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Armando Machado
Endereço: Chácara José Leite, Pirenópolis GO
Telefone: 3331 15 13
Idade: 53 anos
Data de nascimento: 16 /09/1954
Filhos, netos e bisnetos: 3 filhos e 5 netos
Local onde nasceu: Chácara José Leite
Local onde foi criado /onde passou a infância: Na chácara.
Com quem foi criado?
4 avós que vieram de Minas, tio Nô, pais e 6 irmãos.
Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? De 1995 a 2005
O pai: José Machado Neto, nascido em Itaguara, MG. Veio para Pirenópolis em 1944, filho de Geraldo Machado Neto e de Geralda José da Silva. Comprou a chácara com os pais pra fazer roça. O irmão, Nô, chegou com 2 anos. Sempre trabalhou em serviços de fazenda, principalmente como leiteiro. Toca um pouco de violão. Na época em que vieram, muita gente de Minas mudou para a zona rural de Pirenópolis. Em Minas a terra era boa, mas dava muita maleita. Aqui a terra é mais empedrada mas a água é limpa e boa pra gado.
A mãe: Helena Marques Machado, nascida em Itaguara, MG. Dona de casa e serviços de fazenda. Tecedeira. Não compravam roupa em casa. Veio com os pais morar na Serra do Misael e conheceu o marido na região.
Histórias:
Ia com os pais montado na cabeça do arreio do cavalo até a Serra do Misael, visitar os avós maternos. Os paternos moravam perto de casa, do outro lado do rio. Em época de muita chuva e de trocar ou colher roça, faziam mutirão. O pai não gostava muito porque achava o serviço mal feito; gostavam mesmo era por causa dos forrós de noite inteira. Ajudou em muitos mutirões da região, que era conhecida como Carçada e Mata Buraco. A região tinha muitos moradores, hoje ficaram os filhos e algumas terras viraram pousadas.
A chácara já teve muita produção. Hoje o adubo custa muito caro, os filhos não ajudam mais e o preço do trator pra roçar a terra não compensa. O pai agora trabalha mais com leite.
Quando era novo gostava muito de namorar – hoje diz que não arranja mais namoro. Casou algumas vezes e voltou a morar com os pais. Ainda plantam mandioca, na época de ralar os irmãos vão ajudar.
Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: Filha no Col. Sr. do Bonfim e o neto estuda em Anápolis.
Como aprendeu a ler e escrever? Em 1970 tirou Ginásio na escola do lado da Igreja no Bonfim, morando na roça.
No que trabalha ou trabalhou? Serviços de fazenda – Derrubar mato com foice e machado, queimar, encoivarar (cortar os galhos e amoitar pra queimar de novo), plantar arroz, milho e feijão pra vender, socar arroz e café, engenho de cana, fabricar farinha – até vir morar na cidade; motorista de caminhão por 13 anos fazendo frete de pedras pela região (Anápolis, Brasília, Goiânia). Ajudava muito nos mutirões da região. Hoje trabalha novamente com o pai prestando serviço de roçar pasto.
Quais são os seus saberes e fazeres? Cantador, repentista e instrumentista – cavaquinho e violão – violeiro dos Cavaleiros das Cavalhadas, e dos forrós da roça e festas de aniversário.
Com quem aprendeu? Observando e acompanhando o tio Nô. Aprendeu de dom. Desde os 10 anos foi estimulado a acompanhar o tio nos forrós da região da chácara. Há 20 anos toca com Luís Cantor. É considerado o melhor repentista de Pirenópolis. O Divino Espírito Santo que põe o verso na língua, é só olhar pra uma pessoa que vem.
De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações?
Valorizar a vida em família. Estudar, porque não estudou e o emprego de roça cansa muito. Manter as tradições e o dom. Seu dom de tocar e cantar ele não larga nunca. A criança que tem o dom pra música precisa ser estimulada, mas acha que a criança precisa aprender olhando os mais velhos tocando, que foi como ele aprendeu desde os 10 anos. Não se considera bom para ensinar música, pois acha que conhece só acordes mais comuns e porque aprendeu fazendo.
“O cabo da enxada me faz correr
o cabo da foice me faz tremer
Arroz com feijão eu mato no prato
roça se eu plantar vai morrer no mato
Telefone é preto e não é café
Eu sou bom no taco e melhor no pé
Eu sou bom na bola e não sou Pelé
Eu sou ruim pros homem e bom pras mulher”
Jacó e Jacozinho
Sebastião Profeta do Amaral
Endereço: r. Sete de Setembro, nº. – Alto do Bonfim /Pirenópolis GO
Telefone: 3331 2436
Idade: 92 anos
Data de nascimento: 10/04/1916
Filhos, netos e bisnetos: eram 10 (dez) filhos, agora são 8 (oito). Tem mais de 40 (quarenta) netos, mais de 40 (quarenta) bisnetos e 1 (um) tataraneto.
Local onde nasceu: na rua dos Pireneus, ao norte da cidade de Pirenópolis.
Local onde foi criada /onde passou a infância: dentro de Pirenópolis mesmo.
Com quem foi criado? Com a mãe e um padrasto.
Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde que nasceu.
O pai se chamava Benedito Alves de Amorim e nasceu em Pirenópolis e morreu em Goiás Velho. Ele era Cabo da Polícia. Morreu quando ele tinha 5 (cinco) anos. Joaquim Augusto Pereira da Veiga, o padrasto, também era nascido em Pirenópolis e era fiandeiro, artesão de utensílios para a casa (candeeiro, lamparina …).
A mãe: Francisca Garcia do Amaral nasceu em Pirenópolis, mas o pai e a família eram de Pilar de Goiás. Era doméstica. Gostava muito de uma pinguinha e cigarro. Morreu com 79 anos em 1974, de desastre: quebrou a bacia. Pisou numa bacia e caiu, foi morrendo aos poucos.
Histórias:
Quando mudei praqui (bairro do Bonfim), era tudo mato. Fiz só uma cozinha. O tio da Laurita tinha água em casa e eu não. Eu ia lá na Passagem Funda pegar a água de beber, porque eu não gosto de pedir nada pra ninguém.
Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: Tem filho, tem neto, é muita gente.
Como aprendeu a ler e escrever? Na escola eu não aprendi nada, saí no ABC. Aprendi algum coisa depois de homem. A precisão faz o sapo pular, né?
No que trabalha ou trabalhou? Trabalhou 44 anos no Garimpo. Vinte e tantos anos como fiscal arrecadador da Pedreira, pela Prefeitura (de 1974 a 2002).
Quais são os seus saberes e fazeres? Já fiz muito remédio, porque o garimpeiro sabe fazer de casca de pau. Benzo cobreiro, sopro no olho… coisa que a gente aprende na beira do rio, nem sei como. De matar bicho e pescar é comigo mesmo, comer então… se precisar fazer uma cova no meio do mato, eu faço, mas terra de cemitério não tenho coragem.
Com quem aprendeu? Na comvivência com os mais antigos. A gente ficava observando, mas nem todo mundo aprende. A precisão faz aprender também.
De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? A amizade, lealdade, perseverança. A amizade não tem quantidade; a pessoa que tem lealdade, tem tudo; porque a pessoa não tem ambição, vive a sua vida sem botar olho gordo na do outro.
D. Helena Maria de Oliveira
Endereço: Travessa Santa Bárbara, nº 1 – Alto do Bonfim / Pirenópolis GO
Telefone: 3331 2480
Idade: 64 anos
Data de nascimento: 03/05/1943
Filhos, netos e bisnetos: Tem 3 filhos, 8 netos e 2 bisnetos.
Local onde nasceu: Fazenda Brejo Alegre /município de Monte Carmelo MG – nasceu de 8 meses. Seu parto foi feito em casa, pelo pai. Ele cortou o cordão como canivete de cortar fumo.
Local onde foi criada /onde passou a infância: morou na Fazenda Brejo Alegre até os 3 anos de idade quando então se mudou pra Fazenda Ferragem e por lá morou até os 7 anos, indo depois pra Goiânia de trem de ferro. Se lembra até hoje! Foi bom demais! O trem era tocado a lenha e voava faísca pra todo lado e parava em todas as estações. Levaram 2 (dois) cachorros: o Guarani e o Japão
Com quem foi criado? Morou com os pais até se casar. Sua infância foi trabalhar na roça. Brincava de cozinhadinho e boneca de pano. O pai não deixava dançar, é por isso que não sabe dançar. Sua infância não foi boa, é agora que está aproveitando a vida. O primeiro namoro foi no eito (faixa de plantação) de café. À noite reuniam-se para brincar de roda. Uma das brincadeiras que mais gostava era vilão e sombra crioula. Os pais sempre trabalharam com café. Ele tirava o da despesa, o outro levava de carro de boi pra cidade e vendia tudo. Ela e os irmãos catavam a sobra que ficava em baixo do pé de café, para vender e comprar panos para fazer vestido.
Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde 1968, há 40 anos. Mudou-se pra Pirenópolis em 1966, mas não parou na cidade. Tinha uma casa mas viajava demais e foi morar nas fazendas ao redor da cidade, me Mato Grosso do Norte…
O pai: João Francisco de Almeida, nascido na Fazenda Penedo, município de Monte Carmelo MG. O pai era lavrador mas mexia muito com boiada. Puxava muito gado pra Uberlândia no lombo dos burros. Ele garimpava muito diamante também, no Garimpo da Vaca Brava. Foi muitas vezes no garimpo com ele. Uma vez, uma catre (pedaço de terra que se solta do barranco, desbarranca) caiu em cima dele e ele ficou um ano sem andar, só em cima de uma cama. A mãe dela ficou sozinha trabalhando na roça pra tratar dela e dos irmãos, que eram três.
A mãe: Joana Maria de Jesus, nascida na Fazenda Areado, município de Monte Carmelo MG. O nome era porque o rio tinha muita praia de areia, ela trabalhava na roça, mexia muito com algodão, tear, essas coisas. Eles só vestiam roupa de algodão que ela fazia. Desde os 6 ajudava a mãe a descaroçar e cardar o algodão … de tudo um pouquinho. Ajudava a plantar e capinar.
Histórias:
Quando casei eu fui morar com meu marido nas Araras, aquele lugar longe, ruim de tudo. Minha mãe foi embora pra Mato Grosso, eu chorava, mas tinha que ficar. Aí um tempo depois meu sogro, minha sogra e minha cunhada vieram morar comigo. Era uma casinha de um cômodo só. Logo a gente foi amassar barro pra fazer adobe. Aí eu já fiquei mais feliz, tinha companhia.
Engravidei logo, nossa filha nasceu com 10 meses de casados. Pois um dia eu desci no rio e to vendo aquele cará (tipo de peixe) enorme embaixo d’água. Me deu aquela vontade de comer o peixe e não tinha nada pra pescar. Pensei assim: não é possível que eu não consiga pegar esse peixe… Voltei em casa e a primeira coisa que eu vi foi uma tábua. Peguei aquela tábua, voltei pro rio e esperei o peixe aparecer e quando ele apareceu dei nele com a tábua e ele morreu. Quando o povo chegou em casa tava aquele peixe frito gostoso. Meu sogro disse que já tinha ouvido falar do pegar peixe de muito jeito, mas de tábua ainda não!
Ajudei Tânia a fugir, chorando de mentira pros pais dela. Depois chorei de verdade, de arrependimento.
Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: os netos estudam nas escolas municipais Geraldo de Morais, Luciano Peixoto e na estadual Com. Christóvam de Oliveira.
Como aprendeu a ler e escrever? Em casa, nunca foi à escola. Aprendeu um pouquinho com um, com o outro, com o irmão um pouquinho. A maior parte foi sozinha, nas casacas das árvores, folha da bananeira, o lápis era o espinho de laranja nos brotinhos das folhas de bananeira…
No que trabalha ou trabalhou? Trabalhou com lavradora, fiou muito algodão, lavou muita roupa pras pensões de Pirenópolis. Lavava, passava… passava com ferro de brasa. Lavou roupa durante 12 anos! Perto da Babilônia colheu muitas sacas de café, ralava a mandioca e fazia polvilho e farinha…. gosta muito, muito, muito de criança, de verde e de lua cheia! Agora é educadora no Quintal da Aldeia.
Quais são os seus saberes e fazeres? Contar histórias, piadas, cantar, dançar e viajar. Fazer doce ela também gosta. Gosta muito de rezar! Cantar também, mesmo sem saber!
Com quem aprendeu? Com pais e avós. Com a mãe aprendeu muito, trabalhando na casa dos outros também.
De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? Em primeiro lugar a educação, o respeito aos mais velhos e a ser trabalhador. É importante ensinar as pessoas a trabalhar desde pequenos. As rezas e orações também não podem acabar.
D. Laurita Vitoriano da Veiga
Endereço: Travessa Santa Bárbara, nº 2 – Alto do Bonfim / Pirenópolis GO
Telefone: 3331 1681
Idade: 68 anos
Data de nascimento: 19/07/1939 no registro / data real: 19/06/1939
Filhos, netos e bisnetos: Teve 8 filhos, criou 7 e agora tem 6 e 16 netos (12 homens e 4 mulheres).
Local onde nasceu: Campos Belos (no registro Niquelândia)
Local onde foi criada /onde passou a infância: veio para Pirenópolis com 1 (um) ano de idade e mora aqui até hoje.
Com quem foi criado? Com a mãe e o padrasto.
Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde 1940.
O pai: Sebastião Profeta do Amaral (Bastião de Chica), seu padrasto, garimpeiro nascido e criado em Pirenópolis, atualmente com 92 anos. Não conheceu o pai biológico que chamava-se Austeclínio Vitoriano, tropeiro e lavrador nascido no norte de Goiás. Já é falecido.
A mãe: Idalina da Veiga, nascida e criada em Pirenópolis, costurava e bordava para fora, além de cuidar da casa, falecida.
Histórias: A lembrança mais antiga que tem é de quando morava com seu avô Joaquim (esposo da mãe de S. Bastião, que antes foi casado com a avó de sua mãe), na rua do Bonfim. Era muito apegada a ele e adorava ver seu avô trabalhar fazendo esculateira (vasilha de coar café) e candeeiro de folha de “frande” (flandres). Na casa tinham dois quartos, o dos avós dormirem e o que ela dormia. Embaixo tinha uma varanda enorme que era a cozinha. Ele (avô) trabalhava num salão enorme. E “batia com um martelinho a folha de frande, dobrava as beiradinhas, rebatia tudinho pra não machucar. Ele mesmo fazia o rebite, pois não tinha esses que se compra pronto. Tudo era de cobre ou da própria folha”. O dia em que o avô dela morreu, ela lhe pediu a benção e ele não deu (já estava morto), daí ela ficou muitos dias enfezada e só conseguiram levá-la de volta na hora do enterro. Ela é apaixonada na reza de Nossa Senhora da Conceição por causa do avô. Nisso tudo, ela tinha mais ou menos 3 anos.
Depois disso, eles se mudaram prum barraquinho na rua Santa Bárbara, já no bairro do Bonfim. Tinham poucas casas por aqui. Ela e sua mãe iam até a Passagem Funda pegar lenha e lavar roupa (antes a mãe lavava na ponte) e uma época teve que buscar água pra todos os usos da casa também.
Bastião conseguiu comprar o terreno onde é a casa dele hoje, mas só tinha um cômodo fechado, o resto tudo era pau-a-pique, não tinha porta, não tinha nada. Um dia, quando S. Bastião estava trabalhando fora, a mãe dela, grávida, resolveu mudar para a casa nova. Mas estava uma sujeira, cheio de unha-de-gato e elas duas arrumaram tudo e fizeram a mudança. Quando S. Bastião chegou na casa antiga procurando por elas, tinha ficado só o feijão pra ele levar.
De outra vez, o S. Bastião começou a furar uma cisterna pra não precisarem mais buscar água no rio. Um dia ele teve que sair e quando voltou D. Laurita já estava cavando a cisterna pra acabar mais rápido.
Ela fazia de tudo: ajudava a matar porco; fazia farinha na mão, ralando a mandioca; socava arroz no pilão pra mãe fazer perém (?); ia pro garimpo; lavava roupa pra fora; vendia legumes dos vizinhos; buscava lenha pra mãe; fazia comida; fazia tijolo de adobe… Até bordado! E com muito esmero!
S. Bastião era perfeccionista e não admitia uma bolotinha de terra no tijolo. Sua mãe também, era muito dura.
Mesmo trabalhando muito desde pequena, isso nunca atrapalhou suas brincadeiras. Brincou e cantou muito na sua infância. Brincou muito no mato, no meio do cipó. Via os tatus cavando: a mãe fuçando a terra e os tatuzinhos atrás, catando os cupins. Catava gravatá, bacupari, graviola, aticum, caju… até lobeira já comeu: “É uma delícia, mas se comer demais repuna, pois é muito doce”.
Adorava fazer caju azedo com arroz: cozinhava na panela de ferro e ficava roxinho… Com caju doce também dá pra comer, mas com azedo é mais gostoso!
A gente comia muita fruta do mato, acho que por isso tínhamos mais saúde”.
Hoje as crianças não têm mais essa liberdade… Sente muito que seus filhos e netos não puderam ter uma infância tão livre.
Na época em que a gente lavava roupa no rio, a água era tão clarinha que dava pra ver o fundo. Até se caísse uma agulha lá dentro, dava pra ver. A gente passava o dia inteiro lavando. Passava o sabão, botava na pedra pra quarar, batia, passava água, quarava de novo, até a roupa ficar cheirosa de sabão. Ficava aquela roupa macia, limpinha, ninguém pensava nessa época em amaciante.
O rio não era como hoje. A água era tão clara que até se caísse uma agulha no fundo, dava pra achar. Eu ficava vigiando a roupa quarando, jogava água pra ela não queimar. Um dia eu tava sentada em cima da pedra e vi aquelas duas traironas, elas gostam de andar de duas e ficar embaixo de pedra. Via aqueles (?) que é um cascudo grande, via cardume de lambari.
Minha mãe gostava de lavar roupa na ponte. Cada dia era em um lugar. Tinha o lugar do banho das mulheres. Tinha a pedra também do apanhador d’água.
Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: as cinco filhas são professoras de escolas públicas, sendo três delas do Colégio Estadual Senhor do Bonfim e a mais velha diretora do Colégio Estadual Santo Agostinho. Todos os netos estudam (Colégios Estaduais Joaquim Alves e Senhor do Bonfim), com exceção de um que já se formou. Três netos cursam faculdade.
Como aprendeu a ler e escrever? As primeiras letras foram em casa, pois antigamente ia-se para a escola depois de conhecido o alfabeto. Estudou apenas no primeiro ano no Colégio Joaquim Alves (hoje casa de Zé de Pina).
No que trabalha ou trabalhou? Fez de tudo um pouco, mas “estudou” os filhos com dinheiro de bordado. Fez adobe, foi garimpeira, vendeu verduras e lavou roupa para os outros.
Quais são os seus saberes e fazeres? “Não sei fazer nada, mas faço de tudo”. Canta, faz quitanda, é rezadeira, doceira, costureira e bordadeira.
Com quem aprendeu? Tudo que sabe aprendeu com a mãe. O que não aprendeu com ela, aprendeu sozinha, pois sempre foi curiosa demais.
De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? Acho que tudo que sei é importante. Foi importante pra mim, deve ser pros outros, só não o estudo, pois foi pouco. A serena, a reza, o bordado, cozinhar. A coisa mais importante que ensinei pro meus filhos foi a responsabilidade. Até hoje eles me agradecem e acho que todos deviam aprender a responsabilidade, honestidade e respeito ao próximo, pois são o melhor bem que a pessoa pode ter.
Geraldo Vicente dos Santos (Dedé)
Endereço: r. Joaquim Augusto Curado,Qd 4, lote 15 – Alto do Bonfim /Pirenópolis GO
Telefone: 3331 2351
Idade: 46 anos
Data de nascimento: 04/07/1964
Filhos, netos e bisnetos: tem um casal de filhos e uma neta.
Local onde nasceu: na Fazenda Matutina /Pirenópolis.
Local onde foi criada /onde passou a infância: na Fazenda Catingueiro. Quando os pais vieram rpa cidade, quis ficar na roça, aos 5 (cinco) anos de idade. Passou a fazer de tudo: capinar, roçar, tratar de porcos, tirar leite, moer cana, ralar mandioca. À noite todas as crianças podiam ir às festas. Girou (participou) da Folia do Divino (da roça) durante 16 (dezesseis) anos, desde os 8 anos de idade. Hoje em dia é folião da Folia do Divino da zona urbana (folia da rua) e se tornou regente.
Com quem foi criado? Com o irmão mais velho, Jair Vicente dos Santos e a esposa.
Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Veio pra cidade com 20 (vinte) anos de idade. Na cidade veio pra trabalhar na pedreira, morando com os pais. Cansou de trabalhar pro outros na roça. Essa era a opção possível na época… Achou bom o trabalho, é como um garimpo. Ganhava por metro tirado, como empregado do dono da pia, o finado João Figueiredo. Ganhava muito bem e era suficiente pra sustentar a família. Hoje em dia é mais difícil, por causa da exigência dos materiais de segurança e INSS, mas trabalha arrendando um pedaço de pia e pagando ao proprietário uma porcentagem do que ganha.
O pai: Juscelino Vicente dos Santos, nascido na zona rural de Patos de Minas. Era vaqueiro, lavrador, folião (em Minas e na Fazenda Matutina). Veio para a Fazenda Matutina com a esposa e uma filha mais velha, há cerca de 25 anos. Passou alguns anos na Fazenda onde tiveram os filhos e depois mudou-se pra rua do Frota onde se tornou jardineiro e capinador de rua. Também conhecia os ofícios do dia-a-dia, como fazer balaios, pás e peneiras.
A mãe: Dousila Luiza da Conceição, nascida na zona rural de Patos de Minas era lavradora, dona de casa, tecelã, costureira e artesã de cestaria. Acompanhava o marido nos Pousos de Folia. Vieram pra cidade a convite de seu irmão que lhes contou que em Pirenópolis ganhava-se em um mês o que em Patos se ganhava em um ano. Ele diz que era o boato que se contava pra incentivar outros moradores a virem pra Pirenópolis, dizendo que aqui se vivia na fartura, mas ele diz que era mentira, mas que eles acreditavam e depois da terra, não tinha como voltar pra roça. É irmã de d. Onídia, mãe da d. Lu do Carmo. Na cidade foi lavadeira e dona de casa. Era benzedeira e conhecedora dos remédios do mato.
Histórias:
Como regente da Folia, Dedé tem responsabilidade de fazer: alvorada às 4 horas da manhã; dar assistência e disciplina aos foliões; chamar para a reza da manhã; agradecer a mesa. É regente desde que veio pra cidade. Foi convidado pelo alferes da Folia pra tirar esmola, depois tornou-se alferes pela experiência.
Tem vontade de transmitir às crianças como é o catira, o sistema da Folia, como a bebida na Folia tem que ser comedida. Ajudou a organizar a Folia de Reis da cidade, pagando ao Zé Inácio muito dinheiro pra ele desenhar a bandeira dos Três Reis Santos. Isso já faz 20 (vinte) anos e é a mesma bandeira que é usada até hoje.
Na roça tudo era muito custoso e o irmão pra agradá-lo (ele era uma criança quando os pais vieram pra cidade) comprou pra ele na cidade 2 (dois) chicletes de uma vez. Ele então, pra fazer o presente durar o mês inteiro, lavava o chiclete quando ele endurecia e colocava mais açúcar… quando chegava a noite ele grudava no lado da cama e no outro dia lavava novamente e colocava açúcar de novo! E assim até acabar o mês, pra economizar!
Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: sua companheira é diretora do Colégio Estadual Senhor do Bonfim.
Como aprendeu a ler e escrever? Na escola da zona rural, precisava andar uma légua pra chegar. Freqüentou até o 2º ano.
No que trabalha ou trabalhou? Foi lavrador e ajudante de veterinário.
Quais são os seus saberes e fazeres? Sabe lidar com os animais: é vaqueiro, moxador e aplica vacina em gado. fez cursos veterinários de inseminação. É regente de Folia, catireiro e cantor.
Com quem aprendeu? Curso de veterinário: Prefeitura; roça, pedreira e regente: na prática.
De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? Pular catira, dançar o chá e a experiência de vida aprendida com os mais velhos.
Verduti José da Costa
Endereço: R. Santa Rita, qd. 3, lote 32 – Alto do Bonfim /Pirenópolis GO
Telefone: -
Idade: 64 anos
Data de nascimento: 05 /11/1943
Filhos, netos e bisnetos: 6 filhos e 10 netos
Local onde nasceu: Formosa DF
Local onde foi criado /onde passou a infância: saiu de Formosa aos três meses de idade para Pirenópolis, com o pai, a mãe, dois irmãos (já falecidos) e uma irmã. O pai não gostou e foi embora. A mãe casou de novo e teve mais um filho. Morou primeiro em uma propriedade no bairro da Lapa (zona urbana), que na época era um cerradão, a cidade ficava só no miolo em volta da Igreja Matriz. De lá foram para a região do Mato Escuro trabalhar em fazenda. Começou carregando água na cabaça e aprendendo os serviços da roça. Passaram para o outro lado do rio Tapiocanga, para trabalhar na propriedade de Totó Lobo. Subiram para o Engenho, na fazenda de João Gomes. Era molecote. A família ainda trabalhou para Eusébio Geriza, no São João. Compraram duas casas na cidade, uma no Alto do Bonfim e outra na Rua do Sapo. A mãe veio com porcos e novilha, mas na rua não podia criar; vendeu e comprou um bom terreno na região de Cocalzinho. Lá ficaram por 18 anos. Ele ficou lá 10 anos e voltou a trabalhar em outras fazendas.
Com quem foi criado? Com Deus, a mãe, o padrasto, três irmãos e uma irmã, além dos muitos agregados das fazendas.
Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde 1976.
O pai: Domingos da Costa, lavrador, com origem na Bahia. Gostava muito de Duti, exigiu que ele fosse registrado com o seu sobrenome.
A mãe: Francisca Cardoso dos Santos, original de Formosa. Era dona de casa e cuidava de roça também. Gostava de dar pousos de folia. Tinha voto de reza para São João, todo ano, de 23 a 24 de junho. Era festa por uma semana na casa, fazendo doces. Primeiro ela dava aquela jantona para as crianças, depois vinha a janta dos adultos e o forró.
Histórias: Detrás da Igrejinha em frente ao Posto Xepa, onde moraram logo que chegaram, tem uns pés de manga que a mãe dele plantou. Se tivesse ficado lá as terras seriam da família.
Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: Uma neta na Escola Municipal Geraldo de Morais e outra na Escola Municipal Tia Olívia.
Como aprendeu a ler e escrever? Estudou primeiro em uma casona amarela (atual Museu dos Pina), na rua Santa Cruz. A escola passou para onde hoje é uma padaria, na mesma rua. De lá foi para o Colégio, em frente à Igreja do Carmo. Estudou pouco, morando na roça. De volta à cidade, estudou no Colégio Luciano Peixoto por apenas três meses, logo se ocupou novamente de roça. Não aprendeu a ler e escrever.
No que trabalha ou trabalhou? Serviços de roça.
Quais são os seus saberes e fazeres? Folião, oferta pouso de folia, sanfoneiro e pandeirista.
Com quem aprendeu? Com a mãe aprendeu a gostar de dar pouso de folia. Toda vida foi folião. De pequeno, na chácara de Totó Lobo, não tirava a vista do trio Pedro de Nego (sanfoneiro), tio do Matias (pandeirista), e do Lu (cavaquinho), músicos da roça. Pedia ao tio para tocar o pandeiro, ele deixava. Depois que veio para a cidade, que tinha mais festa, foi só aprimorando o pandeiro. Sanfona gostava muito de tocar a pé de bode, até ter um pequeno problema com o dedo da mão. Acompanhava o cunhado, Caetano, e era considerado bom tocador como o Mangabinha.
De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? “As coisas que eu gosto – bater pandeiro, por exemplo, pelejei para passar para meu filho. Se a criança tem interesse, ela tem que ser incentivada. Porque com um músico, um sanfoneiro, um pandeirista, a festa está feita. A Folia – o folião tem que saber pular catira e cantar, senão não é folião. Eu toda vida mantive meu repertório. Não sei dançar catira como muitos dançam por aí, mas sempre pulei pra dentro, pra ir aprendendo, pra salvar o bolo. Sanfona eu tive duas, ainda tenho sonho de ter de novo. E o pouso de Folia – só de ver a bandeira chegar quando se dá um pouso, aquele povão, a bandeira no altar da sua sala – é uma satisfação.”
D. Narcisa Pereira da Cunha
Endereço: R. José da Veiga, Qd.1, Lote 7 – Vila Mutirão – Alto do Bonfim /Pirenópolis GO
Telefone: 3331 2805
Idade: 65 anos
Data de nascimento: 07/08/1942
Filhos, netos e bisnetos: Teve 7 filhos (6 vivos) e 13 netos.
Local onde nasceu: Nasceu na Fazenda Quilombo, município de Corumbá de Goiás
Local onde foi criada /onde passou a infância: Fazenda Forquilha /Corumbá GO.
Com quem foi criado? Com os pais e 3 irmãos. Convivia com três famílias vizinhas, mas cada uma tocava sua própria roça. Eu brincava muito com Terezinha, que depois se tornou minha concunhada. Era um pouquinho mais velha do que ela e até vestíamos igual, mesma combinação. Com 10 anos saíamos pra apanhar caju a uma distância como daqui até o Morro do Frota, sem medo de nada. Passávamos o dia no mato, chupando caju ou tirando catulé. Papai e o povo de casa adorava quando chegávamos carregadas de caju. No meio dos trilheiros, poucas vezes encontrávamos com um senhor vizinho. Ele ralhava de brincadeira dizendo que ia descer a correia na gente; saíamos rindo. Em casa apanhávamos café, papai tinha fábrica de farinha. Eu ralava a mandioca no ralo. Depois tivemos uma rodilha, tocada a dois. Por fim era uma roda de água. As pessoas da cidade vinham comprar farinha em casa. Pegavam a estrada do Bonsucesso, passavam pela Vargem Grande, morro do Tombador, cabeceira do Quebrado, mata da cabeceira do rio Corumbá, chegavam na cabeceira da Encruzilhada e avistavam o Cercado. O pai de seu Nego Aires, por exemplo, voltava com dois cargueiros cheios, cada um com mais de 100 kg de farinha. A gente também, quando queria vir pra cidade, saía de madrugada e chegava de tarde em casa. Meus pais não nos batiam, só no repreender eram respeitados. Lembro de quando mamãe me deu uma correada, uma vez só. Nós obedecíamos de natureza, com os exemplos. Éramos criados num limite só. Mamãe contava muitas histórias de pavor e assombração que davam medo quando éramos pequenos. Depois entendíamos que eram apenas histórias. Ficavam os exemplos, a experiência de vida. As mães conversavam entre si: você planta um pé de abóbora e vira ele pra onde quer que ele dê frutos. “Se deixar alastrar e madurar na hora de virar, ele quebra. Tem que educar antes de amadurecer, enquanto o cipó está molinho.” Elas trocavam referências sobre a educação dos filhos. Eu também aprendia com meus irmãos mais velhos. Nós quatro sempre mantivemos o respeito. Já tive a oportunidade de ajudar minha irmã mais velha em uma situação com o filho dela. Ela não aceitava a companheira dele e a neta e eu a lembrei da importância de manter o apoio familiar principalmente nesses novos tempos. Quando casei foi por amor. Meus pais me preveniram sobre meu marido, que apesar de criado no mesmo costume, já não era peça muito boa. Mas eu agüentei as dificuldades até quando decidi não continuar mais. Hoje aprendi a conversar de novo com ele. Pois antes nosso dia-a-dia era muito bom. Tinha felicidade. Mamãe morreu 25 anos depois do meu pai, e nunca vi os dois brigarem. Quando papai morreu, mamãe ficou apaixonada e passou a beber; mas deu a volta por cima e largou muito antes de seu falecimento.
Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde 1972 /73.
O pai: Francisco Pereira Cirino, lavrador, artesão de balaios e tapitis. Papai de tudo sabia um pouco. Conhecia tudo de roça. Tinha uma rancharia, que era onde o povo costumava ficar acampado pra fazer a roça, uma semana, como um mutirão pra queimar a roça antiga, descoivarar e plantar de novo. De noite era o forró. Ele também era carpinteiro, pedreiro. Nascido em Planaltina, mudou com a família para a Fazenda Capão Comprido. Fabricava balaio, bruaca, cangalha, jacá de taquara, tapiti, peneira, bateia de tamboril. Também garimpava nas horas vagas, eu o acompanhava. Também acompanhava muito meu tio Joaquim Pinto em suas andanças pelos matos. Ele era raizeiro, benzedor, uma espécie de vidente, tinha visão espiritual. Com ele aprendi a conhecer as plantas do mato. Outro tio, Benedito Turino, participou da revolução e talvez até do exército de Santa Dica.
A mãe: Benedita Gomes Cirino, nascida na Fazenda Pedra Infincada e criada na Fazenda Forquilha, lavradora, tecelã, dona de casa. Minha mãe tecia no tear, era tecedeira de trabalho. Tecia coberta, baixeiro, pano. Tingia os panos com as plantas do mato. Pro azul ela usava anil; o ramo do quaresmeiro dava amarelo; a árvore conhecida como cabelo de negro dá o marrom. Esse cabelo de negro fixa sozinho, é como uma nódoa. Já as outras cores se usava o sal para fixar. Papai não nos deixou aprender a tecer, dizia que fazia mal pro útero. Costume dele, porque mamãe tecia toda vida e nunca teve nada. Tínhamos os suprimentos da lavoura e mamãe tecia para os gastos, com o dinheiro do tecido ela pagava a costureira. Nós costumávamos fiar; eu fiava no arco, que é usado antes de cardar. Uma irmã fiava no fuso e a outra na roda. Desde pequena acompanhei minha mãe. Eu era a caçula. Íamos aos parentes e vizinhos e ouvíamos suas histórias. Lembro de um dia, quando andava na frente de mamãe, e vimos um tiú (teiú). Era outubro e minha mãe falou pra tomar cuidado, que nessa época o tiú fica bravo. Ela jogou uma pedra pra afugentá-lo e eu, de assustada, dei uma carreira pra um lado e ele pro outro! Minha mãe caiu sentada de tanta risada e nunca mais esqueceu de contar essa história por onde ia. Guardei todas as experiências que vivi com minha mãe e hoje entendo que isso é sabedoria. Sempre a respeitei; hoje vemos os jovens repreendendo a sabedoria dos antigos, dizendo que é superstição. Até pouco tempo, eu não tinha coragem de contar o que aprendi com ela. Era uma sabedoria completa, para a vida.
Histórias:
Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: Uma neta de 22 anos (Ariadna) é professora no Colégio Estadual Santo Agostinho. Tem netos que moram em Chapadão do Céu e Anápolis e freqüentam escolas públicas. Em Pirenópolis os netos estudam na Escola Municipal Dom Emanuel e no Colégio Estadual Senhor do Bonfim.
Como aprendeu a ler e escrever? Em casa, com os dois irmãos mais velhos que foram ensinados pelo pai. Quando não tinha caderno treinava na casca da gueroba. Nunca estudou em escola.
No que trabalha ou trabalhou? Na lavoura (café, mamona, mandioca) e também como lavadeira e passadeira.
Quais são os seus saberes e fazeres? Conhece profundamente as plantas do cerrado e seu uso medicinal e na culinária; conhece brincadeiras de roda, cantigas de trabalho, brincadeiras de traição e mutirão, é rezadeira de terço e do presépio.
Com quem aprendeu? Plantas: com o tio raizeiro (Joaquim Pinto de Aquino); rezas e brincadeiras: com a mãe e vizinhas mais velhas; cantos de presépio: com d. Laurita. E a lavoura?
De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? O aprendizado estudando a natureza, observando as estações, os animais, a harmonia com os ciclos naturais (sabiá, cupins, sapo engenheiro, cachoeira, etc); o poder das orações para a cura de problemas familiares; e a educação pelo exemplo de vida dos familiares (“pé de abóbora”).
Lembrar mais com ela de:
Sabedoria dos ciclos da natureza – quando os bichos, as plantas e as águas falam das estações – que ela comentou quando preenchemos a ficha da Ação Griô.
Emilio Aires da Silva (Nego Aires)
Endereço: r. Luiz Gonzaga Jayme, nº. 62 – Alto do Bonfim / Pirenópolis GO
Telefone: 3331 1254
Idade: 75 anos
Data de nascimento: 04/02/1933
Filhos, netos e bisnetos: Tem 3 filhas e 4 netos.
Local onde nasceu: em Pirenópolis, no bairro do Bonfim.
Local onde foi criada /onde passou a infância: foi criado no bairro do Bonfim. Conheceu a mãe de s. Bastião. Trabalhou na pedreira desde os 10 anos de idade; a brincadeira era muito pouca pois naquele tempo a obediência aos pais vinha na frente de tudo. Gostava de brincar de pudi (esconde-esconde /pique) na porta de casa à noite. Trabalhou como guieiro de carro de boi e dirigia os bois gritando por seus nomes, pois cada boi tinha um nome. Nos carros de boi carregava madeira pra construção e também para lenha; trazia pedra da pedreira pra cidade – arrancava, cortava e vendia a pedra para calçamento; buscava farinha na fazenda onde morava d. Narcisa montado a cavalo. Quando era menino só haviam cinco ou seis casas no Bonfim e ainda não havia o campo de avião (campo de aviação que mais tarde tornou-se área invadida para construção de casas populares). Ele morava na rua Santa Bárbara.
Com quem foi criada? Com os pais e irmãos (11).
Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Sempre morou em Pirenópolis.
O pai: José Aires da Silva, nascido em Porto Nacional, era Cabo policial antes de vir para Pirenópolis. passou por várias cidades e em 1927 veio definitivamente para cá e se casou. Casou-se com 43 anos. O pai era muito sério e respeitado, não era de muita brincadeira.Deu baixa na polícia e passou a ser cargueiro e construtor de casas. Nessa época era muito comum criar gado na cidade, até que um prefeito passou a não aceitar esta prática e mandou cercar toda a cidade. Muita gente como eles, teve que se mudar pra zona rural pra garantir o sustento da família. Moraram mais ou menos cinco anos pra uma chácara na beira do rio das Almas, criando gado e tocando uma rocinha. Depois que mudou a Prefeitura, voltaram pra cidade. Faleceu aos 87 anos de idade.
A mãe: Maria de Fonte Silva nasceu em Pirenópolis e foi criada na cidade. Ela costurava e depois que se casou trabalhou como doméstica. Cardava, fiava e tecia. Gostava de cantar trabalhando, era uma mulher muito alegre e gostava muito de ajudar. A mãe tinha 19 anos quando se casou. Também faleceu aos 87 anos. Era uma mãe muito zelosa, sempre fazia merendas de arroz doce, canjica, tudo no fogão caipira e servia cada um. Até hoje a esposa de s. Nego mantém esse costume.
Histórias:
Considera-se muito respeitador. Sempre praticou muitos esportes; jogou futebol desde os 16 anos. Tinha prazer em fazer educação física. Nunca brigou em campo ou em alguma competição.
Tinha 20 anos quando começou a trabalhar como motorista na Prefeitura. Logo conseguiu reunir dinheiro com o irmão e compraram o primeiro caminhão para transportar pedras pra Uberlândia (durante 2 anos) e depois pra São Paulo, durante 11 anos. Ele e o irmaão compraram 4 (quatro) caminhões, um a cada ano. Viu muita coisa boa e muita coisa ruim nas estradas: quando tinha 46 anos, sofreu um acidente muito grave com o irmão dirigindo, batendo de frente em outro caminhão. O irmão. Que tinha 48 anos, faleceu e Deus poupou sua vida. Ficou 9 dias na UTI. Durante um ano não esteve presente nesse mundo – nem viu passar, não tem recordação, ficou fora do ar – e quase sofreu uma cirurgia na cabeça. Machucou seriamente as pernas. Não precisou passar nenhum medo pro cérebro voltar a funcionar. Do nada, fez um barulho na cabeça dele e a mente voltou. Não tinha medo de nada naquela época. Ficou bom, curou, ia ficar na cadeira de rodas e não precisou. Tá firme hoje em dia, forte, saudável e muito jovem!
Uma vez numa festa, tinham dois tocadores, ele e outro. Nessa época ele era dançador. Como erma apenas eles dois, passaram a noite toda tocando sem poder dançar. Nesse dia ele fez uma moda de viola pra contar esta história (Pingo d’água).
Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: A neta estuda na Escola Municipal Dom Bosco
Como aprendeu a ler e escrever? Estudou à noite já rapaz, mas apenas até o 2º ano. O resto que abe o mundo que ensinou, aprendeu na prática.
No que trabalha ou trabalhou? Foi guieiro de carro de boi e caminhoneiro, hoje em dia é aposentado, mas faz alguma viagem pra perto. Seu caminhão chama-se “Estimação”. Sabe trabalhar com machado, foice, enxada, marreta. É músico, toca cavaquinho, sanfona pé de bode, violão, viola e canta.
Quais são os seus saberes e fazeres? Música: além de tocar e cantar, compõe algumas modas.
Com quem aprendeu? Aprendeu a tocar pro conta própria, um dom que Deus lhe deu. O trabalho foi com o pai, que o levava pro serviço e explicava como era o trabalho e com os irmãos.
De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações?
Pras pessoas da família, netos e filhos, ensinou a ter educação e a não ter vícios. Observa que os jovens precisam aprender a trabalhar; tem que estudar, mas estudar demais pode atrapalhar a fazer outras coisas importantes. “Aprender não ocupa lugar, quanto mais sabe, melhor fica”.
Miuza Correa de Sousa
Endereço: r. Jacy da Luz, Qd 3, lote 6 – Alto do Bonfim / Pirenópolis GO
Telefone: 3331
Idade: 55 anos
Data de nascimento: 13/03/1953
Filhos, netos e bisnetos: Tem 2 filhas e 4 netos.
Local onde nasceu: Nasceu na Fazenda Baixão no Povoado de 2 irmãos /Pirenópolis GO. Situa-se perto de Niquelândia, próximo ao Povoado de Quebra-linha. Dois irmãos era uma “currutela”, um “patrimoniozin” de Pirenópolis. É a filha mais nova de quatro irmãos.
Local onde foi criada /onde passou a infância: passou toda a sua infância na Fazenda Baixão, no Povoado de Dois Irmãos. Seu pai “tocava” a roça do dono da fazenda. Ela e os irmãos trabalhavam na roça com o pai e a mãe morava na casinha de adobe no “patrimônio” onde trabalhava. Na roça a casa era um ranchinho de pau a pique. Durante o dia ajudava na lida da roça – plantar, limpar a roça e vigiar pra que os passarinhos não comessem a plantação – a criançada se divertia espantando os passarinhos.
Com quem foi criada? Com os pais e irmãos.
Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Há 29 anos, desde 1979.
O pai: José Cândido da Silva, nascido em Goiabeira MG. A família do pai é totalmente desconhecida dela, parece que tava todo mundo “desgarrado”. Não conheceu avós nem tios paternos. Seu pai foi criado por uma madrasta que distribuiu os irmãos por diversos locais diferentes (“deu pros outros”). Seu pai era lavrador, benzedor e raizeiro. Fazia garrafada pra vender pros outros. A casa estava sempre cheia de pessoas que vinham se benzer com ele. Ela e os irmãos não podiam perguntar nada pra ele, por isso ela não aprendeu esse ofício com ele. Ela tinha 15 anos quando o pai morreu. Com a morte do pai, a mãe e os irmãos se uniram pra colher o “plantado” do ano, entregaram a parte do dono da fazenda e foram morar com a mãe no “patrimônio” (Povoado de 2 Irmãos) e trabalhar em casa de família: arrumando, lavando, passando, cuidando dos meninos. Não ganhavam nada, pois a patroa dizia que eles estavam “aprendendo”. A irmã mais velha foi pra Goiânia trabalhar e ajudou muito a família.
A mãe: Joana Correia de Sousa, nascida em Anicuns GO, perto de Minas. Seu avô materno era casado com uma índia. Quando ela era pequena (Miuza) o povo a tratava por “tapuia”, pois ela parece índia. Ela não se importava, pois nem imaginava como eram os índios. Um dia um circo passou pelo povoado e o dono do circo falou pra sua mãe tomar cuidado com ela porque se os índios passassem por ali, levariam ela, que era “purinha” índia. Dos irmãos só ela se parecia com a avó índia. A mãe então proibiu-a de sair de casa à noite. Miuza não conheceu a avó, pois a mãe dizia que ela tinha morrido. Ela não sabe se é verdade, pois parece que a mãe e o pai saíram da terra natal deles fugidos em conseqüência de alguma confusão que o pai teria arranjado por lá. A mãe contou que a avó se escondia no mato durante o resguardo quando chegava visita em casa. Miuza quer perguntar à mãe sobre a avó índia. Seu avô paterno era negro, o que explica o fato de uma de suas filhas ser bem morena. A mãe ainda é viva e sofre com alguns problemas de saúde naturais aos seus 92 anos de idade.
Histórias:
Na fazenda onde morava passava um rio, no fundo da casa onde moravam. Todos os dias ela e os irmãos se banhavam no rio no final da tarde e ficavam lá até o anoitecer. Ela adora nadar, nada melhor que um peixe. Ela pulava de cima de um barranco e nadava por debaixo da água até chegar à outra margem. Em época de chuva eles não iam ao rio pois era muito perigoso e sempre tinha tromba d’água. Uma vez, durante a época das águas foram escondidas pro rio, ela , a irmã e uma amiga. Nessa parte que elas nadavam tinha um coqueiro no meio do rio, elas então pulavam e se agarravam na folha do coqueiro pra não descer rio abaixo, só que dessa vez ela não conseguiu se agarrar. Vieram muitos troncos de jatobá, os troncos passavam por cima dela e ela mergulhava até que conseguiu se agarrar num cipó. As meninas correram a avisar sua mãe que logo chegou e a resgatou com um pedaço de pau. Foi só o prazo de sair do barranco pra levar uma surra de vara de malva nas costas e pernas. Nunca mais ela se meteu em rio brabo.
De sábado pra domingo elas faziam o “cozinhadinho”. Foi nessa brincadeira que ela aprendeu a cozinhar. O pai matava passarinho com bodoque e pedrinha de estrada. Não errava um. Trazia os passarinhos e entregava pra elas que depenavam, sapecavam, temperavam e fritavam na trempinha debaixo da latadona de cipó, perto do rio, como se fosse uma caverna. Era uma casa perfeitinha, mobiliada e tudo. Na época da chuva era perigoso cobra.
Na época da chuva a brincadeira era dentro de casa, de esconder, de cabra cega. Uma vez o pai fez uma brincadeira horrível com ela, achando que ela tava enganando e enxergando por debaixo da venda e deu um tição de fogo que ele pegou na fornalha pra ela segurar. Ela tinha uns 12 anos. Ela ficou muito temo sem falar com o pai por causa disso.
Logo que se mudou para o povoado conheceu o Zezão, seu marido até hoje, que tinha e mudado pra Dois Irmãos com toda a família (pais e irmãos). Logo passaram a namorar e se casaram. Ela tinha 15 anos e ele 27. Sua primeira filha ainda nasceu em Dois irmãos.
“Mocinha de hoje em dia
Só fala em casar
Põe a panela no fogo
Mamãe vem temperar”
Quando Maria, a filha mais velha tinha apenas 1 (um) ano, mudaram-se, junto com toda a família de Zezão, pais e irmãos solteiros, para Minaçu, primeiro pra trabalhar na roça e depois para garimpar no Córrego do Macaco e no Garimpo da Serra Grande, garimpo de castelita. Era um garimpo fácil, muito valorizado; tinha ouro também. Morou nessa região durante mais ou menos sete anos, primeiro numa região de roça pra lá de Goianéisa, depois em Minaçu, numa fazenda depois em outra na beira do Rio S. Felix. Nessa última fazenda o sogro só foi acompanhando a mudança. Nesse lugar eles tiveram muito prejuízo, pois a roça era constantemente invadida por capivaras, passarinhos, formigas queimadeiras e as enchentes eram freqüentes. Mesmo assim ficaram ali durante 4 anos… Um belo dia Zezão resolveu sair pra procurar outro trabalho porque não tava dando certo aquela roça. Miuza ficou sozinha com as filhas. A casa que moravam era apenas um ranchinho coberto de palha, sem paredes. Durante a noite uma onça rondava a taperinha e ela não podia dormir com medo que a onça atacasse suas filhas na calada da noite. Isso durou aproximadamente quatro meses. Um dia ela arriou o cavalo, colocou as meninas em cima (cavalo Canário) e foi pro Garimpo do Macaco, onde o Zezão estava, morando com o irmãos, mas logo depois cansou daquela vida e largou o Zezão, vindo se encontrar com a mãe que já morava em Pirenópolis. Ficaram morando com ela, todas as quatro dormindo juntas em uma cama de solteira. Passados dois anos seu sogro trouxe o Zezão adoentado para ela cuidar. Ela rejeitou o “presente”, mas a mãe assumiu a responsabilidade de cuidar dele e desde esse tempo voltaram a viver juntos.
Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: cada neto estuda em uma escola diferente: Geraldo de Morais, Luciano Peixoto, Joaquim Alves e Com. Christóvam de Oliveira.
Como aprendeu a ler e escrever? Não freqüentou a escola porque precisava ajudar o pai na lida da roça. Aprendeu a ler . Seu caderno era a casca da gueroba, a areia da praia e as pedras que escrevia com carvão. Quando eles se mudaram pro povoado, depois que o pai morreu, começou a freqüentar a escola, mas logo a professora veio embora pra Pirenópolis e eles ficaram sem escola mais uma vez. Mais recentemente cursou o EJA, já em Pirenópolis.
No que trabalha ou trabalhou? Quando criança ajudava seu pai na roça; quando jovem e no início da fase adulta, trabalhou no garimpo. Atualmente trabalha como doméstica (serviços gerais) e como educadora griô no Quintal da Aldeia /Guaimbê.
Quais são os seus saberes e fazeres? Faz farinha de mandioca, sabe cozinhar muito bem; fia no fuso e na roda; bate com arco e carda o algodão, sabe fazer o arco de bater; sabe construir trempe pra cozinhar no mato; sabe fazer fornalha (fogão caipira); adobe e fumo de rolo.
Com quem aprendeu? Com os pais
De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações?
Plantar, é o que considera mais importante, saber limpar o arroz, o feijão e o milho pra planta crescer. Se não souber tirar o arroz, perde tudo. Tudo tem sua época certa de plantar e de colher, a lua certa. Porque sem alimento ninguém sobrevive e hoje em dia nenhuma criança sabe de onde vem o alimento. Aprender a cozinhar também é muito importante. Muitas coisas eu aprendi sozinha ou trabalhando na casa dos outros. Quando eu era criança só bebia remédio do mato, só conheci remédio de farmácia quando vim morar na cidade. Lombrigueiro pé mastruz, meu pai curava a gente. Observando meu pai apanhar as plantas, fui aprendendo a conhecer os remédios do mato. Não aprendi a benzer, mas estou esperando minha mãe melhorar pra ela me ensinar alguns benzimentos.
Ana da Conceição Oliveira (Taninha)
Endereço: r. Sete de Setembro, nº.48 – Alto do Bonfim / Pirenópolis GO
Telefone: 3331 2062
Idade: 62 anos
Data de nascimento: 18/09/1945 no registro – de fato: 20/05/1948
Filhos, netos e bisnetos: Tem 6 filhas e 16 netos.
Local onde nasceu: nasceu em casa em Pirenópolis GO
Local onde foi criada /onde passou a infância: na roça, no Povoado São João e depois mudou-se pra Campo Limpo.
Com quem foi criado? Com o pai, pois os pais se separaram quando ela tinha 9 anos e ela acompanhou o pai que mudou-se pra Águas Limpas, na casa da tia Celina (pros lados da Fazenda Babilônia). Ficava com a mãe durante uma semana ou duas, pois brigavam muito (a mãe a proibia de fazer as coisas que gostava). Deixou o pai nas Águas Limpas e mudou-se pra casa da cunhada Helena (e do irmão) nas Araras. Lá arranjou um namorado pra fazer birra pra mãe e menos de um mês depois fugiu com ele, a cavalo, pra se casar. As fechaduras das portas da casa rangiam alto, então ela e a cunhada lubrificou todas elas pro irmão não ouvir. O avô foi atrás com a polícia, mas não conseguiu encontrá-la. Teve três filhos com ele, mesmo sem amor. Nessa época ela foi morar na Fazenda Pedra Preta, em Artulândia (entre Jaraguá e Goianésia). Trabalhava na roça com plantação de fumo e fiava fumo também. Era divertido porque ficava no meio dos outros. Ela ia com aquele tamanha de pança (grávida) levar merenda pros homens na roça… Desde pequena adora festar. Quando era dia de baile, ela engomava com polvilho as saias rodadas e ia pras festas , flap, flap, com a saia fazendo um movimento bonito.
Mora em Pirenópolis (zona urbana) desde quando? Desde os 25 anos de idade.
O pai: Luiz Basílio de Oliveira, nascido em Pirenópolis na Fazenda Raizama, lavrador. Já falecido.
A mãe: Joventina Batista de Oliveira, dona de casa. Ela acha que a mãe nasceu em Pirenópolis, pois os avós sempre moraram na cidade. Ela cozinhava, lavava roupa pros outros e fazia empadão pra vender. Já falecida.
Histórias:
Quando eu fui criada no São João, a gente gostava muito de ir pro rio, fazer barquinho nas toras de bananeira, pescar… lá tinha festa de mutirão, meu pai fazia muita comida pra tratar dos outros. Eu puxava o cavalo pra moer cana. As vacas do meu pai não tavam de bezerrinho novo e a gente ia nos vizinhos buscar leite. Meu pai falava que a gente não podia fazer bagunça porque o Pai do Mato pegava a gente, a gente não acreditou e um dia ele apareceu pra gente e todo mundo se machucou porque na fuga passamos por baixo de um rame. A nossa sorte é que o Pai do Mato não agacha, daí ele bateu no arame e não nos alcançou. Tenho a cicratriz até hoje!
Casar em fogueira de São João (Quadrilha) quase demais…. adoro essa festa!!!
Nós morava perto do rio de São João, a casa nossa era pertinho do rio. Quando eu era novinha, a gente fujia da minha mãe todo dia pra ir pro rio, ia a turma pequena pra ir pro rio, era pertinho. Um belo dia um irmão meu que não ficava muito com nóis disse: – “Pera aí, que eu vou arrumar um barco pra carregar vocês”, e nóis ia na onda dele, aí ele fazia aquele tanto de toro de bananeira, e furava ele assim e punha a gente em cima e diz que ia remando, né, e punha nóis sentado em redor dele. Daí quando ia chegando no lugar mais fundo ele ia e jogava nóis tudo lá dentro. Depois ele acodia. Ele nunca ficou junto com nóis. Toda a vida ele foi custoso, e não morava com a minha mãe não, mas quando ele ia, era só pra aprontar com nóis.Tinha uma pau lá que lá em cima, assim, ele entortava, daí ele subia nesse pau e pulava lá de cima e fingia que ele morreu lá dentro dágua, ai, daí nóis gritava, de medo dele ter morrido e a gente não dar conta de acudir ele. E nóis gritava, e pelejava pra acudir ele. Aí nóis escutou os outros falando que não queria chover e ele falou assim: -“olha, se pegar um santo, São Sebastião, e lavar ele”- nóis ficou de olho, escutando- “e molhar ele, chove, se lavar o pé dele”. Nóis juntou os meninos, fuxicou um pro outro e panhou o santo da minha mãe e nóis foi pro rio. Mais nóis pelou o santo da minha mãe tudo! Nóis rapou a tinta do santo da minha mãe, escondeu ele dela e ela, pra achar esse santo, deu o que fazer… Mas deu uma chuva!! Ih, matou peixe que chegou a feder na beirada do rio…!
Eu morava com Helena, nas Araras. Arranjava os namorados e minha mãe não gostava, corria com tudo. Pois eu arrumei um, com poucos meses resolvi fugir com ele. Não gostava dele, fugi de pirraça com minha mãe. Helena me ajudou a fugir. Sentei na garupa do cavalo e fomos parar em Jaraguá.
Lá quando ele brigava comigo, eu fazia pirraça e fugia pro campo. Tinha um tio dele que imitava a jaó pra me chamar. Eu ia. Quando ele já tava desconfiando do assovio da jaó, eu fugi com o tio dele pra cidade. Ele foi atrás e me viu beijando na boca do tio dele até. Sacou do revólver, mas eu tinha tirado as balas do revólver dele e jogado no rio. O outro foi mais rápido e sacou do revólver primeiro. Ele não veio mais pra cima. Já tinha três filhos com ele. Não gostava dele, mas a gente ia fazendo filho. Pois larguei dois com ele e levei um comigo. Minha mãe não deixou criar esses dois. Hoje tão casados lá em Jaraguá.
Fui viúva de três maridos, sou quase viúva do quarto e continuo solteira. Meu pai me registrou pra casar, quando eu tinha 15 anos. Depois descobri que eu sou touro virgem. Nasci em maio e meu pai me registrou em setembro.
Parentes que estudam ou trabalham em escolas públicas: O neto estuda na Escola Municipal Luciano Peixoto
Como aprendeu a ler e escrever? Ela morava na zona rural, em Campo Limpo, então veio pra cidade morara na casa da avó. Estudou perto da Igreja Matriz, numa escolinha paroquial, quando tinha mais ou menos 10 (dez) anos, depois foi pro Grupão Amarelo (Colégio Estadual Joaquim Alves de Oliveira).
No que trabalha ou trabalhou? Trabalhou como lavradora e atualmente trabalha como educadora griô no Quintal da Aldeia /Guaimbê. Ela trabalha agora como educadora, mas já trabalhou até de doméstica. Trabalhou na roça e depois que teve quatro filhos, arranjou outro marido e mudou pra Fazenda Barreiro, perto de Alexânia. Lá ela cozinhava pros peões da roça, engordava e matava porco, buscava gado no pasto montada a cavalo. O arroz que comiam nessa época era socado no monjolo.
Quais são os seus saberes e fazeres? Talentos para a dança (“eu danço forró pra valer!”), culinária (“gosto de fazer comida”), tecelagem e para ser mãe. Sabe costurar tapete de retalho: “a gente corta os pedaços e costura fazendo biquinho”.
Com quem aprendeu? Com os pais. O tapete ela aprendeu sozinha, cozinhar também. A mãe cozinhava mas não gostava que as crianças ficassem perto. Ela não tinha paciência pra ensinar. O pai contava muitas histórias pra ela e para os irmãos, mas ela não lembra mais…
De tudo que aprendeu na vida, o que considera mais importante transmitir às outras gerações? Honestidade, trabalho, educação e alegria.