Patrimônio cultural material e imaterial
A partir dos anos 70, o conceito de Patrimônio Cultural passou a incluir, além de obras arquitetônicas e artísticas de valor excepcional, formas de expressão, modos de fazer e viver, criações artísticas e tecnológicas portadoras de referência á identidade, ação e memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. Este conceito passou a fazer parte da Constituição brasileira de 1988, que estabeleceu para o poder público a obrigação de buscar novas “formas de acautelamento e proteção” desse segmento do Patrimônio Cultural Material e Imaterial. É nesse contexto, na intenção de proteger e preservar e transmitir as manifestações culturais de caráter popular, que se coloca a proposta do Instituto Beija Flor da Paz e da Cidadania, hoje, Ponto de Cultura Lampião da Arte e da Cultura da Secretaria de Programas e Projetos de Culturais do Ministério da Cultura. Propõe incrementar o Sistema de Artesanato do Barro de Cascável, Ceará, apoiar e promover o desenvolvimento cultural, humano, econômico e ambiental sustentável através das alternativas promocionais que elevem o padrão e a qualidade de vida dos cidadãos e cidadãs, artesãos e artesãs, educando a comunidade com valores humanos plantando sementes de uma Cultura de Paz e um desenvolvimento sadio, amplo e sustentável, respeitando as leis da Natureza através do aproveitamento racional de seus recursos renováveis.
Cascável – Ceará, vale da montanha Mataquirí ás várzeas do rio Choró e Malcuzinhado
A sede do município fica situada há 20 metros de altitude no pé da Montanha da Mataquirí, entre os Rios Choró e Mal Cozinhado. A existência de boas argilas e também do Caulim, que é uma argila branca muito pura, deu lugar a exploração a cerâmica artesanal pelo Povo Cascavelense, há muitos anos. Herança maior da presença indígena no Ceará, a cerâmica cozida recebeu ainda forte influência de africanos fugidos de antigas fazendas e que foram ficando nessas paragens. Tribos como Anacés, Paiacus, Genipapos, Canindés que habitavam o Rio Choró, utilizando o barro para produzir seus utensílios caseiros e até para enterrar seus mortos em urnas funerárias formadas de potes de barro. Hoje, séculos depois, o barro da várzea do Rio Choró e Mal Cuzinhado continua servindo de matéria-prima para a confecção das “loiças de barro”, produzindo tudo que o imaginário popular pode produzir com suas mãos e barro queimado, uma produção que apresenta rica manifestação e diversificação de peças decorativas e de uso doméstico. Apesar de não ter apoio efetivo da governança local e do poder público municipal e Estadual as Artesãs moradoras do Bairro do Alto Luminoso e Moita Redonda há muito abastecem a região com diversos utensílios de cerâmica. Essa artesãs, dominam saberes que são transmitidos de geração à geração há séculos. Entretanto as dificuldades de produção e comercialização, que ás coloca diante de intermediários que compram a produção a preços mínimos, revendendo-as bem mais caro nos grandes centros urbanos e a extrema pobreza em que vivem (renda per capta de R$ 50.00), trazem o risco do desaparecimento de sua arte Ancestral.
A história do Instituto Beija Flor e do Ponto de Cultura
O grande fenômeno da violência urbana que acontece hoje nas grandes cidades , principalmente nas capitais do Brasil acontece na maioria das vezes através da migração de jovens e famílias que sem perspectiva, longe de seus lares e sua comunidade de origem, se vêem diante das dificuldades e exclusão, levando-os muitas vezes a buscar a sobrevivência na prática de delitos e criminalidade, e quando mulher, facilmente na exploração sexual. Portanto é preciso que o País se volte para a valorização dos saberes desses artesãos e a artesãs que guardam o conhecimento dessas práticas ancestrais, que dão manutenção a vida saudável nas comunidades do Brasil, impedindo a migração e evitando o avanço da violência nas grandes cidades, bem como a extinção da arte ancestral e seus arranjos produtivos, responsáveis pela economia local e sobrevivência de milhares de brasileiros e brasileiras nativas das pequenas comunidades da Nação Brasileira”.
Em 1980 movidos pela necessidade de viverem em comunidade, os diretores do Instituto Beija Flor foram morar no pé da Montanha Mataquirí no Município de Cascável.
A Montanha Mataquirí com seus 180 metros de altura é um sítio notável que serve de referência aos Capongueiros (jangadeiros da Região da Praia da Caponga), para alcançarem a costa do município. É nesse cenário que se desenvolve a pelo menos 312 anos, a cultura do Sistema de Artesanato do Barro de Cascável-CE. “Naqueles anos idos, nos encontramos com a força das Artesãs e suas famílias que sobreviviam só das “loiças de barro”, e até hoje, as que restam, ainda sobrevivem em pobreza e falta de apoio e reconhecimento do seu valor, a pesar de seu arranjo produtivo ser fundamental, de grande importância na economia e sobrevivência do povo dessa região. Nesse contexto vislumbramos um dia desenvolver um trabalho que valorizasse essa cultura e a arte dessas mulheres guerreiras da Mataquirí. A partir da vivência dessa realidade, ficamos com a “Memória Presa” nessa proposta e cheios de esperança de um dia trazer uma melhora e apoio para essas artesãs”. “Até o dia que fundamos o Instituto Beija Flor da Paz e da Cidadania com um dos objetivos principais: Valorizar esse trabalho artesanal, esquecido e desvalorizado pela Governança local. “Com a valorização da diversidade cultural do nosso povo pelo Governo Federal atual, vislumbramos a luz no fim do túnel, em 2005 o Ministério da Cultura abre Edital no Programa Cultura Viva da Secretaria de Programas e Projetos Culturais para os Pontos de Cultura, dentro de uma filosofia que “os Pontos de cultura já existem”, o que precisam é de uma força “Federalizada”, e assim conseguimos o Convênio com o Minc/FNC e o Instituto Beija Flor, Ponto de Cultura com a iniciativa Lampião da Arte e da Cultura.
As atividades da iniciativa do Projeto Lampião da Arte e da Cultura são desenvolvidas através da transmissão dos saberes e práticas acumuladas há mais de 310 anos da história do Sistema do Artesanato de Barro de Cascavel-CE, pelas próprias artesãs da comunidade locai. A metodologia se desenvolve no currículo de aulas, onde o passo-a-passo é revelado todo o conhecimento dessa arte ancestral. Além das aulas no Ponto de Cultura e na Escola Pública, os alunos participam das aulas vivas na comunidade, nos ateliês (quintais) das artesãs.
A iniciativa atualmente já envolveu 30 artesãs e cerca de 80 jovens, e é acompanhado por dois educadores. O Projeto se mantém através do Convênio com o MinC/FNC e o Instituto Beija Flor da Paz e da Cidadania. O principal critério e procedimento adotado para uma pessoa participar das atividades da iniciativa do Projeto Lampião da Arte e da Cultura é a vontade de querer melhorar a vida, seus conhecimentos e desenvolver uma Arte Ancestral que gera trabalho e renda. Quanto aos jovens e crianças, precisam estar matriculados e freqüentando a escola formal, a iniciativa é desenvolvida como uma ação educativa complementar ao currículo formal da Escola Pública.
A Ação Griô Nacional
Resolvemos iniciar a Ação Griô Nacional em Cascavel, primeiro, porque nos identificarmos com a proposta e segundo, tínhamos a convicção que o reconhecimento das Mestras e Mestres seria um passo bom para a caminhada dentro da comunidade artesanal de Cascavel-CE. A iniciativa chegou no momento em que firmávamos parceria com a Escola Pública do Município e veio coroar essa parceria com a firmeza do protocolo das responsabilidades apresentadas pelas partes.
A Ação Griô Nacional, então passou a acontecer durante o período letivo na Escola Pública do Município de Cascavel-CE, e também, como uma atividade de férias nas próprias escolas. Sabemos que a iniciativa pode acontecer a qualquer período do ano e em qualquer outro lugar público que apresente as condições mínimas de transmissão dos saberes. Nesse ano de 2008 estaremos experimentando no CRAS – Centro de Referência da Assistência Social do Município. As principais necessidades para que ocorra a iniciativa são:
Os Mestres e Mestras guardiões dos saberes estarem disponíveis juntamente com os alunos, um espaço usado para sala de aula e os materiais didáticos a saber:
barro (argila da Várzea do Rio Choró) e água, sabugos de milho e sementes de Mucunã para relar a peça, cacos de cabaça e pedaços de pano para alisar, lâminas de ferro velhas usadas para cortar o barro, algodão natural para fazer os pincéis com palitos de coqueiro e a tinta Ancestral vermelha e branca, chamada de Toá, para pintar as peças com grafismo que segundo as Mestras já aprenderam com os “troncos Velhos” (os mais antigos). Após as peças feitas, vai ao forno, última etapa do trabalho, nesse momento vem o Mestre do forno para realizar o ritual do assar as peças sem deixá-las estourarem pelo excesso de fogo.
José Roberto, Griô Aprendiz do Lampião considera a pedagogia griô e a Educação Biocentrica, reveladas durante os encontros da Ação Griô pelas assessoras pedagógicas, Ruth Cavalcante e Lilian Pacheco, como uma contribuição não só teórica, mas efetiva para essa prática pedagógica da Ação, e para o seu desenvolvimento e compartilhamento
“O aprendizado do respeito aos mestres e griôs, e a forma como é
ensinada na Pedagogia Griô, é coerente com nossa prática e me
confirmou o valor desse trabalho”.
Outro aprendizado é com relação ao ritual e o sagrado que envolve
os momentos de encantamento; essa vivência do Sagrado, assim
colocado pela assessora pedagógica Ruth Cavalcante, Mestra da
Educação Biocentrica, “tem que ter começo, meio e fim”. Há
também um cuidado e uma boa preparação para que a vivência
aconteça de forma sistêmica, com dimensão universal, mas com os
elementos simples da cultura local, ou seja, tudo isso sem sair da
Simplicidade, uma forte característica dos Mestres. A vivência da benção do pilão
É mágica e reparadora, pois quando entramos em contato com os nossos “troncos velhos” renascemos para uma dimensão espiritual transcendente e em elevação, de onde podemos sintonizar com a fonte, a “Recordação” de “quem somos nós”;
A Ação Griô de Cascavel – Ce, iniciativa do Ponto de Cultura Lampião da Arte e da Cultura conseguiu reconhecer melhor os saberes e didáticas próprias juntando com outras referências aprendidas no contato com a assessoria pedagógica e/ou na caminhada do griô aprendiz nacional;
“Estamos diante do reconhecimento da universalidade da arte ancestral do barro, a Alquimia dos elementos, o ritual da água e da terra na preparação da argila, o ar e o fogo na queima das peças, o reconhecimento das forças feminina e masculina no acendimento do fogo, o conhecimento dos tipos de barro e sua mistura que vão gerar uma argila adequada pra confecção de cada peça que será levada ao forno. A didática inicia desde o princípio quando se colhe o barro na várzea do rio, e prossegue na escolha do tipo de peça a ser feita. Ao final temos o cozimento das peças, o tempo de fogo, temperatura, o caldeamento – momento mágico do encantamento das peças, que viram obras de arte. A magia da criação nas mãos hábeis e mágicas das artesãs que transformam barro em arte e cultura, agregado a isso tem o valor terapêutico, dessa prática artística revelado na tranqüilização dos pensamentos e sentimentos e no equilíbrio espiritual dessas pessoas que tem constância nesse trabalho, nessa antiga arte das pessoas que vivem e morrem ligadas ao barro e deixam o seguimento do seu trabalho”.
Aqui no Lampião da Arte e da Cultura estamos buscando a sistematização dos saberes da arte do barro que está resumida em 4 (quatro) verbos, Torá, Relá, Toá e Alisá, é a síntese dessa arte ancestral e resume todos os saberes, são os quatro verbos populares mais falados na comunidade e dá nome ao produto multimídia do Ponto de Cultura que é nosso objetivo e estamos desenvolvendo; Também temos desenvolvido uma rede de ensinos e saberes mais relacionada a prática da arte ancestral do barro. O que queremos aqui e agora com a Ação Griô, é aprimorar os “rituais” de encantamento, e sacralizar nossa ação enriquecendo as vivências dentro de uma perspectiva de visão e construção coletiva, fortalecendo nossa ação e tendo como Norte as orientações da Pedagogia Griô e Educação Biocêntrica, e a nossa própria vivência.
Finalmente, um alerta aos companheiros.
“A principal justificativa, e digo, que só por ela já se justifica tal iniciativa, é o fato de que esses saberes esquecidos, com sua simplicidade, representam o ELO quase perdido (em alguns casos já em extinção) da tradição ancestral dos saberes do povo que está se rompendo em grande escala e de forma desastrosa, pois a perca da identidade cultural dos jovens nessas pequenas comunidades onde existem esses saberes vivos, levam os jovens a busca da identidade perdida nas grandes cidades, nas “selvas de Pedra”.
As peças que foram apresentadas no ritual de apresentação da produção dos pontos fazem parte do acervo da Ação Griô e foram confeccionadas no momento de integração do Ponto com a escola parceira da Ação Griô Nacional.
O griô aprendiz concluiu a apresentação com a dança e a música do mestre Pajé chamada Acuã
Acuã foi dar um passeio
Na beirada lá do rio (bis)
Um cento de carrapato
Acuã voltou de papo vazio
Adeus Acuã eu já me vou Acuã
Sodade Acuã do meu amor (bis)
Avaliação do Encontro
Em momento mais que oportuno, no início do mês de março, deparamos – nos “derrepente” com um chamado da Ação Griô Nacional/Regional das Águas, para mais que uma avaliação e sistematização de dados técnicos, termos uma conversa franca, um diálogo amplo que iniciou – se dentro da seguinte perspectiva; Caminhada da Colheita…os dias da colheita seriam 13, 14, e 15 de março.
Ora…, bem sabemos que a colheita tem relação direta com o plantio, colhemos o que plantamos, neste axioma popular estão ás chaves da Sabedoria do bem viver e trata-se de uma lei indissociável no caminho da vida, servindo também para explicar essa ligação, a lei comum da física de Causa e Efeito. Mas, precisamos ter a Consciência clara que “o plantio é livre, mas a colheita é obrigatória”, no entanto, e a pesar dessa compreensão, ficou claro pra todos os participantes desse chamado que essa obrigatoriedade da colheita do que plantamos nesse I ENCONTRO, não significou para todos necessariamente uma rigidez no olhar, no tocar, no sentir, mas teve uma função bem importante, a de enxergar a Realidade de nossas ações,… Quem Somos Nós? De onde viemos? O que estamos fazendo? E para onde vamos?. Assim, dentro dessas examinações, o nosso pequeno/grande encontro dos Pontos das Águas do Norte e Nordeste, buscou poder dar uma contribuição, um Norte para que outros Pontos da Ação Griô Nacional venha também de forma boa, prazeirosa e criativa, “examinar sua Realidade” e corrigir os rumos necessários ao que nos propomos como Ação Griô do Programa Cultura Viva da Secretária de Programas e Projetos Culturais do Ministério da Cultura.
Aqui e Agora, cabe – nos falar de alguns elementos básicos que surgiram criativamente pra que tivéssemos sucesso em nossa empreitada. Um deles foi a pessoa do design, a mulher Téia, que chega em Fortaleza para morar e antes de chegar em sua residência, se coloca totalmente no seu lugar de profissional, demonstrando competência no que faz e auxiliando de forma boa e marcante no tocante ao material composto de texto e imagens, o design gráfico.
A Harmonia gerada no contexto total do Encontro foi proporcionado pelo clima de alegria e amizade que descobrimos e redescobrimos em vários momentos; num desses momentos das falas, a Laurinete do Maranhão, reconhece em nós uma grande família, um cuidado e uma atenção estava sendo dispensada de uns para os outros que em sua percepção era incomum, e portanto marcante no seu modo de ver. A sua gratidão a todos ficou expressa nos versos que desenvolveu junto com a Adriana Márcia do Lampião. A novidade do Encontro foi ver os jovens Luan da Oca de Alter do Chão e Rafael da Acartes do Pirambú dando suas contribuições e marcando suas presenças de forma boa e expressiva em todos os momentos.
A liberdade de expressão dos participantes creio foi o bom motivo que deixou a todos livres de medos, e instalados a vontade para expressarem suas verdades e a de sua Ação local. Aqui cabe uma pergunta, Porque essa metodologia aplicada deu certo? ..Deu certo porque houve um Norte Programático das Coordenadoras, Ruth Cavalcante e Catarina Ribeiro, mas que antes de tudo, não foi imposto como uma sentença rígida e engessada como nos moldes acadêmicos, mas foi motivo inicialmente ao Encontro, de um “Alerta Companheiros”! estamos em espaço criativo e Ritualístico e, nesse propósito temos que estar presentes no começo meio e fim, assim nos ensina a Mestra Ruth e como diz no Livro do Mestre Salomão, o Eclesiastes,”há tempo para tudo debaixo do céu, tempo para plantar e tempo para colher, tempo para rir e tempo para chorar”.. Portanto, na minha percepção, mesmo compreendendo as palavras do Mestre, o tempo foi rápido demais, caberia ficarmos mais tempo e apreciar-mos mais nossas ações em sistematização criativa e, aprender, beber mais dessa fonte inesgotável de amor, arte e sabedoria e gozarmos infinitamente do prazer que há em Comungar o Sagrado Encanto que vem se revelando na Pedagogia Griô em parceria com a Educação Biocêntrica.
Em Comunhão e Ação criativa.
Fortaleza, 17 de março do ano da graça de marte de 2008