Como coordenador do projeto Anima Xokleng acredito que o griô aprendiz assume o seu lugar por ser do mesmo povo e saber dos interesses incomuns, além de ser educadores mestre na língua materna.
A sua relação com os griôs e mestres é muito boa, porém com a escola ainda se tem tido algumas dificuldades.
O griô aprendiz é uma referência para o povo Xokleng e a maioria dos educadores da escola reconhecem o seu valor e dedicação, pois a maioria dos professores sendo indígenas , percebem todo seu esforço em conquistar sua formação acadêmica e seu importante papel na preservação da sua língua materna e os costumes de seu povo…
Os conhecimentos tradicionais do povo indígena já faziam parte da grade curricular da escola, isto é, já vinham trabalhando nesta linha de atividade e o trabalho dos griôs veio para complementar, aliás, para reforçar o que já vínhamos fazendo.
Neste caso, o griô aprendiz tem grande importância na defesa social-política-pedagógica de sua cultura, sua língua materna, sua ancestralidade. Sinto que falta ainda do griô aprendiz reconstruir os rituais, o encanto, as vestes.
Em relação a isto, do ponto de vista de fora, acredito que ainda falta a sacralização dos conhecimentos orais propostos devido a vários fatores como: interferência religiosa, ritos esquecidos ou deixados de lado…
Acredito que o griô aprendiz sabe da importância de incorporar a missão desta ação na escola parceira porque ele é o principal elo de ligação entre as partes envolvidas neste processo: mestres anciãos, a escola-ponto e sua comunidade.
Posso dizer que vejo coerência no projeto apresentado para o edital e com a prática na escola e na comunidade, porém sempre teremos novos desafios a serem superados.
O projeto está sendo desenvolvido dentro da escola ,com alunos do ensino Básico, temos encontrado na prática algumas dificuldades com relação a interação da cultura tradicional com o sistema formal de ensino, bem como na operacionalização interna e externa da escola por isso se sente a necessidade de fortalecer a ação também com a comunidade.
A equipe da ação griô vem sistematizando através de avaliação conjunta com Griôs ,escola, lideranças e o Ponto para descobrir outras novas formas de aplicá-la, ultrapassando assim os muros da escola, porque entendemos que a aprendizagem acontece em todos os lugares .
Como coordenador do projeto ,tenho socializado o maior numero de informações possíveis com as demais pessoas do ponto, para garantir um melhor desenvolvimento,apoio e esclarecimentos da Ação.
Creio que estamos todos aprendendo juntos durante este processo de auto-conhecimentos, tivemos e vamos ter muitas conquistas valorosas e inesperadas. Porém não podemos negar que no caminho foram surgindo dúvidas e dificuldades,com relação a aplicação da pedagogia, os deveres e o lugar de cada um na ação. Como exemplo em alguns momentos o próprio coordenador do projeto viu a necessidade de também assumir uma postura de griô aprendiz, com atividades dentro da escola principalmente e na relação com os mestres ,griôs,lideranças e comunidade. O importante é estarmos abertos as críticas construtivas e dispostos a aprendermos e qualificando ainda mais, juntos a pedagogia ideal p/ cada realidade.
O ponto reconhece a missão da ação, pois crê ser de grande importância e valor étnico-sócio-político-cultural, para que não se percam as conexões com as origens ancestrais em todos os aspectos de nossas vidas.
O Ponto de Cultura dispõe de uma boa infra-estrutura para as inúmeras atividades que realiza no Ponto. mas a pesar disto consideramos insuficiente os nossos equipamentos para atender com mais qualificação as ações na Terra indígena ,devido a distância e principalmente as dificuldades de comunicação(Não tem internet, apenas um telefone celular c/ a Direção de escola).
O projeto Anima Xokleng da Ação Griô potencializa a relação religiosa e étnico-cultural no Ponto através da troca de experiências que os espetáculos de Teatro de bonecos e em encontros de intercâmbios ,porém não da maneira como o ponto gostaria , pois temos grande dificuldades devido a não previsão orçamentária da ação griô para com os Pontos .Principalmente para as ações em reservas e comunidades indígenas distantes.
A escola tem grande potencial para ampliar ainda mais a disponibilidade de tempo e comprometimento com as atividades do projeto da Ação griô, os educadores passaram a potencializar a convivência religiosa e étnico cultural junto dos alunos, através das palestras ministradas pelos mestres e griôs.
Existe um respeito e um diálogo entre a escola e,educadores e griôs , porém tem potencial para melhorarmos ainda mais estas relações afetivamente..
A escola reconhece a missão da Ação pois os conhecimentos tradicionais ,língua e arte indígena já fazem parte do projeto pedagógico da escola, tendo consciência da importância e da valorização da memória do povo Laklanò, mas é importante contagiarmos também a comunidade como um todo.
A ação griô reconhece e valoriza todos os professores da escola,mas como já foi questionado pela escola a Ação não prevê nem um tipo de reconhecimento ou valorização financeira para a escola e seus educadores por que entende que eles já recebem como professores e a ação deve ser vista como um suporte e apoio para qualificação do ensino público indígena.
Os Griôs e mestres tem sentido a necessidade de aos poucos ampliarem suas ações no sentido de se emanciparem , e ter um maior empoderamento de seus anseios , para isto estão se organizando em uma associação, para poderem realizar outros projetos de sua própria autorias junto ao povo Laklano.
Posso dizer que a comunidade indígena passou a produzir e a valorizar ainda mais a sua cultura, sentido até a necessidade de construir um espaço (Oca) para produzir , expor e vender seu artesanato para visitantes da aldeia. Aumentando assim renda familiar ,sem ter que sair a perambular pelas cidades vizinhas, esmolando a sua valoroza arte.
A ação griô trouxe o reconhecimento dos mestres anciãos fazendo-os perceber a grande importância dos seus conhecimentos e a vontade de compartilhá-los com os mais jovens e a sua comunidade em geral, para assim garantir um futuro e uma qualidade de vida melhor dentro da Terra Indígena.
Um projeto como este só vem a qualificar a formação dos educadores ,fortalecendo seus vínculos e afetividades com seus alunos e a comunidade. Como a Ação Griô é recente e inovadora ainda não podemos mensurar nível de auto reconhecimentos possíveis de se conquistar.
Os estudantes tem aprendido muito, principalmente a reconhecer e valorizar sua cultura ,seu o lugar e o respeito aos mestres anciãos. O griô aprendiz acredita que em todos os sentidos a recuperação dos costumes tradicionais é relevante para fortalecimento da identidade como Povo indígena .
Trabalhar com a ação Griô,como represente do Ponto e coordenador da ação na Terra indígena me encantou, trazendo-me o reconhecemos de minhas próprias raízes étnica culturais, indígena-negra-européia,esta mistura que nos faz sentir Brasileiro e sua grande importância para fortalecimento e desenvolvimento da autoconsciência humana.
“É possível que em conjunto com os griôs e Mestres Anciãos nos transmitirmos os conhecimentos tradicionais para os jovens e a comunidade desta Terra Indígena .Porque acredito que em todos os sentidos a recuperação dos nossos costumes é relevante para o fortalecimento de nossa identidade como povo. Porque ao longo da história de contato com a sociedade não índia, foram deixados os costumes tradicionais de lado e o povo está consciente para recuperar” . Nanblá Grakam – Griô Aprendiz
“Vei-tcha Uvanheccu Teie- 73 anos é mais conhecido na comunidade indígena como Veitcha – mestre da tradição oral – ele me contou que na época do dilúvio tinha um esperitista (xamã) que conversava com o espírito da palmeira, aí quando as águas começaram a subir ele pediu para o espírito da palmeira abaixasse, então ele subui com seus parentes na copa da palmeira e ela foi levantando na medida que as águas foram subindo, e eles ficaram lá em cima esperando as águas abaixarem – pra eles saberem quando podia descer, eles jogavam o coco lá de cima, esperando ouvir o barulho… glub, glub, as águas não tinha baixado, “ploc” barulho que caiu no chão, quando as águas baixaram, o espiritista disse a palmeira para novamente descer. Aí como eles eram todos parentes, pintou símbolos nos rostos de seus parentes que os diferenciavam e através deles poderiam ou não se casarem.
Histórico do Ponto
Eu vim do Rio Grande do Sul para Santa Catarina em 2005 aceitando a proposta do meu amigo Willian para criamos o Centro de Pesquisa e de Produção de Teatro de Animação – CPTA.
O ponto de cultura surgiu através da união de 2 cias de Teatro de Bonecos a Nazareno Bonecos e Cia dos Bonecos, hoje chamada Trip Teatro de Animação, com um primeiro objetivo de juntarmos as nossas forças para podermos ter um teatro próprio com ateliê , biblioteca pra podermos pesquisar, produzir e apresentar os nossos espetáculos.
História de Vida do Mestre do Nazareno
Vivência relatada pelo Griô Antônio Cuzung Copacan nas primeiras palestras com jovens da escola indígena, ressaltando a importância da preservação da cultura de seu povo e como foi o seu despertar para o reconhecimento de sua ancestralidade.
Copacan, 68 anos de vida, conhecido em seu meio pelo nome “Ka”, sendo grande conhecedor das histórias de seu povo. Ele com sua família já moram na cidade ,mas voltaram por que queriam criar seus filhos ao modo da cultura indígena.
Despertar
Nesta ocasião ele estava morando e trabalhando na reserva indígena Laklanõ tirando madeira do mato para alguma empresa. Sua esposa frequentemente lhe pedia para ele trazer madeira para fazer arco e flecha.
Ele meio contra vontade ia trazendo. Dona Ioco de vez em quando lhe mostrava a produção e pedia sua opinião se estava bonito e tal. Seu Copacan falava que sim que estava bonito …mas em seu íntimo não dava muita importância e valor aquele trabalho artesanal.
Certo dia Dona Iocô já tinha feito bastante flechas , quando começou a passar alguns ônibus escolares na frente de sua casa indo em direção a outra Aldeia da reserva.
Então ela chamou Copacan para ir com ela vender os artesanatos. Então Copacan desconversou , dizendo que não estava bem ,que estava indisposto, aproveitando que já estava deitado em sua cama.
Dona Iocô então chamou as crianças pegou seu precioso artesanato e foi para a estrada ..o ônibus parou e eles foram para o local da visita. Enquanto isso seu Copacan ficou em casa pensando ….”quando ela chegar vai brigar comigo”.No fim da tarde os ônibus começaram a retornar ,quando um deles parou e desceu Dona Iocô e as Crianças todos carregados com sacolas de alimentos nas duas mãos ..foram entrando em casa contentes e chamando por Copacan para ver tudo o que haviam ganhado.
Seu Copacan saiu do quarto um pouco disfarçado, meio sem jeito, olhando todas as sacolas de alimentos e logo percebeu que não havia mais nenhum fardo de flechas ….mas não quis perguntar nada de vergonha e medo de levar um chingão da esposa .
Logo em seguida Dona Iocô meteu as mãos no bolso e retirou um monte de dinheiro ,resultado da venda dos arcos e flechas….dinheiro superior a mais de três meses de seu trabalho no mato e sem fazer força bruta. A partir deste dia ele em seu íntimo prometeu nunca mais desvalorizar a sua cultura e passou a ajudar sua esposa por entender a riqueza que eles tem em suas mãos.