Arquivo paraMaio 5, 2008

Ritual de Apresentação, Grillo Seco

Mestres da Oralidade Serrana, Sábios Semeadores de Sonhos

 

Minha mãe se chamava Maria

Meu pai se chama Miguelão

Eu me chamo Grillo Seco

Contador de Causo seu irmão

 

            Versando esta quadrinha fui puxando pela memória, e num solavanco me lembrei como fui chegar aqui.

 

            O mais inusitado foi varar a encruzilhada e perceber que o distante estava próximo, e o próximo estava querendo se mostrar, me recordo que iniciamos utilizando os sábios da vida como inspiração. Seguimos num intento que se mostrou como missão: semear sonhos e revelar facetas da ancestralidade do povo serrano. Hoje em nosso trecho ainda estamos em construção.

 

            O pouco que se fez serviu-nos de lição… Gostaria de relatar e causiar, o que meus olhos viram e o coração sentiu… No caminho do aprendizado não posso esquecer aquele que está do meu lado nesta missão, o assistente geral Testa de Lampião, que serve de comparsa na construção dessa Ação.

 

            Junto aprendemos referenciar a Sábia Mandraqueira Maria Inês, que nos ensinou que o segredo da vida está em viver e nunca deixar-se esmorecer. Mas foi a Dulce Véia que nos ensinou esta lição: o oral também é escrito, e que o sonho versado fica bonito! Das tristezas das alegrias e dos acontecimentos Dulce Véia faz versos e poesia em formas décimas. (são versos tipo cordel).

 

            Tio Miga, não precisa nem falar… Ele é meu pai e na vida me ensinou a lutar e a mim e o Testa muitos causos a contar.

 

            Com o seu Zélio, aprendemos a amar a tradição de laçar, e de um bom carreteiro apreciar, mas foi com a Dona Gorete que aprendemos a dançar, xote e vanerão.

 

            Na escola Visconde de Cairu que juntos em cortejo chegamos, as portas estavam abertas, os corações desconfiados, a solução foi recorrer ao Grão de Luz e Griô, que nos inspirou a resignificar a pedagogia Griô, em pedagogia da cooperação e do amor.

 

            Foi num encontro da terra que reafirmamos os nossos compromissos, de aprendiz, de mestre, de griô no qual é preciso encantar para os sonhos aflorar.

 

            Vivendo o sonho com os alunos, professores e comunidade, pretendemos dialogar, pensando em oferecer antes de receber, conceituamos a nossa ação em: Falar, Fazer e Viver, onde cada idade é atendida conforme solicitação, nada é deixada de lado, assim juntamos o nosso grão ao grão de Lençóis na intenção de afirmar uma rede de transmissão da cultura popular.

 

            Com benção de São João Maria, nosso andante milagreiro, quero agora encerrar, tenho muito a fazer e mais nada a falar.

 

 

Carta Carlos Kaingáng

Quando falo em público ou para os não índios, não começo falando em dificuldades. Só falo de esperança de uma vida melhor pra o meu povo. Pois as dificuldades, o meu povo vive há 508 anos. Isso aconteceu com a chegada do primeiro navio.

Ao falar do meu povo, lembro que somos diferentes na nossa cultura, nas tradições na crença e costumes sem esquecer que somos seres humanos que tem sentimentos e um coração pulsando.

Para nós, não existe mitos e lendas, tudo é verdade, nossos rituais são sagrados, nossa comida é sagrada, nossos rios, nossas matas, tudo para nós é sagrado, pois tudo isso nos foi dado pelo grande pai, o nosso Tope. Por isso que nós Kaingáng só tiramos da natureza somente o que precisamos.

Em se falar em Ação Griô que denominamos em Kanhágang Kanhró que dizer índios sábios ou sabedoria Kaingáng, isso só veio nos beneficiar e nos propiciar um grande avanço em nossos sonhos. O objetivo da Ação era trabalhar nas escolas da nossa aldeia e gravar um CD com músicas cantadas por nossos mestres do conhecimento Kaingáng para que pudéssemos resgatar, digo valorizar nossos costumes, tradições e crenças através de palestras e da gravação deste CD. Mas jamais pensamos que isso iria tão longe e tão valorizado pelo nosso povo e por outros povos também, pois no Brasil, contamos hoje com 230 povos falando 180 línguas diferentes.

Ao completar 1 ano de existência, já podemos dizer que conhecemos um pouco do Brasil por estarmos sendo chamados a falar sobre os nossos conhecimentos sobre a biodiversidade e como convivemos harmoniosamente com a nossa fauna e flora.

 

A gravação do nosso CD foi um sucesso pois seu lançamento foi feito no Memorial do Índio em Brasília DF, com a presença de várias autoridades e parentes indígenas do Brasil. Mesmo sem a capa do CD estar pronta, foi feito seu lançamento, pois temos pressa em divulgar o nosso trabalho pois já perdemos muito tempo.

Os componentes desta Ação já não são mais jovens. O mais novo está com 84 anos e o mais velho com 92 anos. Eu como griô aprendiz não sei onde tudo isso vai parar, só sei dizer que estamos sendo ouvidos pelos não Índios por nós sermos os detentores do nosso conhecimento e estarmos fazendo sucesso!

 

História do meu Mestre: Kujã Jorge Garcia

Vivo me perguntando se lhe chamo de mestre ou de pai

Por ser uma pessoa pura de alma e coração

Por ser uma pessoa sábia

Por ter conhecimentos imagináveis

Conhecimento de seu povo

Conhecimento da mata, dos rios, dos pássaros

Meu mestre é uma pessoa simples

A partir do dia em que eu o conheci minha vida começou a mudar. Mudar no sentido de ser mais humano, olhar as coisas de outra maneira com um olhar mais aguçado.

A idade do meu mestre não lhe impede de trabalhar, de viajar, de dançar. Ele já me ensinou várias coisas, coisas estas que são palavras de respeito, de dignidade e sabedoria. Onde várias vezes me agarrei em seus conhecimentos para ter um suporte em minhas caminhadas.

Disse- me ele, certo dia;  o que mais me importa hoje com essa minha idade é a minha saúde, pois agora é que comecei a viver e tenho muito trabalho a fazer depois desta ação griô, pois hoje me chamam para ensinar, para falar. Hoje me sinto gente e estou vivo ainda.

 

 

 

 

 

 

 

Hino da nossa Caminhada, Regional da Terra

Resultado da Caminhada da Colheita da Regional da Terra

 

Carta a todas as Regionais da Ação Griô Nacional

 

CAMINHADA DA COLHEITA DA REGIONAL DA TERRA.

 

Hîg mã nó ati cha empã ta kotinkâ

 

Uma das primeiras coisas que gostaríamos de socializar com todas as regionais é a construção coletiva do hino da nossa caminhada:

 

Eu caminhei no caminho da colheita (bis) REFRÃO

 

É o Caiçaras no caminho da colheita (bis)

REFRÃO

 

Tem Chibarro no caminho da colheita(bis)

REFRÃO

 

Maria Mulher no caminho da colheita(bis)

REFRÃO

 

Tô De Olho na Cultura brasileira(bis)

REFRÃO

 

Anima Bonecos teatrando na colheita (bis)

REFRÃO

 

Bola de Meia vem brincando na colheita (bis)

REFRÃO

 

Amorim Rima vem jogando capoeira (bis)

REFRÃO

 

Kanhgág Jãre no caminho da colheita (bis)

REFRÃO

 

Caminho das Tropas vem trilhando a colheita (bis)

REFRÃO

 

Tem a Téia registrando a colheita (bis)

REFRÃO

 

E tem a Fátima amadrinhando a colheita (bis)

REFRÃO

 

E a mistura da cultura se estreita

Colhendo enfim os frutos da colheita (bis)

REFRÃO

 

O que é que a colheita tem?

O que é que a colheita tem?

Tem som de viola, tem

Tem história como ninguém

Tem suor, tem trabalho, tem

Tem gente escrevendo, tem

Tem boneco animado, tem

Tomando chimarrão também

E até índio xokleng tem

Tem gente que fala, tem

Tem gente que escuta, tem

As dúvidas que a gente tem

A gente aprende também

Tem muito saber e não-saber também

O hotel intolerância tem

Tem gente que não dança bem

Uma roda que vai e vem

Tem muitos resultados, tem

E tem trocas também

Tem erva medicinal também

E som de maracá, tem

Tem barreira na escola, tem

Resistência também vem

Sofrimento, às vezes, tem

E dor nas costas também

E idéias como ninguém

E vontade de acertar também

Tem computador que não funciona bem

E internet que nunca vem

Tem monges no caminho, tem

E mestres também tem

Aprendizes como ninguém

Tem rabeca que fala também

E gente que não bate bem

Boneco flautista tem

Tem loucura como ninguém

Força de equipe também

E samba também tem

Na grande esperança que nos vem

E nós levamos esse trem.