Carta Carlos Kaingáng

Quando falo em público ou para os não índios, não começo falando em dificuldades. Só falo de esperança de uma vida melhor pra o meu povo. Pois as dificuldades, o meu povo vive há 508 anos. Isso aconteceu com a chegada do primeiro navio.

Ao falar do meu povo, lembro que somos diferentes na nossa cultura, nas tradições na crença e costumes sem esquecer que somos seres humanos que tem sentimentos e um coração pulsando.

Para nós, não existe mitos e lendas, tudo é verdade, nossos rituais são sagrados, nossa comida é sagrada, nossos rios, nossas matas, tudo para nós é sagrado, pois tudo isso nos foi dado pelo grande pai, o nosso Tope. Por isso que nós Kaingáng só tiramos da natureza somente o que precisamos.

Em se falar em Ação Griô que denominamos em Kanhágang Kanhró que dizer índios sábios ou sabedoria Kaingáng, isso só veio nos beneficiar e nos propiciar um grande avanço em nossos sonhos. O objetivo da Ação era trabalhar nas escolas da nossa aldeia e gravar um CD com músicas cantadas por nossos mestres do conhecimento Kaingáng para que pudéssemos resgatar, digo valorizar nossos costumes, tradições e crenças através de palestras e da gravação deste CD. Mas jamais pensamos que isso iria tão longe e tão valorizado pelo nosso povo e por outros povos também, pois no Brasil, contamos hoje com 230 povos falando 180 línguas diferentes.

Ao completar 1 ano de existência, já podemos dizer que conhecemos um pouco do Brasil por estarmos sendo chamados a falar sobre os nossos conhecimentos sobre a biodiversidade e como convivemos harmoniosamente com a nossa fauna e flora.

 

A gravação do nosso CD foi um sucesso pois seu lançamento foi feito no Memorial do Índio em Brasília DF, com a presença de várias autoridades e parentes indígenas do Brasil. Mesmo sem a capa do CD estar pronta, foi feito seu lançamento, pois temos pressa em divulgar o nosso trabalho pois já perdemos muito tempo.

Os componentes desta Ação já não são mais jovens. O mais novo está com 84 anos e o mais velho com 92 anos. Eu como griô aprendiz não sei onde tudo isso vai parar, só sei dizer que estamos sendo ouvidos pelos não Índios por nós sermos os detentores do nosso conhecimento e estarmos fazendo sucesso!

 

História do meu Mestre: Kujã Jorge Garcia

Vivo me perguntando se lhe chamo de mestre ou de pai

Por ser uma pessoa pura de alma e coração

Por ser uma pessoa sábia

Por ter conhecimentos imagináveis

Conhecimento de seu povo

Conhecimento da mata, dos rios, dos pássaros

Meu mestre é uma pessoa simples

A partir do dia em que eu o conheci minha vida começou a mudar. Mudar no sentido de ser mais humano, olhar as coisas de outra maneira com um olhar mais aguçado.

A idade do meu mestre não lhe impede de trabalhar, de viajar, de dançar. Ele já me ensinou várias coisas, coisas estas que são palavras de respeito, de dignidade e sabedoria. Onde várias vezes me agarrei em seus conhecimentos para ter um suporte em minhas caminhadas.

Disse- me ele, certo dia;  o que mais me importa hoje com essa minha idade é a minha saúde, pois agora é que comecei a viver e tenho muito trabalho a fazer depois desta ação griô, pois hoje me chamam para ensinar, para falar. Hoje me sinto gente e estou vivo ainda.

 

 

 

 

 

 

 

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