na influencia e reciclagem de novos vínculos como referencia comunitária aliada a um movimento de capilaridade internacional.

Carta Avaliação da Colheita – Rosana Bianchini / Instituto kairós

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Carta Avaliação da Colheita

Depois de três dias de caminhada me pego sentada ao computador no bate pronto da emoção em direção à conquista de um espaço de comunicação e aprendizado com vocês.

Apesar da noite de quase inverno o que eu queria mesmo era estar agora em um campo ensolarado colhendo poemas silvestres, juntá-los em buquê e presentear cada um de vocês que contribuíram com este plantio! Minha esperança é que a gratidão que sinto hoje por todos aqui presentes, fosse devolvida em dobro por tudo que me proporcionaram nestes três dias.

Cheguei aqui com uma grande curiosidade pela forma como nossa reflexão se daria na direção da sistematização de nosso livro e de nossa ação, que cheguei pronta a fazê-la , mas fui percebendo ao longo dos dias, que de fato ainda não a conhecia. Pelo menos não na sua alma, na sua essência, em seus cheiros e perfumes mais especiais.

Pela primeira vez depois de um ano de ação Griô, tive o meu momento de encantamento: encantamento pelas pedagogias dos pontos, pelas conquistas do nosso ponto no ano, pelas facilidades que hoje temos, pelas nossas dificuldades encontradas ao longo deste caminho. A Colheita da Caminhada foi para mim de fato um primeiro ato de aprendizagem da Ação.

Toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva. E o afeto, ( que em sua raiz etmológica significa “ir atrás”), é sempre o movimento da alma na busca de algo que se quer.

Uma vez li não me lembro onde, o papel do educador é como o do cozinheiro…. antes de dar a faca e o queijo ao aluno, deveria provocar a sua fome… Se ele tiver fome, mesmo que não haja queijo, descobrirá uma forma de fazer uma maquineta para roubar queijos…

Portanto, pela primeira vez desde que a ação começou, percebo que senti fome. Não aquela de todos os dias do almoço corrido ou de lanches fast food encontrados pelas esquinas da vida. Uma fome que não se sacia rapidamente pelo simples fato de preencher uma necessidade física. Eu tive a fome do encontro ou da possibilidade dele, do sopro de afeição necessário só conseguido quando nos preparamos para o real embate de almas famintas…

Uma fome que preza antes do preparo do prato, o preparo da mesa, onde o ritual faz parte do jantar, (que melhor seria se pudesse demorar…) pela possibilidade de sentir todos os aromas e sabores no vapor que se espalharia pela casa, trazendo só depois ao ato de comer , a grata confirmação dos sentidos que se colocaram a postos na experimentação…

Experimentamos portanto o labor como sabor fazendo caber a possibilidade de ter a fome como o prato principal, como combustível de nosso desejo de descobrir não a receita do bolo , mas o ingrediente único e mágico que dá a ele ao mesmo tempo a magnitude do manjar dos deuses e a simplicidade real do sabor do fogão de roça e de vó que tem uma correspondência direta com o nosso mundo afetivo capaz de ativar nossas memórias mais íntimas e pessoais !

Me sinto agora portanto preparada para um banquete às avessas, que sei, não será servido nem hoje e nem agora , mas quando a emoção do encontro que eu vivi aqui nestes três dias contagiar toda equipe de nosso Ponto e encontrar correspondência e espaço para o compartilhamento real do aprendizado e da continuidade de nossas experiências…

Como eu me sinto agora, depois da colheita? preparada para construir maquinetas de roubar queijos!

Rosana Bianchini / Instituto kairós

Trilha Invenção Brasileira

AÇÃO GRIÔ NACIONAL

TRILHA PARA SISTEMATIZAÇÃO

Primeiro Ano – 2007/2008

Ser Griô aprendiz é um desafio múltiplo que passa por fases de encontro com o vivencial.

Após um ano de vivencias intensas e únicas na Ação Griô Nacional, sinto meu corpo livre e seguro para falar sobre a importância e as etapas deste papel. Posso relembrar com clareza a sensação indescritível do meu primeiro contato com o Velho Griô na Chapada dos Veadeiros e depois com Liliam Pacheco no lançamento do edital em setembro de 2006, em Brasília. Todas as propostas caíram em mim como uma luva e mesmo sem o entendimento da dimensão de toda a ação eu sentia na pele que este era um projeto que mudaria toda a minha trajetória humana e profissional.

Foi assim que Chico Simões, Luciana Meireles e eu decidimos juntos escrevermos o projeto. No processo descobrimos que não tínhamos uma rede de mestres fortalecida em nossa comunidade. Chico já tinha sua bagagem de caminhante e brincate de mamulengo há 20 anos, eu estava há meses caminhando com ele e os seus bonecos, Luciana caminhava conosco com um foco maior no aprendizado das brincadeiras dos palhaços populares.

Ao analizarmos o perfil proposto no edital decidimos que somente Chico poderia ocupar este lugar de aprendiz, pois Luciana e eu estávamos apenas começando e não tínhamos histórias para narrar sobre caminhadas com mestres. Assim foi… Projeto feito e aprovado. Nos primeiros meses atuamos os 3 como aprendizes, convivendo semanalmente com os mestres. Mas no desenrolar da tragetória Luciana e eu fomos nos fortalecendo e convivendo mais com os nossos mestres, ouvindo histórias, cantando e… encantadas construímos ao longo deste ano uma bagagem considerável de aprendizados. Antes da ação já tínhamos iniciado nossa caminhada de aprendizes com o Chico que apesar de aprendiz é quem nos ensinou e instigou a adentrar este universo, ele sem tempo de dedicar-se a todos os processos locais passa a ser representante e caminhante mundial da ação.

Assim esclarecido, gostaria de fazer uma reflexão sobre a importância de levar em conta no edital os aprendizes de aprendiz. Mesmo que estes ainda não tenham a trajetória de caminhadas com mestres eles, poderão ao longo do processo intensificar a convivência afetiva e efetiva com a tradição oral, reconhecendo-se e iniciando-se como um Griô.

Caminhos inicais de uma Griô Aprendiz

Em primeiro lugar peço a benção a:

    Dona Estelita, que na sua sábia diversidade, me ensinou, principalmete, a descobrir quem eu sou.

Tia Jacira, que com o seu silêncio me ensina o valor das palavras.

Mestre Dico, que no seu cotidiano me ensina em segredo o mistério de manter a tradição do construir e tocar violas há mais de 250 anos.

Ao seu Zé do Pife, figura do mestre caminhante que me ensina como levar a vida na ¨flauta¨… Leve e harmoniosa.

Ao mestre e amigo Virgílio que aguça a minha criatividade com suas gambiarras e extraordinárias construções de papelão e saco de cimento.

Meu contato com esses mestres veio com a proposta da ação Griô. Neste ano o momento foi de nos conhecermos, conhecermos a pedagogia Griô, a escola e o ponto. Convivemos em rodas de prosa contando partes de nossas histórias de vida, histórias de trancoso, cantando e ouvindo músicas. Vivenciei caminhadas em pleno centro de Taguatinga ouvindo histórias da vida do Zé do Pife. Tardes de sábado na porta da casa da Dona Estelita com as crianças da rua. Conversas com Tia Jacira no seu trabalho que enquanto costura tem o dom de falar lentamente com todo o carinho de seus netos. Além de conversas mais rotineiras com Virgílio e Mestre Dico que moram e trabalham no Mercado Sul, (onde está localizado o Ponto de Cultura).

Como não podia deixar de ser tivemos também nossas caminhadas na escola C.E.M 3 (centro de ensino médio 3) da Ceilândia e conhecemos, adentrando a sala da Professora de artes: Vilmária. Estamos aos poucos chegando e sistematizando nosso modo de dialogar com o ensino formal, para exemplificar o que está sendo construído proponho uma trilha, um ciclo possível para o fortalecimento dessas pontes escola-tradição oral.

Como ponto de partida, retorno as minhas origens rurais e interioranas e me encontro com Maria de Barro Gritadora do Tempo, uma mulher forte, conhecedora do tempo, das estações, do dia e da noite. É com ela que caminho por comunidades e escolas levando o encantamento da diversidade de uma ou várias tradições. Muitas vezes ela se encontra acompanhada de Carona, uma palhaça tocadora de caixa e contadora de histórias verdadeiras ou inventadas de suas andanças. Em outros momentos um mestre ou uma mestra são os companheiros do tempo.

Ao chegar em uma escola, uma canção de licença há de soar:

¨Meu Senhor, minha senhora

dê licença pra eu entrar…

Sou Maria de Barro

Gritadora do Tempo,

Vim aqui pra falar

do sol e do mar,

vim aqui pra conta

da chuva e do vento…

Eh, meu senhor,minha senhora

dê licença preu entrar

vim aqui pra ouvi

histórias daqui

vim aqui pra conta

histórias de cá…

Com uma sabedoria da gentileza desfazemos o quadrado pedindo que cada um levante sua cadeira levando-as para os cantos da sala para assim formarmos uma roda e no centro brincar com jogo dos versos:

“Uma cartinha

daqui pra Lagoinha,

uma cartinha

da tua mão para minha.

Da Bahia me mandaram

um lencinho com Pimenta

mandaram me perguntar

se eu era ciumenta.

Uma cartinha

daqui pra Lagoinha,

uma cartinha

da tua mão para minha.

Lagartixa na parede

parece camaleão

menina sai dessa rede

vem pra dentro do salão.

Uma cartinha

daqui pra Lagoinha,

uma cartinha

da tua mão para minha.”

(dentre outros versos aprendidos com Dona Estelita)

Maria de Barro inicia pedindo a proteção de um ancestral,um familiar, um mestre ou um amigo (ritual aprendido com o Velho Griô). E abre a Roda das Histórias de Vida, abre-se o espaço aberto para compartilhar e perceber em comunidade as belezas locais. Se houver algum mestre ou mestra presentes eles escolherão uma de seus saberes para dialogar com educadores e educandos.

Com estes saberes dos mestres temos aprendido que de uma forma ou de outra toda sabedoria remeterá a alguma lembrança, sobre alguém ou algo de nossas histórias de vida o que mexe com o corpo de todos porque é um momento em que todos se reconhecem no meio da roda. Assim, todos passam a fazer parte de um único centro que se ramifica para as extremidades em busca da diversidade, assim descobrem, consciente ou subconscientemente, que cada um de nós somos partes de um todo que se complementa. Também neste momento acontecem diálogos com o currículo escolar, o Griô aprendiz pode saber o que o educador está trabalhando naquele momento para mediar reflexões sobre o que é falado em sala de aula com o que está sendo compartilhado em roda. Por exemplo quando seu Zé do Pife conta que o pife é coisa antiga e foi inventado por índios, ou explica que se faz com bambu, como se fura, as medidas entre cada buraco, tudo isso é uma aula que pode ajudar no diálogo com a geografia, a história, a biologia e principalmente a matemática da música. Acreditamos que ao conseguirmos trazer o cotidiano do educando para o dia-a-dia escolar conseguimos facilitar as vias para um melhor desenvolvimento da aprendizagem.

Na verdade verdadeira Maria de Barro Gritadora do Tempo nunca está sozinha, ela possui uma mala com bonecos de madeira Mulungu. Depois da prosa em roda ela inicia uma brincadeira com os mamolengos junto com Benedito, Conceição, Espantalho Já-Ti-Vi, Coronel João Redondo, cobra, pássaro Preto Presepero e acrescenta na história elementos novos que ouviu na roda anteriormente.

Ao final, comemoram a semente plantada que acaba de nascer. Uma nova roda, novas vidas, novas emoções encorajadas giram no centro para que cada pessoa presente sinta-se inventor e participante desta história.

Uma roda de embalo finaliza com a canção ¨Periquito Maracanã¨.

¨Periquito maracanã

Cadê a sua iaia

Faz um ano

Faz um dia

que eu não vejo ela passar.

Faz um ano

Faz um dia

Que eu não vejo ela passar…¨

(canção que aprendi o Velho Griô que

aprendeu com Caio um menino de 9 anos)

Despedimos-nos e saímos cantando:

Eu vou deixar me levar,

O circo chegou…

Vou passear na alegria.

Vida viva,

Vida!!

Vida, asas de querubim

Na careta do palhaço

Alegria não tem fim”.

(canção aprendida com a amiga Gabi,

que aprendeu com o Grupo Boca em Boca

que aprendeu com a Companhia Carroça de Mamulengos).

É assim que caminhamos e desejamos caminhar mais a cada dia vivenciando o proposto e sentindo na pele a certeza de que Paulo Freire tanto falou de que: ¨Ninguém educa ninguém os homens se educam entre si mediatizados pelo mundo.¨

Finalizo minha narração de aprendiz pedindo a benção aos meus pais Maria Luiza e João Bosco com quem eu me inspiro na pureza do interior mineiro.

Fabíola Gritadora do Tempo

Uma breve história do ponto e sua missão

As cidades satélites do Distrito Federal, hoje chamadas Regiões Administrativas de Brasília, foram formadas a partir da necessidade de “desfavelar” o centro do poder de Brasília. Essas cidades foram se estruturando com a chegada de migrantes de todas as regiões do país.

A cidade de Taguatinga foi a primeira oficialmente criada, em 05 de julho de 1958, com o propósito de por fim aos aglomerados humanos denominados “invasões” que tanto desesperaram os idealizadores da capital federal, antes mesmo da sua inauguração. Ceilândia, fundada em 1971, fruto da Campanha de Erradicação de Invasões – CEI (inspiração para o nome da cidade), também surgiu do mesmo propósito.

Foi assim em meio ao cerrado inóspito, que gente de todos os estados do Brasil teve de aprender a viver, conviver e superar todos os estranhamentos culturais.

Em um pedaço de toda essa história em 2003, no Mercado Sul, num beco, numa loja, num desejo do ator- brincante Chico Simões e outros companheiros surgiu o espaço oficina Invenção Brasileira. Junto com o Mestre Dico, o nosso mestre lutier que mora ao lado, iniciou-se o trabalho lento de revitalização deste espaço. Ofereciam-se oficinas de teatro e aos sábados viola, brincadeiras de mamulengos e outras prosas recheavam os olhos de toda a comunidade.

Em 2004 tornou-se um Ponto de Cultura dentro do Programa Cultura Viva, assim muitos jovens se achegaram e ficaram participando das oficinas de teatro comunitário, teatro de bonecos e percussão. A família foi crescendo e cada um de nós se apoderando do que gosta de fazer.

A caminhada de Chico Simões com muitos mestres da cultura popular como Mestre Solon, Zezito, Carlinhos Babau instigou o interesse pela ação Griô, porque sabiámos que tudo que estavamos aprendendo e fazendo ali estava inteiramente ligado à tradição Oral. E que poderíamos por meio desta parceria unir mestres dos mais diversos lugares e ofícios, fortalecendo uma rede de transmissão oral em pleno Distrito Federal. Reestruturando a lógica urbana em rodas de prosas que foram sistematizadas ao longo deste ano como por exemplo as rodas de prosa que já eram uma prática antiga do Ponto, mas que ganhou uma nova versão para a Ação Griô e seus mestres.

RODAS DE PROSA

Acontece entre os mestres, griôs aprendizes, jovens, crianças e aprendizes da comunidade

Objetivo: recriar e fortalecer uma rede de transmissão oral; co-memorar espontaneamente histórias, brincadeiras e canções

Chegada: estimulando o abraço e o sorriso, nos recebemos, fazemos a roda e cantamos uma canção aprendida como os mestres

Meu limão, meu limoeiro,

meu pé de jacarandá

uma vez tindolele

outra vez tindolala

cravo branco no cabelo

é sinal de casamento

menina tira esse cravo

ainda não chegou seu tempo

Meu limão, meu limoeiro,

meu pé de jacarandá

uma vez tindolele

outra vez tindolala

(aprendida com Dona Estelita)


Sensibilização: nutrindo e aguçando os sentidos do corpo e da alma, compartilhamos o alimento e nossos cotidianos.

Palavras geradoras: são o centro da prosa, em torno das quais ela vai girar, podem já ter sido decididos em grupo ou sugeridos na hora por algum dos participantes.

Ex.: HISTÓRIAS DE VIDA; INFÂNCIA ; SABERES DO PÍFANO, DA VIOLA, DAS COSTURAS; HISTÓRIAS DE TRANCOSO e outros.

Contação de histórias: estimulados pelas palavras geradoras, os mestres espontaneamente começam uma prosa, contando causos, revivendo memórias, recriando opiniões é na roda que vamos construindo através da fala e da escuta o conhecimento.

“Quando eu criança, meu pai me deu uma boneca de plástico no natal

e eu danei a chorar

minha irmã me perguntou o que que era, e eu disse que num era nada não

depois que eu fui contar pra ela,

que era porque as pernas da boneca era presa

e o meu sonho era uma boneca com braços e pernas soltas

uma boneca que pudesse caminhar. Livre”

(dona Estelita em Histórias da infancia)


Despedida: celebrando o encontro, cirandamos canções e brincadeiras de roda.

Barqueiro novo
embarca essa donzela
sou remador
adeus morena Bela

(dona Estelita)

Fabíola Resende e Luciana Meireles

O ensino formal e a tradição oral

O maior desafio, encontrado em nossas ações é estar na escola, é fazer parte dela e de sua rotina. O espaço está aberto, o diálogo mediado, além de firmado o desejo de muitos educadores em participarem da ação. Todas a portas foram abertas neste ano por meio de rodas prosas com professores e rodas do saber fazer com educandos e educadores. Consideramos este primeiro ano a fase de maturação do projeto. A escola está aberta a nos receber, o que temos ainda, é uma dificuldade com o tempo para estar mais dentro da sala de aula mediando, junto do educador o diálogo de nosso aprendizados tradicionais com o currículo formal.

Nossa parceira e educadora Vilmária Meireles envolveu-se com a Ação Griô Nacional a partir do trabalho desenvolvido pela sua filha, Luciana Meireles, no Ponto de Cultura Invenção Brasileira. Portanto, não é vinculada e nem atua diretamente no Ponto de Cultura. Com formação acadêmica em Educação Artística – Artes Plásticas e mais de 20 anos de prática em sala de aula, a educadora sempre trabalhou com a comunidade do Setor P Sul – Ceilândia, onde mora há 27 anos.

Na Educação Infantil buscou proximidade com as propostas construtivistas e com o método de Paulo Freire. Ao concluir a formação acadêmica, passou a trabalhar com o ensino de Artes plásticas no Ensino Fundamental e Médio, dando preferência para a Educação de Jovens e Adultos – EJA.

A atual escola onde Vilmária é educadora é o Centro de Ensino Médio 03 da Ceilândia, onde atuamos neste primeiro ano. O vínculo do Invenção Brasileira com a escola era esporádico. Já havíamos feito apresentações de Teatro de Bonecos, em feiras culturais, mas ainda não havia nenhuma ação contínua.

Na sua prática de sala de aula com a EJA, a educadora investe em diversas linguagens, baseando-se nos princípios de interdisciplinaridade e contextualização dos conteúdos. Um ponto favorável para a parceria, é que nas suas aulas, Vilmária já trabalhou com a linguagem do teatro de bonecos, com propostas de reciclagem e reutilização de materiais. Junto com educadores de diferentes áreas, ela procura trazer os saberes de seus alunos para a sala de aula, com projetos de feiras culturais, onde os próprios alunos organizam as salas por temáticas e facilitam oficinas dos seus saberes de culinária, costura, pintura, bordado e etc.

A educadora identifica seus alunos jovens e adultos que não tiveram acesso à escolarização na idade apropriada, com um perfil diferenciado. Pois são pessoas, na sua maioria, com ampla experiência de vida, são mestres e mestras de muitos saberes e ofícios, que tanto tem o desejo de aprender, quanto o de ensinar o que vivenciaram e vivenciam em suas histórias de vida. Assim podemos dizer que a ação Griô veio complementar o trabalho da educadora com a RODA DO SABER E FAZER, que é o encontro dos mestres com os educandos e educadores onde o saber fazer de cada mestre é fazer saber.

“Vou contar aqui umas historinha pro cês, cês sabe o que é isso aqui?

(mostra o Pife)

Pois é isso aqui é coisa antiga.

Foi os índio que inventou.

É bambu.

Eu tenho é muito prazer de ensinar ocês tocarem, tem gente que num gosta de passar o que sabe, mas o meu maior prazer é ensinar, porque quando eu morrer fica aí o sopro do sertanejo pro cês.”

Assim o Mestre Zé do Pife começa a cantoria acompanhada por versos, preenche os espaços sonoros e as lacunas do currículo de ensino formal e com o sopro do seu instrumento encanta e envolve os educandos e educadores no embalo da roda.

Assim principia a roda do fazer e do saber onde todos podem compartilhar suas vivências, suas histórias e seus imaginários.

O saber se soma ao fazer: o toque da viola e do pife são fazeres que encantam e estimulam o desejo de aprender. A arte de transformação do papelão reinventa olhares. A costura é um desafio para alguns e para outros já é brinquedo, as histórias, pinturas e desenhos vão ao encontro da memória e história de vida dos jovens e adultos.

Para fecharmos a roda que permanece sempre viva, cantamos canções de roda e nos despedimos com versos.

Outros registros

    Durante este ano como griô aprendiz me dediquei também a estudar educadores com a proposta vivencial no ensino formal, como por exemplo o grande mestre Paulo Freire. A baixo registro um texto sobre a Pedagogia do Oprimido que só foi construído e entendido por causa da vivência obtida com a Pedagogia Griô.

    Um pouco sobre Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire, 1968

Fabíola Resende

¨Gosto de discutir sobre isto porque vivo assim. Enquanto vivo, porém, não vejo. Agora sim, observo como vivo.¨

(do livro, depoimento de um operário em aula)

	¨Pedagogia – paideia: do latim que significa ao mesmo tempo educar e civilizar¨. Ora, ¨Pedagogia do Oprimido¨, educação e civilização do oprimido. Mais que isso Paulo Freire, vem dialogar com seus leitores sobre a educação e a civilização humana, porque mais que educadores e/ou educandos somos humanos. E como humanos somos, somos transformados e transformadores durante toda a nossa existência terrestre. A escola, é, ou deveria ser, um dos veículos incentivadores da transformação consciente e necessária em nossas vidas. Seria por meio dela somado a nossas histórias de vida que nós fortaleceríamos a nossa distinção animal, por sermos seres pensantes e históricos. 
	A relação oprimido e opressor, bem explícita e desenhada durante toda a leitura nos faz refletir sobre até que ponto temos consciência do tamanho inconsciente dos nossos desejos de nos tornarmos opressores ou dominadores de situações. Ou, como sabemos se a situação de oprimido não é um cômodo ideal e/ou inconsciente? Como podemos nos perceber, nos conscientizar se somos opressores e/ou oprimidos? E até que ponto estes estados nos deixam confortáveis? A educação, ao levar em conta situações históricas do indivíduo poderá ajudar nestas descobertas, a partir do momento em que pudermos também nos desvincularmos, o mínimo possível, da era capitalista devastadora e compulsiva que se faz presente no nosso dia-a-dia . Transformando valores e tradições, tentando, mas não conseguindo, acredito, nos desvincular de nossas raízes e ancestralidades que nos faz seres repletos de sentimentos e puramente humanos. A busca junto a pedagogia do Oprimido é de um equilíbrio, basicamente, onde possamos ser mais do que ter, possamos ser seres desejantes, feitores de nossas próprias histórias e caminhos. É a negação da entrada em um ciclo, onde me torno opressor e faço oprimidos, oprimidos desejantes de se tornarem opressores... A busca inquieta por status que leva ao consumo do ter para ser, ter uma chefia, ter um carro (ou muitos), ter uma casa, ter uma família, ter... Enfim termos o encobrimento ingênuo e inconsciente de que somos aquilo que somos ou desejamos ser. Freire, deixa claro na págian 118; ¨a inserção é um estado maior que a emersão e resulta da concientização da situação. É a própria consciência histórica.¨ Em muitos momentos de nossas vidas nos tornamos seres emersos, a deriva do mundo em que estamos inseridos, parecemos alheios a ele, esquecendo de nossos sentimentos de pertencimento ao nosso mundo, a nossa própria natureza humana. Assim Paulo Freire nos propõe a nossa inserção como um estado maior, como um estado desalienante e ao mesmo tempo desvelador, em que podemos aprender ao aprendermos sobre nós mesmos.

Conexão Felipe Camarão

O Conexão Felipe Camarão é um projeto de educação e cultura desenvolvido pela Associação Companhia Terramar há quatro anos integra 400 crianças e jovens entre 04 e 24 anos em ações sócio-educativas e culturais fundamentadas na riqueza do patrimônio imaterial da comunidade, que tem referência na cultura de tradição oral do bairro.

O Auto do Boi de Reis do Mestre Manoel Marinheiro (in memórian), o teatro de bonecos João Redondo do Mestre Chico de Daniel (in memórian) hoje herdado por seu filho Josivan de Chico de Daniel, a musicalização da Rabeca, do Mestre Cícero da Rabeca, que acompanha o Auto do Boi de Reis a mais de 30 anos, a Capoeira do Mestre Marcos, são expressões da cultura local, com as quais o Conexão dialoga e interage saberes.

A ação do Conexão Felipe Camarão teve início nesse fundamento e é sobre ele que desenvolve suas ações integradas aos Mestres da comunidade. Esse, sem dúvida, é o caminho para desvelar a cultura que sobrevive e resiste pelas histórias de vida, manifestações e expressões culturais que permanecem vivas, mas embutidas pelas relações desiguais, pela falta de identidade, pela ruptura entre as gerações e pela apatia de uma sociedade que não reconhece sua história, seus valores, seu patrimônio e sua memória.

Permitir aos Mestres e Griôs de nossa cultura a inserção nos processos sociais e educativos, reconhecê-los como agentes de transformação e possibilitar aos mesmos desenvolverem suas tradições, compartilhar seus saberes e restabelecer e/ou estabelecer reações com as novas gerações, dão aos mesmos a perspectiva de continuidade e permanência.

Contudo, a realidade do país nas dimensões do Brasil e com uma história de desigualdade social, de negação de seus valores e identidade e mais atualmente com o texto da comercialização e banalização da vida e seus valores, entendemos que existem inúmeros contextos formados, cristalizados e mantidos que precisam ser compreendidos para serem transformados.