Arquivo paraMaio 6, 2008

Caminhos de São Francisco

Em Piaçabuçu proporcionamos a convivência social. Entendemos que somos um coletivo com descendência africana, indígena, portuguesa… Fomos, até sem perceber, tomando posse das coisas que já eram nossas, mais que de certa forma estavam esquecidas, adormecidas em nós. Ao fazermos essas informações chegarem às pessoas, potencializando a harmonia na convivência humana. Nenhum desenvolvimento se faz com qualidade se não houver a valorização da cultura popular e o fortalecimento da identidade das pessoas. No nosso Ponto mobilizamos (através da cultura e meio ambiente) e contribuímos para a organização do povo ribeirinho através da articulação em redes de comunicação e trocas de experiências(*), de forma que se perceba protagonista de sua história. Isso só acontece quando nos conhecemos e ao outro, valorizamos e respeitamos a nós, a nossa história e o meio a que pertencemos. Os saberes dos mestres e griôs da cidade ficavam dentro de suas próprias bolhas. A pedagogia griô foi como um espeto que furou as bolhas. Juntos, estamos aprendendo a conviver e interagir. Aprendemos a respeitar os saberes dos mestres e eles aprenderam a respeitar nossos saberes. Percebemos o quão é importante dialogar, ouvir e ser ouvido. Estamos construindo um novo saber. Hoje, existem respeito e carinho dos educadores para com os mestres e griôs. Muitas e muitas vezes não é necessário a mediação do griô aprendiz nas vivências das escolas. Coordenadores pedagógicos e professores assumem o lugar de griô aprendiz, o que se faz possível graças aos encontros de estudo sobre a pedagogia griô. Coordenadores municipais que também integram o grupo de estudo a respeito da pedagogia griô, discutem a construção de um currículo para o Município.

Estrela de Ouro

A missão do Ponto de Cultura é a promoção da estima, a valorização de todo e de cada um. Os Mestres Griôs são mestres do Maracatu, dos Caboclos, do Coco, do Terno do Maracatu. Na Chã de Camará há um centro de Jurema, mas os griôs não participam dos rituais, enquanto alguns caboclos e mulheres da comunidade vizinha participam dos ritos. O sacerdote do Centro Nossa Senhora da Conceição é o rei do Maracatu. Os mestre estão todos ligados ao corte da cana, envolvidos no canavial desde a infância. Todos eles trabalharam com as mãos e aprenderam, pela convivência as diversas artes que utilizam. Quando se organizou a Ação Griô, ficou estabelecido que os Griôs iriam visitar as escolas e apresentar as suas criações e as suas vidas aos estudantes. Não se pretendeu que os saberes entrassem na matriz curricular, mas que estudantes e professores pudessem perceber que há mais que dança, há mais que balanço na tradição que a escola não estuda. O carinho e o respeito com que os estudantes ouviam o que os mestres diziam sobre as suas vidas e o significado de suas artes, emocionou a cada um deles. Esse prazer promoveu o interesse de outras escolas para uma visita dos Griôs. O Griô Aprendiz ao visitar a escola desenvolveu sua capacidade de comunicação, vencendo barreiras sociais que impunham, especialmente, o temor de falar. Agora se pode notar um orgulho dos aliancenses por seus mestres, não apenas os Griôs do Ponto de Cultura, mas de todos os maracatus da cidade. Ainda é grande o espaço a ser percorrido por todos os membros da sociedade local, mas hoje ela sente orgulho em saber que homens simples que eles conhecem são convidados a se apresentarem, não mais como uma atração exótica, mas como senhores de um saber que só aquela região produziu. Cada vez é mais fácil conseguir espaço nos meios de comunicação da região, onde esses mestres são reverenciados. Todos os sábados, os mestres, no terreiro, dividem-se para transmitir sua arte: a arte de tocar, a arte de dançar, a arte de cantar. O Mestre Griô Zé Duda e o Griô Aprendiz Zé do Coco também recepcionam visitantes do Ponto de Cultura e com eles conversam, cantam e dançam.

Cultura para o Desenvolvimento

Uma Ação que transforma

Canafístula tem história
E a ação grîô vem mostrar
Divulgando ao País
Sua cultura popular
Construindo com os mestres
Griôs, aprendizes se vestem
Para a educação melhorar
É atravez da união
Da associação e a escola
Que essa Ação se fortalece
E a comunidade transforma
Suas ruas em um palco
Crianças aprendem e falam
Recontando sua história.

Com o envolvimento na Ação Griô, começamos a ter o cuidado com a questão do registro de toda esta riqueza, que são os conhecimentos dos mestres e griôs. Além das crianças aprenderem ouvindo e se envolvendo nas ações, elas ficam com um pouco desse registro escrito, e, em alguns momentos, fazem a sua própria interpretação e recriação, como na contação das histórias. A minha relação com a escola é muito forte, pois foi herança do meu avô. Está localizada em frente à minha casa, onde estudei parte do ensino fundamental.
Minha atuação como mediador entre os mestres, griôs e educadores vem acontecendo de forma integrada e ao mesmo tempo diferenciada, pois entre os mestres e griôs existe uma relação de confiança e admiração profunda pelo prazer e vontade com que eles se envolvem nas atividades. Com os educadores ainda estamos em processo de conquista e demonstrações das atividades, não existe ainda o envolvimento total, mesmo sabendo que muitos trabalham a oralidade através da contação de história. Todo o fortalecimento do vínculo com minha ancestralidade e universo simbólico está em processo, pois tudo isso de certa forma  é novo  para mim. Antes de conhecer a pedagogia Griô eu não percebia a necessidade desse personagem e nem da preparação de um ambiente, seja material ou simbólico, mas agora percebo que é importante, pois estimula a imaginação e o prazer de quem faz e de quem vê. O envolvimento com a Ação é total. Sinto-me de certa forma  responsável pela continuidade de sonhos, realizações de mestres e griôs, que se sentem renovados desenvolvendo e participando dessas ações. Estou muito feliz em fazer parte desse contexto que não é mais o Ponto de Cultura de Canafístula, e sim um universo maior que deseja melhorar a qualidade de ensino. Agora os mestres e Griôs sempre estão presentes nas reuniões da associação,  e alguns participam de outros grupos sociais e  religiosos.
Todos estão diretamente envolvidos na execução das oficinas, participam de outros  grupos oficiais, que fazem parte do Ponto, e que desenvolvem um trabalho social mais amplo se apresentando em diversos municípios e até fora do Estado. Perceber o envolvimento e encantamento  das crianças é extremamente gratificante e quando há uma participação  mais efetiva por parte de alguns a satisfação aumenta ainda mais. É o que percebemos em relação ao Rodrigo, Gabriel, Rafael e, principalmente, ao Lucas, que ultimamente vem assumindo uma postura de griô aprendiz fazendo o papel de mediador nas oficinas de músicas, entre o mestre e os colegas que sentem mais dificuldade.

Coco de Umbigada

O Ponto de Cultura Núcleo de Memória Coco de Umbigada é um Terreiro que vem da herança familiar com a brincadeira do coco, tem como missão a Memória e a difusão da cultura popula. traz a troca de saberes e a vivência dos terreiro como espaço de criação e salvaguarda da cultura popular de matriz africana. Desenvolvemos pedagogias que envolve canto, dança, ritmos, oralidade, contação de história, brincadeiras da cultura popular A Sambada de Coco gera trabalho e renda para os mestres e para toda comunidade, envolvendo aproximadamente duas mil pessoas.
O Griô Aprendiz é o grande vaso, recebo os mestres no nosso terreiro da Umbigada a pelo menos dez anos, faço desse encontro uma grande sambada, a ação griô trouxe ao mestres elevação da auto-estima e reconhecimento de sua sabedoria que muitas vezes não se tinha nem mesmo dentro de suas casas. Nossa Mestra Griô Mãe Lúcia de Oyá é procurada com freqüência por escolas e universidades para ministrar oficinas e palestras sobre a matriz africana. Penso que o griô aprendiz deva conduzir este novo paradigma, integrando educação, cultura popular e comunidade. Na mística da roupa, minha referência de indumentária vem com as guias(cordão de misangas da cor do orixá), o ojá(pano de cabeça) e as vestes brancas,também sempre trago meu pandeiro, uma forma de estar com a brincadeira sempre a mão. A Escola Maria da Glória Advíncula, situada em nossa comunidade, tinha como proposta pedagógica a valorização e o reconhecimento da história local, percebi que faltava entusiasmo no processo ensino-aprendizagem, afirma Glauciane Santos, coordenadora pedagógica da escola. Na tentativa de minimizar a agressividade do recreio, coloquei os instrumentos musicais no pátio da escola para aguçar a curiosidade dos alunos, para minha surpresa estavam tocando,quis saber quem havia ensinado-os e eles me levaram até o Ponto de Cultura Coco de Umbigada, local das oficinas,e lá conheci a Beth de Oxum,percebi que se tratava de uma pessoa culturalmente importante na comunidade e que traria vida pra escola,nas visitas dos alunos ao ponto de cultura, e com muita generosidade, ela nos envolveu num processo de identidade e reconhecimento afro-descendente, conhecemos a história que não tem nos livros.Em sala de aula os alunos fizeram a releitura do coco em várias dimensões :O coco de roda e suas vertente populares, o coco canção ,na linguagem oral e escrita,O coco enquanto fruto,na criação de um livro de receitas(sabores do coco). Confesso que não foi fácil envolver o grupo de educadores na convivência religiosa e ético cultural,pois o preconceito ainda persiste em nosso meio. O que permeia a educação é a informação e o indivíduo tem o direito a um desenvolvimento pleno .É necessário que o educador oportunize ao aluno não só o conhecimento científico , mas também o saber popular.

Casarão de ofícios

Porta de Memórias

Como fazemos nossa história?
Construindo textos
Escrevendo rimas
Lembrando a cultura
Que a todos anima
Porta de Memórias
Que aprende e ensina
Memórias antigas
Ensinas presentes
Idosos à frente
Jovens e crianças
Também inseridas
Contando estórias
Brincadeiras antigas
Tudo isso é
Porta de Memória
É só isso, não!
E as velhas artistas?
Que cantam e recantam
Cantigas bonitas
E as curandeiras
Que dão entrevistas
Também as parteiras
Coisa nunca vista
Porta de Memórias
Que coisa bonita.

Relatar a história de vida de um único mestre é uma tarefa dificil diante da gama de vivências que esta Ação nos proporcionou. Acho importante fazer um apanhado da alegria de Mestre Alfredo ao ser ouvido por crianças que não o viram dançar o Boi, mas que ficaram encantados em ouvir sua vivência; O prazer e a alegria de Dona Lica, que sendo uma mulher sem instrução formal, assume as salas de aula com o encantamento e a sabedoria de poucos educadores; Seu Veridiano, que sentado em sua canoa, voltando de mais um dia de pesca, deu-nos uma aula de como conviver com a natureza de forma sábia, mostrando para a meninada que não é o status que faz um bom profissional e sim o amor que devota ao seu ofício. Podemos citar ainda o encantamento de Dona T ereza, única parteira viva da comunidade ao ser entrevistada pelos nossos alunos; O prazer dos alunos em pesquisar quem na comunidade nasceu de parto natural e pelas mãos de quem; As histórias das salinas partilhadas por Chico Bode e seus conselhos para que as crianças se dedicassem ao estudo e reconhecessem os esforços realizados pelos seus pais para oferecer uma oportunidade de educação; E claro, as experiências de vida e de conhecimento compartilhadas pela Mestra Dodora que levou nossas crianças a sentarem com seus familiares, vizinhos e conhecidos, buscando saber, com mais detalhes, a história da comunidade; As horas de encantamento ouvindo os causos da Griô Damiana que, até iniciar a participação na Ação, não sabia a importância de seus causos e histórias de assombração para a tradição oral. As educadoras da escola são grandes parceiras para o sucesso da Ação, juntas criamos uma lista de sugestões para nortear as atividades a serem desenvolvidas durante 2007/2008 : “Cantigas de roda, na roda da vida” para ser desenvolvido com alunos das séries iniciais, e “Cordel, arte e identidade” para ser desenvolvido com os alunos das séries finais.
A relação da escola com a Ação Griô é de parceria e encantamento, todos os educadores do turno matutino estão inseridos nas atividades. Buscamos nessas atividades reconhecer e ampliar o respeito à diversidade e identidade de cada individuo, através da interação do saber dos mestres com o conhecimento prévio de cada criança e educador, fazendo das rodas de contação de histórias, de cantigas e de vivências uma perpetuação das tradições orais.

Cais do Parto

Nosso trabalho junto às Parteiras é ancorado nos rituais que envolvem as rezas, a intuição, as simpatias, os chás, a espiritualidade. A base cultural da prática das Parteiras tradicionais é o resultado da fusão de duas culturas, a das parteiras indígenas e das parteiras negras trazidas da África. Foi necessário compreendermos que era importante incorporar à estrutura da formação do Ser na educação formal. Sentimos necessidade de primeiro conhecermos nossa própria história com o olhar de tornar público, com segurança, beleza, alegria e, finalmente juntar o antigo e o moderno. Segundo o cientista brasileiro Ubiratan D’Ambrosio, “houve uma ruptura entre a ciência e a Tradição entre os séculos XIII e XVI, há que se restabelecer o dialogo entre a ciência e a tradição para que se crie uma nova ciência. A partir de uma oficina interna com o grupo Griô no Ponto de Cultura, fizemos nossa árvore genealógica revisitando nossa ancestralidade desde às nossas bisavós até nós.
A Ação foi desenvolvida em 4 escolas, uma em Ipojuca no engenho Queluz, duas em Caruaru e uma em Serra do Vento. Nas escolas de Caruaru as Parteiras Zefinha e Birô chamaram um trio de forró pé de serra numa festa inesquecível. As professoras ficaram assustadas a princípio sem entender o que estava acontecendo com aquele grupo de pessoas entrando na escola com um forró pé de serra. Não havia mais como segurar as crianças nas salas de aula. Dirigíamo-nos para o pátio tocando e dançando e a criançada atrás gritando de alegria e dançando.
Birô é uma parteira de 69 anos de idade que iniciou seu ofício de parteira com 13 anos de idade, trabalha na roça junto com o marido e usa vestidos de saias rodadas bem coloridos. Na parede de sua casa tem uma placa “Parteira 24 horas”. É muito procurada para atender partos e para mediar conflitos familiaresm. É muito respeitada em sua comunidade.
Severina Regina é uma parteira mestra das plantas medicinais, na sua casa tem um grande terreno plantado e cultivado com ervas medicinais que ela distribui para pessoas que vão até sua casa pedir. Ela doa e orienta como utilizar. Seus pais morreram muito jovens de desnutrição. Ela e suas irmãs sobreviviam pedindo comida nas casas e ajudando nas cozinhas, não podia estudar. Para casar-se seu marido ensinou-a a escrever o nome e fez seu registro de nascimento imaginando uma idade para ela. A generosidade o acolhimento e o conhecimento das plantas foi resultado de todo o sofrimento.

Alafim Oyó

A partir das aprendizagens adquiridas a partir da Pedagogia Griô e durante o Encontro Regional foi possível dar um novo significado à prática pedagógica desenvolvida na escola Rotary. Isso trouxe mudanças na rotina das aulas, como: a organização da sala, a maneira de interagir com os alunos na troca de conhecimentos e o modo de pensar as propostas de atividades. Depois dessas transformações ficou evidente que o novo formato de aula viabilizou o aumento do nível de participação, interesse e entusiasmo dos alunos.
O papel da ação foi muito forte tanto para os alunos quanto para os professores, pois introduziu naturalmente dentro do currículo escolar músicas cantadas pelos mestres para alfabetizar os alunos. A relação com os mestres, antes da Ação, já era de muito respeito. Hoje, ao sentimento de respeito se agregou o sentimento de aprender e se alimentar deste vasto conhecimento acumulado pelos mestres.
Para fortalecer cada vez mais a parceria com a escola, abrimos o ponto aos sábados e domingos e realizamos um mutirão para matricula no curso de educação de jovens e adultos. Mestres, educadores, alunos e jovens do ponto entraram na comunidade em arrastão com o propósito de convidar os moradores a se engajar na luta de valorização do conhecimento.