Ponto de Cultura Maria Mulher, através de Nice.

 É estranho me ver numa outra terra mas ao mesmo tempo, em meu país , ver, ouvir, contar histórias de uma cultura  que parece única mas que é permeada de diferenças, tão sutis que quase nos levam  a uma outra dimensão.

É a mesma terra que nos aproxima com verdades e realidades tão diferentes onde nossas  histórias se entrelaçam e se confundem na construção deste pais continental. Saber que o contador de causos de Lajes pode ser o mesmo personagem que eu encontro lá na avenida Tronco como Mãe Maria que em sua  doçura fala dos tempos da escravidão e também fala de esperança e fé que movimentou cada uma de nós, mulheres negras, sábias, amigas, mães, vó, filhas num tear de papéis não escolhidos mas necessários a nossa sobrevivência.

Fé no homem que busca na natureza das ervas medicinais, o mesmo chá que irá minorar as dores de quem está  em Ronda Alta ou na periferia de Alvorada ou em Cananéia .

 

Que magia é esta que nos faz retroceder no tempo e buscar junto aos nossos ancestrais saberes e conhecimentos  que a modernidade nos fez esquecer? Bendito Griô, que chega como um novo arauto, anunciando e contando a nossa história de geração a geração, nos propondo uma integração do ontem e do hoje, o reconhecimento de nossos mestres que tão generosamente compartilham seus saberes.

Bendita ação griô que me permite esta viajem ao passado onde minhas raízes mais primitivas me trazem a memória as práticas do benzimento, da cantiga que acalanta, do reconhecer a tormenta no céu e faz pedir a Santa Bárbara que abrande estes ventos.

Estar aqui trocando, produzindo, conversando e vivendo me faz desabrochar  o que de mais caro existe em mim, o amor ao próximo e a ternura pela vida abençoada que me é oportunizada.

 

O Ponto…

 

O Ponto está localizado na região Cruzeiro, em Porto Alegre. Esta região conta com uma grande população de afro-descendentes. Maria Mulher desenvolve suas atividades há mais de dez anos neste local. E sua missão é trabalhar junto a mulheres negras, vítimas de violência, discriminação e exclusão social.

 

A ação griô vem somar nesta missão ao resgatar a nossa historia da oralidade através da implantação da ação griô, no ano de 2007.

Como não poderia deixar de ser, foi buscar os mestres, griôs e aprendiz de griô neste universo feminino onde as questões de gênero, etnia e inclusão são ícones de luta.

 

Estamos satisfeitos com a grio aprendiz que assume o papel de agente mediador entre mestres, griôs, escolas e educadores, educandos, e comunidade.

 

Este papel assumido vem resgatar os saberes históricos locais da comunidade negra e também da transformação ocorrida através dos tempos.

 

Dialogar com os diferentes saberes é também uma forma de inclusão, promover a integração do passado e do presente, do jovens e da criança, do adulto e do idoso, realizando ponte com a escola que tem no ensino formal os princípios educacionais faz com que os desafios sejam maiores. Sabemos que podemos ampliar nossa caminhada, também sabemos que nossa griô aprendiz precisará constantemente da presença de todos que se engajaram nesta ação.

A transformação se percebe quando visitamos as escolas parceiras e através de seus diretores e professores percebemos o encantamento e a magia que a pedagogia griô vem acrescentar aos saberes.

Esta aproximação também oportuniza o estreitamento das relações entre a escola, comunidade e instituições. A caminhada acontece através do diálogo permanente entre os atores envolvidos e cada ação é pensada e planejada com a presença do representante da escola que auxília com ponderações que irão tornar mais efetiva a ação do grio aprendiz, do mestre e também o educador da sala de aula que aponte a sua vivência e história de vida com esses alunos.

Há avanços, ás vezes resistências que vão sendo mediadas e trabalhadas durante o processo desenvolvido.

As reflexões advindas destes encontros promovem o fortalecimento das ações e consequentemente os avanços necessários.

Nossa equipe através de uma proposta coerente com cada escola parceira, propõe a ruptura com os saberes convencionais que não sustentam os desafios propostos. Aproximar os saberes, esta é a intencionalidade que acompanha a cada dia nossa ação grio.

Nossas mestras griôs, griô aprendiz, educadores e educandos vêm mostrar a todos a importância desta proximidade.

 

Nos fortalecemos a cada dia que passa e sentimos necessidade de continuar nossa ação griô e paralelamente ser agente impulsionador na promoção da sustentabilidade do ponto de cultura.

 

Estamos registrando nosso encontro graficamente e com fotos que ao serem revisitadas nos mostram o quanto é importante manter a memória de nossa gente, sejam eles todos griôs e que Deus continue nos inspirando nesse saber que vem valorizar outra forma de contar e preservar a nossa historia.

 

A motivação é continua, pois ela se alimenta das novas ações executadas e aquelas que irão transformar o nosso futuro.

A nossa construção com a comunidade escolar é um investimento prazeiroso, cujos frutos passam agora a esperar a colheita promissora.

 

Vamos consolidando nossas ações, sem perder de vista as peculiaridades de cada um dos envolvidos. Esta disposição das equipes diretivas das escolas parceiras nos motiva enquanto Ponto de Cultura Maria Mulher e Ação Griô e todos os seus componentes.

 

O desenvolvimento de nossa prática pedagógica onde a oralidade é nosso principal instrumento, nos permite dar um novo colorido a saberes já visitados, que se revestem de magia e encantamento através do som.

 

A valorização nesta descoberta dos saberes tão melancolicamente abandonados na memória, adquire um novo encantamento e seus autores (nossos mestres) descobrem um novo empoderamento onde a magia do ser é mostrado em toda a sua punjança.

E nossas mestras tornam-se protagonistas das histórias e também de suas cidadanias.

Esta visita ao passado com o compromisso de uma troca entre os saberes formais e não formais, resultando assim numa nova prática educativa com outros significados que até então passavam desapercebidos em nosso cotidiano.

 

É lançado um novo olhar para dentro de si e a reavaliação é inevitável, permitindo vir a tona o que cada um tem de melhor e conseguiu reencontrar nessa caminhada.

 

Na caminhada griô é inevitável a transformação de cada indivíduo, sendo tocado e envolvido pelo reencontro com suas origens que possam por ventura se encontrarem adormecidas.

A sabedoria de nossas ancestrais conjugadas com novos jeitos de contar histórias e estórias resgata o prazer de ser ator e autor de nossa própria história

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 Comentário »

  1. Cada vez me encanto em participar desta Ação que transforma vidas, num sentido único de aproximação, irmanação, integração, fazendo-nos irmãos, sentindo as alegrias e as dores que nos são tão familiares. Posso afirmar que as referências pedagógicas de nossa escola aberta se enriqueceram com um brilho muito especial quando abrimo-nos para a chegada das mestres griôs vindas de Maria Mulher.
    Adorei o texto, impregnado de um sentimento capaz de sensibilizar o coração e nos fazer refletir sobre a nossa responsabilidade na participação da Ação Griô no ambiente escolar. Abraço a todas. Marlene


{ RSS feed para comentários neste post} · { URI do TrackBack }

Deixe um comentário