Vander, De Olho na Cultura, Alvorada
Ação Griô ajuda assumir meu direito de ser homem e não deixar de ser sensível….
O Mestre Griô é a raiz… Eu sou o PONTO…De Encontros…
Meu chapéu veio da América Central, é uma palha feita por mãos mágicas de mulheres de um país chamado Panamá, meus sapatos ganhei de um palhacinho (Marcucos) que fazia muitas pessoas rirem para elas nunca ficarem tristes. Minha calça eu ganhei de uma mulher que andou viajando muito pelo mundo e tem um olhar mágico sobre as coisas. (Márcia de Paula)
Quando desci, na parada quarenta e oito de minha cidade um músico me deu um Pandeiro e carrego comigo até hoje
Tenho maracás que os índios Xokleins de Santa Catarina fizeram… e embelezam as mãos das pessoas que tocam nelas… por isso, também estão comigo…
Minhas cantorias aprendo com vários Mestres e Griôs… o principal deles é o Velho Grio Márcio Caires lá de longe na Bahia… cidadezinha chamada Lençóis. Minhas palavras aprendo a torná-las mágicas e lindas com Meu Mestre Tio Neno, que me acompanha e me dá a força da minha rima e de minhas brincadeiras…Minha alegria vem de meu Pai…
Através do vínculo forte que se perpetúa com o tempo de vivência, principalmente entre o Griô Aprendiz e o Mestre Tio Neno, surgiu a essência que mudou o ar da nossa caminhada. Então, a chegada do Griô Aprendiz nas escolas surgiu junto às turmas de alunos e professores.
Ver, cantar, ouvir, sonhar
Matraca-samba pra argentinos-biju – pode ter sido o meu primeiro ouvido musical…
Acontece ao reencontrar as árvores, as plantas, “re semear”
a semente nas vivências com o mundo das escolas de minha caminhada. Minha imagem renasce quando, enfrentamos a construção, na gente, como Griô Aprendiz, uma figura mais mitológica de educador.
Assim é instigante para a gente quando encontramos nossas roupas, nos preocupamos com a construção desse encontro e reencontro com os estudantes e professores das escolas.
As vestimentas, os símbolos desabrocham:
Eles já estavam presentes em minha vida…Como presentes que já havia ganhado. É como me rebusco de uma caminhada que só a Pedagogia Griô nos faz ver e rever como vem acontecendo… Esses símbolos vêm dali, de dentro de minha casa, dos meus amigos, dos meus mestres e vão tomando o lugar onde me organizo, já dentro de minha casa, por já estarem, essas marcas, dentro de meu ser. Minha mala, meus sapatos, camisas, colares, enfeites, brinquedos e todo um Universo de pertences que falam em meu corpo, engrandecem e embelezam minha presença diante dos ambientes escolares que atuo. As crianças e jovens ao tocá-los se comunicam comigo e o diálogo plural de nossos encontros se manifesta em beleza singela e poesia pura… Meus Mestre Tio Neno é uma âncora, que sustenta o que sou, nesses momentos.
Quando levei minha nova maneira de entrar na escola tive minhas inseguranças. quando eu usei essas roupas, levei todos os escudos comigo, para minha caminhada da escola: minha família, meu mestre….o meu momento de insegurança vivido com meus alunos e com aqueles que já não estranham quando me emociono diante do fazer poético da ação no contato com as crianças.
Esses elementos, partes de nosso ser, são nossos “Pés no Chão”. Os Mestres, as Escolas, professores e alunos são os pomares, plantações…Como reclamar das árovores?
As escolas nos falam pouco de assunção, de sensibilidade, emoção, abstração, divagação, declaração de amor. Nós avançamos em direção a esses prédios com nossa bagagem carregada exatamente dessas coisas que não estão no diálogo das escolas.
Nossa maneira de se relacionar, seja com professores, ou com alunos foi ficando assim:
Sempre o Griô Aprendiz envolve e distensiona os nossos recepcionados. Ele cria um ambiente, uma atmosfera lúdica e atraente. Depois o Mestre Tio Neno toma conta da sustentação desse ambiente, mediado por seu Aprendiz.
Encontramos a Rudeza diariamente em nossa caminhada. Em Alvorada e na região em que trabalhamos a Ação Griô, nas situações que se apresentam a nossa frente, é como uma batalha de David contra Golias. O lugar quer dizer que não se permite a gentileza, singeleza e outras maneiras de manifestar nossa sensibilidade, mas nós, antes de tudo gente humana, nos comunicamos e nos tornamos mais plenos e intensos quando assumimos esses elementos em nossa convivência na relação com as crianças.
PROSPERAMOS
No contato direto com as crianças nos renovamos… Quando cada uma das vozinhas que nos reconhecem chamam nosso nome e envolvem-se com a gente percebemos nosso ser receber mais um tijolinho que reforça nossa construção. As crianças cantam tanto e com tanta vida que em meio ao trabalho nos arrepiamos com um arrepio que chega a arder na pele, de tanto prazer de viver aqueles momentos tão marcantes e ao mesmo tempo tão efêmeros. Nesses instantes os sentimentos nos afirmam que jamais esqueceremos e as crianças também, de nossos encontros…
É onde reside a continuidade da Ação Pedagógica Griô, para além das instituições financiadoras… Está na atitude, no desejo que temos de ali estar e mostrar com nosso corpo antigas maneiras de aprender e vivenciar nossa brasilidade.
É fantástico quando entramos pela primeira vez em uma turma, principalmente de oitavas séries, ou ensino médio. Os jovens nos vêem como loucos que acabarão fazendo o mesmo marasmo monológico de que já estão enjoados. Vamos produzindo ludicidade e eles vão se envolvendo. Vêm com toda a força sua participação. O Griô Aprendiz, nesse meio trabalha orquestrando aquela euforia que os jovens manifestam de estarem felizes e intensos na troca… Uma espécie de maestria que se fortifica com a resposta dos estudantes às propostas e vivências que criamos juntos. Quando os jovens percebem, já os surpreendemos e eles já estão querendo saber quando voltaremos. Esse é o melhor termômetro. Da força dos jovens emana nossa continuidade e o ECO de nossa ancestralidade nos conduz, para além da RUDEZA dos lugares onde atuamos. Esse lugares são lindos porque tem gente lá
GENTE É PRA BRILHAR…
NÃO PRA MORRER DE FOME.
“Me digas com quem tu andas,que te direi quem és”
(ditado popular)
Em casa ouço as histórias de minha mãe, as músicas que meus amigos da Ação Griô e outros Griôs do meu mundo me dão para que eu possa aprender a gostar delas, aprender com elas e levá-las dos anonimatos de onde as encontrei até os mundos da escola. Toda minha educação de agora em diante é medida muito mais pelo OUVIR…Desse ouvir meus Mestres Griôs renovo minha sensibilidade…
Em São Leopoldo na Escola Olimpio Viana Albrecht… vivemos um momento no qual, percebi que estou em um crescendo de amor:
Propusemos apresentação de nossa dinâmica de trabalho aos meus colegas professores, exatamente em um dia em que foram discutidos temas polêmicos para os encaminhamentos da eleição da Escola… a proposta foi do Griô Aprendiz, eu não podia adiar… Quando chegamos no refeitório já senti na pele um ambiente hostil, uma atmosfera de decisões e encaminhamentos muito objetivos. Então pedi para que pudéssemos fazer nosso trabalho na sala de vídeo… Pedimos meia hora. Fui lá, preparei a sala para termos todos os mais de sessenta professores sentados de bem com o ambiente que proporíamos… Na maneira como os colegas entraram percebi que estavam muito cansados e saturados das discussões da reuniões. Prontos para não agüentarem física e emocionalmente nenhuma atividade racional e objetiva… Entretanto, percebi que o grupo de educadores não se abria ao que conversávamos sobre a Pedagogia Griô. Resolvi cantar com meus colegas e não foi uma tarefa muito fácil… Em determinado momento se desligaram do passado recente e sintonizaram-se com o passado mais ancestral que todos temos, através da cantoria de Senhor, Senhor! Terno de Reis recolhido dos mestres pelo Ponto de Cultura Bola de Meia de São Paulo. Logo após, liberei meu espaço para o Mestre Tio Neno…Todos os colegas não conseguiam ir embora mesmo quando acabou o horário da reunião de tanto envolvimento que criamos com eles, nessa conversa com o Mestre. Tio Neno vendeu mais de quinze de seus livros e ficou encomendado mais cinco….
Quando eu ando dentro das escolas tenho o princípio de meu Mestre Tio Neno. Não trabalho nunca com a brutalidade nas conversas que estabeleço com os colegas professores. Toda minha demanda é muito nova para aquele ambiente, então me coloco nele através de minha alegria, gentileza e paciência… Assim conquisto meu espaço… ganho respeito primeiro, respeitando…
“A Ação Griô vai tomando conta de mim”
Griô Aprendiz Vander
Alvorada/RS
Todos temos um passado que se manifesta em nosso ser. A Ação Griô provoca nossa exposição como realmente somos. Na minha manifestação revejo a alegria de todos os peões de obra e de camperiada de minha família. A alegria que convivi nos ambientes masculinos em que meu pai me levava quando íamos na casa de meus avós, vem à tona quando sou lúdico… isso me lança para meus alunos, meus amigos, meus parentes, meus mestres… E no ambiente escolar, faz um bom tempo que isso não ocorre como algo que também deva ser respeitado e valorizado como uma maneira cultural de ser dos povos… Me permito a errar e acertar junto com meus alunos, nas brincadeiras com as crianças da Ação Griô e até nas dinâmicas com meus colegas professores…
Irrita a maneira como se impõe a obrigatoriedade de apenas acertarmos dentro da escola… “Errar é humano” é uma expressão de fracasso e incompetência no meio escolar, entretanto, é através da vivência da experiência com os erros que avançamos… Assim os “quebra-cabeças” e versos quebrados cumprem uma função de produzir ambientes de descontração e relaxamento dentro da sala de aula…
História de vida do Tio Neno
Nascido em Gravataí, meu Mestre Tio Neno, tem nome de Bernardino Fialho… de uma leva de quinze irmãos,Tio Neno viveu seu mundo de infância na lida dos campos de sua cidade natal… Perto das árvores, criação de animais, lavoura. Desse universo de vida o legado que resiste é a subserviência e a humildade… Suas palavras e seu olhar são um manto de gentileza simplicidade e alegria, que se traduz em dividir seu amor pela vida e tudo o mais que puder, com as pessoas…Ele é um nome respeitado na historia dos andantes da poesia popular, seja ela tradicionalista ou não, em Porto Alegre.
A Ação Griô levou esse mestre a conhecer os mais profundos rincoes de periferia de Alvorada. Gerou um envolvimento do Mestre Tio Neno com crianças muito carentes. Junto dessas crianças e jovens, o Mestre descobre todo um tipo de respeito afetivo e jovial que a sua personalidade distribui ao ambiente escolar. Os jovens adoram suas poesias. Decoram poesias, esperam ansiosos seus Acrósticos e vibram com as homenagens que Mestre Tio Neno presta a cada um dos meninos e meninas que abrem seus problemas familiares e de escola para ele…Sua chegada na escola junto de seu Griô Aprendiz é fascinante e ao mesmo tempo intrigante…Apenas o tempo vai dizer qual o tipo de respeito que vai se originar dos encontros dos Griôs com as três escolas onde atuamos…
E impactante a energia que se impõe no ambiente da roda quando o Griô Aprendiz abre o espaçoo e o disponibiliza para o trabalho do Mestre junto as crianças e adolescentes. O Mestre Tio Neno, além de instigar os jovens a se relacionar com a poesia e a contação de histórias os instruí à postura de respeito que eles tem que aprender a ter com os autores das poesias… Ele sabe muitas histórias das pessoas que escreveram as poesias que recita, quando não são as suas…
A rima pausada e paxolenta da alma gaúcha que emana do mestre faz com que os jovens, primeiramente se atenham a essa dicotomia: como se um Centro de Tradições Gauchescas (CTG) surgisse a frente deles. Ao final, quando entendem o que a poesia diz aplaudem muito, então o Mestre explica alguns significados de palavras e de seu tempo, para melhor ilustrar a historia que a poesia conta… Mas logo após já se lança a recitar poesias gauchescas humorísticas, nesse momento ganha mesmo a juventude ou as crianças e se consolida como um vovozão que todos querem ter.
Velhos Amigos
Eu tenho quase certeza
Que a melhor coisa que existe
Quando se chega à velhice
É ter família e um lar
Ver cada filho criado
Cumprindo o dever sagrado
De sempre nos aparar.
Na velhice a gente chega
A seguinte conclusão
Se vivermos em união
Vamos ter quem nos conforte
Alguém que nos estenda a mão
Deus pai, o grande patrão
Será o nosso suporte.
Mas o melhor dessa vida
Digo com sinceridade
São aquelas amizades
Que dia a dia se conquista
É tão gostoso ver alguém
Sorrindo e fazendo o bem
Este é o meu ponto de vista
Os amigos verdadeiros
Nunca no deixam sozinhos
Vão emparelhando os caminhos
Na hora da precisão
Nos sentimos amparados
Quando estão ao nosso lado
Dando apoio e proteção.
Todo o dia encontramos
Na lona estrada da vida
Buracos, lombas e descidas
Vivemos num perde e ganha
Jesus morreu na cruz
É Ele quem nos conduz
Na cidade ou na campanha.
Se você pretende entrar
No alto reino da glória
Ponha isto na memória
Que foi Cristo quem falou
Quem vive na minha amizade
Ganhará na eternidade
As bênçãos de quem me enviou.
Pensem nisto meus amigos
E sorriam todos os dias
O sorriso contagia
Nos conforta e nos acalma
E pense sinceramente:
Sorrir faz bem para a mente,
Pro coração e pra alma
Bernardino Fialho (Mestre Tio Neno)
Tio neno tem um olhar clínico – quando a gente chegou, a roda tava meio travada…Tio Neno disse assim: vou dizer uma poesia de amor:
(Quem disse que é impossível ter amor na escola tava mentindo….)
Aliança de papel [silêncio total]
(essa poesia é de Milton Souza recitada pelo Mestre Tio Neno numa manhã fria para alunos da turma 801, CAIC Mario Quintana.)
Foi só de brinquedo que eu disse que amava
Brincando disseste: te amo também
A gente brincava e jamais esperava,
Que os anjos ouvindo dissessem amém.
Em um gesto infantil e sem desconfiança
Tu confeccionaste, de simples papel
Para os nossos dedos, duas alianças
E em tom de brinquedo jurei ser fiel.
Os dias se passaram e na realidade
O que eu sinto agora é um terrível medo.
Medo de estar te amando de verdade
E sendo amado apenas de brinquedo.
Qdo acabou a poesia a sala era outro lugar, eram outros jovens… não estavam tristes, depois dessa poeta os caminhos se abriram.
Essa poesia me fez descobrir q também gosto de poesia rimada…..
Agora tô decorando uma poesia para o dia dos pais…Missão de Pai (Milton souza)
Estou atuando hoje numa escola, num lugar onde participei da organização da ocupação dos prédios…..
“Ocupações que ajudei a fazer acontecer me tornaram forte pra acreditar que Deus nos dá força pra mudar o mundo pra melhor… Hoje os lugares são bairros e onde não tinha pessoas morando temos milhares de pessoas vivendo felizes e escolas, professores e casas de comércio, praças e tudo o mais…”
Tubi Tupy
Lenine
Composição: Lenine e Carlos Rennó
Eu sou feito de restos de estrelas
Como o corvo, o carvalho e o carvão
As sementes nasceram das cinzas
De uma delas depois da explosão
Sou o índio da estrela veloz e brilhante
O que é forte como o jabuti
O de antes de agora em diante
E o distante galáxias daqui
Canibal tropical, qual o pau
Que dá nome à nação, renasci
Natural, analógico e digital
Libertado astronauta tupi
Eu sou feito do resto de estrelas
Daquelas primeiras, depois da explosão,
Sou semente nascendo das cinzas
Sou o corvo, o carvalho, o carvão
O meu nome é Tupy
Gaykuru
Meu nome é Peri
De Ceci
Eu sou neto de Caramuru
Sou Galdino, Juruna e Raoni
E no Cosmos de onde eu vim
Com a imagem do caos
Me projeto futuro sem fim
Pelo espaço num tour sideral
Minhas roupas estampam em cores
A beleza do caos atual
As misérias e mil esplendores
Do planeta de Neanderthal